Segunda, 23 de Janeiro de 2017
   
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Ageu 2.20-23 - Tomando Parte na História da Redenção

 

O último parágrafo de Ageu contém o quarto sermão do profeta. Assim como nos outros, ele começa com a data (v.20): “Veio novamente a palavra do Senhor a Ageu, no vigésimo quarto dia do mês, dizendo”. O termo traduzido como “novamente” quer, literalmente, dizer “segunda [vez]” (shenît), dado ao fato de que essa mensagem veio em 18 de dezembro de 520 a.C., exatamente no mesmo dia do discurso anterior (vv.10-19). O v.20 data o sermão no vigésimo quarto dia, porém não cita o “nono mês”, mas “do mês”, mostrando se tratar de uma continuidade do que começou no v.10. Assim, podemos esperar que os dois discursos, ainda que tratem de assuntos diferentes — ou complementares —, compartilhem o mesmo propósito e aplicação diante da nação cuja responsabilidade era grande e cuja participação no plano de Deus era importante. A diferença marcante entre os dois sermões é que, enquanto o primeiro trata das bênçãos de Deus no tempo presente — que, para eles, se daria em termos de produção agrícola favorável e permissão e subsídios imperiais para o término da reconstrução do templo —, nesse sermão o assunto tem relação com as bênçãos futuras a serem promovidas pelo Messias, tanto na nação israelita como em todo mundo. A similaridade das duas mensagens, por sua vez, está no fato de ambas proverem Israel de esperança e encorajamento para servir ao Senhor sabendo que um dia receberiam tudo que lhes fora prometido.

Algo novo nessa mensagem é o destinatário. Enquanto outros discursos são endereçados às lideranças e ao povo, esse enfoca uma pessoa apenas  (v.21): “Fala a Zorobabel, governador de Judá, dizendo: ‘Eu hei de agitar os céus e a terra’”. A mensagem é dirigida a Zorobabel. Entretanto, não devemos entender que se tratasse de uma mensagem só para ele ouvir, como algo secreto. Basta notar que a mensagem foi registrada no livro de Ageu para ser lida por todos, com um caráter de mensagem pública. Assim, Zorobabel é o destinatário dos dizeres do Senhor pela função que ele ocupa na mensagem e na esperança que a profecia produziria em todo o povo. Quanto ao teor, o início da mensagem traz a repetição de um trecho do v.6: “Eu hei de agitar os céus e a terra”. Com isso, o Senhor associa essa mensagem ao segundo discurso de Ageu no qual ele garantiu que o segundo templo seria marcado por uma glória maior que a do primeiro, ideia que assume características messiânicas na esperança judaica. Pois é exatamente isso que o Senhor aborda e produz no último discurso do profeta.

Se o segundo discurso tinha uma aplicação contemporânea a Zorobabel e Ageu — no sentido de Deus prover as riquezas e recursos necessários para o término da construção — e uma aplicação futura — de natureza messiânica —, o último discurso assume um caráter puramente futuro ao descrever eventos que não ocorreram nos dias da composição do livro. O caráter mundial e radical das ações divinas previstas aqui volta nossos olhos para os eventos escatológicos (v.22): “Eu tombarei o trono dos reinos e destruirei o poder dos reinos das nações. Eu tombarei o carro e o seu condutor. Os cavalos e seus cavaleiros cairão, cada um pela espada do seu irmão”. A ideia de Deus destruir os reinados humanos já havia sido exposta de uma maneira impactante no sonho de Nabucodonosor, interpretado por Daniel, na figura de uma pedra singular que, atingindo a base da estátua, abateria todos os reinos e impérios do mundo que atravessaram a história (Dn 2.34,35). O próprio Daniel associa a subjugação das nações e o governo soberano sobre o mundo à pessoa do “Filho do Homem” (Dn 7.13,14 cf. Mc 14.61,62). Colocando em outras palavras que expressam bem a ideia pretendida pela primeira parte do texto, pode-se dizer: “Eu estou prestes a arruinar a autoridade e o poder dos reinos estrangeiros”.[1] O texto de Ageu 2.22 faz coro com a mensagem de Daniel, pois ambos tratam do futuro dos reinos gentílicos que atravessaram a história, sendo abatidos e submetidos pelo Senhor no futuro. Esse caráter futuro deve ser observado a partir da magnitude dos julgamentos anunciados nos vv.21,22 por meio de uma linguagem única que não pode ser confundida com eventos cotidianos da história.[2]

