Quinta, 18 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 147 - Louvor a quem Faz por Merecer

 

O ano de 2013 começou agitado para o mundo do esporte. O famoso ex-ciclista norte-americano Lance Armstrong, vencedor de sete títulos seguidos (1999-2006) da Volta da França (Tour de France), uma das mais duras provas da categoria, admitiu ter utilizado substâncias e práticas proibidas a fim de produzir uma carreira vitoriosa. É certo que ele fez coisas impressionantes. Entretanto, ele não o fez com a própria capacidade, mas com uma implementação artificial. Por isso, apesar das vitórias que obteve, os dirigentes da categoria esportiva concluíram que ele não mereceu os prêmios que recebeu e lhe confiscaram os sete títulos da Volta da França e a medalha olímpica de bronze. O reconhecimento da sua falta de méritos extrapolou os anais esportivos e chegou até o ponto de uma biblioteca, em Sydney, na Austrália, ter transferido todos os livros do atleta para a seção de “ficção”.

Diferente desse triste caso, o Salmo 147 trata de alguém cujo mérito é indiscutível. Na verdade, Deus é tão merecedor de receber louvores que o salmista faz, por três vezes, um chamado público à adoração (vv.1,7,12), sempre apresentando, a seguir, as razões para que o povo de Israel se curvasse diante do Senhor eterno. O contexto do salmo é o fim do exílio e o retorno à terra da promessa, mais precisamente após a reconstrução de Jerusalém, possivelmente nos dias de Neemias — a Septuaginta associa a segunda metade do salmo (vv.12-20) aos dias de Ageu e Zacarias, apesar da menção às portas e ferrolhos da cidade (v.13), os quais somente foram reinstalados nos dias de Neemias. Mesmo sendo a ocasião da reconstrução da cidade um momento cujo tema de louvor é completo em si mesmo, o salmo chama a um olhar amplo do quadro todo da restauração de Judá (v.2). Poucas nações passaram pelo que atravessaram os israelitas e voltaram a se restabelecer. Entretanto, o que parecia impossível era realidade e o salmista chama o povo a reconhecer a mão de Deus em sua história. Assim, três características divinas ficam em relevo no texto com a finalidade de direcionar ao Senhor toda a adoração que ele realmente merece.

A primeira característica destacada pelo salmista como motivação ao louvor é o entendimento de Deus (vv.1-6). O salmo inicia com o seguinte chamado público (v.1a): “Exaltai ao Senhor, pois é bom cantar louvores ao nosso Deus” (hallû yah kî-tôv zammerâ ’elohênû). A segunda parte do versículo aponta o merecimento divino de receber louvor dos seus servos (v.1b): “Pois o louvor é harmonioso e apropriado” (kî-na‘îm na’wâ tehillâ). Esses dois adjetivos demonstram que não há nada fora de lugar quando o Senhor recebe adoração. Ao contrário, a falta dela seria um exemplo perfeito de algo inapropriado e sem qualquer harmonia com a realidade. Para que um conceito tão sublime não fique sem sentido claro, o escritor liga o conceito ao fato, explicando (v.2): “O Senhor reconstrói Jerusalém e reúne os exilados de Israel” (bôneh yerûshalaim yhwh nidhê yisra’el yekannes). Embora seja possível interpretar essa frase em sentido figurado e espiritual, como se fosse uma referência à purificação do povo, outras menções no salmo (vv.6,10,13,14) apontam os sentidos social e político da realidade pretendida pelo escritor. Assim, a restauração nacional era também a restauração completa para cada judeu trazido de volta à terra da promessa e a esperança de ver cumpridas as alianças de Deus com seus servos (v.3): “Ele cura os de coração partido e ata suas feridas” (harofe’ lishvûrê lev ûmehavvesh le‘atsevôtam). E nenhuma ferida era maior, para eles, que o exílio e a vergonha de ver sua capital em ruínas (cf. Ne 1.3,4; 2.3).

O que é interessante nessa seção é o fato de o salmista associar a ação restauradora de Deus ao seu entendimento, dizendo (v.4): “Ele conta o número das estrelas e chama a todas elas pelos seus nomes” (môneh mispar lakkôkavîm lekullam shemôt yiqra’). Essa não é uma mudança de assunto como se o escritor estivesse devaneando sobre vários temas. Ele está rendendo à sabedoria e onisciência de Deus a causa da poderosa restauração de Jerusalém e do restante do país (v.5): “Nosso Senhor é grande e muito poderoso. Sem entendimento é imensurável” (gadôl ’adônênû werav-koah litvûnatô ’ên mispar). Como resultado do entendimento do Senhor, os israelitas estavam sendo amparados e restabelecidos por ele (v.6): “O Senhor restaura os aflitos e derruba por terra os ímpios” (me‘ôded ‘anawîm yhwh mashpîl resha‘îm ‘adê-’arets). Por isso, o salmo nos recorda consideravelmente a mensagem da parte final de Isaías, principalmente a partir do capítulo 40, em que o profeta promete restauração a Israel com base no amor e na fidelidade do Senhor, ao passo que os ímpios seriam julgados e abatidos. Deus, que conhece tudo, preparou a história para redimir o povo que elegeu desde o passado, seja Israel politicamente, seja seu povo eleito espiritualmente.

