Segunda, 11 de Dezembro de 2017
   
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Gálatas 1.11-24 - A Origem Divina do Evangelho

O texto que se passa agora a analisar compõe uma grande seção autobiográfica em que Paulo narra parte de sua trajetória tanto dentro do judaísmo como do cristianismo. Seu propósito é claramente oferecer elementos históricos que comprovem a sua autoridade apostólica que, como se sabe, estava sendo atacada pelos falsos mestres que atuavam dentro das igrejas da Galácia.

Paulo inicia esclarecendo que o evangelho que pregava não era de origem humana (11). É evidente que sua intenção ao alertar os galateus acerca disso era criar em suas mentes uma idéia de contraste entre o que lhes anunciara no princípio e o que eles estavam agora ouvindo dos mestres judaizantes. Há, portanto, aqui a acusação implícita de que a mensagem dos legalistas não passava de algo criado por eles mesmos.

Do que foi dito acima, facilmente se depreende uma característica típica das falsas religiões: suas crenças, ensinos, rituais e práticas são apenas produto da fértil imaginação de seus fundadores e líderes. Em contrapartida, o seguinte fato sobre a verdadeira religião deve enraizar-se fortemente em nosso coração: a religião genuína é dada, não construída. É Deus quem a revela; não é o homem que a inventa. Esse é o motivo pelo qual não podemos fazer alterações no cristianismo. Não fomos nós que o criamos e, portanto, não temos o direito de alterá-lo. Se quisermos recebê-lo, temos que aceitá-lo como ele é.[1]

No v. 12, Paulo desenvolve ainda mais o ensino de que o evangelho que pregava não se originou em homens. Primeiramente afirma que não o recebeu de ninguém e que nenhuma pessoa o ensinou. Nessas palavras pode-se vislumbrar um dos traços do verdadeiro apostolado que Paulo reivindicava de modo tão veemente: o apóstolo de Cristo não aprendia a mensagem que pregava com outros homens. Essa mensagem lhe era dada diretamente pelo Cristo ressurreto (1.1; 1Co 11.23ss). Esse é um dos principais pontos de distinção entre os apóstolos de Cristo e os crentes comuns, já que estes recebem ou aprendem o evangelho de um outro cristão que se dispõe a pregar (1Co 15.1,3). Essa também é uma das razões pelas quais podemos afirmar que não existem mais apóstolos hoje, uma vez que ninguém mais pode alegar com sã consciência que aprendeu o evangelho sem a mediação humana.

Paulo completa o v.12 com a declaração aberta de que recebeu o evangelho do próprio Jesus Cristo “por revelação”. Enquanto os galateus tinham recebido o evangelho pela pregação (3.1-2; 4.13), Paulo o recebera através de uma manifestação especial de Deus, uma revelação (Ef 3.2-4). Assim foi com os demais apóstolos e profetas do período neotestamentário (Ef 3.5) e Paulo realçava essa experiência a fim de defender a sua autoridade apostólica (1.15-16; 1Co 2.9-13).

O Apóstolo passa agora a narrar a mudança dramática que se operou em sua vida após ter conhecido a Cristo. Ele quer demonstrar com a exposição desses fatos o grande impacto que o evangelho que pregava causou em sua própria história. É evidente que uma transformação tão profunda não podia ser procedente de uma mensagem que o próprio apóstolo houvesse dolosamente inventado. Para Paulo, ele mesmo era a prova viva da origem sobrenatural da mensagem que anunciava. De fato, só uma mensagem oriunda de fontes celestes poderia transformar o mais cruel dos inimigos da igreja no apóstolo dos gentios, talvez o maior cristão que já pisou neste mundo.

 No v. 13, Paulo afirma que os galateus ouviram acerca do seu procedimento no judaísmo, “como perseguia com violência a igreja de Deus, procurando destruí-la”. Algumas informações sobre a ferocidade com que Saulo de Tarso investia contra os crentes podem ser deduzidas de Atos 8.1-3; 9.1-2, 13-14; 22.4-5; 26.9-11; 1Coríntios 15.9; e 1Timóteo 1.13-16.

Esses textos, associados ao versículo em análise, mostram que o alvo maior dos inimigos da fé, entre os quais Paulo um dia foi contado, é nitidamente destruir a igreja. Essa verdade deve preocupar os crentes. Não por nutrirem medo de que a igreja um dia seja aniquilada. É sabido, e a própria história comprova, que isso é impossível (Mt 16.18; 1Pe 5.8-11). Contudo, o anseio de destruir a igreja, típico dos inimigos de Cristo, deve preocupar o crente no sentido de evitar agir também nessa direção. Na verdade, todas as ações dos cristãos devem ser avaliadas à luz do tipo de impacto que elas porventura causarão sobre a igreja de Deus. Qualquer ação ou omissão que a enfraqueça deve causar-nos pavor, uma vez que nos torna cooperadores dos adversários da família de Deus.

