Segunda, 21 de Agosto de 2017
   
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Colossenses 3.12-17 - A Convivência dos Homens Novos

  

Ao usar a palavra “portanto” (οὖν) no início desse parágrafo, Paulo evidentemente pretende tratar das implicações daquilo que acabou de dizer nos versículos anteriores. Ora, ele ressaltou no v. 10 que os crentes se revestiram do novo homem, sendo agora membros da humanidade redimida que se aperfeiçoa na medida que conhece a Cristo e vai, gradualmente, se assemelhando a ele. Paulo também destacou a ausência de distinções essenciais nessa nova humanidade (11), mostrando que, para qualquer dos seus membros, independentemente de classe ou condição, Cristo é tudo, habitando indistintamente em todos.

Tendo exposto tais verdades aos seus leitores, o Apóstolo passa agora a mostrar-lhes o impacto que esses ensinos devem causar na dinâmica do dia-a-dia.  Para isso, ele novamente emprega o verbo “revestir” (ἐνδύω), já usado no v. 10 para se referir ao novo homem. Desta vez, porém, Paulo usa o verbo para realçar os traços específicos desse novo homem, destacando os contornos e formas que seus “trajes” exibem no campo da convivência dentro da comunidade cristã.  É preciso destacar aqui que Paulo, ao descrever o comportamento da humanidade recriada, mesmo podendo se voltar para inúmeras áreas da vida, preocupa-se exclusivamente em expor o modo ideal como seus membros se relacionam uns com os outros. É, de fato, significativo que, ao pensar no novo homem, o Apóstolo apresente logo de início uma pessoa de fácil convivência; uma figura simpática, paciente e dócil; alguém que vive longe de encrencas, rancores, inimizades e queixas. Segundo parece, para Paulo é especialmente nesse indivíduo que a nova humanidade é percebida de forma plena.

A humanidade recriada, ou seja, a igreja, é chamada no v. 12 de “povo escolhido de Deus”. O texto grego traz a expressão “eleitos de Deus” (ἐκλεκτοὶ τοῦ θεοῦ). Ainda que no meio evangélico brasileiro predomine um tipo deformado e raso de arminianismo[1], a literatura paulina é rica em evidências de que o Senhor escolhe soberanamente aqueles que quer salvar (Rm 8.30; 9.20-24; 1Co 1.27-28; Ef 1.4-5,11; 1Ts 1.4-5; 2Ts 2.13; Tt 1.1). Esse ensino recebe força ainda maior quando se leva em conta os discursos do próprio Senhor Jesus (e.g., Mt 24.22,24,31; Lc 18.7; Jo 10.16,26; 15.19) e as palavras de outros escritores do Novo Testamento (Jo 11.51-52; 1Pe 1.1; 2.9). Vê-se assim que a igreja é a comunidade dos eleitos, o povo que, sem mérito algum, mas pela livre administração da graça divina, foi escolhido antes da fundação do mundo para ser santo desde já e, afinal, herdar o céu.

O povo escolhido por Deus é “santo e amado” (ἅγιοι καὶ ἠγαπημένοι), ou seja, tendo sido eleito por ele, foi então separado para os seus sábios propósitos e tornou-se objeto de seu amor especial. A magnífica dignidade e o glorioso privilégio da igreja são destacados aqui. Neste ponto, vale fazer uma pequena digressão. A igreja, sendo santa e amada, não tem porque anelar a conquista de posições elevadas neste mundo, nem deve buscar sedenta a obtenção do afeto dos homens, como se disso necessitasse.

