Sexta, 24 de Fevereiro de 2017
   
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Zacarias 2.6-13 - Quando o Senhor se Levantar

 

Assim que Zacarias relata aos judeus sua terceira visão (Zc 2.1-5), ele passa a transmitir ordens e orientações dadas por Deus na forma de um oráculo. Ele inicia com um alerta bastante chamativo (v.6): “Ei! Ei! Fugi vós da terra do Norte — declara o Senhor —, pois eu vos dispersei como os quatro ventos dos céus — declara o Senhor”. A interjeição “ei!”, duas vezes nesse versículo e uma vez no seguinte, tem a função de promover um alerta relacionado à importante mensagem que será dita e um chamado à pronta. Esse contém várias ordens expressas por meio de verbos na forma imperativa: “Fugi vós” (v.6), “livra-te” (v.7), “exulta”, “regozija” (v.8) e “cale-se” (v.13) — as quatro primeiras ordens são dirigidas aos judeus, enquanto a última é um chamado geral à humanidade. No v.6, a ordem é “fugi vós da terra do Norte”. O ato de fugir ou escapar é claro, de modo que a pergunta a se fazer é “fugir de quê?” ou “fugir por quê?”. Para responder é preciso notar que os judeus exilados não estavam sob ameaça dos seus dominadores. Apesar do risco que correram adiante, nos dias de Ester, o Senhor garantiu sua sobrevivência, assim como o fez em todas as ocasiões em que as nações se levantaram para exterminar o povo de Israel, pelo que ainda existem.

No geral, os exilados eram tidos como necessários nas terras em que estavam pelos serviços que prestavam. Desse modo, não parece se tratar de uma fuga de perseguições. Isso fica mais claro quando, adiante, o texto revela que Deus se levantaria contra aquelas nações vizinhas para puni-las pelo que fizeram ao seu povo, de modo que, ficar no meio de tais nações, adaptado aos seus valores e modo de vida, era se arriscar a sofrer com elas. Isso concorda com a ordem do versículo seguinte. Assim, supor que o propósito de “fugir” seria apenas ajudar a construir o templo em Jerusalém, é ir além do que o texto expressa — esse propósito, contudo, pode ser associado como motivo secundário e consequente, dado o fato de que Deus viria a beneficiar Jerusalém e seu povo, trazendo-lhes grande alegria (v.10).

Nesse sentido, voltar da “terra do Norte” não é diferente de voltar de todo lugar, aos “quatro ventos”, para onde foram espalhados. Como as invasões dos impérios que dominaram Israel normalmente vinham pelo Norte, mesmo por parte de reinos do leste como a Babilônia,[1] por causa do deserto onde hoje é a Jordânia, as Escrituras costumam usar a figura de “exércitos do Norte” como instrumentos de Deus para a oposição e punição do povo israelita (Ez 38.15; Jl 2.20) e as “terras do Norte” como local do seu exílio e de onde eles deveriam retornar (Is 43.5,6; 49.12; Jr 3.12; 31.8). Assim, o v.6 contém uma ordem de retorno geral, para a terra da promessa, de todos os judeus exilados no mundo. Ao fazer isso, o texto volta nossos olhos para o futuro escatológico, quando se dará tal processo de retorno à terra da promessa: “Naqueles dias, a comunidade de Judá caminhará com a comunidade de Israel, e juntas voltarão do norte para a terra que dei como herança aos seus antepassados” (Jr 3.18, cf. v.17).

A ordem prossegue (v.7): “Ei, Sião! Livra-te, ó tu que habitas com a filha da Babilônia”. A expressão “filha da Babilônia” é um modo de se referir aos babilônicos que residiam dentro da capital do seu país — assim como a expressão “filha de Sião” (v.10) aponta para os habitantes de Jerusalém. É certo que não havia judeus morando apenas dentro das muralhas da Babilônia, mas também ao seu redor e por vários outros países do mundo como Egito, Assíria, Pérsia. Dessa maneira, dirigir-se aos israelitas que habitavam na “filha da Babilônia” era usar essa expressão como uma figura de linguagem para se referir não somente aos moradores da cidade em si, mas de todo o país e das demais terras para onde foram. É certo que há vários outros modos de se referir às terras do exílio — a Babilônia, aqui, deve ter sido escolhida por Deus por ser a fonte do maior e mais recente desterro do povo de Israel com quem o Senhor falou por meio de Zacarias.

A explicação da razão das ordens dadas nos vv.6,7 surge a partir do texto seguinte, certamente o versículo mais difícil de se traduzir de todo o capítulo (v.8): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: “Aquele que vos fere, fere a menina dos meus olhos” — de modo que, a fim de trazer glória, ele me enviou contra as nações que vos saquearam”. A primeira parte do texto apresenta o zelo de Deus pelo seu povo como razão pela qual ele puniria os povos que abateram Israel e Judá. A promessa de juízo não é declarada abertamente, mas nem é preciso. O fato de “a menina dos olhos” (lit. “a maçã do olhos”) de Deus ter sido atacada, obrigatoriamente nos leva à ideia de que o Senhor vindicaria seu povo amado pelo tratamento severo que recebeu dos inimigos. Se isso é claro e fácil de captar, a segunda parte do texto nos leva a questionamentos mais difíceis de serem resolvidos. O principal deles é a “identidade” do interlocutor que fala ao profeta e que foi enviado por Deus contra as nações para promover glória.