Se de um lado Paulo era severo na perseguição do cristianismo, de outro era também severo no cuidado pelo judaísmo (14). Na verdade, Saulo de Tarso juntamente com as autoridades judaicas e romanas, não via o cristianismo como uma religião autônoma.[2] Para eles, o cristianismo era apenas o judaísmo “corrompido” pela idéia de que Jesus era o Messias prometido nas páginas do AT. A perseguição promovida por Saulo, portanto, tinha como alvo purgar a religião de seus antepassados dos “desvios” anunciados pelos cristãos. Assim, sua perseguição era fruto de zelo religioso extremado (Fp 3.6). De fato, Saulo amava o judaísmo e queria livrá-lo de supostas contaminações (1Tm 1.13).

A menção desse zelo anterior de Paulo pelo judaísmo é extremamente útil para os seus propósitos na Carta aos Gálatas. Isso porque, como se sabe, os falsos mestres que atuavam na Galácia se apresentavam como grandes observadores da lei mosaica[3], exigindo que os crentes se submetessem ao jugo judaico e acusando Paulo de ter uma mente apegada ao desregramento.  A fim de expor a loucura que tudo isso representava, o Apóstolo mostra que ele sim havia sido um real observador da Lei, não do tipo que tentava ser amigo dos cristãos (como os falsos mestres), mas como alguém indisposto a tolerar qualquer sombra que nublasse o centro de suas convicções religiosas. Paulo afirma que foi um observador da Lei sem igual entre os judeus de sua idade, zelando extremamente pelas tradições de seus antepassados.[4]

O apóstolo quer com isso, indiretamente dizer: “Eu já percorri com todo o empenho o caminho no qual vocês e esses tais mestres estão agora engatinhando e sei que é um caminho inútil, incapaz de salvar. Toda a minha trajetória mostra o quanto fui zeloso dessas coisas que hoje atraem tanto vocês. Fui autoridade nisso tudo e agora, como Apóstolo, sou autoridade no caminho novo do Evangelho de Cristo. Por isso, creiam-me: não há relação alguma entre o Evangelho de Cristo e o legalismo judaico. Conheço muito bem o primeiro e conheci muito bem o último. Sei que aquele é poderoso para salvar e que o último só escraviza”.Uma linha semelhante de pensamento pode ser vislumbrada em Filipenses 3.4-9.

No v. 15, Paulo contrasta a vida que tinha no judaísmo com uma nova e gloriosa etapa; uma etapa de serviço a Cristo, serviço esse marcado por prontidão em obedecê-lo (16) e independência dos líderes de Jerusalém (17).  Ao iniciar esse assunto, o Apóstolo cita apenas de passagem a causa primária que o lançou nesse ministério. Segundo ele, o próprio Deus o separou desde o ventre materno e o chamou por sua graça.

A menção desses mistérios é muito propícia neste ponto. Evidentemente a meta de Paulo ao mencioná-los é demonstrar a origem sobrenatural de seu chamado e assim neutralizar os ataques que os falsos mestres faziam contra a autenticidade de seu apostolado. De fato, ao dizer que Deus o separou desde o ventre materno, além de ensinar num breve lampejo a predeterminação divina, também eleva seu ministério ao nível dos mais eminentes servos de Deus do Antigo Testamento (Is 49.1; Jr 1.4-5), o que deveria inspirar temor e honra nos galateus que estavam vacilantes quanto à sua opinião acerca de seu pai espiritual (Ver tb. Rm 1.1).

Ademais, ao dizer que Deus o chamou por sua graça, golpeia o ensino dos falsos mestres no próprio coração, pois está com isso dizendo que seu zelo pela Lei e tradições judaicas, em nada influiu na obtenção do favor com que foi aquinhoado pelo Senhor. Na verdade, foi unicamente pela graça de Deus que alcançou o privilégio de ser contado entre os ministros do Evangelho. Resumindo, Deus chamou Paulo por sua graça, não em virtude de seu zelo pregresso na prática do judaísmo. 

Assim, com uma linha apenas, Paulo destrói as duas principais mentiras que emanavam da boca dos judaizantes: a de que Paulo era um falso apóstolo, e a de que a prática da Lei era fundamental para a obtenção do favor divino.

