Segunda, 23 de Janeiro de 2017
   
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Ageu 2.6-9 - A Glória do Senhor Deus

 

A primeira parte do segundo capítulo de Ageu demonstra a disposição mental marcada pelo desânimo que se espalhava entre os judeus diante do enorme projeto de reconstrução da casa do Senhor e das óbvias barreiras e limitações que tinham diante de si. Naquele trecho, Deus revela tais problemas ao povo e o fortalece incentivando a trabalhar com fidelidade, sem se esquecer da aliança feita no passado. Os vv.6-9 são a continuação dessa mensagem, porém, olhando agora para o futuro iminente e o futuro escatológico. Se o Senhor reafirmou sua aliança na primeira parte do segundo discurso de Ageu, ele acrescenta algumas promessas na segunda parte condizentes com suas predições mais antigas, exemplificando o que conhecemos como “revelação progressiva” — significa que Deus foi acrescentando mais e mais informações a respeito dos seus planos à medida que enviou servos para pregar e registrar seus ensinos ao longo da história até completar o cânon.

Desse modo, a predição de Deus aponta para uma ação de grande porte vinda da sua soberania sobre tudo que existe e acontece (v.6): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Dentro de pouco tempo, hei de agitar os céus, a terra, o mar e a superfície terrestre’”. Esse é o único texto de Ageu citado no Novo Testamento (Hb 12.26), mas o uso do autor de Hebreus não ajuda a interpretação da ideia do profeta tanto quanto gostaríamos, já que ele tem outro tempo e aplicação em mente. Assim, voltando nossos olhos para o contexto do período pós-exílico, quando se diz “dentro de pouco tempo”, isso condiz com o fato de o Senhor ter com efeito providenciado naqueles dias a autorização imperial e os recursos do Estado persa para o término da construção. Entretanto, não se pode desprezar a possibilidade de o texto querer dizer “em pouco tempo”, tendo relação com o modo como Deus agiria rápido e não exatamente quanto tempo depois tais eventos ocorreriam.[1] Na verdade, fica presente uma ideia muito forte de um evento iminente, ou seja, a ocorrer a qualquer momento no decorrer da história.[2] Isso é importante porque a descrição que vem a seguir, do que Deus faria, parece suceder os eventos daqueles dias e abranger o mundo todo em uma data futura e com implicações além da construção em si. De qualquer modo, fica claro que aquilo que os judeus não podiam obter para a reconstrução, Deus lhes daria. Quando o Senhor diz “hei de agitar”, o sentido literal disso é o de catástrofes naturais como furacões, terremotos e maremotos. Entretanto, ainda que a Bíblia fale sobre eventos como esses, os resultados descritos nos versículos seguintes apontam para um uso figurado da agitação que Deus produziria, em sentido político, militar e até espiritual.

Dando sequência à figura de tremores em todas as esferas do planeta, o Senhor aplica agora a mesma ideia a um contexto de caráter econômico e multinacional (v.7): “Eu farei tremer todas as nações. As riquezas de todas as nações virão e eu encherei esta casa de glória diz o Senhor dos exércitos. O significado iminente desse texto se cumpriu quando os inimigos dos judeus tentaram deter a reconstrução denunciando-os por um falso e inexistente movimento de insubordinação (Ed 5.6-17). Ao contrário do que eles esperavam, o imperador Dario Hystapes, ao ser consultado sobre o assunto, encontrou o decreto de Ciro sobre a reconstrução do templo do Senhor e não apenas a autorizou, como também decretou que fossem concedidos aos judeus os materiais e fundos necessários, recursos esses retirados dos cofres imperiais (Ed 6.1-12). O texto de Jeremias 51.29 é um exemplo de que esse controle de Deus sobre os destinos, decisões e políticas das nações é descrito em termos figurados como um “estremecimento de terra”.[3]

Entretanto, à luz das Escrituras, esse fato contemporâneo de Ageu parece não esgotar o significado desses versículos. O quadro pintado é mais amplo. Em primeiro lugar, o alvo da ação divina é “todas as nações” e não apenas o Império Medo Persa. Em segundo, a descrição de um abalo de céus, terra e mar, provavelmente mais em sentido figurado que literal, introduz a ideia de uma intervenção bem mais impactante que a simples aprovação e subsídio da obra do templo. Sendo assim e levando em conta o fato de o Senhor garantir a confirmação da sua glória no e perante o mundo, essa declaração constitui uma parte importante da esperança messiânica, algo que é um tema fundamental dos livros de Ageu e Zacarias. Vale lembrar que as promessas sobre a vinda e o domínio do Messias, “estremecendo” o poder das nações (Is 60.12), também envolvem eventos de abalos literais sobre todas as partes do planeta, dando vivacidade e amplitude muito grandes em relação ao significado e implicações dos dizeres de Ageu nesse discurso.

O resultado da ação de Deus descrita no início do v.7 é que “as riquezas de todas as nações virão”. Primariamente, vemos Deus cumprir esse dito levantando recursos do Estado para fazer o que aqueles reconstrutores estavam perdendo a esperança de conseguir. De modo maior, aguardamos o dia em que as nações virão à Jerusalém aprender do Senhor e lhe prestar culto (Mq 4.1-3), inclusive com ofertas de grande valor (Is 60.9). Em uma posição intermediária na história, está a reforma promovida pelo rei Herodes, o grande, que tornou o templo um lugar de beleza e riquezas que impressionavam os visitantes (Mc 13.1; Lc 21.5) e também impressionaria muito os trabalhadores desanimados e desesperançados dos dias de Ageu. Em consequência disso tudo, a segunda parte do resultado é a emblemática declaração “e eu encherei esta casa de glória”. Uma vertente dessa afirmação certamente tem a ver com a qualidade e majestade da construção, pelo que Deus garante o suprimento financeiro por ser ele mesmo o dono das riquezas (v.8): “Minha é a prata e meu é o ouro — declara o Senhor dos exércitos”. Que ninguém se engane com essa simples afirmação de posse, pois ela é também a garantia de que tais recursos seriam empregados na construção do templo.

