Quinta, 29 de Junho de 2017
   
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Colossenses 4.2-6 - As Últimas Instruções

  

A Epístola aos Colossenses caminha para o final com algumas instruções gerais de Paulo aos cristãos daquela cidade. Tratam-se, basicamente, de orientações acerca da oração e do modo como os crentes devem se comportar no seu relacionamento com os de fora. Essas áreas são, precisamente, aquelas em que os cristãos de todas as épocas sempre precisam ser instruídos, tanto por causa de sua negligência e descuido nesses campos, como em virtude dos desvios frequentemente propostos pelos falsos mestres quando tratam desses assuntos.

A primeira orientação é “dediquem-se à oração” (2). Dedicar-se (προσκαρτερέω) é tradução de um verbo cujo sentido é persistir (Rm 12.12), guardar com devoção (At 2.42) ou apegar-se intensamente (At 6.4). Paulo quer, assim, que os crentes sejam fiéis praticantes da oração, jamais esmorecendo (Mt 7.7-11; Lc 18.1-8; Ef 6.18; 1Ts 5.17).

Ora, é sabido que a heresia pregada em Colossos colocava o destino das pessoas sob a dependência do movimento dos astros que, por sua vez, eram controlados por anjos. Por isso, os desvios doutrinários que eram ali disseminados abrangiam a adoração de anjos na esperança de que essas entidades agissem em prol dos adoradores dispondo os astros da maneira que lhes fosse favorável.[1] Ao estimular a firmeza na oração, porém, o Apóstolo golpeia essa superstição, colocando unicamente nas mãos de Deus o controle da vida humana e ensinando que é só na sua soberana graça que o homem deve depositar a sua esperança quando almeja desfrutar qualquer forma de bem (Tg 1.17).

Em seguida, Paulo diz: “estejam alerta”. O termo usado aqui (γρηγορέω) significa, basicamente, manter-se acordado. Os autores do NT o empregam para ensinar o crente a estar preparado diante da iminente volta do Senhor (Mt 24.42-43; 25.13; Mc 13.35; 1Ts 5.4-6; Ap 16.15) e também para exortar o cristão a não deixar-se levar pelo desmazelo nas coisas espirituais durante a sua jornada na vida presente (1Co 16.13). O NT usa ainda esse termo para advertir acerca de alguma ameaça iminente ou ao redor, diante da qual o crente deve vigiar (At 20.29-31; 1Pe 5.8). Considerando o perigo do proto-gnosticismo a que estavam expostos os crentes de Colossos, talvez esse seja o caso aqui. Porém, o modo como a presente ordem é construída no grego indica mais seguramente que a vigilância deve estar associada à oração. Paulo estaria, então, admoestando os colossenses a estar alertas, zelando para que sua vida de oração não esmorecesse (Ef 6.18). É também possível que o Apóstolo esteja indicando aqui que a oração perseverante é uma forma do crente manter-se atento, como Jesus parece mostrar em Mateus 26.36-41.

A oração também tem que ser um meio através do qual os crentes demonstram gratidão, reconhecendo que o Senhor a quem devem devoção exclusiva administra bondosamente sua graça, provendo as necessidades de seus servos, dirigindo sabiamente suas vidas e enchendo-os muitas de vezes de alegria e satisfação.

É por isso que, num contexto em que Paulo fala predominantemente sobre a oração, ele escreve “sejam agradecidos”. O termo adotado pelo Apóstolo aqui é muitas vezes traduzido como “ação de graças” (εὐχαριστία) que é nada menos do que uma expressão verbal de gratidão e louvor (1Co 14.16). Essa prática é tida como oposta ao uso de palavras torpes (Ef 5.4) e deve permear o coração do crente em todas as circunstâncias, boas ou más (1Ts 5.18). A oração de gratidão deve também substituir a ansiedade que muitas vezes domina a mente do cristão (Fl 4.6). Em Colossenses, Paulo ensina que os crentes devem crescer em ações de graça (2.7). O alvo final desse modo de vida é a glória de Deus (2Co 4.15).