De fato, a grandeza da posição da igreja está no fato dela ter sido alçada ao status de santa, ocupando assim um lugar exclusivo como povo que Deus separou para, por meio dele, realizar seus planos na história (Ef 2.6-7; 1Tm 3.15). É nisso que consiste a gloriosa magnitude do povo eleito. Ademais, sendo também amada, a igreja não tem que se preocupar em, a todo custo, conquistar o afeto deste mundo. Basta-lhe o amor infinito de Deus. Não deve, pois, desgastar-se na criação de medidas para que, através de seus cultos, atos e discursos, obtenha a simpatia de todos (1Jo 3.13). Ela tem o amor do Senhor. Não há nela nenhum espaço que o afeto dos incrédulos possa ou deva preencher.  Aliás, o amor e a aprovação dos incrédulos podem ser até maus sinais, talvez tristes evidências de que a conduta e a mensagem da igreja não estão causando desconforto naqueles que vivem na prática da iniqüidade (Jo 7.7; 15.18-19; 1Pe 4.4). Na verdade, ter o amor do mundo pode ser a marca mais inconfundível da igreja apóstata (Tg 4.4).

O v. 12 prossegue destacando as virtudes que o povo escolhido, conforme dito, deve cultivar nas suas relações internas. Quais são as atitudes que um crente, sendo eleito, santo e amado, deve nutrir no trato com seus irmãos? Paulo mostra que, nesse aspecto, há disposições adequadas aos cristãos, formas de sentir e agir que estão a altura da magnífica condição espiritual em que se encontram. Sendo eleitos, santos e amados, nada aquém dessas disposições pode ser esperado deles na dinâmica do seu convívio constante (Ef 4.1-3).

Primeiramente, o apóstolo menciona a “profunda compaixão” (σπλάγχνα οἰκτιρμοῦ). A primeira palavra da expressão grega fornece a figura de um sentimento de ternura presente nas entranhas da pessoa. É evidente a ideia de uma sensação afetiva real e profunda que parte do mais íntimo do ser de alguém. A segunda palavra da cláusula aponta para a preocupação ou o grau elevado de sensibilidade diante de alguém que sofre, ambos expressos em misericórdia e compaixão. Paulo, assim, encoraja os crentes a, no trato entre si, se cobrirem de uma profunda afeição misericordiosa; algo sincero, que vem de dentro, quase físico; um mover interior que se compadece da dor do outro. Trata-se do extremo oposto da indiferença. Uma expressão semelhante aparece em Filipenses 2.1.

A seguir, Paulo alista a “bondade” (χρηστότης) que, como outros itens da presente lista, é fruto do Espírito (Gl 5.22-23). O termo usado por Paulo descreve a disposição generosa de ser útil na promoção da felicidade das pessoas. Esse termo, além de abrigar um sentido moral (integridade), pode significar também cortesia ou gentileza. Com efeito, o crente que anda de acordo com a sua vocação é pessoa que trata seus irmãos com fineza, fazendo com que se sintam bem. É, assim, muito fácil e agradável caminhar com ele.

“Humildade” (ταπεινοφροσύνη) é o próximo item na lista de Paulo. Basicamente, é a qualidade da pessoa que conhece a realidade de sua própria pequenez e limitações. Assim, o homem humilde é, a priori, aquele que tem um conceito modesto de si. A humildade se manifesta ainda na prontidão em abrir mão dos próprios interesses em prol dos outros (Fl 2.3-4). Nesse sentido, Jesus é o maior exemplo de humildade (Fl 2.5-8). Outra marca do cristão humilde é a mente submissa (1Pe 5.5-6). A observação dos fatos do dia-a-dia mostra que a ausência da humildade está na raiz de quase todos os problemas e conflitos que a igreja enfrenta dentro de suas próprias fileiras.

Na sequência, Paulo cita a “mansidão” (πραότης), virtude que reúne tanto os traços da bondade como da humildade. O que se destaca, porém, no homem manso é a sua serenidade mesmo diante dos mais terríveis dissabores da vida. Quando esses dissabores surgem por conta do convívio com os outros, ele não explode em fúria descontrolada, nem se mostra teimoso ou obstinado. Antes, dispõe-se a ceder ou, quando preciso, age com gravidade, sem nunca perder a disposição pacífica e o domínio de si (Gl 6.1; 2Tm 2.24-25).

O homem manso também será paciente. O termo usado por Paulo (μακροθυμία) descreve a pessoa tolerante, clemente, tardia na iniciativa de punir. É o indivíduo que suporta firmemente a ofensa, sendo demorado para reagir ou romper o relacionamento. Nesse sentido, o homem paciente é também perseverante. Ele permanece surpreendentemente constante em sua atitude de não retribuir o mal que sofre.  

