Domingo, 22 de Outubro de 2017
   
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Colossenses 3.5-11 - O Abandono da Velha Vida

  

Tendo destacado que ao crente foi dado participar da vida do Cristo exaltado, devendo agora pensar nas coisas do alto e buscá-las com zelo vigoroso; e tendo ainda ensinado que essa vida está envolta em uma glória majestosa que um dia se manifestará, Paulo inicia um novo parágrafo alistando traços da vida sem Deus que devem ser abandonados pelo cristão a fim de que sua conduta se harmonize de maneira mais perfeita com a realidade espiritual de que ele agora faz parte. A palavra “Assim” (Gr. pois, portanto), constante do início do v. 5, evidencia essa relação de resultado entre o que foi dito nos vv. 1-4 e o que vem a seguir.

Inicialmente, Paulo emite uma admoestação ampla: “ ...façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês” (5).  A expressão “façam morrer” significa aqui privar de poder, destruir a força, deixar sem vitalidade ou enfraquecer.[1]  O impulso que o cristão deve lutar para debilitar é a sua “natureza terrena”. O texto grego refere-se a essa natureza com as palavras “os membros sobre a terra”, dando a entender que os crentes devem se esforçar para minar o vigor das inclinações pecaminosas que atuam em seu corpo na presente realidade terrena. O corpo físico não é mau, como dizia o gnosticismo incipiente, mas é um veículo através do qual a força do pecado se manifesta (Rm 7.5, 21-24).

Conforme visto em 2.11, é certo que, ao tempo da conversão, a natureza pecaminosa do crente sofreu um severo golpe. Porém, não há dúvida de que ela continua viva e presente, pelo que o crente tem a responsabilidade de amortecê-la, ainda que isso só seja possível através da capacitação do Espírito Santo (Rm 8.13). Segundo o ensino paulino, essa batalha não ocorre apenas no universo mental do indivíduo convertido (Rm 7.23), mas consiste também do esforço prático por manter um modelo íntegro de vida, marcado pela abstenção de qualquer conduta desonrosa (Rm 6.12-13,19; 1Ts 4.3-5). Aliás, na lista constante do v.5 (ampliada nos vv. 8-9) é muito clara a idéia de que o empenho por fazer morrer a natureza terrena abrange o afastamento e total abandono de todas as práticas próprias da velha vida. Assim, não há dúvidas de que o desviar-se do erro é um dos remédios mais eficazes para inibir o ímpeto do mal ainda presente nos filhos de Deus.

No v. 5, Paulo alista cinco desvios que emanam da natureza terrena. A lista, assim como no v. 8, não é exaustiva, mas apenas fornece exemplos de vícios em que os crentes podem cair caso não amorteçam o pecado que subsiste em seus membros.

O primeiro vício mencionado é a imoralidade sexual. O termo tem sentido abrangente (1Co 6.18), sendo usado para referir-se a todo tipo de intercurso sexual ilícito e extramarital (adultério, fornicação, prostituição, etc). Relações antinaturais também são incluídas no significado da palavra usada aqui (1Co 5.1). Que a imoralidade é obra da carne é expressamente ensinado em Gálatas 5.19, sendo dever do crente fugir dela (1Ts 4.3-5).

Como é sabido, o protognosticismo que marcou o século I cultivava total desprezo pela matéria. Especificamente na região de Colossos, fica claro que esse desprezo se expressava na rejeição de certos prazeres corporais (2.16, 20-23). Aliás, outros textos neotestamentários revelam que alguns proponentes do gnosticismo nascente censuravam inclusive os deleites do leito conjugal, chegando a proibir o casamento (1Co 7.1-5; 1Tm 4.1-3; Hb 13.4). 

