Segunda, 23 de Janeiro de 2017
   
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Ageu 2.10-19 - A Grande Virada

 

O terceiro discurso de Ageu aconteceu no dia 18 de dezembro de 520 a.C. (v.10): “No vigésimo quarto dia do nono mês do segundo ano de Dario, veio a palavra do Senhor por meio do profeta Ageu, dizendo”. Essa introdução posiciona tal sermão quase quatro meses após o primeiro discurso de Ageu, três meses após o início da reconstrução e dois meses depois do discurso de encorajamento com a promessa da glória do segundo templo. Esse discurso também foi proferido cerca de um mês e meio depois do início do ministério do profeta Zacarias (Zc 1.1). Olhando para essas datas e para os pronunciamentos proféticos ocorridos, pode-se perceber que toda a direção necessária no que tange à retomada da edificação do templo já havia sido concedida pelo Senhor por meio dos seus servos. Entretanto, Deus não queria transformação apenas no que se referia à existência do templo em Jerusalém. Seu objetivo era bem maior, pelo que esse sermão visava a promover duas grandes viradas na condição de vida dos judeus daqueles dias. Uma delas relativa ao relacionamento com Deus, e outra, ao sustento que buscavam da terra. Uma dessas viradas devia ser promovida por eles mesmos, em obediência a Deus, e a outra, pelo Senhor, mudando o modo de tratar seu povo.

O discurso inicia com perguntas que têm a clara intenção de usar as próprias palavras dos ouvintes como repreensão e ensino. Apesar de a audiência ser geral, as perguntas são dirigidas aos sacerdotes mostrando que o campo de atuação deles — o culto a Deus e os estatutos da aliança — seria o tema abordado (v.11): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Pergunta aos sacerdotes o que diz a lei’”. A partir daqui, duas perguntas hipotéticas são lançadas e suas respostas, coletadas para uso na argumentação adiante (v.14).

A primeira questão trata da santidade da oferta de carne segundo as prescrições da lei (v.12): “‘Se alguém levar carne santificada na borda da sua roupa e tal borda tocar no pão, no alimento cozido, no vinho, no azeite, ou em qualquer alimento, ele estará santificado?’. Os sacerdotes responderam: ‘Não!’”. Há aqui um tipo de pegadinha, pois a lei informava que o que era santo também santificava tudo aquilo em que tocasse (Êx 29.37; Ez 44.19).[1] No caso específico da carne oferecida a Deus, a lei dizia: “Tudo o que tocar na carne se tornará santo” (Lv 6.27a). Porém, o quadro é mais complexo, pois, na questão hipotética de Ageu, a carne santificaria a borda da roupa, na qual ela tocaria diretamente, e não os outros alimentos citados, nos quais o toque não era direto. A questão é: a carne santa santifica o que ela tocar; mas, sem um toque direto, a santificação não é indiretamente retransmitida a outros. Por isso, quando Ageu pergunta “ele estará santificado?”, o objeto do pronome “ele” é a expressão “qualquer alimento”. A intenção parece ser aclarar o fato de que a presença de Deus entre eles, santificando-os e abençoando-os, necessitava da existência do templo, sem o qual, os benefícios da aliança lhes estavam vetados. Não bastava estar na cidade santa, ou ser o povo escolhido. Eles tinham de estar ligados diretamente ao Senhor em obediência e temor, o que seria externado pelo seu interesse e execução da reconstrução da casa de Deus.