O significado de “paciência” é melhor entendido na cláusula que inicia o v.13: “Suportem-se uns aos outros”. Essa expressão pode ser entendida como o dever dos crentes de dar suporte àqueles que estão curvados sob algum fardo excessivo. Porém, o contexto impõe a noção de aturar pessoas que, de alguma forma, incomodam. Aliás, o verbo usado aqui (ἀνέχομαι) aparece, por exemplo, em Mateus 17.17 e 2Coríntios 11.1, onde esse último sentido é evidente. Numa comunidade como a igreja, em que pessoas de tão diferentes idades, origens, culturas e formações são convidadas a conviver em plena harmonia, a disposição de agüentar costumes, concepções, atitudes, palavras e gestos que irritam é fundamental para que o grupo não se desfaça em discórdias nem se desvie do seu alvo primordial envolvendo-se continuamente em querelas.

Suportar um irmão, porém, terá pouco valor se mágoas forem nutridas no coração de quem se sente ofendido ou incomodado. Por isso, Paulo conecta ao dever de suportar a decisiva necessidade de perdoar (χαρίζομαι). No original, esse verbo sugere a ação de agraciar alguém, mostrando generosidade (Rm 8.32). Aplica-se, assim, ao homem que cancela uma dívida (Lc 7.42), sendo clara, portanto, a noção de perdão que o termo encerra (2Co 2.10; 12.13). De fato, na maior parte das vezes que esse verbo aparece no NT, a idéia presente é a de perdoar.

De acordo com o texto, os crentes devem perdoar as queixas que porventura tenham uns contra os outros. Queixas (μομφή) são reclamações, censuras e recriminações. Havendo perdão, críticas assim tendem a desaparecer e a igreja passa a desfrutar de um ambiente leve e alegre.

O versículo termina ensinando que o modelo que deve ser imitado na concessão do perdão é aquele demonstrado pelo próprio Senhor no seu trato com os salvos. Ora, o perdão do Senhor é gratuito, completo e sem reservas (2.13-14), sendo nesses aspectos que deve ser imitado. Além disso, o perdão de Cristo redundou na restauração completa do seu relacionamento conosco outrora quebrado (1.21-22; Rm 5.10). A partir daí, talvez seja correto dizer que a maior prova de perdão seja a reconstrução arriscada da amizade.

A virtude cristã soberana, sob cuja sombra todas as demais se desenvolvem e crescem, é, sem dúvida, o amor.  Por isso, Paulo exorta os colossenses a situar o amor “acima de tudo” (ἐπὶ πᾶσιν δὲ τούτοις. Lit. acima de todas essas coisas). Considerando a dinâmica despojar/revestir presente no contexto imediato (vv 8-12), a expressão com que o apóstolo inicia o v. 14 sugere que a capa ou o  sobretudo que deve cobrir todas as demais peças da vestimenta do cristão é o amor. Debaixo dessa virtude todas as demais ficam protegidas e o crente se apresenta completamente trajado, envergando a peça principal do guarda-roupas de Deus.

A razão porque o amor deve ocupar um lugar tão notável está no fato dele ser o “elo perfeito” (σύνδεσμος τῆς τελειότητος) ou, literalmente, o “vínculo da perfeição” (ARA).  A palavra traduzida aqui como elo ou vínculo se refere a algo com que se amarra ou conecta uma coisa a outra, prendendo-as juntas fortemente. Pode ser um laço (At 8.23) ou mesmo os ligamentos que unem os membros do corpo (2.19).[2] A idéia de unidade é, portanto, muito clara aqui. Paulo está dizendo que o amor é o fator que gera perfeita coesão entre os crentes. Sendo essa virtude o laço ideal que junta as partes plenamente, sem ela a união, obviamente, será frouxa. Ora, o barco mal amarrado logo se solta do cais e se afasta para longe. Da mesma forma o cristão que não aperta o nó do amor, em breve se afasta do seu irmão, não importa quão leve seja a agito das ondas que se abatam contra ele.