Por outro lado, a cosmovisão que considerava o corpo físico essencialmente mau, muitas vezes desencadeava a mais chocante devassidão como forma de desprezo pela substância material. Ademais, essa concepção tendia a crer que a alma, em total contraste com a realidade palpável, era absolutamente pura, não podendo ser corrompida pelos atos do corpo (1Co 6.13[2]). Evidentemente, os desdobramentos práticos dessas ideias eram comportamentos assinalados pela mais completa imoralidade (2Tm 3.6-9; 2Pe 2.13-14, 17-19; Jd 1.4, 8, 12-13, 16). Ora, Paulo sabia que a falsa gnose, a despeito de sua aparente piedade, era incapaz de refrear os impulsos da natureza terrena (2.23), podendo, na verdade, até mesmo estimulá-los. Daí seu alerta aos colossenses no sentido de que fugissem de toda forma de corrupção sexual.

Os três vícios mencionados a seguir têm também conotação sexual, mas podem abranger outras esferas em que a pecaminosidade humana se manifesta. Impureza refere-se a todo tipo de imundícia, tanto moral como “natural” ou física (Mt 23.27), mas somente o primeiro sentido é pretendido aqui (Assim tb. em Rm 6.19; 2Co 12.21; Ef 4.19; 5.3). A impureza moral, além de  envolver a luxúria (Rm 1.24), também engloba motivações sujas (1Ts 2.3). Em 1Coríntios 7.14, o termo “impuro” é aplicado a pessoas que estão fora de qualquer influência santificadora.

A palavra traduzida como “paixão” é pathos e aplica-se a qualquer afeição desordenada, mas no NT, onde ocorre em apenas outros dois lugares, é usada especialmente para aludir ao desejo sexual ardente, desonroso e depravado (Rm 1.26; 1Ts 4.5). Pathos é uma doença espiritual que subjuga a alma tornando-a inquieta, continuamente sedenta, sempre desejosa de satisfazer apetites impuros.

A próxima expressão foi traduzida como desejos maus. Basicamente é sinônima do termo que a antecede. Trata-se, pois, da cobiça, da ambição, do intenso anseio por algo ilícito (Rm 6.12; 13.14; Gl 5.16; 1Tm 6.9; Tt  3.3; 2Pe 3.3).  

A lista do v. 5 termina com a menção da ganância. A palavra usada pelo Apóstolo designa o desejo insaciável de adquirir bens materiais (Mc 7.21-22; Rm 1.29; Ef 5.3). Esse pecado induz, às vezes, à uma generosidade anêmica, rara e forçada (2Co 9.5). O termo também descreve o anelo desenfreado por obter aquilo que pertence a outra pessoa, o que induz à prática de fraude e extorsão (1Ts 2.5; 2Pe 2.3). Paulo considera a ganância “idolatria” porque esse desvio faz das posses de um homem o centro da sua vida, a razão de sua existência (Lc 12.15). Contaminado por esse pecado, o indivíduo se torna servo e adorador das riquezas, ficando impedido de servir a Deus (Lc 16.13-14). É por isso que, com justiça, os avarentos não têm parte no Reino dos Céus (Mt 13.22; 19.22; Ef 5.5).

Paulo encoraja os seus leitores a viverem longe dos vícios alistados no v. 5 dizendo que esses desvios são a causa pela qual a ira de Deus sobrevém aos descrentes (6). A ira mencionada pelo apóstolo é o castigo pós-morte, conforme se depreende do “texto gêmeo” de Efésios 5.5-6, onde é clara a conexão entre a indignação divina e a condenação eterna. Aliás, é inegável que os escritos de Paulo façam clara referência à fúria escatológica do Senhor (Rm 2.5; 1Ts 1.10; 5.9; 2Ts 1.5-10). Deve-se ainda destacar que, à luz do ensino geral que emana de todo o Novo Testamento, essa fúria não tem como causa apenas o comportamento desregrado e promíscuo das pessoas (como uma leitura irrefletida de Colossenses 3.6 poderia dar a entender), mas também e fundamentalmente, a incredulidade presente no coração de quem rejeita o Filho e não atende ao convite constante da mensagem evangélica de recebê-lo pela fé (Jo 3.36; Rm 2.8; 5.8-9; 2Ts 1.8; Hb 10.29).

