Segunda, 23 de Janeiro de 2017
   
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Zacarias 2.1-5 - A Cidade Habitada e Protegida

 

O segundo capítulo de Zacarias contém a terceira visão do profeta (vv.1-5), seguida de um chamado bastante encorajador (vv.6-13) para que os judeus espalhados pelo mundo, especialmente nas terras da Babilônia, retornassem para a terra da promessa a fim de serem beneficiados pelas futuras ações de Deus em relação à capital do seu país e também ao mundo todo. Por isso, uma mudança marcante no tom das visões até aqui é que o foco sai da ação divina sobre as nações e recai sobre a ação do Senhor sobre a cidade escolhida para sediar o reinado do Messias: Jerusalém. Nesse sentido, Zacarias vai além de Ageu e não fala apenas da reconstrução do templo, mas da própria cidade. Em seus dias, essa ideia parecia um sonho impossível de se cumprir, pelo que o povo devia se sentir desanimado e inseguro a respeito do futuro e até da utilidade de um templo em uma cidade de muros caídos, sendo um alvo fácil de salteadores e de vizinhos gananciosos e invejosos. Nem é preciso dizer como uma profecia sobre a reconstrução dos muros de Jerusalém teria um impacto positivo na vida de toda aquela comunidade.

Assim, mais uma vez o profeta tem uma visão (v.1): “Então, levantei os olhos e vi: Eis que havia um homem que tinha em suas mãos uma corda de medir”. Apesar de a frase iniciar com uma simples conjunção, muitas versões traduzem o início do versículo usando a palavra “novamente”. Mesmo sem a palavra hebraica para isso não ocorrer no texto — literalmente, o texto apenas diz “e levantei os olhos e vi” ou “mas levantei os olhos e vi” —, a ideia de que uma nova visão é dada ao profeta é clara, mostrando que uma nova lição será oferecida ao povo. Nesse caso, a mensagem começa com a visão de um agrimensor, ou seja, alguém com um instrumento rústico, mas eficaz, para medir uma área de terra. Muitos comentários bíblicos se arriscam a adivinhar a identidade desse homem, mas ninguém consegue oferecer uma opção satisfatória. Isso porque o texto não se importa com quem ele é, mas com o que ele faz. Assim, pode-se até atrelar didática e representativamente sua identidade à Neemias ou aos judeus que planejavam e aguardavam a construção do muro de Jerusalém, sem que com isso se ignore o fato de que o centro da visão não é o homem que mede, mas a reconstrução em si. De qualquer modo, esse “homem” é apenas a primeira figura incógnita da visão, da qual a interpretação independe da identidade do agrimensor.

Seguindo a ideia de que a função do homem é o foco do primeiro versículo, Zacarias o interroga sobre seu trabalho e tem esclarecida a missão específica do homem com a corda de medir (v.2): “Eu perguntei: ‘Onde vais?’. Ele respondeu: ‘Vou medir Jerusalém para ver qual é sua largura e seu comprimento’”. É óbvio que a mensuração do perímetro da cidade não tinha como motivação simplesmente a curiosidade, mas a intenção de projetar seus muros, com base no planejamento dos limites, e executar a obra de erguimento das muralhas — a ideia da medida dos limites da cidade fica clara na menção à “sua largura e seu comprimento”, descartando uma ação que visasse simplesmente ao interior de Jerusalém. Apesar de haver nas Escrituras exemplos de ações como essa, com a intenção de fazer conhecida do profeta ou do apóstolo a obra que Deus tem planejada, como se ela já estivesse pronta (Ez 40.3; 47.3-5; Ap 11.1; 21.15), nesse caso, a medida não é de uma construção terminada, mas ainda por fazer. Além da mensagem relativa à edificação em si, é notável que a misericórdia e o perdão de Deus haviam atingido plenamente aquele povo, pois a reconstrução do que foi destruído na punição por seus pecados não se daria pela metade, apenas no reerguimento do templo.[1]

Normalmente, esse trabalho de medição é desnecessário ou de menor importância quando se pretende reconstruir exatamente sobre os alicerces da edificação anterior. Porém, esse não parece ser o caso. A medida a ser tomada visa a projetar uma nova muralha em novos limites. Isso foi exatamente o que aconteceu com a reconstrução feita oitenta anos depois sob a direção de Neemias. Provavelmente, movido pela promessa de uma grande população habitando Jerusalém (v.4), Neemias não se restringiu aos antigos limites da cidade, mas englobou uma área maior que a dos dias de Davi.[2] Para tanto, ele saiu a medir, ainda que mentalmente, os arredores da cidade (Ne 2.13-15) a fim de planejar os melhores locais para assentar a nova muralha de modo a abrigar o povo que ali viveria e manter a cidade em segurança diante de ataques inimigos. Quando alguém faz isso, a obra está prestes a iniciar.