Por outro lado, a glória prometida assume um caráter superior ao dos elementos da construção, correspondendo às esperanças nacionais e religiosas que Israel nutria desde muito tempo antes (v.9): Grande será a glória desta segunda casa, mais que a primeira diz o Senhor dos exércitos, e neste lugar eu porei a paz declara o Senhor dos exércitos. Quando a glória do templo é associada à ideia de paz, percebe-se que o assunto transcende o campo da engenharia e da arquitetura. Inevitavelmente, o sentido da glória recai sobre a experiência israelita de ver o tabernáculo recém-construído no Sinai ser cheio pela presença gloriosa de Deus (Êx 40.34-38). Como o assunto é o templo e há uma referência ao primeiro deles, também nos lembramos da mesma experiência na consagração do edifício construído por Salomão (1Rs 8.10,11). Esse conceito da glória do Senhor, identificado com o termo “shekinâ” — derivado do verbo hebraico “shakan”, que significa “instalar-se” ou “habitar” —, aponta para o resplendor e a presença permanente de Deus habitando entre seu povo.[4] Assim, há uma reafirmação de que a habitação de Deus entre seu povo se tornaria marcante e mais intensa que antes, condizendo com a aguardada promessa da vinda do Messias (Is 40.3-5; 60.1-3), o maior adorno possível e imaginável para a casa do Senhor (Mt 12.6).[5] Com sua vinda a Jerusalém para reinar sobre Israel e submeter as nações, certamente a glória de Deus se fará bem mais presente e visível que por meio da nuvem que encheu o tabernáculo/templo.

Quando isso acontecer, eventos políticos, jurídicos e religiosos serão sentidos e farão jus à declaração “e nesse lugar eu porei a paz”. Essa afirmação tem um caráter duplo: o de dar paz a Jerusalém e seus habitantes (Is 60.18) e de conceder paz às nações a partir de Jerusalém (Is 2.2-4). Ambos os eventos estão ligados à ação escatológica da presença de Deus por meio do Messias, o Senhor Jesus Cristo, o “príncipe da paz” (Is 9.6)[6] na cidade de Jerusalém, cujo significado é “herança de paz” ou “habitação da paz”.[7] Por isso, os judeus podiam trabalhar com coragem no templo, pois ele em nada perderia para o anterior. Ele seria forrado de prata e ouro como o primeiro e receberia a presença gloriosa de Jesus, tanto em seu ministério de “servo sofredor” como de “rei glorioso”. Essa presença de Jesus no templo se dá em duas construções diferentes, já que o templo em que ele esteve em seu ministério terreno foi destruído pelos romanos no ano 70, ao passo que sua segunda entrada nele se dará em um templo a ser ainda edificado (Ez 40—48). Não obstante, nota-se, pelo uso da expressão “esta segunda casa”, a ideia de continuidade do templo pós-exílico, ainda que seja construído duas vezes, mostrando que a ideia da presença e da glória de Deus supera os elementos da construção em si.[8]

A importância desse texto transcende seu uso como motivador da reconstrução dos dias de Ageu. Ultrapassa, também, a esfera nacional judaica, estendendo-se a todos os servos de Deus de todos os lugares e tempos, incluindo a igreja de Cristo da atualidade. As razões são várias. A primeira é que o texto nos descortina o grande poder de Deus para comandar as nações e sua soberania sobre os rumos da história, o que deve nos encher de toda confiança no seu controle. Isso, obviamente, muda o nosso modo de ver a igreja em seus objetivos, parâmetros e negócios, já que não depende de nós, mas de Deus, o suprimento e as direções que ela tem diante de si. A segunda razão é que nos garante a segunda vinda do Senhor Jesus Cristo como rei, salvador, juiz e libertador, cuja ação se dará sobre Israel e sobre todas as nações do mundo, produzindo paz e justiça, o que deve nos encher da esperança de ver cumpridas todas essas promessas. Isso, graças ao bom Deus, nos fortalece e ajuda a continuar servindo o Senhor com fidelidade quando as lutas e dificuldades se abatem sobre o povo de Deus e sobre a igreja de Cristo. Sabendo onde essa jornada irá terminar, nós podemos continuar firmes na esperança de ver o dia em que luta alguma permanecerá diante dos salvos pela fé em Cristo. Quanto ao tempo presente, nossa confiança e esperança também estão nas palavras do fundador, protetor e libertador do seu povo: “... edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la” (Mt 16.18b).

Pr. Thomas Tronco


[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Fundamentos para Exegese do Antigo Testamento: Manual de Sintaxe Hebraica. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 25, § 6.11, “acusativo de modo”.

[2] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1541.

[3] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Haggai. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 38.

[4] Douglas, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. Volume 1. São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 673.

[5] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B., p. 1542.

[6] Alden, Robert L. “Haggai” In The Expositor's Bible Commentary: Volume 7. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1985, p. 587.

[7] Gesenius, W. e Samuel P. Tregelles. Gesenius' Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures. Bellingham: Logos Research Systems, 2003, p. 366-367.

[8] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 781.

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