Ainda que a ira de que fala o v. 6 seja aquela que se revelará no dia futuro ou na realidade além, é preciso lembrar que o ensino paulino mais amplo concede também espaço para manifestações da ira de Deus contra a impiedade humana já no presente. Romanos 1 é o texto áureo acerca desse assunto, posto que ali o Apóstolo afirma claramente o derramamento da cólera divina sobre os maus ainda nesta vida (Rm 1.18), explicando que essa fúria se extravasa numa “entrega” de tais homens às mais grosseiras formas de perversão (Rm 1.24-31).[3]

Vista sob esse aspecto, a ira de Deus contra o pecado não é inerte ou inoperante no presente. Ela atua, não só trazendo (eventualmente) grandes calamidades físicas e materiais sobre os inimigos do Senhor (At 12.23), mas também transformando-os em monstros assombrosos, com repugnantes deformidades de caráter. Ora, nenhuma calamidade maior pode sobrevir a alguém neste mundo do que ser portador de uma alma apodrecida, que se deleita no próprio mal que a corrói e sorri satisfeita diante de cada novo tumor que descobre em si mesma. É, porém, precisamente com essas trevas interiores que Deus visita os maus hoje, antes de lançá-los nas trevas exteriores ainda mais densas amanhã.

O versículo 6 termina classificando os incrédulos, aqueles sobre quem a ira de Deus virá, como “filhos da desobediência”. Algumas traduções colocam toda a expressão entre colchetes (e.g. ARA). Isso acontece devido a sua ausência em alguns manuscritos antigos importantes. Dificilmente, porém, a frase não constava do original. Primeiramente porque ela dá ao v. 6 um desfecho mais natural e esperado. Em segundo lugar porque os manuscritos que a incluem são numerosos e fazem a evidência pesar em favor da leitura mais longa.  

“Filhos da desobediência” é expressão que designa pessoas cujo traço principal de conduta é a rebelião contra a vontade moral de Deus (Ef 2.2-3). Tais indivíduos vivem desobedecendo. Os caminhos que trilham são tortuosos e eles andam por essas sendas continuamente, revelando-se incapazes de ouvir o que o Senhor ordena. Sua relação com a desobediência é, portanto, tão íntima quanto a relação mãe/filho. Os laços que unem esses homens à rebelião são fortes como os laços de filiação. Na verdade, essa associação é tão intensa que não basta dizer que o “filho da desobediência” é alguém que desobedece. Antes, é preciso descrevê-lo como um indivíduo que está sob o poder da desobediência; alguém naturalmente inclinado a desprezar o que Deus requer da conduta humana (Gn 6.5; Jr 13.23).

Isso fica ainda mais evidente no v. 7, onde Paulo sugere que no passado seus leitores foram, eles próprios, filhos da desobediência. Com efeito, o Apóstolo afirma que os colossenses, antes da conversão, “andaram” e “viveram” nos vícios descritos no v. 5. Os verbos usados aqui (περιπατέω e ζάω) indicam a ideia de regular a vida a partir dos desvios alistados. Paulo diz, portanto, que os colossenses tinham passado seus dias de incredulidade sob a orientação do pecado, ligados continuamente ao mal. Como se vê, os filhos da desobediência moram com a mãe!

Não se pode perder de vista que, escrevendo aos colossenses, Paulo tem como um dos seus alvos atacar os inimigos da sã doutrina, ou seja, os mestres do protognosticismo que apresentavam aos crentes uma falsa filosofia, proponente de uma cristologia reducionista (2.8-9) e marcada por legalismo e religiosidade estéreis, incapazes de refrear as inclinações da natureza pecaminosa (2.16-23). Assim, ao apontar os vícios dos “filhos da desobediência” é evidente que Paulo está descrevendo, inclusive, a conduta desses mesmos falsos mestres que, conforme visto acima, eram homens chocantemente imorais (2Pe 2.13-14) e também gananciosos (2Co 2.17; 1Tm 6.3-5; 2Pe 2.1-3).

