Terça, 22 de Agosto de 2017
   
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Colossenses 3.1-4 - A Vida Centrada nas Coisas do Alto

  

Na Epístola aos Colossenses é muito claro o propósito de Paulo em desmascarar as falsas filosofias que tentavam seduzir os crentes com sua ilusória profundidade e aparente devoção (2.4, 8, 18, 23). Ao apontar quão falaciosas eram aquelas doutrinas heréticas, Paulo pretende atingir um alvo ainda mais sublime que a mera defesa da fé. Ele anseia promover devoção exclusiva a Cristo como a singular cabeça da igreja (1.10, 18; 3.23-24; 4.1,17), uma vez que o gnosticismo incipiente reduzia a pessoa do Salvador a apenas mais uma das diversas emanações que compunham seu sistema imaginário, negando sua real divindade (1.15-17; 2.9-10). Se acolhessem essa visão, os crentes de Colossos não teriam razão nenhuma para submeter sua vida ao senhorio absoluto de Jesus.

Por isso, depois de demonstrar a divindade de Cristo e destacar sua supremacia, Paulo passa a incitar os crentes a andar em total sujeição a ele, destacando expressões visíveis e práticas do viver assim. Ademais, o Apóstolo havia apontado a posição a que os cristãos de Colossos tinham sido alçados quando creram no Senhor, o que também servia de estímulo a uma vida de obediência (1.12-14, 21-23).

Assim, como corolário das doutrinas que expôs de início, Paulo, ao compor o texto abrangido pelo capítulo 3 e início do capítulo 4 da Carta aos Colossenses, alista inúmeras formas de proceder que refletem a visão de que a Cristo é devida toda a submissão. Essas formas de conduta também revelam que quem as adota tem consciência de que é participante de uma vida diferente. Com efeito, o versículo 3.1 sugere essas duas realidades: “Vocês ressuscitaram com Cristo”, ou seja, os crentes têm agora uma vida nova; e “Cristo está assentado à direita de Deus”, isto é, ele reina soberano, sendo-lhe devida toda a honra e sujeição. É sobre essas duas vigas que o Apóstolo ensina seus leitores a construir o belo edifício da verdadeira vida de piedade.

O capítulo 3 traz em seu início a palavra “portanto”, indicando a conexão entre o que foi dito anteriormente e o que está para ser ensinado. Paulo, na verdade, está aqui introduzindo o desfecho do pensamento expresso em 2.20-23, em que exortou os crentes a não se sujeitarem a regras inúteis, uma vez que “morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo”.

Para Paulo era fato inegável que, quando creram no Senhor, os colossenses romperam com o antigo sistema pagão de crenças e comportamentos. Tendo morrido para aquelas coisas, era também certo que ressuscitaram com Cristo (2.12-13; 3.3), ou seja, passaram a participar da vida do Senhor, nutrida e moldada por ele só (2.6-7), uma vida que ele agora vive no céu. A implicação básica que resulta disso é o dever imposto aos cristãos de buscar as coisas que são do alto, onde Cristo está, deixando de se preocupar com a religiosidade mecânica que só se baseia em preceitos de origem humana acerca de coisas meramente terrenas que se dissolvem tão logo são usadas (2.22).

Assim, procurar “as coisas que são do alto” tem, a priori, o sentido de buscar uma piedade fundamentada em padrões celestes, nascidos no coração de Deus e ligados a valores permanentes. Trata-se de desfrutar na terra da vida que Cristo vive no céu. De fato, se a vida ressurreta de que o crente participa é a própria vida de Cristo; e se é certo que ele vive essa vida agora no céu, então é a piedade fundada nessa vida celeste que o crente deve buscar. São os contornos visíveis dessa forma de piedade que Paulo apresenta na vasta seção de orientações práticas que se estende a partir desse ponto da Epistola aos Colossenses.