A segunda característica é a capacidade de Deus (vv.7-11). Um novo chamado público é feito (v.7): “Cantai ao Senhor com gratidão. Cantai louvores ao nosso Deus ao som de harpa” (‘enû layhwh betôdâ zammerû le’lohênû bekinnôr). A motivação para se atender ao chamado é, dessa vez, o poder de Deus de fazer não apenas tudo que quer, mas tudo de que suas criaturas precisam. Para exemplificar isso, o salmista, primeiro, aponta a capacidade que o Senhor tem de fornecer o que os vegetais necessitam (v.8): “Ele cobre os céus com núvens, prepara a chuva para a terra e faz brotar a erva nos montes” (hamkasseh shamayim be‘avîm hammekîn la’arets matar hammatsmîah harîm hatsîr). Em segundo lugar, ele aponta a capacidade divina de suprir os animais (v.9): “Ele dá alimento aos animais e aos filhotes de corvo quando eles clamam” (nôten livhemâ lahmah livnê ‘ôrev ’asher yiqra’û). Assim, nem a chuva molha a terra por acaso, nem os animais se alimentam da terra por uma contingência qualquer que não seja o poderoso suprimento do Senhor que a tudo controla.

Entretanto, o salmista não chama os israelitas a agradecer a Deus primariamente pelo suprimento da fauna e da flora, mas pela libertação que tiveram das mãos de um inimigo tão poderoso como a Babilônia. Antes desse império sucumbir, pouca gente poderia acreditar que eles pudessem ser abatidos. Porém, a capacidade infinita de Deus assim o fez a fim de libertar seu povo, sem se impressionar com o poderio militar do inimigo (v.10): “Não é na força do cavalo que ele se deleita, nem da perna do guerreiro que ele se agrada” (lo’ bigvûrat hassûs yehpats lo’-beshôqê há’îsh yirtseh). O sentido disso é que o Senhor não se sente obrigado a favorecer os fortes ou se render ao poder que eles têm. Ao contrário, Deus tem poder suficiente para contrariar as expectativas humanas e favorecer quem ele quiser, preferindo aqueles que lhe pertencem (v.11): “O Senhor se agrada dos que o temem e dos que esperam pelo seu amor leal” (rôtseh yhwh ’et-yere’ayw ’et-hamyahalîm lehasdô). Mesmo que os inimigos fossem humanamente imbatíveis, o poder de Deus guiado pelo amor que tem pelos seus e sua fidelidade às promessas que fez garantiram a restauração da nação.

A última característica é a bondade de Deus (vv.12-20). De nada valeria a Israel o entendimento de Deus, nem seu poder sem limites, caso eles não fossem utilizados para fazer bem ao povo do Senhor. Como tal bondade vinha sendo o motivo das bênçãos usufruídas pelo povo, um novo convite público é expedido (v.12): “Louva ao Senhor, ó Jerusalém. Exalta ao teu Deus, ó Sião” (shavehî yerûshalaim ’et-yhwh hallî ’elohayik tsîyôn). A motivação para que o convite seja atendido, dessa vez, é o benefício que o Senhor promoveu à cidade anteriormente destruída (v.13): “Pois ele restaurou os ferrolhos dos teus portões e abençoou os teus filhos no teu interior” (kî-hizzaq berîhê she‘arayik berak banayik beqirbek). Se dentro de Jerusalém a bondade de Deus era patente, também o era fora dos seus muros (v.14): “Ele promove paz em tuas fronteiras e te farta com os melhores grãos” (hassam-gevûlek shalôm helev hittîm yasbî‘ek). Tanto a paz como a fartura eram fruto da ordem do Senhor e não da sorte (v.15).

Para exemplificar essa ação, o salmista utiliza outro suprimento fundamental dado por Deus: a água. Contudo, o ele é meticuloso em descrever todo o processo da concessão da água pluvial de que necessitavam os israelitas — e toda a humanidade. O Senhor produz neve e gelo nas mais altas montanhas (v.16), faz com que a mudança climática desfaça a dureza do gelo (v.17) e derrete-o a fim de se tornar líquido e correr na forma de rios para suprir a necessidade das pessoas (v.18). A julgar pelo fato de que Israel, em seus dias de juízo antes do exílio, muitas vezes se viu diante de uma dura seca, o fato de terem água para beber era prova do bondoso favor do Senhor. Porém, apesar do suprimento físico, a bondade de Deus também se demonstrava no suprimento espiritual (v.19): “Ele anuncia sua palavra a Jacó e seus preceitos e decretos a Israel” (maggîd devarô leya‘aqov huqqayw ûmishpatayw leyisra’el). O fato de ter eleito um povo para agir desse modo (v.20) devia levar seus servos a louvá-lo.

A grande notícia é que essas características louváveis do Senhor não se restringiram a Israel, nem ao passado, mas se fazem presentes na vida dos servos de Deus em todas as épocas, incluindo os nossos dias. Assim, Deus é tão merecedor do nosso louvor hoje como foi no passado, razão pela qual os mesmos chamados se estendem a nós, seus servos. Que nosso Deus esteja sempre no lugar mais alto do pódio da nossa adoração, visto que ele realmente faz por merecê-lo.

Pr. Thomas Tronco

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