A nova vida inaugurada pela fé em Cristo tem como marca o sepultamento (imediato ou gradual) do modo de andar característico dos “filhos da desobediência”.  Isso é ensinado por Paulo já a partir do v. 5. Agora, porém, no v. 8, ele amplia essa ideia, destacando o dever que o crente tem de demonstrar o contraste entre seu passado (7) e o “agora”.

Esse dever consiste do abandono não só dos vícios predominantemente sexuais alistados no v. 5, mas também dos pecados de mau gênio e do uso inescrupuloso das palavras. O verbo usado por Paulo e vertido na NVI para abandonar é ἀποτίθημι, que também pode ser traduzido como renunciar, por de lado, tirar do caminho ou remover. Seu uso figurado (como é o caso aqui) refere-se ao rompimento total com alguma forma reprovável de comportamento, isto é, indica o livramento definitivo de um hábito ou de um estilo de vida que desagrada a Deus (Rm 13.12; Ef 4.22,25; Hb 12.1; Tg 1.21; 1Pe 2.1). 

Entre os pecados de mau gênio, o primeiro mencionado é a ira (ὀργή). O próprio texto ensina que Deus se ira (6), o que mostra que essa reação, em si, não é pecado. Aliás, Paulo sugere que é possível alguém ficar irado sem desagradar a Deus (Ef 4.26). A ira, porém, pode deixar de ser uma reação ocasional do coração e tornar-se a disposição natural da alma, um estado de mente, um componente notório do temperamento e do caráter de uma pessoa. É essa inclinação rancorosa, mal humorada, amarga e pronta a atacar que a Bíblia condena (1Tm 2.8; Tg 1.19-20).

O segundo pecado alistado é a indignação, termo que traduz a palavra grega θυμός. Trata-se, basicamente, de um sinônimo de ira, mas é usado para se referir a acessos de cólera, isto é, a fúria inflamada. Paulo tem em mente aqui as explosões de raiva, o ódio descontrolado e cego que arrebata os homens e os precipita na violência irrefletida (Mt 2.16; Lc 4.28-29; At 19.28-29; Ef 4.31). Ainda que nos dias modernos essa reação seja considerada “compulsiva”, ou seja, um surto emocional pelo qual o homem não pode ser responsabilizado, a Bíblia a descreve como iniqüidade, um comportamento típico de quem não conhece a Deus, um pecado que deve ser abandonado pelos que, em Cristo, estão sendo conformados à imagem do seu Criador.

Maldade dá sequência à lista. O significado da palavra usada por Paulo (κακία) é amplo. Abrange a disposição da mente para o mal e também a prática de atos iníquos. É, assim, a maldade inerente ao coração de alguém (At 8.22; Rm 1.29), bem como as ações perversas que brotam a partir desse mesmo coração (1Co 5.8).

Depois de apontar os pecados de mau gênio, o Apóstolo volta sua pena contra o uso inescrupuloso das palavras. Nesse ponto ele reprova primeiramente a maledicência.  Βλασφημία é o termo usado aqui e descreve tanto o emprego da língua para destruir a boa reputação de alguém (2Pe 2.10-11) como o discurso que fere a majestade de Deus (Mc 2.7; Jo 10.33).