A segunda questão envolve a impureza ritual, abarcando o outro extremo em relação ao versículo anterior (v.13): “Então, disse Ageu: ‘Se alguém, que ficou impuro por encostar em um cadáver, tocar alguma dessas coisas, tornar-se-á ela impura?’. Os sacerdotes responderam: ‘Tornar-se-á impura!’”. Se a transmissão da santidade exigia condições especiais, a transmissão da impureza ocorria com extrema facilidade de um para outro. Várias coisas podiam tornar alguém ritualmente impuro em Israel, impossibilitando-o de prestar culto a Deus no local devido e até de permanecer no arraial israelita. Dentre elas estava a ação de tocar em um cadáver (Nm 19.11). A hipótese de Ageu visava a uma realidade presente que parece ser o fato de que o templo em ruínas parecia jazer como um cadáver no meio da cidade, tornando-os impuros diante de Deus.[2] Por isso, o profeta completa a ideia aplicando as conclusões aos judeus (v.14): “Então, Ageu respondeu: ‘Assim é este povo e assim é esta nação diante de mim’ — declara o Senhor. ‘E assim são todas as obras das suas mãos e as coisas que eles ali apresentam: são impuras’”. Novamente Deus se refere ao povo de Judá como “este povo”, demonstrando seu tom de desaprovação com respeito ao modo como se comportaram até que os buscou por meio de Ageu em Zacarias. A frase, como um todo, revela a dupla realidade da condição dos judeus que, por um lado, eram o povo escolhido e santificado pelo Senhor, e, por outro, a nação que havia se tornado impura pelo pecado, infidelidade e descaso para com Deus. “Assim é este povo” traça um paralelo entre as duas perguntas e a condição dos judeus: eles não estavam santificados por causa da ausência do templo e encontravam-se impuros pela convivência aceitável como um cadáver simbólico na figura do templo em ruínas. Apesar de terem voltado à terra santa e à santa cidade, o fato é que eles se encontravam impuros por causa da desobediência, o que se revertia também sobre “as obras das suas mãos” em termos de colheitas insuficientes e de pobreza.[3]

Assim como nos casos previstos pela lei, a condição dos judeus da Jerusalém pós-exílica tinha consequências (v.15): “Mas agora, deste dia em diante, ponhais a vossa consciência sobre [o tempo] antes de colocardes pedra sobre pedra no templo do Senhor”. Deus ordena ao povo que olhe para trás e avalie o período antes do reinício da construção do templo. A partir desse versículo, o tempo é algo muito importante e definido no texto por causa das grandes mudanças que ocorreriam. Isso porque a pobreza e a fartura tinham relação direta com o modo de agir dos israelitas em relação a Deus e com o modo de o Senhor dispor da disciplina e da graça em relação ao povo. Sem delongas, Deus lhes explica (v.16): “Antes daquele tempo, quando alguém vinha para colher vinte feixes, só havia dez. Quando alguém vinha ao lagar para produzir cinquenta medidas de vinho, só obtinha vinte”. O Senhor lhes chama a atenção para o fato de que, por muito tempo, eles vinham produzindo menos do que esperavam e do que necessitavam para uma subsistência tranquila e aprazível. Ao associar essa condição com o tempo “antes de colocardes pedra sobre pedra”, ele cria uma relação de causa e efeito em que a carestia se devia à negligência quanto à restauração do templo.

Isso se deu foi pelo envio de agentes naturais que frustraram os trabalhos na lavoura (v.17): “Eu vos feri com pragas, com ferrugem e com granizo em todas as obras das vossas mãos e nenhum de vós voltou a mim — declara o Senhor”. O v.17 é uma citação adaptada dos dizeres do profeta Amós três séculos antes: “‘Muitas vezes castiguei os seus jardins e as suas vinhas, castiguei-os com pragas e ferrugem. Gafanhotos devoraram as suas figueiras e as suas oliveiras, e ainda assim vocês não se voltaram para mim’, declara o Senhor” (Am 4.9). A citação não visa apenas a mostrar a repetição dos infortúnios, mas também a intervenção de Deus.[4] A disciplina divina estava se repetindo porque, em ambos os casos, o povo agiu igual, sem qualquer arrependimento — “nenhum de vós voltou a mim” —, revelando a obstinação nos pecados de desobediência e negligência. Não é sem razão que eles atravessavam dias tão difíceis e amargos.

Algo que não é declarado abertamente, mas que é claro como o dia, é a condicionalidade. Fica evidente, diante da referida relação de causa e efeito que, caso o povo se arrependesse, voltando-se a Deus em obediência, temor e honra, sua nova condição espiritual produziria também uma nova condição social segundo os parâmetros da lei (Lv 26; Dt 28). Por isso, depois de descortinar a situação passada, Deus os traz a uma análise do presente (v.18): “Deste dia em diante, o vigésimo quarto dia do nono mês, ponhais a vossa consciência sobre [o tempo] desde o dia em que lançastes os fundamentos do templo do Senhor. Ponhais a vossa consciência”. É preciso, em primeiro lugar, determinar o momento que o profeta tem em mente ao se referir ao “dia em que lançastes os fundamentos”. O início do trabalho nos alicerces aconteceu alguns meses após o primeiro retorno de judeus da Babilônia, doze anos antes do ministério de Ageu (Ed 3.10).[5] Entretanto, a menção do v.18 tem relação com o reinício do trabalho a partir dos fundamentos, já que a antiga obra não havia deslanchado. Basta notar que todo o contexto trata de realidades mais imediatas. Assim, o período que está em relevo envolve os últimos três meses, desde que voltaram à reconstrução.