Nesse momento, um novo personagem — um anjo — entra em cena para introduzir a promessa que dirige e dá sentido à visão (v.3): “Eis que saiu o anjo que falava comigo e outro anjo foi ao seu encontro”. O quadro parece ser o da chegada de um mensageiro divino que surge a certa distância. Quando o anjo intérprete o vê, sai ao seu encontro e ambos se reúnem não distante do profeta. A identidade do segundo anjo, o portador da mensagem, não é conhecida, nem necessária à compreensão do texto. O enfoque, assim como no caso do agrimensor, está sobre o que irá ocorrer a Jerusalém (v.4): “Ele lhe disse: ‘Apressa-te a dizer a este jovem o seguinte: Jerusalém será habitada como uma cidade sem muros devido à multidão de homens e de animais que haverá dentro dela”. Há vários fatores a serem observados. Em primeiro lugar, a identidade do “jovem”. Apesar de haver quem proponha se tratar do agrimensor, o pronome demonstrativo “este” (hallaz), dito ao anjo que tinha a tarefa específica de falar com Zacarias, coloca o profeta como receptor da mensagem com a clara intenção de a repassar ao povo de Jerusalém com urgência, pelo que o anjo mensageiro diz ao anjo intérprete “apressa-te a dizer”. Na verdade, não era o serviço do agrimensor que necessitava da informação fornecida pelo anjo, mas o do profeta. Além do mais, a descrição de Zacarias como alguém de não muita idade concorda com o fato de que, quando citado junto com seu companheiro de ministério, Ageu seja o primeiro — provavelmente como uma forma de respeito ao mais velho (Ed 5.1; 6.14).

Entretanto, o que merece nossa maior atenção são as palavras sobre a cidade. Mesmo ficando claro que seus muros seriam reconstruídos (vv.1,2), a população que viveria ali no futuro seria maior do que os muros poderiam abrigar. A previsão de Jerusalém ser habitada como se não tivesse muros não se deve à ausência da muralha, mas ao excesso de população, uma “multidão de homens e de animais”. Isso significa que os judeus exilados por causa da infidelidade de Israel retornariam para a terra prometida em grandes levas, enchendo totalmente o país.[3] Tal consideração, obviamente, tira os nossos olhos dos dias imediatos após a reconstrução por Neemias, quando foi necessário obrigar por sorteio famílias judias a morar dentro da cidade a fim de a povoar, visto que os voluntários não bastavam (Ne 11.1). O caráter futuro dessa promessa engloba, assim, uma visão de Jerusalém sendo habitada dentro e fora das suas muralhas, com especial número de moradores no exterior dos muros de modo que façam jus à menção de Jerusalém existir como se fosse um local desguarnecido de limites murados. O fato é que Jerusalém será grande demais para ser possível construir um muro ao seu redor.[4] Ainda assim, trata-se de uma cidade única e compacta, já que seus munícipes são localizados “dentro dela” ou “no meio dela” — não se trata de vilarejos nas cercanias da cidade, um tipo de “Grande Jerusalém”, assim como se diz da “Grande São Paulo”. Jerusalém seria enorme e populosa, bem diferente do que aqueles judeus esperariam com base em sua experiência pessoal naquela localidade.