Tendo orientado os colossenses no tocante a vida de oração, o Apóstolo passa a expor aos leitores os seus próprios anseios[2], pedindo que eles os incluam em suas súplicas a Deus. Os pedidos de oração de Paulo se resumem, basicamente, num só: que ele realize seu trabalho de evangelista, mesmo estando preso. Anexos a esse pedido principal, Paulo apresenta outros que, quando analisados, revelam algumas de suas concepções sobre o ministério de proclamação da fé.

Primeiro Paulo pede orações “para que Deus abra uma porta” para a mensagem (3). É curioso que na condição de prisioneiro em que o Apóstolo se encontrava, sua primeira preocupação não girasse em torno de seu bem estar, de sua liberdade ou de sua segurança, ainda que pedisse orações por essas coisas também (Rm 15.30-32; Fp 1.19; 2Ts 3.1-2; Fm 22). Com efeito, para ele, o serviço de Cristo estava acima da própria vida (At 20.24). Por isso, anelava antes de tudo que Deus lhe abrisse uma porta a fim de que, passando por ela, a mensagem da salvação em Cristo se expandisse, seguindo seu curso.

E expressão “abrir uma porta” era eventualmente usada por Paulo (1Co 16.9; 2Co 2.12-13) e encerra uma figura de fácil compreensão. Abrir uma porta significa, basicamente, criar uma oportunidade. A partir daí é possível concluir que, no texto em análise, o Apóstolo reconhece que as oportunidades para o evangelismo dependem da vontade e da ação de Deus (At 16.6-7). É ele quem, em sua soberania e poder, “abre as portas”, ou seja, maneja as circunstâncias e dispõe os fatos, de modo a fazer com que apareçam as ocasiões propícias à pregação e até mesmo à aceitação da fé (At 14.27).

No texto grego, o termo constante do v. 3 e traduzido na NVI como “mensagem” é, literalmente, “palavra” (λόγος). Na Carta aos Colossenses, esse termo se refere indubitavelmente ao evangelho que convida o homem perdido a desfrutar de uma nova esperança preservada no céu (1.5). A “palavra” é também todo o ensino que Deus confiou aos seus servos, os apóstolos (1.25), ensinos esses que devem ser conhecidos profundamente por todos os crentes e usados na instrução e no aconselhamento de cada membro da comunidade da fé (3.16). É, pois, pela oportunidade de comunicar essas coisas que Paulo pede que os colossenses orem.

O Apóstolo se refere à mensagem que proclama chamando-a de “o mistério de Cristo”. Em 1.25-27 e 2.2, ele já usou o termo “mistério” (μυστήριον) para aludir ao seu ensino. Conforme dito no comentário a 1.26, ao usar essa palavra, Paulo fazia frente ao próprio gnosticismo embrionário que se difundia na região de Colossos, já que essa falsa filosofia alegava, na pessoa de seus líderes, ser detentora de segredos espirituais inacessíveis ao homem comum. É também provável, contudo, que a noção de mistério que subjaz o uso de Paulo seja procedente da apocalíptica judaica mais do que das concepções filosóficas helenistas. Ora, na visão judaica “mistério” é, em termos gerais, o conjunto de segredos revelados por Deus acerca dos seus propósitos. Nesse sentido, ao ser revelado, o mistério concede ao homem uma visão privilegiada de todo o desenrolar da história humana, conforme o ponto de vista divino.[3]

Esse uso judaico do termo em Paulo pode, de fato, ser percebido com certa clareza em 1.26-27 e com nitidez maior em Romanos 11.25-26; 1Coríntios 2.7; 15.51; Efésios 1.9-10; 3.5-6.  Em Colossenses 4.3, porém, “mistério” parece ter um sentido mais abrangente, abarcando toda a mensagem evangélica que Paulo anela proclamar (Ef 6.19), da qual realmente faz parte tanto o modo como Deus executa o seu plano de salvação na história, como o alvo final dessa mesma história (Ef 1.9-10). Paulo afirma no fim do v. 3 que era precisamente por proclamar essa mensagem que ele estava preso (Ef 6.20; 2Tm 2.8-9).