O v. 8 termina com a menção da linguagem indecente (αἰσχρολογία). Paulo trata aqui do discurso sujo, das palavras baixas e chulas que saem da boca dos incrédulos. Desde a meninice é comum os ímpios proferirem obscenidades, adotando um vocabulário sórdido sem nenhum recato. Esse discurso vil e desavergonhado é percebido tanto no uso de palavras impróprias (Ef 4.29) como em conversas vulgares ou gracejos imorais (Ef  5.3-4). Seja qual for o caso, o crente precisa reconhecer que o modo como fala deve refletir sua nova condição espiritual, sendo inaceitável que a mesma boca que confessa Jesus Cristo como Senhor também propale asquerosas podridões.  

O último pecado ligado ao uso das palavras é a mentira. “Não mintam uns aos outros”, escreve o Apóstolo (9).  A mentira pode assumir as mais variadas formas. Todas elas, porém, têm por pai o diabo (Jo 8.44).[4] Sendo, pois, a igreja a coluna e o sustentáculo da verdade doutrinária (1Tm 3.15), sendo ela o bastião que defende a revelação daquele que não pode mentir (Tt 1.1-2) e tendo a igreja sua própria origem na mais pura e santa verdade (Ef 1.13; Cl 1.5-6), é inadmissível que qualquer falsidade seja tolerada, propalada ou propagada em seu seio.

Por isso, ainda que mentir para qualquer pessoa seja pecado, a menção de “uns aos outros” (ἀλλήλους) no v. 9 reflete a preocupação de Paulo com a preservação da verdade especialmente entre os crentes da igreja local (Ef 4.25). Aliás, é significativo que o primeiro juízo de Deus contra o pecado dentro da comunidade cristã foi aplicado precisamente a um casal que mentiu na igreja (At 5.1-11). De fato, mentir para os irmãos é tão grave que nem o próprio Pedro, líder dos apóstolos, escapou da repreensão de Paulo quando, agindo com dissimulação, tentou enganar os delegados de Jerusalém que chegaram a Antioquia (Gl 2.11-14). A divulgação de mentiras no seio da igreja certamente era uma marca dos mestres do gnosticismo nascente em Colossos, sendo também esse um dos motivos pelos quais Paulo condena essa prática aqui.

O motivo principal pelo qual os crentes não devem trocar mentiras entre si está no fato deles formarem uma comunidade de pessoas que se “despiram do velho homem com suas práticas”. A figura evocada nessa passagem é, basicamente, a de alguém que tirou as roupas velhas que o cobriam e se livrou delas. Despir-se (ἀπεκδύομαι) tem, pois, aqui o sentido de despojar-se, separar-se de algo[5]. Certamente, com essa ilustração, o Apóstolo quer criar na mente dos seus leitores a imagem do batismo, ocasião em que o crente se despia antes de entrar na água, cobrindo-se depois com outras vestes.[6] Sendo esse o caso, Paulo, nesta passagem, novamente conecta o batismo à conversão e ao início de uma vida nova (Rm 6.3-4). É que, conforme exposto anteriormente (veja-se comentário a 2.12), nos tempos dos apóstolos, a conversão e o batismo ocorriam de forma quase simultânea (At 2.41; 8.12, 36-38; 16.33, etc.). Daí a forte associação entre ambos (1Pe 3.21).

Os crentes se despiram do “velho homem” (παλαιὸς ἄνθρωπος). O Apóstolo usa essa expressão somente em outros dois lugares: Romanos 6.6 e Efésios 4.22. Em todas as ocorrências a figura se refere, basicamente, à natureza corrupta que domina os descendentes de Adão. Os crentes foram despojados dessa natureza quando se ligaram a Cristo (2.11-12). Por isso, mesmo que a “lei do pecado” ainda se insinue em sua vida (Rm 7.23), eles não vivem mais cobertos pelos trapos ou envolvidos nos farrapos da natureza adâmica ao ponto de serem vistos como molambos ou maltrapilhos morais iguais aos incrédulos.

