Quarta, 20 de Junho de 2018
   
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O Que É, o Que É?

Pastoral

O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o seu nome... Todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, e para celebrar a Festa dos Tabernáculos (Zc 14.9,16).

Nos primeiros séculos da história da igreja cristã, a maioria dos teólogos e pastores acreditava que Cristo, após sua ascensão, reinava supremo no trono celeste, tendo toda a autoridade no céu e na Terra. Isso, porém, não impedia que cressem no ensino bíblico de que esse reino invisível um dia invadiria a história e se tornaria concreto e palpável, com Cristo pessoalmente governando o mundo a partir da Jerusalém restaurada. Textos como a supracitada profecia de Zacarias supriam sólidos fundamentos para essa doutrina e, ao que parece, ninguém ou pouca gente a questionava.

Ocorreu, porém, que, com a “conversão” (entre aspas, por razões óbvias) do imperador Constantino, surgiu o que ficou conhecido como a Teologia Oficial, segundo a qual as expectativas de um reino de Deus histórico, terreno, concreto, político e universal se cumpriam, de certa forma, no governo do imperador. Ao que parece, um dos idealizadores mais conhecidos dessa concepção foi o historiador cristão Eusébio de Cesareia. Poucas décadas depois, porém, essas noções foram vastamente popularizadas e defendidas por Santo Agostinho que, ao construir uma filosofia cristã da história, viu na cristianização do mundo o cumprimento das expectativas de um reino divino sediado aqui.

A longo da Idade Média, esse conceito foi defendido pelos papas que afirmavam que o reino de Cristo era, sim, celeste e universal, mas que também era palpável e concreto, como criam os teólogos dos primeiros séculos. Segundo diziam, esse reino, na sua expressão concreta, era administrado pela igreja romana, de modo que os cristãos não deviam esperar nenhum Milênio vindouro com Cristo sentado no trono de Davi, em Jerusalém. Se as profecias falavam de um reino messiânico visível nesse planeta, isso estava se cumprindo agora por meio do governo dos pontífices romanos estendido sobre todo o mundo.

Essa forma de amilenismo medieval era fácil de ser combatida. Além de se sustentar sobre uma hermenêutica que espiritualizava as profecias, anulando totalmente o sentido normal de suas palavras, essa crença ainda tinha de lidar com a realidade de que o “reino”, administrado pelos papas, não era universal em hipótese alguma. De fato, a igreja romana medieval só governava alguns países da porção setentrional da bacia do mediterrâneo, não exercendo domínio algum sobre o Continente Africano, a Península Ibérica, o Oriente Médio e todo o resto do globo. Ora, que reino universal de Cristo era esse que se estendia sobre bem menos de um quinto do mundo então conhecido?

Bom, então veio a Reforma. Os reformadores, mais preocupados com a soteriologia e com a eclesiologia, deram muito pouca atenção à escatologia. Por isso, deixando um pouco de lado o método de interpretação histórico-gramatical que haviam corretamente adotado, continuaram crendo num Milênio já inaugurado. Porém, como não gostavam nem um pouquinho das pretensões do papa, removeram desse Milênio a dimensão concreta e política, dizendo que se tratava de um reino somente espiritual. Nesse sentido, eles conseguiram piorar a visão que havia do Reino, pois a teologia medieval ainda preservava, de alguma forma, a concretude do Milênio. Os reformadores, porém, nem mesmo isso deixaram de pé.

Hoje, esse amilenismo mutilado construído pelos reformadores ainda sobrevive. Para se manter de pé, contudo, adota duas formas de tratamento dos textos proféticos. A primeira consiste na interpretação simbólica das passagens que tratam do reino vindouro. Num trecho bíblico como o que encabeça este artigo, por exemplo, cada palavra da profecia recebe um sentido novo, diferente do literal, a fim de que a descrição se encaixe na realidade da igreja atual. Trata-se, assim, de uma forma de assassinato da linguagem ― uma tentativa de fazer com que as palavras signifiquem qualquer coisa, exceto o que elas realmente significam. Numa concepção desse tipo, a revelação de Deus ao homem deixa de ser revelação de fato e se transforma num conjunto de charadas obscuras que temos de desvendar. Deus, assim, não nos mostra a verdade com clareza. Apenas brinca conosco, pedindo que adivinhemos o sentido oculto das frases que enuncia, numa espécie de jogo do tipo “o que é, o que é?”.

Já a segunda forma de tratamento dos textos antigos consiste em atribuir erro à visão profética, dizendo que, pelo fato de a revelação ser progressiva, os profetas tinham uma concepção errada do futuro e transportaram essa concepção equivocada para o texto sagrado. Segundo essa visão, a revelação incompleta é também revelação incorreta. Obviamente, essa alegação é um atentado contra as doutrinas da inspiração e da inerrância bíblicas. Ora, como se sabe, segundo essas doutrinas, nenhuma profecia é decorrente dos insights pessoais dos profetas, e os autores bíblicos falaram da parte de Deus movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.20-21). Tudo isso, porém, é esquecido por alguns amilenistas modernos, na defesa de um conceito medieval mutilado que não pode ser sustentado sem a rejeição sutil e velada das Escrituras.

Há um cristianismo, porém, que consegue enxergar além do véu das tradições. Esse cristianismo crê que Cristo reina agora supremo no céu, governando todas as nações, mas crê também que esse reino um dia invadirá este mundo, tornando-se visível, histórico e concreto, numa reviravolta política de proporções globais! Então, como disse Zacarias, todas as nações (literalmente) subirão de ano em ano a Jerusalém (literalmente) para adorar o Rei (literalmente), o Senhor dos Exércitos, e para celebrar (literalmente) a Festa dos Tabernáculos (literalmente).

Pr. Marcos Granconato

Soli Deo gloria


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