Terça, 19 de Março de 2019
   
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Entre Mocinhos e Vilões

Pastoral

“Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo” (Isaías 5.20).

Assistir a séries e filmes não é algo pecaminoso em si. Aliás, ir ao cinema, assistir a um bom seriado na Netflix ou mesmo alugar um filme pay-per-view podem ser formas legítimas de entretenimento sadio, desde que administradas com cuidado. Tal cautela diante da sétima arte, porém, não se limita apenas ao bom uso do tempo. Antes, é preciso lembrar que todos os enredos, desde os desenhos animados até as consagradas sequências do cinema, possuem ideias comunicadas a todos os telespectadores. Por vezes, a mensagem é sutil, e, por outras, é abertamente apresentada ao público.

Das muitas ideologias disponíveis no mercado, talvez uma que tenha ganhado força nas últimas décadas é a tendência das produções de TV e cinema de se concentrarem nos vilões mais do que nos mocinhos. Na prática, isso leva o telespectador a torcer pelo sucesso do ladrão, do corrupto, do adúltero, do terrorista e por aí vai.

Exemplos dessa abordagem não faltam: La Casa de Papel, produção espanhola de 2017, ganhou o coração dos jovens com um discurso altamente esquerdista e que coloca os bandidos como heróis. Breaking Bad, série americana de 2008, também salpica o tema das drogas com uma pitada de bom humor e um protagonista extremamente bem construído, mas moralmente questionável. O mesmo vale para House of Cards, de 2013, em que a trama faz o espectador espantar-se e, ao mesmo tempo, admirar-se com a sagacidade da corrupção política americana. Até mesmo séries biográficas como Narcos, de 2015, tornam o crime, no mínimo, interessante.

É fato que transformar vilões em protagonistas não é algo tão recente assim. Quem nunca se admirou com a sabedoria de Don Vito Corleone na direção da máfia italiana em O Poderoso Chefão (1972)? Ou nunca torceu mais para Darth Vader que para Luke Skywalker na saga Star Wars (1977)? Ou, ainda, não se encantou com a maldade do Coringa de Heath Ledger em Batman: o Cavaleiro das Trevas (2008)?

Aliás, contribui para esse debate a figura dos “anti-heróis”, especialmente conhecidos no universo dos quadrinhos. Alguns deles, como Motoqueiro Fantasma, Deadpool e Justiceiro, também lançam fumaça na definição de uma baliza moral saudável e acendem o interesse em tópicos como vingança, libertinagem e descompromisso civil.

A questão que surge, afinal, é: qual o problema disso? O crente deve se recusar a assistir a seriados e filmes com tal abordagem? Parece legalista propor algo assim. Porém, o velho dilema “a arte imita a vida ou a vida imita a arte?” pode ajudar a construir uma resposta bíblica para a questão a partir de três lembretes sobre o mal.

Em primeiro lugar, o mal sempre busca por comparsas (Pv 1.10-14). Ao perceber o sucesso do vilão em sua empreitada, o telespectador encontra apoio para seus “delitos ordinários”. No final, trata-se de algo retroalimentativo: o mal individual alimenta o cinema, que, por sua vez, promove a identificação necessária com o telespectador. Silenciosamente, o personagem fictício se torna comparsa de quem assiste a ele e vice-versa.

Outro lembrete importante é que o mal sempre assume formas interessantes (2Co 11.14). Bom humor, sagacidade e status são, muitas vezes, a coroa dos vilões. Afastar-se de “toda a forma do mal” (1Ts 5.22) não implica a ideia de a Netflix possuir uma “aparência pecaminosa”, de modo que todo crente deveria cancelar sua assinatura. Antes, o que fica evidente é que o mal se apresenta de várias maneiras e formatos, com discursos bonitos, mas repletos de engano — exatamente como a serpente no Éden (Gn 3.1-5).

Por fim, o mal se alimenta da impunidade (Ec 8.11). O frequente sucesso do mal nas telas reflete a impunidade que é vista no cotidiano do telespectador. Assim, o ciclo retroalimentativo é reforçado novamente, já que a vida de imoralidade não recebe a devida repreensão e todos podem seguir seu caminho na corrupção — grande ou pequena, pessoal ou corporativa.

Diante disso, o crente deve ser “prudente como a serpente” (Mt 10.16) e, com esperteza bíblica, perceber os ensinos que são transmitidos paulatinamente por meio da sétima arte. Os pais devem instruir seus filhos nesse sentido, especialmente por se tratar de um ambiente informal de aprendizado (Dt 6.7). E, mais importante, o cristão deve sempre contrapor as mentiras diabólicas propagadas em seriados e filmes à Palavra de Deus (1Jo 4.1). A Escritura garante que o mal, em seu devido tempo, receberá a paga pela desobediência, enquanto os servos fiéis, bem diferentes dos mocinhos “bananas” pintados pela TV, receberão a vida eterna (Mt 13.41-43).

Níckolas Ramos

 

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