O “velho homem” de que Paulo fala tem “suas práticas” (πρᾶξις), ou seja, realiza as obras que lhe são próprias (vv. 5, 8, 9). É fora de questão que a pessoa sem Cristo tem uma maneira típica de agir e de lidar com as questões comuns da vida (Rm 8.5-8). O modo como essa pessoa “funciona” leva-a a se corromper cada vez mais, numa prática constante de atos que Deus reprova (Ef 4.22; 2Tm 3.13; Ap 22.11). Ao despir-se do velho homem, o crente se libertou também desses seus feitos, sendo, portanto, inaceitável que agora novamente caminhe, trôpego, sob o fardo de uma vida de pecados.

Assim como, ao ser batizado na água, o crente tirou suas vestes e se cobriu com outras, da mesma forma, ao se associar a Cristo pela fé, o convertido se revestiu do novo homem (10). Esse novo homem é a natureza regenerada, o caráter do próprio Cristo que passa a envolver o cristão[7], refreando suas inclinações e incluindo-o numa nova humanidade, onde não há barreiras entre os homens, nem diferentes graus de status espiritual, como propunham os falsos mestres que atuavam na região de Colossos (v. 11. Veja-se especialmente Gl 3.27-28).

Segundo Paulo, esse novo homem ainda não está pronto. Antes “está sendo renovado”. O verbo usado (ἀνακαινόω) significa, literalmente, fazer crescer ou tornar novo. O modo como esse verbo é usado no texto indica um processo contínuo de renovação, no qual a forma antiga e corrupta é substituída aos poucos pela nova (Gl 4.19; Ef  4.11-13; Fp 1.6; Cl 2.19).

Basicamente, conforme realça Paulo, a natureza regenerada do crente se desenvolve à medida que caminha rumo ao “pleno conhecimento” (εἰς ἐπίγνωσιν). A heresia que se propagava no Vale do Lico nos dias de Paulo ensinava uma antítese entre o mundo material e o espiritual. Os proponentes desse falso ensino apresentavam-se como conhecedores dos mistérios ligados a essa suposta antítese e diziam que a salvação dependia do conhecimento pleno desses mesmos mistérios. Para eles, portanto, a salvação pertencia a uma classe privilegiada de pessoas, detentoras de informações secretas acerca de realidades insondáveis e inacessíveis aos homens comuns (1Tm 6.20).

Para Paulo, porém, o “pleno conhecimento” é algo disponível a qualquer indivíduo que crê no Salvador (1Co 1.5-6). Este renova seu modo de viver, aperfeiçoando-se a cada dia, na medida que cresce rumo à essa “gnose” completa e verdadeira. O objeto desse conhecimento capaz de renovar o homem foi apontado em 2.2-3: “...a fim de conhecerem plenamente o mistério de Deus, a saber, Cristo. Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento”.  

Assim, não há como o crente prosseguir na renovação de seus hábitos se não crescer no conhecimento da Pessoa e da vontade de Cristo (1.9-10). À parte do conhecimento dele, não é possível desenvolver o caráter maduro e santo do homem novo (2Pe 1.3-4, 8). Por isso, um dos alvos supremos do cristão deve ser crescer no conhecimento do Senhor, sabendo que isso gerará reflexos na construção de uma vida marcada por conduta e valores magistrais (Ef 1.17; Fp 3.8; 2Pe 3.18). Em Colossos, contudo, ao propor alvos fantasiosos de conhecimento, os mestres heréticos tentavam afastar os cristãos das verdades que podiam realmente transformá-los. Por isso, Paulo realçou o valor da genuína gnose, na qual o homem novo cresce e que é capaz de mudar esplendidamente a sua vida.

