Segunda, 21 de Agosto de 2017
   
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Colossenses 1.24-29 - A Missão de Paulo de Proclamar o Mistério do Evangelho

  

Nesse parágrafo Paulo faz uma apologia do seu ministério, afirmando que recebeu a mensagem que pregava do próprio Deus e que a proclamava zelosamente a todos. É bem provável que o apóstolo apresente essa defesa por não ser conhecido pessoalmente na igreja de Colossos (2.1). Os falsos mestres certamente tiravam proveito disso e também do fato dele se encontrar mui distante daqueles crentes, numa prisão domiciliar em Roma (2.4-5). Ademais, é também possível que os falsos mestres estivessem pondo em dúvida a legitimidade do apostolado de Paulo, a fim de lançar sua mensagem no descrédito e remover, com isso, qualquer obstáculo aos seus maus propósitos.[1]

Em face disso tudo, o apóstolo menciona verdades sobre o seu trabalho, desejando que, tendo ciência delas, os colossenses acolham seus ensinos e admoestações. Primeiramente Paulo diz que se alegra em seus sofrimentos (24). Ele tem em mente aqui os desconfortos que enfrentava em sua primeira prisão em Roma. Ainda que estivesse numa prisão domiciliar, livre das torturas da masmorra e tendo permissão para pregar (At 28.30-31), é fato que Paulo estava sob liberdade vigiada, até certo ponto à mercê de um soldado romano (At 28.16)[2] e impedido de realizar seu trabalho de modo mais abrangente.

O sofrimento decorrente dessa situação, porém, era recebido por Paulo com alegria. Isso porque tais agruras eram sofridas em prol dos próprios colossenses e, num sentido amplo, em benefício da igreja como um todo. De fato, Paulo sofria pela igreja. Suas viagens, lutas, privações e prisões tinham sempre como objetivo promover o bem, a edificação e a expansão do povo de Deus (2Co 1.6; 12.15; Ef 3.13; 2Tm 2.10). Assim, olhando para a sua própria dor como um veículo através do qual os eleitos eram abençoados, Paulo se regozijava nela, vislumbrando seus efeitos benéficos sobre o rebanho do Senhor.[3]

Paulo interpretava também seus sofrimentos como uma forma de completar em seu corpo “o que resta das aflições de Cristo, em favor do seu corpo, que é a igreja”. Na literatura paulina essa mesma idéia aparece algumas vezes (2Co 1.5; 4.10; Gl 6.17). Ela aponta para o fato de que as agruras pelas quais os servos de Deus passam no serviço do Reino são também os sofrimentos de Cristo, dada a união entre o Senhor e o seu povo (At 9.4-5). Eventualmente, Paulo usa esse mesmo ensino para encorajar seus leitores, afirmando que se os crentes estão unidos a Cristo até o ponto de participar de seus sofrimentos e morte, isso significa que eles também participarão de sua ressurreição e glória (Rm 8.17; Fp 3.10-11).[4]

Assim, é óbvio que a intenção do apóstolo aqui não é afirmar que os sofrimentos da obra expiatória de Cristo foram incompletos (Jo 19.30; Hb 9.24-26), mas sim que as perseguições e dores que ele provou ao ministrar em favor do seu povo não se esgotaram e, de fato, continuam a existir, torturando agora os seus servos que também trabalham em prol da igreja.

No fim do v. 24, a igreja é qualificada como “seu corpo”, ou seja, o corpo de Cristo. Essa figura aparece inúmeras vezes nas epístolas de Paulo. O apóstolo a usa para estimular o fim das divisões e inimizades entre o povo de Deus (Ef 2.16; 3.6; Cl 3.15), bem como para falar da unidade produtiva da igreja, realçando a importância do serviço de cada crente na sua comunidade local (Rm 12.4-8; 1Co 12.12-31). A figura do corpo também ilustra a união vital da igreja com Cristo (Ef 4.15-16) e sua sujeição a ele como líder supremo (Ef 1.22-23; 5.23).

Na Epístola aos Colossenses, Paulo usa a figura do corpo para promover a sujeição exclusiva a Cristo (1.18), algo que a doutrina gnóstica em formação, com sua ênfase na busca de ritualismos e mistérios (2.16-18), desestimulava. A mesma figura é usada em Colossenses para mostrar que os falsos mestres que ameaçavam a igreja não pertenciam a Cristo (2.19). Finalmente, Paulo usa a figura da igreja como corpo para desencorajar as discórdias entre os irmãos (3.15). Possivelmente, em Colossos essas discórdias existiam num certo grau devido à atuação dos falsos mestres que, com seus ensinos, afastavam os crentes de Cristo, fazendo com que o amor deles entre si esfriasse. De fato, é notável a intensidade dos desentendimentos que marcam as igrejas que sofrem a má influência da heresia.[5]

No v. 25, Paulo diz que se tornou “ministro”. O termo que emprega é o mesmo que aparece em 1.23, isto é, diáconos e, conforme já dito, é usado para se referir a alguém que presta auxílio ou se dedica a um serviço. Em 1.23, Paulo se apresenta como ministro do evangelho. Aqui, se define como ministro da igreja. Esse seu serviço é descrito com contornos específicos.