No conjunto de admoestações relativas à vida cristã em comunidade, Paulo acrescenta o ensino de que a paz de Cristo deve ser o juiz no coração de cada um (15). A paz de Cristo ( εἰρήνη τοῦ Χριστοῦ) é, nesse contexto, a paz que o Senhor conquistou para a igreja e que ele quer que seus servos cultivem entre si (Ef 2.14-18).

Essa paz obtida e ordenada por Cristo deve servir como árbitro. O substantivo “juiz” não aparece no texto grego. O que se tem ali é um verbo (βραβεύω), cujo significado básico é atuar como árbitro, o que envolve decidir, controlar e determinar. Assim, Paulo está dizendo que o que deve determinar os rumos da caminhada cristã conjunta é a paz que Cristo quer que reine entre seus servos. Essa paz tem que controlar todas as reações, deve apontar como o crente tem que agir quando provocado ou ofendido, deve impor suas decisões quando o irmão ferido e cansado está oscilando entre perdoar ou não, entre suportar ou não, entre amar ou não.

Paulo está, assim, através de um recurso criativo de linguagem, personificando a paz de Cristo e mostrando a importância de investi-la na função de juiz para que presida o andamento da igreja. Como magistrado revestido de autoridade, a paz de Cristo determinará o modo como as partes devem se conduzir ao longo do difícil processo de convivência e, principalmente, colocará fim aos conflitos que surgirem dentro da comunidade dos santos.

Esse árbitro, porém, não estará diante das partes. Seu lugar é o interior delas. De fato, os crentes devem constituir tal juiz “em seu coração”. Então, a paz de Cristo será um magistrado íntimo, sentado na cátedra da alma, revestido de poder para ordenar, a partir da consciência de cada crente, como ele deve agir no trato com o outro. Em termos práticos, essa orientação pode ser traduzida da seguinte maneira: sempre que houver um conflito de relacionamento dentro da igreja (ou mesmo a possibilidade de um conflito), as partes devem, interiormente, se curvar diante das determinações da meretíssima paz, fazendo tudo o que porventura seja útil à restauração ou preservação da amizade e do ambiente leve, alegre e livre de perturbações (Rm 14.19; Ef 4.3; 2Pe 3.14).

O apóstolo expõe a razão principal pela qual a paz de Cristo deve ocupar a função de árbitro no coração dos crentes. Segundo Paulo, os santos “foram chamados” para viver em paz como parte de um só corpo (1.18, 24; 2.19).  De fato, um organismo saudável tem todas as suas partes em harmonia, inexistindo qualquer grau de desacordo entre elas (Rm 12.4-5; 1Co 12.12-27; Ef 2.16). Portanto, sendo inseridos no corpo de Cristo que é a Igreja, os crentes foram vocacionados para viver em paz (1Co 7.15). Evidentemente, os que dentre eles nutrem antipatias, barreiras, contendas, discórdias e mágoas podem ser contados como ministros desleais a essa santa vocação.

O v. 15 termina dizendo que os cristãos devem ser agradecidos (εὐχάριστοι). Considerando que Paulo está pensando em termos de comunidade, isso significa que a igreja não pode se distinguir como um grupo de murmuradores. Gente descontente que vive reclamando forma o contexto ideal para brigas. Por isso, o Apóstolo incentiva o cristão a nutrir um espírito de gratidão a Deus. Os vv. 16-17 repetem essa ordem. Aqui, porém, a gratidão está ligada ao fato de pertencer ao corpo de Cristo.

Além de pacífico e harmonioso, o relacionamento entre os crentes de uma determinada igreja local deve ser construtivo. O convívio dos cristãos deve produzir efeitos didáticos. Enquanto andam lado a lado eles devem se instruir e se aconselhar mutuamente (16). Porém, para que isso aconteça é necessário que a Palavra de Cristo habite ricamente em cada um (Rm 15.14). 