Para que fique claro não se tratar de um domínio por meras alianças políticas, tão frágeis como os ânimos de cada governante, mas de uma conquista plena, a sequência do texto coloca o abatimento dos governos das nações em termos militares como “cavalos” e “carros” de guerra, sem falar nos soldados que os utilizam. Para completar, a situação é pintada em tons caóticos ao dizer que os soldados cairão “cada um pela espada do seu irmão”. Para os judeus, tais dizeres traziam recordações de vitórias poderosas efetuadas por Deus em benefício de Israel no passado. A primeira lembrança era da batalha vencida por Gideão, o qual atacou 120 mil midianitas com apenas trezentos soldados (Jz 7.7; 8.10). Quando os soldados israelitas cercaram o acampamento de Midiã e começaram a quebrar jarros vazios, tocar trombetas e gritar (Jz 7.16-20), o Senhor promoveu uma grande confusão entre os midianitas, o que acabou levando-os a matar uns aos outros (Jz 7.22). A segunda lembrança era da tentativa frustrada de invasão dos povos amonitas, moabitas e edomitas nos dias do rei Josafá. Os exércitos dessas três nações se uniram para invadir Judá e o fizeram vindo por um caminho de onde não se esperava nenhuma invasão, de modo que se aproximaram sem ser notados até que fosse tarde demais (2Cr 20.2,10). Josafá orou (2Cr 20.5-12) e a resposta foi que o próprio Senhor venceria aquela batalha (2Cr 20.14,15). Em cumprimento a isso, Deus fez com que os exércitos amonita e moabita se voltassem contra o exército edomita e, tendo dado cabo deste, se voltassem um contra o outro de modo que todos acabaram mortos por suas próprias espadas (2Cr 20.22-24). Tanto no caso de Gideão como de Josafá, a morte dos inimigos pelas espadas uns dos outros marcou o grande poder de Deus e a grande libertação que efetuou em favor de Israel. Era exatamente algo assim que o Senhor prometeu por meio de Ageu.

Nesse momento, o Senhor se dirige a Zorobabel e faz declarações difíceis de ignorar ou de minimizar o impacto. Repetindo por três vezes a fórmula de uma declaração divina, provavelmente para render ao texto a devida confiabilidade e seriedade que ela merecia, disse Deus (v.23): “Naquele dia — declara o Senhor dos exércitos — tomar-te-ei, ó meu servo Zorobabel, filho de Sealtiel — declara o Senhor —, e colocar-te-ei como um anel de selar, pois eu escolhi a ti — declara o Senhor dos exércitos”. Zorobabel é aqui qualificado como “meu servo” em vez de “governador de Judá” (v.21). O título “meu servo” constava na mente dos judeus como um dos títulos messiânicos especialmente enfatizados por Isaías (Is 42.1-7; 49.6,7; 52.13-15; 53.11,12). Essa mudança de tratamento de Zorobabel não é mera questão de estilo literário. A julgar pelo que foi dito no versículo anterior e pela menção de um dia futuro quando tudo isso seria efetivado — “naquele dia” —, a pessoa e a função de Zorobabel aqui devem ser mais bem investigada, pois os eventos preditos não se cumpriram nos seus dias e, na verdade, ainda aguardam cumprimento. Ao que tudo indica, o profeta Ageu faz um uso tipológico da pessoa de Zorobabel, assim como outros profetas o fazem em relação a Davi.

Ezequiel, falando da restauração futura de Israel, diz: “O meu servo Davi será rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor. Seguirão as minhas leis e terão o cuidado de obedecer aos meus decretos” (Ez 37.24; ver também 34.23,24). Tal promessa vislumbra seu cumprimento não na pessoa de Davi, mas de um descendente dele (Jr 23.5). Jeremias, a exemplo de Ezequiel, faz uso tipológico de Davi para se referir ao Messias nos dias escatológicos (Jr 30.8.9), talvez seguindo o profeta Oseias (Os 3.5). Dada a promessa de um descendente de Davi que reinará para sempre (2Sm 7.16 cf. Is 11.1-5; 55.3,4), o Novo Testamento identifica esse “Davi”, tipologicamente falando, com Jesus (Lc 1.32; Ap 22.16). o Texto de Ageu 2.23 parece fazer o mesmo com Zorobabel e, por isso, o chama de “meu servo” em vez de “governador de Judá”. Zorobabel era descendente de Davi e também faz parte da linhagem de Jesus (Mt 1.13; Lc 3.27), sendo, assim, um elo davídico na corrente messiânica.[3] Assim como Davi, por ser rei, nascido em Belém, descendente de Judá e um homem levantado por Deus, representava tipologicamente Jesus, Zorobabel também o fazia por ser descendente de Davi e o responsável pelo retorno dos judeus do cativeiro e pela reconstrução da nação. Desse modo, tanto Davi como Zorobabel representavam funções que serão desenvolvidas plenamente pelo Messias no futuro, quando vier pela segunda vez a fim de reinar. Assim, as declarações ligadas a Zorobabel no v.23 se aplicam perfeitamente a Jesus, o “escolhido” de Deus” (Is 42.1)