O alvo final da renovação experimentada aos poucos pelo homem regenerado é a “imagem do seu Criador”. É evidente aqui a alusão a Gênesis 1.27. Ao recordar esse texto, é possível que Paulo quisesse propor como pano de fundo de seu pensamento o fato de ter havido um primeiro Adão, a partir de quem teve origem o ”velho homem”, ou seja, a humanidade corrompida. Então, em meio aos tristes ecos da verdade de que a primeira humanidade se perdeu, o Apóstolo contrapõe o ensino exultante de que é criada agora uma nova humanidade, a humanidade regenerada a partir da obra do segundo Adão, Cristo (Rm 5.14-19; 1Co 15.45-49). Enquanto os participantes da velha criação se corrompem, desfigurando a imagem de Deus neles gravada, as pessoas que participam da nova criação experimentam um processo de aperfeiçoamento e renovação no qual a imagem daquele que as criou é formada nelas (1Co 15.49; 2Co 5.17; Ef 2.10). As duas humanidades, portanto, seguem direções opostas: enquanto uma se desfaz, a outra se refaz; enquanto uma se corrompe, a outra se santifica (Ef  4.22-24; Ap 22.11).

O crescimento em direções opostas não é, contudo, a única diferença entre as duas humanidades. Há também disparidade no modo como as pessoas são classificadas dentro de cada uma delas. Se na humanidade decaída há distinções raciais, sociais, econômicas e culturais determinando o grau de importância, o valor das pessoas e a amizade entre elas, na nova humanidade não é assim (11). Nela esse tipo de separação desaparece (Ef 2.11-16: Gl 3.26-28). De fato, na comunidade dos santos todos se igualam como filhos de Deus e membros da mesma família (Ef 2.18-19).

Paulo fala do fim da distinção entre gregos e judeus, mostrando assim que na nova humanidade não existe mais nenhum abismo de separação racial. Ele também se refere a esses grupos usando as palavras “circunciso e incircunciso”. Ora, a circuncisão era o sinal da aliança exclusiva que os judeus tinham firmado com Deus (Gn 17.10-11). Portanto, ao dizer que entre os homens novos não há desigualdade entre circunciso e incircunciso, Paulo ensina que na humanidade redimida não existem diferenças de status espirituais diante de Deus, desaparecendo assim qualquer privilégio ou vantagem dessa natureza de uns sobre outros. Isso certamente representou um severo golpe contra a heresia que ameaçava a igreja de Colossos, pois combateu tanto sua tendência judaizante, como seu ensino de que os detentores da gnose formavam uma classe especial de homens espirituais.

Além de não existir na nova humanidade nenhuma barreira racial ou espiritual, nela também desabam os muros que separam os homens de culturas e classes sociais diferentes. Paulo ensina isso ao fazer referência aos bárbaros. Ora, os bárbaros eram pessoas incultas e não civilizadas que, em sua maior parte, viviam além das fronteiras do Império Romano, excluídas da participação de seus ricos benefícios, tolhidas de qualquer direito de cidadania e totalmente estranhas à sofisticada cultura grega. Mesmo essas pessoas, porém, podiam participar da sociedade redimida e, assim, serem postas em pé de igualdade com todos os salvos. 

Entre os bárbaros, os que viviam na Cítia, região situada ao norte dos mares Negro e Cáspio, eram os mais rudes. Os citas eram nômades selvagens com quem nenhum homem civilizado desejaria ter comunhão. Pela fé em Cristo, porém, até mesmo pessoas assim são aproximadas e, segundo Paulo, passam a desfrutar da posição de homens novos diante de Deus, sem nenhuma discriminação. Tampouco distinções econômicas persistem diante de Deus entre os componentes da nova humanidade. De fato, escravos e livres também são nivelados entre os crentes, sendo todos igualmente redimidos pelo sangue da cruz e participantes da herança celeste.

A doutrina paulina de que na nova humanidade não existem distinções raciais, culturais, sociais ou econômicas não se baseia na análise externa dos fatos. Na verdade, é óbvio que entre o povo de Deus há ainda ricos e pobres, bem como pessoas de diferentes culturas e realidades sociais. O fundamento, porém, para o ensino acerca da ausência de distinções entre os homens novos é o fato de que, para o povo salvo, “Cristo é tudo em todos” (ARA), ou seja, somente a pessoa e presença de Cristo são importantes na realidade vivida por cada um. Qualquer detalhe fora disso é secundário e irrelevante. É nesse sentido que todos os crentes se igualam e nivelam, ainda que distinções não essenciais sejam ainda percebidas no tempo presente.