A expressão “palavra de Cristo” ( λόγος τοῦ Χριστοῦ) não aparece em nenhuma outra parte do Novo Testamento. Isso evidencia a preocupação que Paulo tem aqui de apresentar a pessoa de Cristo como Senhor absoluto da igreja, promovendo, assim, devoção exclusiva a ele. É fácil compreender essa preocupação do apóstolo: sendo certo que a igreja de Colossos estava sendo ameaçada pelo gnosticismo incipiente que reduzia Cristo a somente mais um entre diversos anjos (veja-se Aspectos Introdutórios), Paulo se preocupa, ao longo de toda a epístola, em inculcar nos seus leitores a realidade da supremacia de Cristo, o criador dos anjos, a quem a igreja deve total obediência.

A “palavra de Cristo” é o Evangelho, isto é, a mensagem centrada em Cristo, pela qual os colossenses haviam sido chamados à fé (1.5-6). Em outros lugares, essa mensagem é chamada de “palavra de Deus’ (At 4.31; 6.7; 8.14; 1Ts 2.13; 2Tm 2.9) ou “palavra do Senhor” (At 8.25; 13.49; 1Ts 1.8; 2Ts 3.1). A singular expressão “palavra de Cristo” também abrange a palavra pronunciada por Cristo, ou seja, os ensinos gerais de Jesus transmitidos pelos apóstolos (Jo 14.26; 16.13; At 20.35; 1Co 7.10; 11.23; 2Co 13.3; Gl 1.11-12; 1Ts 4.15; Hb 2.3). Em todos os sentidos que a expressão englobe, o fato é que essa palavra deve habitar ricamente no crente (ἐνοικείτω ἐν ὑμῖν πλουσίως), ou seja, tem que estar viva nele, enchendo de maneira completa sua mente e coração, de forma que o cristão seja amplamente influenciado por ela (1Jo 2.14) e a faça transbordar para os outros.

O texto paralelo de Efésios 5.18-20 indica que a plenitude do Espírito Santo no crente está fortemente associada com a habitação da palavra de Cristo. Com efeito, uma breve comparação entre o versículo em análise e o texto de Efésios mostra que ambos são substancialmente iguais, o que permite que seja estabelecida uma grande correspondência entre ser controlado pelo Espírito Santo e ser “invadido” no íntimo pela mensagem de Cristo e seus ensinos. É, portanto, como se Paulo, nos dois trechos, estivesse falando do mesmo fenômeno, mas usando linguagem e figuras diferentes. Sendo esse o caso, estar cheio do Espírito Santo e ser habitado pela palavra de Cristo são, basicamente, a mesma coisa.

Os crentes em quem a palavra de Cristo habitar estarão aptos para se ensinar e aconselhar mutuamente. Ensinar (διδάσκω) é dar instrução, expondo e explicando doutrinas ao outro; já aconselhar (νουθετέω) é exortar, alertar ou admoestar alguém. O sentido dominante é o de corrigir (1Co 4.14; 1Ts 5.14). Ora, qualquer tentativa de realizar essas tarefas sem o uso da palavra de Cristo redundará na mera exposição de opiniões pessoais ou na apresentação de filosofias não cristãs e heréticas. Infelizmente, nos dias atuais, muitos pastores, orientadores espirituais e mesmo crentes comuns têm agido assim. O resultado é a orientação vazia de verdade, o conselho estéril de bons frutos e o ensino que preserva e até induz ao erro. Isso não é de se estranhar. A palavra de Cristo é luz (Sl 119.105; 2Pe 1.19). Se os cristãos de nosso tempo, especialmente os mestres da igreja, continuarem a conduzir o povo pelo vale escuro deste mundo com tochas apagadas, o resultado será sempre o desvio, o tropeço e a queda (Is 8.19-20; Mt 15.14).