Entre as menções emblemáticas de um líder tomado, escolhido e posto por Deus para restaurar plenamente a Israel e submeter as nações, há algo digno de nota na figura de um “anel de selar”. Tratava-se de um artefato usado pela realeza como uma marca da função monárquica e como autenticador de documentos.[4] Exemplo disso se vê quando o faraó dá a José seu anel de selar para lhe conferir autoridade diante do povo (Gn 41.41,42) ou quando o anel do rei Acabe é usado para autenticar algumas cartas em seu nome (1Rs 21.8). O selo real era algo tão importante que, por causa do perigo de cair em mãos erradas e ser utilizado de forma indevida, ficava o tempo todo com o monarca, provável razão pela qual era utilizado na forma de um anel. A razão de isso ser colocado no último versículo de Ageu se deve ao fato de que Joaquim, também chamado de Conias (Jr 37.1) e de Jeconias (Jr 22.24,28), que era avô de Zorobabel (1Cr 3.17-19; Mt 1.12) e penúltimo rei de Judá, foi chamado de um “anel de selar” tirado das mãos do Senhor, ou seja, rejeitado como rei e entregue aos inimigos (Jr 22.24,25). Depois de reinar apenas três meses em 598 a.C., ele foi levado para Babilônia e lá deu sequência à linhagem davídica da qual veio Zorobabel e, posteriormente, Jesus (Mt 1.11). Teologicamente, Joaquim representa a queda temporária do trono da casa de Davi sobre Israel. De fato, depois de Zedequias, irmão de Joaquim, ter sido deposto do trono em 587 a.C., nunca mais um descendente de Davi foi rei em Israel. Mas, assim como Zedequias, que teve seus olhos vazados (Jr 39.7 cf. Mq 5.1), será sucedido no trono por Jesus, o rei eterno que nasceu em Belém (Mq 5.2), Joaquim, o “anel de selar” rejeitado, será sucedido pelo descendente de Zorobabel em quem a sentença de Joaquim é suspensa[5] e de quem se diz “colocar-te-ei como um anel de selar, pois eu escolhi a ti”. Por isso, Zorobabel tipifica aqui o retorno da linhagem messiânica interrompida pelo exílio.[6] Desse modo, o v.23 traz à atenção dos judeus dos dias de Ageu que, depois de eles reconstruírem o templo, o Senhor não restauraria apenas a nação, mas também o trono de Israel sob a linhagem de Davi.

Que mensagem encorajadora para um povo que tinha tanto trabalho pela frente e tantos impedimentos a serem transpostos! Para eles, ouvir essa mensagem fez surgir um novo sentido no trabalho de reconstrução do templo, pois todas essas promessas seriam cumpridas depois da obra concluída. Independente de haver um grande intervalo entre o término da reconstrução e a vinda do Messias para restaurar o coração do povo, promover a independência nacional, garantir o domínio da terra prometida e reerguer o trono davídico, o fato é que aqueles judeus estavam fazendo parte desse processo. O povo, ao edificar aquele templo, estava tomando parte na história da redenção. A esperança futura dava um novo significado e um ânimo redobrado para prosseguirem na tarefa ordenada por Deus.

A igreja vive uma realidade semelhante. Ela também tem uma parte a cumprir no plano de Deus e na história da redenção. Em certos aspectos, a missão da igreja se torna bastante parecida com a obrigação dos israelitas, configurando assim o dever de todo servo de Deus de todas as eras: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9; comparar com Êx 19.5,6). Por isso, toda vez que somos chamados à obediência por meio das Escrituras, devemos imediatamente tomar nosso posto nesse exército que serve a Deus. Não importa o tamanho da obra, seja grande demais, nos fazendo perder a coragem, ou pequena demais, nos sugerindo que não vale a pena fazer. Também não importa se nosso Senhor está para voltar hoje ou daqui a mil anos. Nosso dever diante de Deus faz parte de tudo que o Senhor está fazendo na promoção da redenção do pecador, na glorificação do seu nome e na expansão do seu reino. Obedecê-lo significa tomar parte em uma obra maravilhosa cujo fim é certo e vitorioso. Portanto, três palavras devem representar nossa disposição presente: coragem, fidelidade e esperança!

Pr. Thomas Tronco


[1] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Haggai. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 61.

[2] Taylor, R. A.; Clendenen, E. R. 2004. Haggai, Malachi. The New American Commentary. Vol. 21A. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 2004, p. 194-195.

[3] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 782.

[4] Williams, P. Opening up Haggai. Opening Up Commentary. Leominster: Day One Publications, 2008, p. 70.

[5] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 43.

[6] Alden, Robert L. “Haggai” In The Expositor's Bible Commentary: Volume 7, 567-588. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1985, p. 591.

 

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