A abertura de portas para a proclamação da fé é obra de Deus. Ele é quem cria as oportunidades, tornando possível o avanço do Evangelho. Na busca desse propósito, porém, a ação poderosa do Senhor não se limita à abertura de portas. Além de gerar ocasiões favoráveis à pregação, Deus também habilita seus servos de modo que possam realizar essa obra com clareza, ousadia e coragem. É o que se depreende do v. 4. Rogando que os colossenses orem por seu ministério missionário, Paulo mostra o anseio de que Deus lhe conceda a graça de manifestar o mistério de Cristo de modo puro e transparente, como é necessário que o servo do Senhor faça.

A expressão “manifestá-lo abertamente”, constante da NVI, é tradução de um verbo apenas (φανερόω), cujo significado básico é mostrar ou fazer aparecer. A noção de tornar visível, claro e evidente compõe o sentido desse verbo. Assim, o Apóstolo, nem de longe pretendia apresentar sua mensagem numa linguagem hermética, cheia de narrativas de visões obscuras, como provavelmente faziam os doutores da mentira que atuavam em Colossos (2.18). Ora, sabe-se por fontes extra-bíblicas que os mestres da falsa gnose se deleitavam nesse tipo de linguagem e a adotavam para impressionar as pessoas simples.[4] Paulo, contudo, como ministro da verdade, queria ser claro em tudo o que dizia, expondo Cristo aos olhos dos seus ouvintes do modo mais límpido e nítido possível (Gl 3.1).

Do texto paralelo de Efésios 6.20, conclui-se que para pregar dessa forma é preciso coragem. De fato, o termo usado por Paulo em Efésios (παρρησιάζομαι) significa falar de modo livre e confiante, mostrando ousadia. Em Colossenses 4.4, o Apóstolo destaca que pregar assim não lhe era opcional, mas sim um dever, algo necessário e compulsório (δεῖ). Os diversos sermões de Paulo transcritos no livro de Atos não deixam dúvidas de que essa maneira de evangelizar era sempre adotada por ele (At 20.26-27. Veja-se ainda 1Co 2.1-2 e 2Co 4.1-4). O notável missionário reconhecia, contudo, que a capacitação para tanto vinha somente de Deus. Por isso, pedia as orações dos colossenses.

Nos vv. 5-6, Paulo dá orientações aos seus leitores acerca do modo como deveriam se comportar em face das pessoas que não pertenciam à comunidade da fé. No procedimento diante delas, a marca principal do crente deveria ser a sabedoria (σοφία). Essa palavra aparece seis vezes na epístola (1.9, 28; 2.3, 23; 3.16; 4.5). No NT geralmente é empregada para descrever a capacidade de usar o conhecimento teórico na construção de um comportamento correto. O texto em análise reflete de forma precisa esse sentido ao determinar que os cristãos devem proceder (Gr. Περιπατέω, andar ou, num sentido figurado, se comportar) sabiamente.

Vê-se assim que, de modo diverso dos filósofos seculares e dos falsos mestres de Colossos, a sabedoria do povo de Deus não deve se restringir a discursos eloqüentes (1Co 1.17; 2.1, 4) que não servem para nada (Veja-se 2.8; 1Co 1.20; 2.6; 3.19-20). Antes, precisa ter um aspecto vivencial, podendo ser testemunhada pelas pessoas ao redor.

Ainda no v. 5, Paulo se refere aos incrédulos como “os de fora” (1Co 5.12-13) dizendo que é diante deles, especialmente, que os crentes devem se comportar de forma sensata (1Ts 4.12). Ele ensina, assim, que os cristãos devem se preocupar seriamente com o modo como se apresentam aos olhos do mundo. Isso, é claro, não significa que os crentes devem tentar agradar os não crentes a todo custo (Gl 1.10), mas sim que precisam mostrar a eles que o evangelho de fato faz diferença, mudando para melhor a vida de quem crê.

No fim do v. 5 Paulo destaca uma forma em particular através da qual os salvos devem mostrar sabedoria aos perdidos. Ele diz: “aproveitem ao máximo todas as oportunidades”. O texto grego diz precisamente “remindo o tempo”, expressão cujo significado básico aponta para o uso diligente do tempo, numa forma de vida em que cada momento é tido como uma dádiva digna de zelo e cuidado e em que cada oportunidade é aproveitada.

