Domingo, 17 de Dezembro de 2017
   
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A Epístola aos Gálatas - Introdução ao Livro

 

AUTORIA, DATA E DESTINATÁRIOS

A epístola aos Gálatas foi escrita pelo apóstolo Paulo. Ainda que um pequeno grupo de críticos tenha levantado objeções contra a origem paulina, as evidências internas apontam claramente para Paulo como o autor dessa carta (Cf. 1.1). Na verdade, o calor e a autoridade com que a epístola trata do problema dos falsos mestres, considerando-os uma terrível ameaça contra o evangelho e contra a própria igreja, são características próprias de um missionário e líder zeloso, que se vê no dever de cuidar daqueles que são fruto de seu trabalho, o que reforça o argumento em prol de Paulo. Frise-se ainda que uma porção proporcionalmente grande da carta é autobiográfica (1.13 – 2. 13), o que logicamente esvazia de propósito a autoria de outra pessoa qualquer.

Paulo escreveu aos Gálatas no ano 48 d.C., um pouco antes do Concílio de Jerusalém, ocorrido no mesmo ano (At 15). A falta de menção das decisões do concílio, decisões essas que seriam tão úteis aos propósitos da epístola, é prova cabal em favor da data mencionada, ainda que haja quem situe a composição em 57 ou  58 d.C, entendendo que em 2.1-10, Paulo faz alusão às conclusões conciliares de Atos 15.[1]

A data mais antiga, se aceita, coloca a composição da carta, num período após o fim da primeira viagem missionária de Paulo (At 13-14), depois dele e Barnabé terem visitado pela segunda vez o sul da Galácia (At 14.21-23).[2] O local em que Paulo escreveu é difícil, senão impossível, de precisar.

Quanto aos destinatários, muita tinta tem sido gasta na defesa de duas opiniões distintas. A primeira entende que Paulo escreveu aos gálatas étnicos que viviam no norte da província. Porém, parece certo que o apóstolo jamais visitou essa região. A segundo opinião, aparentemente melhor fundamentada, entende que os destinatários eram pessoas de várias raças que ocupavam a região sul da Galácia, visitada por Paulo em sua primeira viagem missionária (At 13-14).[3]

Paulo, portanto, teria escrito sua carta aos crentes de Antioquia da Pisídia (próxima à fronteira da Galácia), Listra, Icônio e Derbe. As igrejas dessas cidades, conforme veremos, estavam sofrendo influência de mestres judaizantes (6.12-13) que, para obterem sucesso em seus objetivos, tentavam desacreditar o Apóstolo Paulo (4.17). Conforme se depreende da epístola, os galateus se tornaram vulneráveis a esses ataques (3.1), revelando forte atração por um sistema religioso cuja essência não ultrapassava o dever de cumprimento de meras exigências externas (4.10-11; 5.2).

 

OCASIÃO E PROPÓSITO

O que foi dito acima acerca dos destinatários fornece os elementos do cenário que motivou Paulo a escrever sua epístola. De fato, fica claro em toda a carta que os crentes da Galácia estavam acolhendo os ensinos de mestres judaizantes que afirmavam a necessidade dos cristãos se submeterem à lei judaica. Mesmo sendo provavelmente em sua maioria gentios (Cf. At 13.46-52), aqueles crentes viram certo atrativo na mensagem dos mestres legalistas.

Quem eram, afinal, aqueles mestres? Tudo indica que eram cristãos judeus com uma compreensão defeituosa do evangelho, confundindo-o com um judaísmo alterado por certos acréscimos. Pelo modo como Paulo se refere a eles, parece que não pertenciam às igrejas destinatárias, sendo procedentes de fora (Veja 1.7, 9; 4.17; 5.10). Talvez viessem da Judéia, onde encontramos judeus cristãos com uma compreensão do evangelho que parece idêntica à dos falsos mestres sobre quem Paulo escreve (At 11.1-3; 15.5). Em Atos 15.1 vemos que alguns desses cristãos judeus eram propagadores ativos do evangelho legalista, visitando crentes gentios de outras cidades a fim de convencê-los a se submeter à lei mosaica (Veja tb. At 15.23-24). Parece certo, portanto, que Paulo se refere a essas pessoas quando escreve aos Gálatas.