Paulo diz que o ensino e o conselho devem ser ministrados com toda sabedoria (σοφία). A palavra usada aqui indica conhecimento amplo e entendimento claro, o que mostra que o crente não deve se entregar ao ensino e ao conselho tendo apenas noções básicas da verdade (Veja-se tb. 1.28). O termo “sabedoria”, porém, tem sentidos mais abrangentes. A palavra indica também habilidade, prudência, tato e seriedade. Trata-se, portanto, da virtude de quem tem bom juízo e clara percepção das coisas, sabendo agir de modo adequado na hora adequada.[3]

Considerando esse último sentido, o destaque que Paulo dá à sabedoria é necessário porque, de fato, a instrução e a correção não podem ser realizadas somente com um conteúdo bíblico. É preciso também que sejam ministradas de modo bíblico. Sim, pois se o crente apresentar a palavra de Cristo a seu irmão sem ser sábio na maneira como o faz, estará, ele próprio, desobedecendo essa mesma palavra. Nesse caso, dificilmente obterá resultados positivos em seu trabalho. Antes, construirá barreiras entre si e aqueles a quem tenta ministrar, criando resistências no coração dos que o escutam. Ora, conforme o ensino neotestamentário, a instrução e o conselho devem ser realizados com mansidão (2Ts 3.15; 2Tm 2.24-25), paciência (2Tm 4.2), seriedade (Tt 2.7), convicção (Tt 2.15), temor (Jd 22-23) e, algumas vezes, quando as circunstâncias o exigirem, severa firmeza (1Co 4.19-21). Esse é o modo sábio como o crente deve ministrar a palavra de Cristo aos seus irmãos na fé.

O versículo 16 termina orientando os crentes a cantar hinos a Deus. Segundo Paulo, a comunidade cristã, ao realizar a tarefa mútua de ensino e correção, deve fazer isso também através do louvor, num ambiente marcado pela gratidão sincera a Deus, expressa no entoar de “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Não há grandes distinções entre esses três itens. Os salmos (ψαλμοῖς) são versos poéticos com conteúdo piedoso (o termo aqui não se refere necessariamente aos salmos do AT). Hinos (ὕμνοις) são canções sacras de louvor e celebração. Cânticos espirituais (ᾠδαῖς πνευματικαῖς) tem sentido abrangente e engloba tanto poemas como canções resultantes do impulso do Espírito Santo sobre o adorador.

O contexto da passagem deixa claro que o uso dessas canções na liturgia cristã está associado não somente ao louvor em si, mas também à instrução e à correção. Há indícios de que em Colossos os falsos mestres do gnosticismo incipiente expunham uma falsa espiritualidade manifesta em transes e êxtases emocionais (2.18). Paulo mostra aqui que a experiência cristã madura está longe disso. Mesmo nos momentos de maior elevação espiritual, quando a alma, estimulada pelo Espírito Santo, se volta inteiramente para o louvor e a gratidão a Deus, o crente enuncia cânticos racionais e instrutivos, preocupando-se, inclusive, com a edificação, ensino e correção de seus irmãos (Ef 5.18-20). Nesse aspecto a igreja dos dias atuais tem muito que corrigir. De início, tem que aprender que os cânticos entoados durante o culto devem ser veículos de ensino da sã doutrina e não apenas meios de enlevo emocional ou simples fontes de deleite musical para todos os gostos.  

A expressão “salmos, hinos e cânticos espirituais”, em suas duas ocorrências (aqui e em Ef 5.18-20), aparece associada à gratidão. Com efeito, nesse último aspecto, Paulo instrui expressamente os colossenses a cantarem a Deus “com gratidão” (χάρις). O sentido do termo usado aqui é amplo e engloba, além de gratidão, alegria, prazer, deleite, doçura e boa vontade. O fato é que a reunião dos crentes precisa sempre primar pela instrução, mas nunca deve deixar de ser leve, bonita, feliz e restauradora, com cada indivíduo contribuindo para a construção dessa atmosfera ao manter-se consciente de que a participação na comunidade dos homens novos (3.10) é uma dádiva maravilhosa de Deus pela qual deverá eternamente dizer “muito obrigado”.    

