Sexta, 24 de Fevereiro de 2017
   
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Colossenses 4.7-9 - O Envio de Tíquico e de Onésimo

  

Informações e referências pessoais, assim como saudações e breves orientações gerais marcam o fim da Epístola aos Colossenses.  Isso faz com que a carta transmita uma noção muito forte acerca do grau de afinidade e compromisso reinante entre os membros da comunidade cristã primitiva. A impessoalidade e o distanciamento que hoje marcam até as relações entre os crentes de uma mesma igreja local estão totalmente ausentes aqui.

Paulo começa mencionando Tíquico que, indo a Colossos, deveria dar informações sobre o Apóstolo aos crentes daquela cidade (7). Ele seria o mensageiro que levaria a Carta aos Colossenses, assim como a Epístola aos Efésios (Ef 6.21-22), a carta aos crentes de Laodicéia (4.16) e a pequena missiva a Filemom.

Tíquico é citado pela primeira vez no Novo Testamento em Atos 20.4, onde se lê que ele e Trófimo eram de província da Ásia. No mesmo texto há a informação de que, junto com outros irmãos, Tíquico acompanhou o Apóstolo Paulo em um trecho de sua viagem pela Macedônia.[1] O relato de Atos diz ainda que, depois de viajarem com Paulo, Tíquico e a equipe de que fazia parte seguiram adiante e ficaram esperando pelo Apóstolo em Trôade, quando ele seguia para Jerusalém (At 20.1-5). Aliás, é bem possível que Tíquico tenha acompanhado Paulo até Jerusalém, uma vez que Trófimo, um dos membros da equipe de que Tíquico fazia parte, certamente seguiu com o Apóstolo para aquela cidade (At 21.29).

Sendo, assim, bem conhecido por Paulo, Tíquico é chamado por ele de “irmão amado, ministro (διάκονος) fiel e cooperador (σύνδουλος) no serviço do Senhor”. Essas palavras refletem o empenho, a fidelidade e o companheirismo de Tíquico que, como era de se esperar, permaneceu ao lado de Paulo depois que ele foi liberto da prisão em Roma em que se encontrava quando escreveu a presente carta (Tt 3.12). Na verdade, Tíquico mostrou-se fiel companheiro de Paulo até o fim. Quando escreveu sua última carta, já prestes a ser martirizado, o velho Apóstolo citou Tíquico mais uma vez como um servo ainda útil no serviço do Reino (2Tm 4.12).

No v. 8, Paulo revela os dois motivos que o estimulavam a enviar Tíquico a Colossos: informar o que se passava com ele e com os irmãos que estavam ao seu lado em Roma e fortalecer o coração dos colossenses.[2] Certamente, as informações que estavam prestes a ser levadas por Tíquico fariam com que os crentes orassem por Paulo de modo mais específico, conhecendo melhor suas lutas, problemas e anseios. Já o fortalecimento do coração dos crentes de Colossos viria através das boas notícias nas quais Tíquico relataria as expectativas otimistas de Paulo, sua possível libertação (Fm 22)  e as vitórias que estava obtendo no anúncio do evangelho (Fp 1.12-14).

Paulo diz que Tíquico iria com Onésimo (9), chamado aqui de irmão fiel (πιστός) e amado (ἀγαπητός). Esses termos são os mesmos com que o Apóstolo descreve Tíquico (v. 7) e Epafras (1.7), ambos notáveis ministros do evangelho. Paulo diz também que Onésimo era “um de vocês”. Isso significa que ele era procedente de Colossos. Voltando para sua cidade, tinha a missão de, junto com Tíquico, informar os cristãos colossenses acerca da situação de Paulo.

A maior parte das informações acerca de Onésimo procede da Carta de Paulo a Filemom. A partir desse documento, sabe-se que Onésimo era um escravo que havia fugido para Roma, causando alguns prejuízos a seu senhor Filemom (Fm 1.18-19), um cristão honrado da igreja de Colossos, amigo do Apóstolo (Fm 1.1, 4-7).

Por obra da providência, quando estava em Roma, Onésimo se encontrou com Paulo que, estando em prisão domiciliar, desfrutava de ampla liberdade para receber pessoas em casa (At 28.30-31). Ouvindo a pregação do apóstolo, Onésimo se converteu (Fm 1.10) e, agora, ciente de seu erro, aceita o conselho de voltar a Colossos, pedir o perdão de Filemom e reassumir fielmente suas funções (Fm 1.15). Em suas mãos levará a carta de Paulo a seu senhor, em que o Apóstolo pede que Filemom trate Onésimo com indulgência e benignidade, considerando que ele agora é mais do que um escravo, tendo se tornado um irmão amado (Fm 1.8-17).

Onésimo não é mencionado em nenhuma outra carta de Paulo além de Colossenses e Filemom. A tradição, porém, diz que ele se tornou bispo de Éfeso, sendo a ele que Inácio de Antioquia († c. 110) se refere em sua Carta aos Efésios, quando diz: “Foi assim, pois, que a toda vossa grande comunidade recebi em nome de Deus, na pessoa de Onésimo, homem de indizível caridade, vosso bispo segundo a carne. Rogo-vos que o ameis segundo Jesus Cristo e a ele vos assemelheis.”[3]

Mesmo não sendo possível afirmar com certeza que o Onésimo mencionado por Inácio é o mesmo homem de que Paulo fala em suas cartas, as informações que advêm dos escritos bíblicos são suficientes para mostrar que o escravo rebelde de Filemom foi protagonista de uma das mais belas histórias de transformação e de perdão que o Novo Testamento apresenta.

Pr. Marcos Granconato    



[1] Em Atos 20.4, a vasta maioria dos manuscritos traz a expressão “até a Ásia” depois de “acompanharam-no”, sendo esta a melhor leitura.

[2] Alguns manuscritos trazem no v. 8 a frase “para que vocês saibam como estão”. Uma vez que essa variante textual é vazia de sentido, copistas antigos fizeram uma pequena modificação no versículo e produziram a leitura “para que ele [Tíquico] saiba como estão”. A evidência decorrente de manuscritos mais confiáveis, porém, aponta para a leitura adotada pela NVI e ARA. Ademais, o versículo gêmeo de Efésios 6.22 corrobora o uso de “nosso estado” em vez de “vosso estado” em Colossenses 4.8. Essa leitura também se harmoniza melhor com o propósito da visita de Tíquico mencionado em 4.7 e 9. Para mais detalhes, veja-se METZGER, B. M. A textual commentary on the Greek New Testament. United Bible Societies: London and New York, 1994. p. 559.

[3] INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta aos Efésios, 34. Em: GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos santos padres. São Paulo: Paulinas, 1979. p.33,34.

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