Terça, 28 de Fevereiro de 2017
   
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Gálatas 6.1-5 - Cuidando dos Outros e de Si Mesmo

 

A partir da análise do Fruto do Espírito em contraste com as obras da carne descobre-se que a vida cristã tem uma dimensão marcantemente relacional. O homem espiritual apresenta marcas de caráter que se manifestam especialmente no trato com as pessoas ao seu redor. Assim, nas orientações constantes do início do capítulo 6, Paulo ainda mantém o foco nesse aspecto da vida de quem anda no Espírito, apontando agora a forma correta de lidar com o irmão que cai no erro.

No versículo 1 Paulo se dirige aos “irmãos”, ou seja, àqueles que partilhavam com ele da genuína fé cristã. Como se sabe, nem todos nas igrejas da Galácia podiam ser classificados desse modo (5.4). Por isso, o Apóstolo aponta com maior clareza a quem se dirigem as orientações que está prestes a transmitir.

O parágrafo começa com uma hipótese: “se alguém for surpreendido em algum pecado” (NVI). É provável que essas palavras vislumbrem a possibilidade de, na dinâmica dos relacionamentos entre os crentes, acontecer de um irmão flagrar outro praticando uma das “obras da carne”. De fato, o verbo que Paulo usa aqui (προλαμβάνω) traduzido nas bíblias em português como “surpreender”, aponta fortemente para o sentido de pegar de surpresa. Há também, contudo, a possibilidade da hipótese referir-se a alguém que foi pego de surpresa pelo próprio pecado, caindo repentinamente.[1]

Seja qual for o caso que Paulo tinha em mente, o fato é que a questão que levanta se refere a alguém que cometeu uma falta. A palavra que Paulo usa aqui para se referir ao pecado (παράπτωμα) significa “passo em falso”. Denota a situação de quem, numa caminhada, desliza e cai para o lado. Desse modo, tudo indica que Paulo não está tratando aqui do pecador contumaz ou do homem obstinado na prática do mal. Antes, tem os olhos voltados para o crente sincero que, ao longo da jornada, tropeça em virtude do cansaço, da sua própria fraqueza ou do peso das circunstâncias.

Diante de um irmão nessas condições, os que são “espirituais” (πνευματικοὶ), ou seja, os que vivem no Espírito e andam no Espírito (5.25), mantendo-se debaixo de sua influência e controle[2], têm o dever de corrigi-lo (καταρτίζω), isto é, atuar como restauradores de sua vida prejudicada por conta da má conduta. De fato, corrigir aqui tem o sentido de reparar algo quebrado[3], o que mostra que um dos deveres mais nobres do crente maduro é recuperar um irmão que, ao dar um passo em falso, caiu e sofreu graves danos. Evocando ainda as virtudes do Fruto do Espírito, Paulo ensina que esse trabalho de recuperação deve ser feito com espírito de brandura, ou seja, com a mansidão (πραΰτης) que mencionou em 5.23.

Os crentes “espirituais”, ou seja, os responsáveis pela recuperação de um irmão que pecou, não são pessoas livres do perigo da queda. Por isso, Paulo se dirige, anda no v.1, a esses irmãos, orientando-os no sentido de evitar qualquer tentação que os leve à prática do mal. Segundo Paulo, o crente deve vigiar (σκοπέω), ficar atento, observar cuidadosamente as circunstâncias ao seu redor e, dessa forma, detectar os momentos, os lugares e as áreas em que a tentação pode surgir para, então, evitá-la. Aliás, muitas vidas não teriam se arruinado se tivessem sido mais cautelosas, detectando as fontes de tentação e fugindo delas. Assim, os crentes, mesmo os mais maduros (aliás, lembremos que Paulo se dirige exatamente a esses aqui), não devem se expor ao perigo. A vigilância é o preço que se paga pela pureza.

No v. 2 Paulo ensina que na igreja as pessoas devem levar as cargas umas das outras. Carga (βάρος) sugere um peso excessivo, difícil de carregar e capaz de prostrar quem está sob ele. O contexto aqui aponta para os fardos que um irmão carrega em decorrência de sua fraqueza moral e do pecado em que caiu. Os galateus, preocupados em observar aspectos exteriores da Lei Mosaica, deixavam de lado o cuidado fraternal (5.15,26). Paulo, então, oferece a eles que tanto valorizam a Lei, uma outra lei: a Lei de Cristo. De fato, o Senhor enunciou aos seus discípulos um novo mandamento. Ele disse: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros.” (Jo 13.34. Veja-se tb. Jo 15.12,17). Para Paulo o cumprimento dessa ordem transcende o mero sentimento de simpatia e afeto. Cumpri-la implica fazer algo. Por isso, o Apóstolo mostra aqui que uma forma de obedecer ao novo mandamento de Cristo é tomar sobre si uma parte do peso do irmão que sofre em virtude da falta que cometeu.

Levar essas cargas, porém, requer a atitude humilde de um servo (5.13) e, infelizmente, muitos crentes pensam de si mais do que convém, de modo que, movidos por essa ilusão, negam-se a se humilhar na prática de servir um irmão fraco. Antes, mostram-se orgulhosos, sentem-se superiores e se tornam rígidos e cruéis no trato com quem caiu. É a esse grupo de crentes que Paulo se refere no v. 3, dizendo que o indivíduo que tem uma visão muito elevada de si mesmo dentro da igreja, está se enganando, uma vez que não é nada, ou seja, não está acima de ninguém, posto que todos estamos sujeitos à queda..

Os falsos mestres tinham a atitude soberba descrita acima, tanto que instigavam os galateus a se circuncidarem justamente para que fossem aplaudidos pelo mundo e se gloriassem no seu sucesso em conquistar prosélitos (6.12-13). Pessoas com essa postura, jamais se colocam no mesmo nível do irmão que tropeçou, achando-se maiores do que ele e pensando pertencer a uma elite espiritual dentro da igreja. Tratam o que caiu com desprezo e se gloriam por não terem sido fracos como ele. Ademais, de sua parte não fazem nada para recuperá-lo, notando-o apenas com o propósito de se gloriar por não ter agido de forma semelhante. Paulo diz a essas pessoas no v. 4 que se alguém quiser gloriar-se deve fazê-lo ao dar provas de seu próprio empenho na vida cristã, o que, aliás, abrange socorrer os irmãos feridos.

O v. 5 parece entrar em choque com o v. 2. Porém, a contradição é apenas aparente. No v. 2 Paulo fala sobre o dever de ajudar o irmão que está curvado sob o peso de dificuldades excessivas, as quais lhe sobrevieram por causa de um desvio moral. Já no v. 5 ele lembra aqueles que se apresentam como superiores e nada fazem que cada um tem seu fardo, ou seja, seu conjunto de fraquezas pelas quais é pessoalmente responsável. Em vez de observar as dos outros e se gloriar nelas, o crente deve cuidar das suas, posto que é por estas e não por aquelas que há de responder um dia diante de Deus. Basicamente, portanto, as cargas mencionadas no v. 2 são os problemas de um irmão decorrentes do seu tropeço, enquanto que o fardo mencionado no v. 5, são as fraquezas que cada um tem em sua vida e com as quais tem o dever intransferível de lutar.

Pr. Marcos Granconato 



[1] Assim entende CALVINO, op. cit., 175.

[2] O oposto dessa figura é o crente carnal (1Co 3.1-3).

[3] Esse verbo é usado para se referir à correção de ossos deslocados e ao conserto de redes de pesca. Tem sempre o sentido de restabelecer algo danificado ao seu estado anterior. 

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