 Os discursos dos mestres judaizantes, conforme se depreende da epístola, abrangiam ataques contra a autoridade apostólica de Paulo, levando-o a defender-se (1.1, 11-12; 2.6-9, 11). Esses ataques também eram dirigidos contra a mensagem paulina, acusando-a de incentivadora de uma vida desregrada. Aliás, é possível que alguns crentes galateus tenham de fato visto a mensagem do evangelho da graça como uma licença para a libertinagem (5.13, 19-21; 6.8). Ademais, os mestres judaizantes acusavam Paulo de apresentar uma mensagem vacilante que pregava a circuncisão quando isso era conveniente (1.10; 5.11).

Também em seus discursos os mestres do evangelho legalista insistiam na necessidade da circuncisão (5.2-6; 6.12-13), bem como na guarda da lei mosaica (4.10, 21). Segundo eles, a justificação não seria possível caso, além da fé em Cristo, os preceitos mosaicos não fossem rigidamente observados (5.4). Para Paulo, tudo isso descaracterizava o evangelho a tal ponto que seu produto não podia, de modo algum, ser chamado de evangelho (1.6-7). Para ele, segundo parece, os proponentes dessa soteriologia legalista, sequer deveriam ser considerados crentes, posto que eram dignos de ser amaldiçoados (1.8-9).

A partir da observação do contexto que subjaz e dá motivo à composição da carta, fica fácil concluir que o propósito de Paulo nessa epístola é protestar contra a distorção do evangelho em seu ponto essencial, a saber, a justificação unicamente pela fé, defendendo assim a mensagem e a liberdade cristãs diante dos ataques do legalismo. 

Não se pode, porém, dizer que esse propósito era a meta final e única que o Apóstolo tinha em mente ao escrever sua primeira epístola. Na verdade, a meta teológica supra mencionada era também um instrumento para a consecução de um alvo vivencial. De fato, Paulo afirma a liberdade do crente em relação à Lei não somente para realçar a justificação unicamente pela fé, mas também, e talvez principalmente, para ensinar que a maturidade cristã autêntica não pode ser construída através da obediência mecânica a um conjunto de regras (Gl 3.3). Antes, é alcançada por meio da obra do Espírito Santo na vida de quem foi redimido pela fé. Sob a esfera, influência e controle do Espírito, o homem justificado é capacitado a viver aquela real santidade que o simples esforço pessoal, ainda que sincero, jamais será capaz de produzir (Gl 5.16-18, 22-26). Assim, um segundo propósito igualmente importante em Gálatas é desmascarar a falso conceito que reduz a vida cristã à mera obediência estéril de normas exteriores, demonstrando que o aperfeiçoamento do caráter do crente só ocorre por obra do Espírito Santo na vida daqueles que, salvos pela fé, se submetem ao seu domínio.

 

CONTRIBUIÇÃO PARA A DOUTRINA CRISTÃ

Gálatas resume a essência do evangelho pregado por Paulo aos gentios, mostrando que o homem, por seu esforço pessoal, não pode jamais resolver o problema da culpa que lhe foi imposta e que o separa de Deus, restando-lhe apenas a fé em Cristo como meio de justificação (2.16).

Além disso, Gálatas mostra que essa fé que justifica, não apenas leva o crente a desfrutar de um novo status diante de Deus, mas também o livra da viver vazio e corrupto próprio dos homens deste mundo (1.4) e o capacita a andar sob a influência e controle do Senhor que agora nele habita (2.20).

Assim, a ética cristã também recebe forte contribuição da Carta aos Gálatas. Nela aprendemos que a liberdade do crente não é liberdade sem fronteiras, mas sim, uma liberdade limitada pelo amor (5.13) e pela influência do Espírito Santo (5.16-26).

Finalmente, não se pode deixar passar em branco a contribuição de 3.13 para a compreensão dos limites da morte substitutiva de Cristo. Ele nos substituiu até o ponto de fazer-se “maldição em nosso lugar”, o que aponta para o estado deplorável em que nos encontrávamos antes de conhecer a salvação, além de mostrar a profundidade do abismo a que Cristo desceu para nos buscar.

Pr. Marcos Granconato



[1] Os que situam a produção da carta em 48 d.C. vêem 2.1-10 como uma passagem que se refere à visita de Paulo a Jerusalém mencionada em Atos 11.27-30, e não ao Concílio de Jerusalém que, segundo essa corrente, estava ainda prestes a acontecer quando a epístola foi escrita.

[2] Na epístola aos Gálatas, Paulo faz alusão ao seu trabalho naquelas regiões em 4.13-14.

[3] Os destinatários, segundo parece, conheciam Barnabé, o companheiro de Paulo em sua primeira viagem missionária (Cf. 2.1,9,13). Como já dito, essa viagem abrangeu a região sul da Galácia.

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