A expressão “coisas que são do alto” é complementada pela cláusula “onde Cristo está assentado à direita de Deus”. No Velho Testamento, o Salmo 110.1 aponta a destra de Deus como lugar reservado ao Messias de Israel. O Senhor mesmo usou esse texto para defender a natureza humana/divina de sua própria messianidade (Mt 22.41-45) e, na pregação de Pentecostes, Pedro associou o Salmo a Jesus a fim de apresentá-lo como o Messias que foi rejeitado pelo povo judeu, mas exaltado pelo Pai (At 2.34-36).[1] Tão forte é a conexão entre o assentar-se à direita de Deus e a figura do Messias que Jesus disse aos seus opositores que a prova de que ele era o Cristo seria apresentada quando eles o vissem no céu, sentado à destra do Pai (Mt 26.63-64; Lc 22.67-69).

No Novo Testamento, o ensino de que o Senhor, após ter sido assunto ao céu, se assentou ao lado de Deus aparece várias vezes.[2] Seu significado é amplo. Em alguns contextos a menção de Cristo sentado no céu indica que sua obra remidora foi concluída, não havendo mais nada que precise ser feito para a redenção da humanidade (Hb 1.3; 10.12). Há também na imagem de Cristo ao lado do Pai a base para o ensino de que ele intercede pelos crentes (Rm 8.34), no exercício de uma função sacerdotal realizada não nas dependências simbólicas de um templo terreno, mas no verdadeiro santuário celeste (Hb 8.1-2).

Na maior parte das vezes, porém, a menção de Cristo sentado à direita de Deus aponta para a exaltação que seguiu sua humilhação terrena (At 2.33; Hb 12.2), para a posição elevada que ele ocupa como Príncipe e Salvador (At 5.31), para sua soberania divina e seu senhorio absoluto sobre todo o universo (Ef 1.20-23; 1Pe 3.22).[3] Assim, é evidente que a referência a Cristo como alguém que ocupa lugar ao lado do Pai tem geralmente o objetivo de inspirar devoção e obediência exclusiva a ele. Obviamente esse é o caso no texto em análise, uma vez que, conforme visto, o ensino gnóstico desestimulava a sujeição a Cristo, identificando-o apenas como mais uma das diversas emanações angélicas que compunham o universo espiritual imaginário dos falsos mestres.

No v. 2 Paulo renova a admoestação no sentido de que os colossenses tenham como prioritárias as coisas do alto. Desta vez, porém, ele realça o pensamento dos crentes, ensinando o que deve ocupar sua mente na maior parte do tempo. É claro que, na prática, é impossível meditar continuamente sobre as realidades espirituais, mas o que Paulo propõe nesse ponto é que todo o universo mental dos cristãos seja ordenado sobre o pano de fundo das coisas celestes, de modo que mesmo os fatores comuns da vida aqui sejam considerados a partir de suas relações com o mundo espiritual. Assim, deve-se lidar com os dilemas pessoais, as questões de família, os problemas profissionais e os assuntos éticos levando-se em conta a verdade de que a realidade presente, visível e palpável, não é a única existente. Há um mundo espiritual situado nas alturas que é tão real quanto este, sendo certo que a reflexão sobre seus bens e valores determina o modo como se vive agora (Fp 3.7-9; Hb 11.24-27).

A segunda cláusula do v. 2 aponta o oposto do viver pensando nas coisas do alto. Trata-se de manter o coração centrado nas coisas terrenas. Essa expressão descreve o estilo de vida do incrédulo. De fato, para o ímpio, tudo o que importa é o que se pode perceber através dos sentidos corporais. Sua vida não recebe qualquer influência procedente do pensamento de que existe um Deus no céu, cuja vontade deve ser cumprida e que, afinal, julgará todas as ações dos homens. Tendo os olhos fixos neste mundo, tudo o que lhe importa é comer, beber e alegrar-se (Mt 24.37-39; Lc 12.13-21). O prazer ilusório e o sucesso material são seus alvos supremos, sua mais alta aspiração.

Em Filipenses 3.18-21 Paulo contrasta o crente com o incrédulo descrevendo, a princípio, o modo de vida das pessoas que adotam a visão meramente terrena da realidade. Ele diz que tais indivíduos “vivem como inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3.18), tendo como deus o “estômago”. Essa última afirmação significa que essas pessoas anelam somente os deleites do corpo, deleites que, com fanática devoção, se empenham todo o tempo por satisfazer. Paulo ensina ainda que os homens desse tipo desenvolvem uma ética às avessas, passando a se orgulhar de tudo o que é vergonhoso. Finalmente, o apóstolo revela a raiz do problema. Segundo ele, essas pessoas vivem desse modo porque “só pensam nas coisas terrenas” (Fp 3.19).