Por um lado, a ideia de uma cidade tão grande que não coubesse dentro de muros encorajava o povo com relação ao seu futuro, mas, por outro, podia fazer com que a ideia de levantar novamente as muralhas parecesse um trabalho inútil, já que nem toda a população seria beneficiada pela proteção desse anteparo. Por isso, a mensagem continua e Deus garante que haverá proteção plena para todos os moradores (v.5): “Mas eu serei um muro de fogo ao redor dela — declara o Senhor — e promoverei glória no meio dela”. Se os paredões de pedra não envolveriam todos os moradores, o Senhor pessoalmente agiria como se fosse um muro, entretanto, mais forte e impenetrável: um “muro de fogo”. Essa é uma linguagem figurada cuidadosamente escolhida para promover esperança nos judeus por meio da recordação da proteção que Deus promoveu aos israelitas do êxodo, colocando um bloqueio, na forma de uma espessa nuvem e de fogo, entre eles e o exército egípcio (Êx 14.19-24). Esse poder irresistível do Senhor agiria no futuro para garantir a paz de Jerusalém. Isso faz com que a menção da cidade sem muros, no versículo anterior, assuma um caráter de segurança não como uma localidade desprotegida, mas sim de uma cidade que não precisa de muralhas.[5]

Contudo, a ação de Deus não se daria somente “ao redor” da cidade, mas também “no meio dela”, de modo que a paz não seria o único benefício sobrenatural produzido em Jerusalém. O texto diz, literalmente, “eu serei para glória no meio dela”, o que quer dizer que a presença protetora e provedora de Deus seria a razão de a cidade ser enchida de glória. Nesse caso, o sentido da palavra glória, aplicado à realidade de uma cidade e à vida dos seres humanos, deve ser formado por conceitos como “honra”, “esplendor”, “riqueza”, “abundância” e “poder”.[6] Resumindo, a ação futura de Deus em Jerusalém forneceria grande fama à cidade, além de plena proteção e de todo o suprimento necessário para uma vida tranquila e feliz. Ademais, a promessa de que a presença de Deus na cidade, como protetor e glorificador, renovaria a esperança de ele sempre habitar com seu povo em sua cidade,[7] e não de voltar a habitar apenas o templo. Seu retorno seria pleno.

Com isso, a visão da condição de Jerusalém passa, de vazia e escancarada aos inimigos, para uma urbe habitada e protegida por Deus, promovendo a esperança dos corajosos judeus que voltaram da Babilônia para uma cidade que vivia até então em um estado semicaótico. Era o ânimo que eles precisavam para prosseguir com a obra do templo e esperar em Deus a reconstrução, também da muralha e da cidade, como uma sociedade organizada e populosa, plenamente abençoada pelo Senhor em pessoa, em cumprimento às suas promessas.

Parte importante da relevância moderna desse texto está no fato de que a mesma figura de um instrumento de medição surge no Novo Testamento para acender a esperança escatológica da igreja de Cristo: “O anjo que falava comigo tinha como medida uma vara feita de ouro, para medir a cidade, suas portas e seus muros” (Ap 21.15). Tal cidade não é Jerusalém, mas a Nova Jerusalém (Ap 21.2), local preenchido pela glória e presença de Deus (Ap 21.22,23) para onde afluem os servos do Senhor de todas as nações a fim de adorá-lo (Ap 21.24-26). Tal local, diferente das cidades modernas que são tomadas de criminosos e de homens de mau caráter, tem suas portas abertas apenas para aqueles que creram em Cristo e foram por ele redimidos: “Nela jamais entrará algo impuro, nem ninguém que pratique o que é vergonhoso ou enganoso, mas unicamente aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21.27). Assim como ao povo judeu, essa visão nos enche de esperança de que um dia o Senhor fará o que agora parece muito distante: purificar o mundo da maldade e trazer plena justiça e paz por meio do Senhor Jesus. Ao mesmo tempo, nos confere grandes responsabilidades no sentido de agirmos desde já segundo os parâmetros da pátria futura e de trabalharmos na edificação de suas muralhas, “apressando-nos a dizer” ao mundo que nosso salvador virá para reinar sobre aqueles que creem no seu nome para o perdão dos pecados. Que nossa corda de medir se estenda desde nossos lares até os confins da Terra, passando por nossas famílias, nossos amigos, nossa comunidade e por todos os lugares em que o Senhor nos colocou para divulgar sua santa mensagem!

Pr. Thomas Tronco


[1] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 16.

[2] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 85.

[3] Zuck, Roy. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 457.

[4] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 105.

[5] Perowne, T. T. Haggai and Zachariah with Notes and Introduction. Cambridge: University Press, 1890, p. 75.

[6] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 306.

[7] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 787.

 

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