Primeiramente é um ministério com responsabilidades que lhe foram atribuídas pelo próprio Deus. A palavra traduzida na NVI como “responsabilidade” é o vocábulo oikonomia e se refere grosso modo à administração de uma casa ou ao gerenciamento dos bens de outrem.[6] Assim, Paulo está dizendo que recebeu de Deus a incumbência de um administrador, a fim de cuidar de certos aspectos ligados ao funcionamento da igreja que pertence ao Senhor (1Co 9.17; Ef 3.2). No idioma em que foi escrito o NT, aquele a quem é confiada uma oikonomia é dado o nome de oikonomos[7], e Paulo aplica esse termo a si mesmo em 1Coríntios 4.1-2, bem como aos bispos em geral, em Tito 1.7. Já para o apóstolo Pedro, cada crente em particular é um oikonomos e deve servir a Deus com isso em mente (1Pe 4.10).

Em segundo lugar, o ministério de Paulo em prol da igreja era marcado pela responsabilidade específica de apresentar plenamente a palavra de Deus. Isso implicava tanto o dever de pregar a todos (Rm 15.19)[8] como o de anunciar a mensagem sem qualquer omissão (At 20.27; 2Co 4.2). De fato, o ministério completo é aquele que se dirige a todas as classes, sem exceção, e também prega o desígnio de Deus de forma plena, sem selecionar pontos da verdade de acordo com a conveniência da situação ou as preferências teológicas do intérprete.

A palavra de Deus que Paulo anuncia é descrita como “o mistério que esteve oculto durante épocas e gerações” (26). Conforme já exposto, no gnosticismo nascente a salvação consistia do conhecimento de verdades que se mantinham em segredo, sendo acessíveis apenas a um grupo seleto de pessoas privilegiadas espiritualmente. Paulo, aqui, afirma que o verdadeiro mistério é a palavra que ele anuncia. É comum o apóstolo usar o termo “mistério” para se referir ao evangelho ou a verdades a ele relacionadas (Rm 11.25; 16.25; 1Co 2.1, 7; 15.51; Ef 1.9; 3.3-5, 9; 5.32; 6.19; 1Tm 3.9, 16). Sendo assim, para o apóstolo, diferente dos falsos mestres, mistério é algo que estava escondido, mas que agora é manifesto a todos, em cumprimento da vontade de Deus.[9]

No texto em análise, Paulo afirma que o mistério de Deus foi revelado “aos seus santos”. À luz de Efésios 3.5, é certo que os “santos” aqui mencionados são os apóstolos e profetas que, sob a influência do Espírito Santo, conheceram e transmitiram a Palavra de Deus aos homens nos tempos da igreja primitiva.

O v. 27 diz que Deus concedeu a tais homens (aos “seus santos” e não aos proponentes das idéias gnósticas que estavam aflorando em Colossos) o conhecimento do mistério que é a verdade rica e gloriosa que alcança todos os povos e não somente um grupo de iniciados na suposta gnose (Ef 3.5-6). A glória dessa verdade agora revelada é, portanto, notável entre os gentios espalhados pelo mundo, sendo universalmente conhecida (Rm 16.25-26).

O mistério específico que Paulo tem em mente aqui e cujo benefício se vê alcançando homens de todas as raças é a realidade da habitação de Cristo naquele que crê. Essa verdade compunha a mensagem de Paulo, sendo parte integrante do evangelho que ele anunciava (Rm 8.9). Paulo explica que a habitação de Cristo é a base para a esperança do crente quanto à glória futura (2Co 1.21-22; Ef 1.13-14; 4.30). De acordo com o ensino paulino, aqueles em quem o Senhor não faz morada neste mundo, não podem esperar entrar em suas moradas no mundo porvir.

O apóstolo prossegue enfatizando que anunciava o mistério do evangelho a todas as pessoas sem qualquer discriminação (28). Sua ênfase se verifica no fato de que a expressão “todo homem” aparece três vezes no texto grego do v. 28. Assim, para Paulo a oferta do evangelho era universal. O alvo das boas novas é o homem, não importando suas origens, formação ou nível social. Qualquer grupo que, como os mestres gnósticos dos dias de Paulo, limita a participação em seus segredos a uma minoria, não é detentor da verdade divina, já que esta, além de ser livre de complexidades, foi revelada a fim de ser universalmente conhecida.

No v. 28 Paulo diz que anunciava o mistério de Deus “advertindo e ensinando a cada um”. O verbo traduzido como “advertir” significa também admoestar ou aconselhar. É um ato que sempre requer paciência e benignidade (Rm 15.14; 2Ts 3.15), podendo ser realizado em meio a mais profunda comoção (At 20.31). O segundo verbo significa simplesmente instruir. É a ação de quem transmite a outrem uma doutrina; o ato de quem informa e educa (At 15.35). O trabalho de Paulo como pregador é descrito plenamente através desses dois termos.[10] Dos textos supracitados se depreende que tanto crentes como incrédulos eram alcançados pelo conselho e ensino do apóstolo como proclamador dos mistérios de Deus. O texto também diz que Paulo realizava esse trabalho “com toda a sabedoria”, ou seja, com a postura e o entendimento dados por Deus (Tg 3.17-18; 2Pe 3.15).