A análise é clara e simples (v.19a): “Ainda há grãos no celeiro? Nem a videira, ou a figueira, ou a romãzeira, ou a oliveira deram ainda frutos”. A pergunta é meramente retórica, pois eles não tinham mais nada em seus celeiros por terem tomado os últimos grãos a fim de os plantar, aproveitando o período de chuvas, na esperança de obterem logo o tão necessário alimento. Por outro lado, suas outras produções ainda aguardavam para dar a safra anual. Em resumo, eles tinham investido tudo que possuíam e ainda não tinham obtido o retorno. Ao dizer isso, talvez alguns judeus pensassem: “Que bom que o Senhor tocou nesse ponto, pois já voltamos ao trabalho e até agora nada aconteceu. Cadê a ‘causa e efeito’?”. Diante disso, o Senhor oferece a eles a “grande virada” (v.19b): “Mas a partir deste dia eu vos abençoarei”. A consequência é que os judeus, vítimas da infertilidade, seca, pragas e carestia até então, teriam uma colheita inesquecível nesse ano, a qual reverteria diametralmente as dificuldades que eles vinham enfrentando. A “grande virada” em termos de relacionamento com Deus, marcada por arrependimento e obediência, ia se encontrar com a “grande virada” socioeconômica cuja causa era a graça de Deus e seu cuidado para com seu povo amado e fiel. Com base nessa experiência, podemos até arriscar dizer que sempre que a fidelidade dos servos se encontra com a imerecida graça de Deus, há grandes mudanças.

Essa é uma lição muito atual. A igreja deve refletir em duas realidades ligadas ao seu culto a Deus. A primeira é “o que ela está oferecendo a Deus?”. A segunda é “como ela está oferecendo a Deus?”. A desobediência às orientações divinas não são prerrogativas exclusivas do povo de Israel do Antigo Testamento. Da mesma forma que aconteceu a eles, Deus não é obrigado a receber um culto falho e manchado pelo mundanismo, egoísmo e hipocrisia de pessoas mais ligadas aos próprios interesses que às orientações reveladas nas Escrituras. E pode haver, ainda hoje, uma relação de causa e efeito, ligada aos preceitos santos de Deus de obediência, temor e honra, que torne crentes relapsos alvos do tratamento disciplinar do Senhor, motivo pelo qual eles também devem “pôr sua consciência” nisso tudo. Outra lição que se deve aprender é que é mais fácil ser acometido pela impureza do mundo que pela santidade de Deus. A transmissão da impureza necessita de condições mínimas como a simples negligência ou descaso por Deus, por sua palavra e por sua vontade. Já a santidade exige determinação pessoal, disposição de coração e dependência de Deus.

Olhando para tudo isso e fazendo uma análise pessoal, tentando identificar as relações de causa e efeito no relacionamento com o Senhor — obviamente, dosadas por sua graça —, o povo de Deus deve ter como objetivo vivenciar uma “grande virada” na sua sujeição e adoração a Deus. Que o arrependimento verdadeiro, o perdão genuíno, a santidade e a fidelidade marquem a virada do nosso modo de servir a Deus! E que a graça maravilhosa do nosso Salvador seja visível e marque a virada da nossa existência nesse mundo, até que a morte ou o arrebatamento marquem a “grande virada” da nossa condição mortal de pecadores para a condição plenamente redimida da vida eterna!

Pr. Thomas Tronco
 

[1] Jesus se referiu a esse mesmo ensino em relação à santidade ligada a templo e ao culto (Mt 23.17,19).

[2] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 40.

[3] Williams, P. Opening up Haggai. Opening Up Commentary. Leominster: Day One Publications, 2008, p. 61-62.

[4] Mitchell, H. G.; Smith, J. M. P.; Bewer, J. A. A Critical and Exegetical Commentary on Haggai, Zechariah, Malachi and Jonah. Edimburgo: T & T Clark, 1912, p. 70.

[5] Alden, Robert L. “Haggai” In The Expositor's Bible Commentary: Volume 7. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1985, p. 589.

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