O v. 16 termina o pensamento que a má divisão dos versículos deixou incompleto no verso anterior. Houve um momento que o Deus que separou Paulo antes dele nascer e o chamou por sua graça, também lhe revelou seu Filho.[5] Tal revelação, conforme se depreende do texto, foi especialmente feita com o propósito de habilitar Paulo como pregador aos gentios.

É pouco provável, portanto, que o apóstolo esteja se referindo aqui à sua experiência no caminho de Damasco. Certamente alude a outra ocasião em que o Senhor revelou-se a ele de forma visível e gloriosa, provavelmente nas regiões da Arábia mencionada no v. 17, desvendando-lhe os mistérios que deveria anunciar e escrever (Ver vv. 11-12; 2Co 12.1,7; Ef 3.2-3) e incumbindo-o da pregação aos povos de todo o mundo (Rm 1.5, 14).[6]

Aqui vemos, pois, um importante processo: O Deus que separa e chama é também o Deus que capacita para a obra. Dele é o plano ao escolher; dele é a voz ao chamar, e dele são os recursos ao tornar seu servo pronto para o serviço. Aliás, essa verdade deve ser gravada de forma indelével na mente de todo o que trabalha em prol do Reino de Cristo, pois o resultado de sua assimilação será gratidão por ser contado entre aqueles que o Senhor preparou, prontidão por saber que é o próprio Deus quem chama, e coragem advinda da certeza de que é o Chefe Onipotente quem nos capacita.   

Tais foram as disposições presentes no Apóstolo. Tanto que, ao ver-se encarregado dos grandes mistérios e deveres dados por Deus, não consultou “pessoa alguma”!

Paulo prossegue afirmando, no v. 17, que ao tempo do seu chamado não subiu a Jerusalém para ver os que já eram apóstolos antes dele. Sua intenção aqui é reforçar ainda mais a alegação de que não aprendeu a mensagem que pregava com homem algum (cf. vv. 11-12). Nem mesmo os apóstolos de Jerusalém lhe haviam transmitido essa mensagem. Nem tampouco acrescentaram algo a ela ou tiveram que corrigi-la em algum ponto. Paulo insiste em sua defesa contra os falsos mestres alegando que é um apóstolo genuíno, ou seja, alguém que recebeu sua mensagem diretamente do Cristo ressurreto, sem qualquer mediação humana.

Diz ainda o Apóstolo que, quando da sua vocação, em vez de consultar os líderes de Jerusalém, partiu para a Arábia e depois voltou outra vez para Damasco. A Arábia era o reino de Aretas (2Co 11.32) que abrangia as regiões a leste de Damasco, estendendo-se em direção ao sul sobre a Transjordânia e abarcando toda a Península do Sinai (4.25) até Suez. Paulo foi para algum lugar dentro desses limites e depois voltou para Damasco. Certamente se isolou naquelas regiões a fim de refletir sobre tudo o que lhe acontecera e também para receber capacitação de Deus para a pregação. Essa ida de Paulo para as regiões da Arábia não é mencionada no livro de Atos, mas é provável que se situe entre os versículos 19 e 20 de Atos 9, o que, se for aceito, coloca a ida à Arábia antes do início de seu ministério como pregador.  

No v.18 o apóstolo diz que foi a Jerusalém somente três anos depois dos eventos narrados. Talvez ele tenha passado todo esse tempo pregando em Damasco (Veja em At 9.23 a expressão “decorridos muitos dias”). Então, como não pudesse mais permanecer ali sem correr grave perigo, fugiu (At 9.23-25; 2Co 11.32-33) e aproveitou a oportunidade para seguir até a Palestina, onde poderia finalmente conhecer Pedro.

Com a ajuda de Barnabé (At 9.26-27), Paulo chegou a Pedro e permaneceu com ele apenas quinze dias, o que seria insuficiente se tivesse ido ali para receber qualquer treinamento nas funções que desempenhava. Ademais, acrescenta sob juramento (20) que não viu nenhum dos outros apóstolos, exceto Tiago, irmão do Senhor.[7] Assim, mais uma vez Paulo destaca que não era um apóstolo de “segunda categoria” como diziam seus oponentes. Antes, como ocorrera com os seus colegas de Jerusalém, havia recebido o múnus apostólico diretamente de Jesus Cristo ressurreto (1Co 9.1-2).    