No versículo em análise, portanto, ao exortar os colossenses a não fixar a mente no que pertence a este mundo, Paulo está advertindo seus leitores a não adotarem a filosofia de vida própria dos incrédulos. O apóstolo sabe que o homem que em seu íntimo nutre amores e anelos somente pelas coisas do presente século, sentindo-se encantado com suas ofertas e promessas, logo passa a viver de acordo com esses anseios, distanciando-se da conduta reta e santa ensinada por Deus. Com efeito, um fenômeno notável é que aqueles que em seu coração esvaziam o céu, bem cedo passam a viver vazios aqui na terra. Seus atos, então, tornam-se tão ocos quanto eles próprios.

Prosseguindo em sua admoestação, Paulo, no v. 3, reforça a base para a vida diferente do cristão, destacando com certa variação o ensino já enunciado no v. 1. Mais uma vez, então, o tema da “morte” do crente aparece[4], destacando que o cristão não vive em retidão simplesmente por adotar um sistema elevado de normas éticas, mas sim pelo fato de sua realidade anterior ter sido sepultada (Rm 6.1-2; 2Co 5.14-15), sendo certo que ele participa agora da vida do próprio Cristo ressurreto, uma vida que será provada de modo pleno no futuro (v. 4), mas que, desde já, pode ser exibida pelo homem salvo, posto que já lhe pertence.

Paulo diz que a vida do cristão “está escondida com Cristo em Deus”. Alguns sentidos distintos são possíveis aqui. O verbo “esconder”, conforme usado no texto, talvez evoque a figura do enterro de um cadáver, quando o corpo é “escondido” na terra e todas as relações deste mundo com o morto finalmente cessam. Se essa for a idéia presente no versículo em análise, então Paulo pretendeu realçar ainda mais o ensino acerca do sepultamento espiritual do crente, destacando que um ponto final foi dado ao velho estilo de vida que caracterizou os tempos de incredulidade. Esse entendimento, porém, associado ao v. 3, criaria a imagem de um “sepultamento celeste” do cristão, algo inusitado no ensino paulino que sempre relaciona o sepultamento espiritual do crente à experiência presente de conversão e batismo (Rm 6.4; Cl 2.12).

É também possível enxergar na frase de Paulo a idéia de proteção. Ao dizer que a vida do homem redimido está escondida com Cristo, o Apóstolo estaria ensinando que a herança reservada aos salvos está sob a guarda de Deus, sendo impossível que qualquer ameaça seja capaz de destruí-la ou cancelá-la. De fato, esse ensino está presente no NT (Jo 10.27-29; Rm 8.29-39; 1Pe 1.3-5). Porém, só é razoável apontá-lo aqui por inferência, sendo pouco plausível que Paulo o tivesse em mente quando escreveu o versículo em análise.

Finalmente, há a possibilidade de Paulo estar falando sobre a vida gloriosa que pertence ao crente. Essa vida não pode ser vista agora em todo o seu esplendor, permanecendo escondida aos olhos de todos. O texto diz que ela está “com Cristo em Deus” porque o Salvador, estando junto ao Pai, vive na plena participação dela (Jo 17.5; Fp 2.9; 1Tm 3.16; Hb 2.9).

Esse entendimento harmoniza-se com o que é dito no v. 4. Ademais, seu conteúdo parece ajustar-se melhor ao contexto em que Paulo exorta os crentes acerca do que deve ocupar o pensamento deles (vv. 1-2). Estando a falar sobre em que deveriam pensar, Paulo dá ênfase especial á vida gloriosa hoje oculta aos olhos terrenos, mas que um dia se manifestará com todo o seu pujante esplendor. De fato, a conexão entre o pensar nas coisas do alto e a vida que está oculta com Cristo é bastante evidente no texto. Paulo diz: “Mantenham o pensamento nas coisas do alto... Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus”. Ora, ao usar a conjunção “pois”, Paulo deixa clara a ligação entre as coisas em que os crentes devem pensar e a vida gloriosa de que um dia desfrutarão.

