Quinta, 18 de Abril de 2019
   
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E Quando Somos Acometidos de Decepção e Desânimo?

Pastoral

“E procuras tu grandezas [para ti]? Não as procures; porque eis que trarei mal sobre toda carne, diz o Senhor; a ti, porém, eu te darei a tua vida como despojo, em todo lugar para onde fores” (Jr 45.5).

Esse versículo acima fez parte de uma mensagem de Deus, por meio de Jeremias, ao auxiliar do profeta, chamado Baruque (Jr 45.1-5). A Bíblia não fala muito sobre ele, mas, por ser auxiliar de Jeremias no registro e anúncio de suas profecias, sabemos que se tratava de alguém letrado e que, provavelmente, tinha boas conexões em Jerusalém, como o próprio profeta. Desse modo, seu futuro parecia ser muito promissor e os rumos do país, também, sob o reinado do bom rei Josias, que reinava no início do ministério do profeta. Porém, com a morte do rei, a sucessão real conheceu apenas soberanos maus, até a queda de Judá, em 587 a.C.

As palavras de Jeremias 45 foram ditas no quarto ano do pior dos descendentes de Josias, o rei Jeoaquim (Jr 45.1), quando Jeremias estava preso e, por isso, encarregou Baruque de anunciar suas palavras no templo, as quais foram rejeitadas com ferocidade pela coroa e pelo povo. Em função disso, o lamento de Baruque foi: “Ai de mim agora! Porque me acrescentou o Senhor tristeza ao meu sofrimento; estou cansado do meu gemer e não acho descanso” (Jr 45.3). Ao falar desse “sofrimento”, que ele já vinha enfrentando, é justo pensar que ele tenha se referido à dor de ver a condição de decadência espiritual e moral do povo, ao qual ele, junto com o profeta, trabalhava infrutiferamente no sentido de exortar e conduzir ao arrependimento.

Porém, ao falar da “tristeza” acrescida ao seu sofrimento, podemos pensar em algumas razões para isso, razões distintas, mas, provavelmente, complementares. Uma delas talvez seja a tristeza por ver seu amigo e mestre preso injustamente por anunciar a palavra de Deus. Outra razão, deve ter sido saber, pelas profecias que ajudava a registrar e anunciar, que o destino do seu país era a desgraça inevitável de cair nas mãos de uma nação estrangeira e ser completamente destruída, tendo seu povo exilado. Uma razão final, mas não menor — talvez essa seja a maior parcela do motivo de tristeza de Baruque, a julgar pelas palavras de Deus a ele —, foi a de ver seus sonhos de sucesso e crescimento social e político, tanto pelo inevitável destino nacional como pela rejeição das pessoas que ele antes valorizava e que tinha como meta seguir. Por todas essas razões, sua tristeza aumentou ao ponto de ele se lamentar e enfrentar grande desânimo.

É nesse contexto que o capítulo 45 de Jeremias foi produzido, trazendo palavras de exortação, encorajamento e esperança a Baruque. Compreendendo isso, nós mesmos podemos extrair três lições para lidar com a decepção e o desânimo. A primeira, portanto, útil para lidar com esse tipo de tristeza, é priorizar os interesses de Deus. A resposta que ele ouve do Senhor após ter sua queixa revelada é: “Isto diz o Senhor: Eis que estou demolindo o que edifiquei e arrancando o que plantei, e isto em toda a terra” (Jr 45.4). Com isso, ao explicar que estava prestes a julgar duramente o povo de Israel, Deus não ignorou o lamento e as razões pelas quais o servo se afligia. Mas, ainda que os planos de Baruque não fossem ruins em si, eles não tinham precedência sobre os planos de Deus, a quem ele servia. Isso devia fazê-lo desejar primeiro os objetivos de Deus, colocando-os na frente de seus próprios objetivos. Tal atitude envolve, ao mesmo tempo, renúncia pessoal e ajuste de valores, de modo que o servo não prioriza os interesses de Deus como que obrigado e de má vontade, mas os torna, também, seus próprios interesses prioritários.

A segunda lição, associada à primeira, é compreender o plano de Deus. Colocar os interesses de Deus em primeiro lugar é bem mais fácil quando entendemos, ainda que por alto, a maneira como Deus tem guiado a história da humanidade e do seu povo, de modo que compreendamos melhor a nossa participação, pela graça do Senhor, em todo esse processo. Por isso, ainda que Baruque tivesse seus objetivos, que vinham sendo frustrados, Deus lhe demonstra ter planos maiores que os do servo, planos de grande alcance e impacto, propósitos que ele determinou para a história da nação israelita e para a humanidade, um projeto em que sua soberania lhe expunha o poder, a santidade e a justiça. É claro que a função de Baruque não era das mais confortáveis dentro desse plano, mas certamente era o melhor lugar escolhido por Deus para ele — o mesmo ocorreu a Jeremias (Jr 1.10). Por isso, o Senhor lhe diz: “E procuras tu grandezas [para ti]? Não as procures; porque eis que trarei mal sobre toda carne, diz o Senhor” (Jr 45.5a). A grandeza que Baruque buscava para si não fazia parte do plano de Deus, nem ajudaria no desempenho do seu ministério, por isso, lhe é dito: “Não as procures”. Aqui está um realinhamento de valores que dificilmente é levado a cabo sem que se compreenda o plano de Deus e qual é o nosso lugar nele. Sem tal compreensão, a melhor obediência que se possa ter estará normalmente sustentada no legalismo e no serviço por mera obrigatoriedade e em quase nenhum deleite no serviço.

Finalmente, a terceira lição é valorizar as bênçãos de Deus. Se é certo que havia um custo na função para a qual Baruque foi chamado a desempenhar e que exigiu do servo que ele priorizasse os objetivos de Deus no lugar dos seus objetivos pessoais, é também certo que não havia apenas dificuldades e negação pessoal, mas também bênçãos concedidas pela graça do Senhor, o qual lhe disse: “A ti, porém, eu te darei a tua vida como despojo, em todo lugar para onde fores” (Jr 45.5b). Assim como a Jeremias, Deus prometeu estar ao lado de Baruque, protegê-lo dos perigos, livrá-los dos inimigos e poupar sua vida por onde quer fosse. Pode parecer apenas um prêmio de consolação, mas não é. Essa é justamente a última coisa que Baruque podia garantir com seus esforços ou com qualquer cargo que ocupasse no governo de Judá. A bem da verdade, se ele estivesse na posição que gostaria de estar, seria atropelado pelo juízo de Deus assim como os demais. Por isso, era preciso que ele se consolasse e ficasse encorajado, em primeiro lugar, ao perceber como Deus dá atenção pessoal a um pequeno servo em meio a profecias e tratamentos globais; e, em segundo, ao notar que tudo que temos são bênçãos de Deus e não direitos e conquistas puramente nossas.

Se isso tudo trouxe exortação, encorajamento e esperança para Jeremias e Baruque, é certo que fará o mesmo a nós ao realinharmos nossos valores e objetivos de modo a priorizar os planos e o serviço ao nosso salvador. Desse modo, a pergunta é: você tem feito isso, ou continua desanimado e decepcionado com a vida?

Pr. Thomas Tronco

 

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