Depois de ter estado em Jerusalém, Paulo foi para a Síria e Cilícia (21). A descrição desses fatos encaixa-se na narrativa de Atos 9.29-30. Nesse texto aprendemos que em Jerusalém Paulo corria perigo e, por isso, foi enviado para a Cilícia (sudeste da atual Turquia), mais especificamente para Tarso, sua cidade natal (At 21.39; 22.3). Foi nessa cidade que, mais tarde, Barnabé, saindo à sua procura, o encontrou. Ele então levou-o até a recém formada igreja de Antioquia que, finalmente, enviou ambos para a Primeira Viagem Missionária (At 11.22-26; 13.1-2).

O que Paulo diz nos vv. 22-24 mostra que ele não visitou as igrejas da Judéia. Seu objetivo é dar provas ainda mais fortes de que seu contato com a área de influência dos apóstolos de Jerusalém foi praticamente inexistente, sendo certo que sua “formação” apostólica não dependeu de Pedro ou de qualquer outro líder influente de Jerusalém.

Ao afirmar isso, refere-se às igrejas da Judéia como estando “em Cristo”, o que significa estar sob a autoridade e sob a esfera de influência do Senhor ressurreto. Aqui é importante destacar que não são todas as igrejas da atualidade que podem ser qualificadas desse modo. Qualquer grupo que se apresente como igreja de Cristo, para que honre esse título deve curvar-se ao senhorio de Jesus, ser sensível à sua mensagem proclamada na Escritura, e buscar a sua presença atuante em seu meio. É somente com esses traços que uma igreja pode dizer que está em Cristo.

Paulo destaca que, mesmo não tendo visitado aquelas igrejas, sua fama corria entre elas, de modo que, perplexas, diziam: “Aquele que antes nos perseguia, agora está anunciando a fé que outrora procurava destruir” (23); e louvavam a Deus por causa dele. Assim, o grande Apóstolo mostra como ele que inspirava terror passou a inspirar louvor; como ele que arrancava gemidos de angústia passou a estimular orações de gratidão. Com isso Paulo quer mostrar que mesmo igrejas que não o conheciam pessoalmente, ao menos reconheciam sua conversão e trabalho e com isso se alegravam. Quanto mais não deveriam os galateus também honrá-lo, já que o conheciam de perto e eram fruto do seu próprio empenho!

Pr. Marcos Granconato 



[1] No Catolicismo Romano encontramos a mais rica fonte de invenções humanas associadas ao termo “cristianismo”. Doutrinas como a da imaculada conceição de Maria, da transubstanciação, da intercessão dos santos, da infalibilidade papal, da adoração da virgem, da canonização de pessoas mortas, entre inúmeras outras não têm nenhum amparo na Sagrada Escritura, sendo antes mitos inventados por mentes corrompidas. Coisas do gênero devem ser rejeitadas com todo o vigor pelos cristãos genuínos.

[2] Somente a partir da destruição de Jerusalém pelo General Tito, em 70DC, o cristianismo passou a revelar sua autonomia como modelo religioso independente.

[3] Essa imagem passada pelos mestres judaizantes era flagrantemente falsa, cf. 6.12-13.

[4] Essas tradições eram comentários e aplicações da Lei de Moisés à vida diária que, a partir do Exílio Babilônico (605 aC – 535 aC) eram transmitidos oralmente pelos judeus às gerações que se sucediam. Jesus censurou severamente a prática de colocá-las acima da Palavra de Deus (Mt 15.1-6).

[5] A expressão “em mim” transmite a idéia de que a revelação foi dada a Paulo de modo pessoal e íntimo. Calvino sugere que a tradução “a mim” é possível (CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Parácletos, 1998. p. 42).

[6] Deve ser admitido, porém, que a incumbência de pregar lhe fora dada já no caminho de Damasco (At 26.15-18).

[7] Tiago, o meio irmão do Senhor, não era um dos Doze. Aparentemente ele é incluído aqui entre os apóstolos em virtude de sua posição de preeminência na igreja de Jerusalém (At 12.17; 15.13ss; 21.17-18; Gl 2.9,12), bem como por sua relação singular de parentesco com o próprio Senhor, além do fato de ter visto Cristo ressurreto (1Co 15.7). Ademais, é possível entender o termo “apóstolo” num sentido não técnico quando aplicado a Tiago, ou seja, apenas como um “mensageiro de Cristo” (Esse uso é aplicado a Barnabé em At 14.14). Sabe-se que para ser apóstolo no sentido que Paulo aplicava o termo a si próprio era preciso não só ver Cristo ressurreto (1Co 9.1-2), mas também receber diretamente dele a função de mensageiro (Mt 28.16-20; Lc 6.13; Gl 1.1), as revelações dos mistérios divinos a serem anunciados (2Co 12.7; Gl 1.11-12; Ef 3.2-6) e o poder de realizar milagres (2Co 12.12).

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