Se hoje a glória da vida que pertence aos crentes está escondida, essa não é uma condição definitiva. Um dia todo o seu esplendor será revelado. Esse é o ensino consubstanciado no v. 4. Paulo o interpõe enunciando, a princípio, as seguintes palavras: “Quando Cristo, que é a sua vida, for manifestado...” Aqui o Senhor é descrito como a vida dos cristãos[5]. É verdade que ele é a fonte de toda a vida (Jo 1.4). Porém, para os que crêem, Cristo é, desde já, manancial de vida nova e abundante, sem a qual é impossível ser feliz neste mundo (Jo 6.35; 10.10; 14.6).

Cristo é também a vida dos crentes porque lhes concede vitória sobre a morte (Jo 11.25) e, afinal, lhes dará a vida eterna (Jo 3.36; 1Jo 5.11-12). Essa vida futura dos cristãos está conectada à do Senhor, numa relação de completa dependência. De fato, é porque ele vive que os crentes também viverão para sempre (Jo 14.19).

Paulo ensina ainda que o Senhor um dia se manifestará. A alusão é claramente à segunda vinda de Cristo. Nessa ocasião os cristãos também serão manifestados com ele em glória”.  Outras passagens do NT apontam para esse aspecto da doutrina cristã, lançando luz sobre o sentido do que o Apóstolo diz aqui. Romanos 8.18-23, por exemplo, relaciona a manifestação da glória dos crentes com a ressurreição e redenção do seu corpo, algo que ocorrerá quando o Senhor voltar (1Co 15.51-57; 1Ts 4.16-17).

O Apóstolo Pedro também trata desse assunto. Ele conecta a glória dos cristãos a ser manifesta na segunda vinda a uma alegria indizível (1Pe 4.12-13) e, a seguir, encoraja os ministros da igreja falando-lhes da glória de que participarão quando o “Supremo Pastor” se manifestar (1Pe 5.1-4). João também alude a isso ao escrever “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é” (1Jo 3.2). Em seguida afirma que essa esperança estimula quem a tem a manter-se puro (1Jo 3.3).

Pode-se, pois, comparar o cristão, em sua realidade atual, ao ipê-amarelo cujas flores só aparecem no fim do inverno. Sim, pois se hoje, na fria noite do presente século, nenhum esplendor é visto no desprezado povo de Deus, é certo que a aurora do dia de Cristo em breve há de raiar. Então, o ipê santo que o Senhor plantou finalmente revelará sua inefável beleza e a glória da igreja genuína será enfim contemplada por todos e para sempre.  

Pr. Marcos Granconato    



[1] Note-se que no Salmo 110.1 o sentar-se ao lado do Pai não implica somente a exaltação do Messias. Com efeito, seu assentar-se é também associado à espera, ou seja, o Messias reina ao lado do Pai aguardando o dia em que, finalmente, esmagará seus inimigos (Sl 110.5-6; 1Co 15.24-28; Hb 10.12-13; Ap 19.15).

[2] Em Atos 7.55-56 há uma descrição ligeiramente distinta. Ali o Senhor é visto por Estevão em pé, à direita de Deus. O quadro singular tem sido entendido de duas formas. A primeira delas propõe que Cristo, como bom anfitrião, levantou-se para receber seu servo que estava prestes a chegar ao lar celeste. A segunda sugere a função de Cristo como Advogado, defendendo a causa de Estevão junto ao Pai. Seja qual for o caso, a visão gloriosa do primeiro mártir cristão serviu para exacerbar ainda mais o ódio dos judeus que a entenderam como indicativa da messianidade de Jesus (vv. 57-58).

[3] O ousado pedido constante de Mateus 20.20-21 revela como era considerada elevada a posição de quem se sentasse ao lado de um soberano. Isso explica a grande indignação dos dez discípulos descrita no v. 24. 

[4] Veja-se o comentário a 2.12 e 20 supra.

[5] Alguns manuscritos trazem “nossa” em vez de “vossa” ou “sua”. A NVI adotou a segunda opção. A ARA e a ARC adotaram a primeira. 

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