O alvo do apóstolo como ministro de Deus e pregador dos seus mistérios era apresentar “todo homem perfeito em Cristo”. A palavra “perfeito” pertence ao vocabulário usado pela heresia que ameaçava a igreja de Colossos. Seus proponentes aplicavam esse termo para se referir às pessoas que haviam sido iniciadas nos segredos das religiões de mistério. O sentido básico do termo é “completo” ou “maduro”. Paulo, portanto, está dizendo que trabalhava para que os homens alcançassem um desenvolvimento espiritual pleno.[11] Isso, porém, só seria possível se eles estivessem “em Cristo”, ou seja, dentro da sua esfera de atuação e poder. Ainda que os falsos mestres alegassem ter um alto grau de percepção e maturidade espirituais e prometessem essas coisas aos que acolhessem seus ensinos, Paulo afirma que o amadurecimento espiritual verdadeiro só podia ser alcançado por alguém que estivesse “em Cristo”, tendo acolhido os ensinos do mistério de Deus revelado, ou seja, o evangelho.

No v. 29, o apóstolo descreve o grau de empenho com que se dedicava ao trabalho de anunciar a verdade visando a perfeição espiritual dos homens. Ele diz que se esforça, isto é, trabalha arduamente. Também afirma que luta com todas as forças (1Co 9.25-27), mesmo em meio às mais terríveis pressões. Nesse combate, ele recebe a força de Deus, a qual atua nele de modo eficaz, capacitando-o e dando-lhe energia, resistência e vigor. Esse versículo é importante porque trata de um paradoxo muitas vezes mal entendido entre duas realidades: a necessidade do esforço humano e a capacitação de Deus. De acordo com o texto, um fator não anula o outro. Na verdade, ambos se completam. De fato, Paulo se esforçava no serviço o mais que podia e, segundo ele, esse esforço decorria do poder de Deus que nele atuava. Na verdade, era o poder de Deus que dava a medida do esforço de Paulo. Daí se conclui que é a capacitação do Senhor que habilita seus ministros a se esforçarem além do imaginável (1Co 15.10).

Pr. Marcos Granconato    



[1] Paulo, alguns anos antes, tinha enfrentado esse mesmo problema, porém de forma mais intensa, na Galácia (Gl 1.11-12) e em Corinto (1Co 9.1-2; 2Co 11.5-6, 23; 12.12).

[2] O famoso historiador Edward Gibbon (1737-1794) informa que os soldados rasos que compunham os exércitos dos imperadores romanos eram recrutados “entre as camadas mais baixas e com muita freqüência mais crapulosas da sociedade” (GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 36).

[3] Existe também a possibilidade de Paulo ensinar aqui que o povo de Deus tem uma parcela de sofrimento a ser vivenciado antes da vinda do Messias (noção presente no judaísmo apocalíptico). Se for esse o caso, ele próprio se via como alguém que completava essa cota de dor no lugar do povo de Deus como um todo. Veja-se MARTIN, Ralph. Colossenses e Filemon: Introdução e Comentário. São Paulo Mundo Cristão e Vida Nova, 1984. p. 80-81.

[4] Veja-se o mesmo raciocínio em Pedro (1Pe 4.13).

[5] No NT, uma das maiores evidências disso se encontra nas igrejas da Galácia, onde aflorou a heresia judaizante (Gl 5.15).

[6] Outras versões traduzem o termo como “dispensação”. Essa palavra é também usada por Paulo num sentido teocrático para se referir à administração segundo a qual o próprio Deus planejou e executou o seu projeto relativo à salvação do homem (Ef 1.10; 3.9).

[7] A NVI traduz como “encarregado” e a ARA como “despenseiro”.

[8] Esse parece ser o sentido dominante aqui (Veja-se 1.28-29), mesmo porque os falsos mestres afirmavam que suas doutrinas pertenciam a uma classe de homens especialmente dotados e Paulo, sem dúvida, pretende realçar a distinção que há entre o seu trabalho e o deles.

[9] Em Colossenses, além de 1.26-27, Paulo se refere ao “mistério” também em 2.2 e 4.3.

[10] Em 3.16, onde os dois verbos aparecem juntos novamente, verifica-se que advertir e ensinar são deveres de todos os crentes em face de seus irmãos. O mesmo texto mostra que, assim como Paulo, os cristãos devem cumprir essa tarefa com sabedoria.

[11] O alvo da perfeição não pode ser alcançado nesta vida. Porém, isso não desencorajava Paulo a realçar a importância desse ideal para os crentes (Ef 4.11-13). Aliás, ele mesmo o buscava em sua própria vida (Fp 3.12-14). 

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