Sexta, 18 de Agosto de 2017
   
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Ageu 1.7-11 - A Bifurcação da Obediência e da Rebeldia

 

Depois de introduzir o discurso aos judeus lhes apontando a dupla condição desfavorável, a apatia e o sofrimento, o profeta Ageu continua seu pronunciamento acrescentando novos vislumbres do quadro teológico e prático daquela situação. Com exceção da primeira palavra hebraica, ausente no v.7, o profeta repete o que disse no v.5, no sentido de o povo avaliar os acontecimentos ao seu redor (v.7): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Ponhais vossa consciência sobre os vossos caminhos’”. Na primeira vez que Ageu disse essa frase, ele só colocou diante dos judeus as consequências ruins decorrentes das suas más ações na forma do egoísmo que os levou a negligenciar a casa de Deus. Entretanto, ao dar sequência e a essa ideia, ele agora aponta dois rumos, como se o povo estivesse diante de uma bifurcação e precisasse escolher que caminho seguir e que em que destino chegar.

A bifurcação na estrada da história israelitas daqueles dias era a seguinte: duas possibilidades de o povo agir — obediência ou rebeldia — e as consequências, opostas entre si, mas compatíveis com as atitudes que os judeus mantivessem. Essas determinações não são exclusivas ou de autoria de Ageu. Na verdade, o profeta apenas interpreta e aplica algo que a nação de Israel já tinha havia quase mil anos: as bênçãos e maldições da aliança mosaica (Lv 26; Dt 28).[1] Esses termos previam que, caso o povo de Israel desse ouvidos ao Senhor e guardasse os estatutos da aliança, Deus os abençoaria com prosperidade e paz na terra de Canaã (Lv 26.3-13; Dt 28.1-14). Por outro lado, se fossem rebeldes e resistentes ao controle divino, seriam alvo de severa punição (Lv 26.14-39; Dt 28.15-68) envolvendo fome, seca, doenças, infertilidade e guerras, podendo chegar até ao ponto de serem exilados — o que realmente ocorreu com a geração anterior. O que vem a seguir (vv.8-11) é o desdobramento desse acordo entre Deus e a nação.

A primeira estrada que nasce da bifurcação das ações diante de Deus é a obediência (v.8): “Subi vós ao monte, trazei madeira e edificai a casa. Então, eu me deleitarei nela e me cobrirei de glória — diz o Senhor”. Isso dito após o chamado à reflexão contido no versículo anterior, quer dizer que eles não deviam considerar apenas o que estava acontecendo por causa da desobediência, mas também o que deveria ocorrer no caso de serem fiéis e dedicados. Trata-se de um olhar para o passado a fim de transformar o comportamento no futuro.[2] Deve-se notar os três imperativos (jussivos, em hebraico) que surgem na primeira parte do versículo, decorrentes das ações de “subir”, “trazer” e “edificar”. São ações que exigem esforço, dedicação e paciência, algo que nunca seria realizado por mero impulso, mas por deliberada e consciente obediência. A ordem é subir aos montes e buscar madeira para a construção — a região montanhosa de Canaã era marcada pela presença de árvores. Não há ordens para que se busque pedras porque provavelmente as do antigo templo ainda estavam no local da destruição. Obviamente, organizar grandes comitivas para cortar madeira e fazer um difícil transporte exigiria um comprometimento incompatível com o egoísmo daqueles dias. Em outras palavras, eles teriam de abandonar suas próprias obras domésticas e se empenhar na obra do templo.

Entretanto, esse esforço teria compensações. Em primeiro lugar, o Senhor garante que se alegraria. Essa é uma menção simples, mas com sentido teológico significativo e consequências práticas incalculáveis. Nesse caso, a obediência do povo seria uma dessas alegrias e estaria de acordo com a aliança feita com o povo que deixou o Egito, garantindo também a eles as bênçãos da aliança — isso não é declarado aqui, mas é claramente implícito e posto em contraposição à punição que vinham recebendo. Contudo, se essas bênçãos são implícitas, Deus afirma explicitamente que seu deleite seria na casa em si — “eu me deleitarei nela”. Isso leva à segunda compensação do trabalho que seria a restauração da glória de Deus no meio de Israel, pelo que o Senhor diz “me cobrirei de glória”, indicando uma ação a que Deus se propôs realizar.[3] Apesar de esse tema ser trabalhado mais à frente, o Senhor deseja que o reerguimento da sua casa atestasse às nações que ele é um Deus que não perde batalhas, nem abandona seu povo e, também, que produzisse entre os judeus temor por seu nome e esperança de uma restauração completa no futuro em lugar da esperança frustrada no presente (v.9).[4] No presente, isso também se daria pela ação contrária ao que ocorreu antes da queda de Jerusalém e da destruição do templo em 587 a.C., quando a glória do Senhor, que havia enchido o tabernáculo no Sinai (Êx 40.34-38) e o templo de Salomão (1Rs 8.10,11), deixou o edifício e pousou sobre o Monte da Oliveiras — “o monte que está ao oriente da cidade” (Ez 11.23) —, marcando assim a rejeição e punição divina (Ez 10.18,19 cf. 11.22,23). Essa foi a necessária preparação para que Deus entregasse voluntariamente o templo a fim de ser destruído sem que houvesse razões justas para que alguém pensasse que ele podia ser vencido por homens. Porém agora, com a lição aplicada, assim que se terminasse a reconstrução, o Senhor encheria o santuário novamente com sua glória (Ag 2.6-9).