A seção em análise termina com uma admoestação aplicável a quaisquer manifestações da conduta humana. O Apóstolo diz “Tudo o que fizerem” e, em seguida, circunscreve a totalidade do comportamento humano dentro dos limites de duas esferas: palavras e ações. Usando palavras o homem discursa, conversa, escreve, canta e ora. No campo das ações são inumeráveis os exemplos do que o ser humano tem ao seu alcance realizar. Seja como for, uma só regra deve reger tanto as palavras como os atos dos crentes: façam tudo “em nome do Senhor Jesus” (17). Fazer algo em nome de Jesus significa atuar como representante dele, agindo sob sua autoridade. De fato, o crente carrega consigo o dever de se comportar como um emissário do Senhor nos mínimos detalhes de sua caminhada aqui, sob o risco de desonrar o Rei diante do mundo e dos seus irmãos.

A última frase do versículo 17 é “... dando por meio dele graças a Deus Pai”. Paulo, no v. 16, já incitou os crentes a uma liturgia caracterizada por expressões de gratidão. Agora ele expande essa admoestação, ensinando que o cristão deve dar graças ao Pai em meio a tudo o que diz ou faz (1Ts 5.16-18). Paulo certamente agrega essa frase à ordem inicial do v. 17 porque muitas vezes o homem é instado o fazer algo por força do dever e não da vontade (Cf. vv. 18-22). Nesses momentos, reclamações e murmurações são comuns, de modo que tanto as palavras como as ações do crente deixam de refletir a conduta própria de alguém que faz tudo “em nome do Senhor Jesus”. Como representante de Cristo, porém, o cristão deve repudiar essas expressões de descontentamento e inconformismo. Na verdade, reações assim são características de pessoas conduzidas por uma mente carnal. Aliás, elas marcavam exatamente a conduta dos mestres da falsa gnose tão combatida por Paulo nessa epístola (Jd 16).

Observe-se, finalmente, que as graças rendidas pelo crente a Deus Pai só podem ser oferecidas “por meio dele” (διʼ αὐτοῦ). Com efeito, Cristo é o único Mediador que torna possível a aproximação entre o homem e Deus (Ef 2.17-18; 1Tm 2.5; Hb 8.6; 9.15; 12.24). O texto mostra, portanto, que o Senhor, através de sua obra redentora e seu ministério de intercessão (Rm 8.34; Hb 7.25; 1Jo 2.1), não somente viabiliza as súplicas que o crente faz, mas também abre o acesso para suas ações de graça, de modo que elas cheguem ao céu como sacrifícios de aroma suave (Hb 13.15; 1Pe 2.5).

Pr. Marcos Granconato    



[1] O arminianismo é o sistema teológico proposto por Jacó Armínio (1560-1609), segundo o qual Deus dotou cada indivíduo com a capacidade de crer em Cristo caso queira. É a chamada graça preveniente. De acordo com o arminianismo, portanto, Deus não age de forma especial em pessoas eleitas conduzindo-as à fé. Antes, atua igualmente em todos, cabendo a cada um responder ao convite da graça, conforme livremente queira. Para os arminianos, quando a Bíblia fala de eleitos, refere-se a pessoas que Deus sabia de antemão que creriam. Na tentativa de fundamentar essa afirmação usam Romanos 8.29 e 1Pedro 1.2. Esses ensinos, porém, ainda que atraentes para a mente moderna que tanto valoriza a liberdade humana, não podem ser sustentados à luz de textos como João 6.37, 44, 65; Atos 16.14; Romanos 9.18; 11.7, onde se vê claramente que a graça salvadora de Deus atua de modo especial somente em algumas pessoas. Quanto ao uso equivocado de Romanos 8.29 e 1Pedro 1.2 veja-se o comentário a 1.12 supra. Frise-se apenas aqui que esses textos não falam de pessoas que Deus sabia previamente que creriam, mas sim de indivíduos nos quais ele sabia de antemão que agiria, abrindo-lhes o coração e concedendo-lhes a fé (Ef 2.8).    

[2] A mesma palavra aparece em Efésios 4.3. Ali, porém, o vínculo que mantém a “unidade do Espírito” é a paz. Contudo, o mesmo trecho mostra que a paz só existirá se os crentes se suportarem mutuamente em amor (Ef 4.2).

[3] Certamente Paulo usa palavra “sabedoria” também para atacar a heresia, cujos mestres tentavam transmitir aos outros a falsa ideia de que eram sábios (Veja-se 2.23).

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