Conforme tem sido enfatizado, o protognosticismo ensinava a existência de uma elite espiritual que, por ser a suposta detentora de conhecimentos especiais, se situava acima das demais pessoas. O ensino de Paulo sobre a ausência de distinções entre os homens novos obviamente tem como alvo destruir essa pretensão. Porém, é possível que a meta apologética do Apóstolo ultrapasse esse objetivo. Não se pode detectar os contornos específicos da heresia gnóstica que tomava forma nos dias de Paulo. Porém, sabe-se que formas desenvolvidas do gnosticismo, presentes em séculos posteriores, ensinavam uma futura abolição de diferenças entre as “almas esclarecidas”. O maniqueísmo, por exemplo, anelava o dia em que os espíritos despertos mergulhariam no Reino da Luz e viveriam finalmente em doce harmonia, nutridos por fortes laços de amizade espiritual e livres de todas as distinções impostas pela matéria má.[8] Talvez alguns embriões dessas ideias já existissem ao tempo de Paulo. Ele então destaca que a igualdade entre os homens viabilizada por Cristo não é apenas o objeto da esperança futura dos crentes, mas também uma realidade vívida e atual, desfrutada desde já pelos homens novos, gente que pouco se importa com diferenças de classe e formação, pessoas para quem hoje mesmo Cristo é tudo e o resto é resto.

Pr. Marcos Granconato    



[1] O uso do mesmo verbo grego em Romanos 4.19 e Hebreus 11.12 ilustra bem o sentido pretendido no versículo em análise.

[2] Em 1Coríntios 6.13 fica claro que alguns coríntios pensavam que, assim como o uso irrestrito de alimentos não desagradava a Deus, da mesma forma o uso irrestrito do sexo não traria qualquer prejuízo espiritual. Paulo concorda com a primeira cláusula, mas recusa a segunda.

[3] Veja-se especialmente em Romanos 1 a expressão “Deus [ou ele] os entregou”, presente nos vv. 24, 26 e 28. Note-se ainda que, de acordo com o v. 27, os ímpios já “receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão”.

[4] Há episódios no VT em que a mentira parece ser uma solução aceitável, notadamente em situações em que dizer a verdade põe em risco a vida de alguém (Js 2.1-6; 1Sm 20.5-6; 2Rs 6.18-20). Isso talvez indique que, havendo uma situação de conflito entre dois valores, o “maior” entre eles deve ser preservado, em detrimento do outro. O fato, porém, dos textos mencionados não terem como propósito enunciar esse critério, faz com que sua aplicação seja questionável, até porque não há fundamento sólido para a afirmação de que a vida é um valor maior do que a verdade.

[5] Em 2.15, o verbo tem o sentido de desarmar, mas esse significado é pouco provável aqui.

[6] Essa sugestão encontra-se em MARTIN, Ralph P. Colossenses e Filemom: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. Vol. 12. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1984. p. 116-117.

[7] Veja-se Romanos 13.14, onde Paulo evoca a mesma figura, ensinando, porém, que o crente deve revestir-se (ἐνδύω – o mesmo verbo usado em Cl 3.10)  do Senhor Jesus Cristo.

[8] O maniqueísmo foi uma seita de natureza gnóstica fundada por Mani (216 - c. 277), um filósofo persa que se denominava o parácleto enviado pelo “Pai da Luz”. Em 1992 foram encontrados diversos textos e cartas maniqueístas no Egito ocidental. Esses documentos revelaram o anseio dessa seita pelo livramento das diferenças que marcam a realidade presente. (Veja-se BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 596).

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