A segunda estrada nascida da mesma bifurcação é a rebeldia. Para essa opção, também há tristes consequências previstas na aliança, pelo que o Senhor lhes diz (v.9a): “Vós esperais a abundância, mas eis que obtendes pouco. O que trouxestes para casa, eu o assoprei” — síntese da ideia exposta no v.6. A primeira palavra do versículo quer dizer literalmente “virar a cabeça” ou “olhar para”. Assim, é possível que a plantação, quando vista por eles em seu processo de desenvolvimento, os tenha animado e feito esperar uma colheita farta.[5] Contudo, a falta de chuva afetou o amadurecimento dos grãos e frutos, afetando seriamente a colheita. A segunda parte é enfática em apontar a causa do sofrimento, fazendo-o por meio de uma pergunta e resposta (v.9b): “‘Por que?’ — declara o Senhor dos exércitos. Por causa da minha casa, a qual está arruinada enquanto cada um de vós se apressa por sua própria casa”. O contexto demonstra que se trata de uma pergunta de natureza retórica que reforça a declaração de Deus a respeito do pecado do povo, de modo que o verbo “declarar”, como é dito no texto original, transmite a seriedade dessa palavras e confere temor diante da repreensão. Outra coisa a se obversar é que a ideia de “se apressar” indica tanto a prioridade que os judeus davam às suas casas como o grande esforço e dedicação que eles empreendiam nelas. Em outras palavras, Deus diz que o povo merecia o que estava passando por não honrá-lo e por priorizarem a beleza das suas casas enquanto a construção do templo estava vergonhosamente abandonada na altura dos alicerces ou, no máximo, nas primeiras fileiras de pedras acima do solo.

Desse modo, a consequência era óbvia (v.10): “Por isso, sobre vós os céus retiveram a chuva e a terra reteve a colheita”. Apesar de céus e terra surgirem aqui como agentes das ações de reter os recursos necessários, fica claro, principalmente diante do versículo seguinte, que era Deus o agente da ausência de chuvas e da pequena colheita (v.11): “Pois eu chamei a seca sobre a terra, sobre os montes, sobre o cereal, sobre o vinho, sobre o azeite, sobre o que cresce do solo, sobre os homens, sobre os animais e sobre todo o trabalho das mãos”. O acréscimo dos diversos setores prejudicados com a falta de chuva não era necessário. Dizer apenas “eu chamei a seca sobre a terra” bastava. Contudo, o Senhor quis apontar o tamanho do prejuízo e da carestia que os desobedientes vinham enfrentando, seja nas diversas produções agrícolas e pecuárias e até no próprio abastecimento de água, tão necessário aos homens. Sendo assim, não havia espaço para um “plano B”. A consequência era ampla e convincente no sentido de chamá-los à reflexão e mudança de rumo (vv.5,7). Joyce Baldwin observa a ironia nas palavras de Deus com intenção didática e punitiva ao fazer um trocadilho com a palavra “seca” (horev), no v.11, e a palavra “arruinado” (harev), nos vv.4,9.[6] A ideia é: “Vocês deixaram meu templo ‘arruinado’ e eu deixei vocês sob uma terrível ‘seca’” — algo bem compatível com as maldições da aliança (Dt 28.23,24). Agora, pesava a decisão dos judeus sobre que caminho seguir nessa bifurcação e que consequências receber. Era, para eles, a “hora da verdade”.

Pelo menos duas lições sobre tais princípios devem surgir na mente dos crentes de hoje ao verem o modo de Deus tratar os rebeldes. Em primeiro lugar, lembrar que o Senhor bem sabe retribuir o esforço e o descaso dos servos. Isso não acontece com prejuízo da sua graça e misericórdia no relacionamento com seu povo — a igreja foi salva sem merecimento algum, gratuitamente, e a misericórdia do Senhor o impede de nos consumir tão logo o tenhamos desrespeitado e obedecido (Lm 3.22). Entretanto, foi dito à igreja de Cristo: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7). A segunda lição é sobre o peso da “colheita” da desobediência. Apesar de vir do Deus amoroso e misericordioso, o autor de Hebreus declara: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31). Para o crente que quiser se eximir de tais palavras argumentando que elas dizem respeito apenas aos incrédulos, o texto precedente encerra a questão: “Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo” (Hb 10.30). De quê alertas mais nós precisamos para repensar nossos caminhos e escolher a direção correta diante da bifurcação da obediência e da rebeldia?

Pr. Thomas Tronco


[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 783.

[2] Taylor, R. A.; Clendenen, E. R. 2004. Haggai, Malachi. The New American Commentary. Vol. 21A. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 2004, p. 128.

[3] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 305 [Ni. §b].

[4] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1539-1540.

[5] Perowne, T. T. Haggai and Zachariah with Notes and Introduction. Cambridge: University Press, 1890, p. 29.

[6] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, 32.

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