Pode-se dizer, à luz do ensino geral do NT, que isso é importante no trato com os incrédulos porque o tempo da salvação está se findando e em breve a oferta de perdão será removida (Rm 13.11-12; 2Co 6.2). Daí a necessidade de usar cada instante com sensatez e cuidado, a fim de que os homens conheçam depressa, pela vida e pelas palavras do povo redimido, a salvação que Deus ainda oferece em Cristo. [5]

Deve-se destacar ainda que, no texto paralelo de Efésios 5.15-16, Paulo faz a mesma admoestação (remir o tempo), dizendo que o crente deve agir assim porque “os dias são maus”. Isso significa que, num universo caído, em que coisas, fatos e homens carregam as marcas da malignidade do pecado, o crente deve aproveitar cada instante para oferecer a todos um lampejo da graça e da verdade em meio à longa noite da presente era.

Outra forma de mostrar sabedoria aos não crentes é prevista no v. 6. Trata-se de uma maneira distinta de falar. Primeiramente Paulo diz que o crente deve ser agradável em suas conversas triviais com os de fora. A palavra traduzida como “agradável” é o vocábulo grego cujo significado mais comum é “graça” (χάρις). Esse termo, aplicado à forma de dialogar, descreve uma conversa de bom conteúdo, graciosa, atraente, elegante e educada. O apóstolo, pois, ensina um modo de falar que traz deleite e não aborrecimento ou mal estar aos participantes da conversa (Ec 10.12; Lc 4.22; Ef 4.29).

Prosseguindo, Paulo ilustra essa maneira de dialogar descrevendo-a de modo figurado. Ele afirma que o falar do cristão deve ser “temperado com sal”. O sentido disso é simples: assim como o sal tempera os alimentos, tornando-os mais agradáveis ao paladar, as palavras dos crentes também devem ser “saborosas”, com gosto de inteligência, bom senso, brandura, amabilidade e equilíbrio.[6] Sendo os crentes o “sal da terra” (Mt 5.13; Mc 9.50), é de se esperar que suas palavras reflitam essa realidade.

Certamente, a maneira de conversar com os de fora ensinada por Paulo aqui, criaria oportunidades de testemunho para os colossenses. Usando palavras boas e agradáveis no trato diário com os incrédulos, estes naturalmente se sentiriam à vontade para falar sobre assuntos ligados à fé, levantando questões, discutindo opiniões ou fazendo perguntas. Quando isso acontecesse, os crentes tinham o dever de saber o que responder em cada caso específico, sendo sensíveis à necessidade de cada interlocutor em particular (1Pe 3.15-16).

Pr. Marcos Granconato    



[1] Veja-se comentário a 2.8 e 18.

[2] O uso de “nós”, no v. 3, indica que os companheiros de Paulo mencionados em 4.7-14 tinham os mesmos desejos que ele expõe aqui.

[3] Veja-se DUNN, J. D. G. The Epistles to the Colossians and to Philemon: A commentary on the Greek text. William B. Eerdmans Publishing; Paternoster Press: Grand Rapids, 1996. p. 119-120.

[4] Documentos cristãos produzidos no século 2 atestam que muitas seitas gnósticas faziam uso de fórmulas de iniciação repletas de palavras estranhas, com termos hebraicos e nomes de seres imaginários, tudo com o fim de impressionar seus novos adeptos e cativar os pagãos em geral ou os cristãos despreparados (Veja-se IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias I, 11:3-4; 21:3-4).

[5] Veja-se essa sugestão em McNAUGHTON, I. S. Opening up Colossians and Philemon. Leominster: Day One Publications, 2006. p. 85-86.

[6] Como nos dias de Paulo o sal era usado inclusive com o propósito de preservar os alimentos do processo comum de deterioração, existe o parecer de que a figura usada aqui aponta também para uma conversa livre de corrupção (Veja-se ANDERS, M. Galatians-Colossians. Holman New Testament Commentary. Holman Reference. Broadman & Holman Publishers: Nashville, 1999. vol. 8, p. 346). É óbvio que esse entendimento não contraria a intenção do apóstolo (Cf. Ef 4.29), mas o contexto da presente passagem deixa claro que o sentido principal da figura usada por Paulo é a forma agradável de falar. 

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