A sugestão de ser o próprio profeta esbarra no fato de que, além de anunciar as palavras de Deus, Zacarias não exerceu nenhuma função militar, nem viu cumpridas em seus dias as promessas de retorno dos israelitas dos “quatro ventos”, nem o abatimento dos inimigos sob Israel (v.9), nem tampouco as nações buscando a Deus (v.11). Se alguém quiser propor que se trata do “anjo que falava comigo” ou de algum outro ser angelical, terá de explicar como esse anjo poderá exercer uma função tão proeminente a ponto de comandar as nações de Israel e de todo o mundo como se lhe pertencessem (v.11). A melhor sugestão é se tratar do próprio Messias.[2] Assim, quem fala ao profeta é, ao mesmo tempo, alguém enviado pelo Senhor e apto a reinar sobre o mundo, dizendo “serão o meu povo” (v.11). Associando esses dizeres à terceira visão de Zacarias, não é nada absurdo ser o Messias aquele anjo que veio ao encontro do anjo intérprete para anunciar a repopulação da cidade (Zc 2.3) — obviamente, essa identificação com aquele anjo não é obrigatória, nem tampouco necessária. De qualquer modo, ao se identificar o interlocutor com o Messias, a segunda pergunta a se fazer ao texto — “que glória é essa a ser obtida por ele?” — acaba por se responder naturalmente.

Se o interlocutor é enviado por Deus para vindicar o tratamento cruel e severo rendido a Israel, sua missão visa a inverter os papeis políticos e militares em relação ao que ocorreu no passado (v.9): “De fato, contra eles eu levantarei minha mão e eles serão um despojo para seus servos. Assim, vós sabereis que o Senhor dos exércitos me enviou”. O Messias tem poder para levantar sua mão com poder e abater as nações, de modo que os antigos dominadores se tornem os dominados. E mais que isso: serão dominados pelos seus antigos servos — uma menção ao próprio povo de Israel, o qual foi perseguido e escravizado por muitas nações. Essa ideia concorda com a mensagem de profetas anteriores a Zacarias que previram que, no estabelecimento do reinado do Messias, os judeus, espalhados por todo o mundo, tomariam parte dessa inversão de poder (Is 41.14-16; Mq 5.7,8,13). Interessante notar que, no decorrer de tais acontecimentos em um futuro esperado, ficarão patentes a identidade e a função do Messias como aquele que “o Senhor dos exércitos enviou”. Não será mais possível negá-lo, desprezá-lo ou ignorá-lo. Na verdade, ficará claro, assim como nesse oráculo, que as ações do enviado são idênticas às ações do Senhor.[3]

Tendo declarado o destino das nações que se opuseram ao povo de Deus, o Senhor volta seus olhos para o tratamento que renderá a Israel e diz (v.10): “Exulta e regozija, ó filha de Sião, pois eis que virei e habitarei no vosso meio — declara o Senhor”. Dizer isso enquanto o povo tinha de construir a “habitação” de Deus, o templo em Jerusalém, faz com que os leitores associem rapidamente tais palavras à reinauguração do santuário ainda nos dias de Zacarias — e, de certo modo, isso é em parte verdadeiro. Entretanto, o versículo seguinte mantém nossos olhos nos eventos escatológicos, descritos pela expressão “naqueles dias”. Assim sendo, a promessa de habitar no meio do povo, além de envolver o iminente relacionamento entre Deus e Judá assim que o templo estivesse de pé, visa a fazer recordação de que o Senhor prometeu estar entre eles de um modo especial em um momento quando as bênçãos não seriam dadas pela metade, mas haveria o cumprimento total das suas promessas. Por isso, ainda que Deus estivesse em toda parte e dirigisse a vida do seu povo, ele diz “eis que virei”, se referindo a um evento especial da sua presença (Is 40.9-11). Nesse sentido, ainda que o dia tão esperado ainda estivesse no futuro, a reconstrução do templo era fundamental para se aguardar a especial vinda do Senhor (Ez 37.27). Por isso, também, ainda que a situação política e social daqueles dias fossem o oposto do que eles aguardavam, e ainda que tivessem de trabalhar em meio a tantas dificuldades, a ordem lógica é “exulta e regozija”.

Até aqui, os alvos do tratamento divino foram as nações inimigas e o povo de Deus. Entretanto, entra em cena um terceiro grupo que é formado pelas nações que se submeterão ao Senhor em um caráter pleno que combina com o mundo completamente sujeito a Deus.[4] Para eles, também há participação no reinado do Messias (v.11): “Naquele dia, muitas nações se unirão ao Senhor e serão o meu povo. Eu habitarei no meio de ti e tu saberás que o Senhor dos exércitos me enviou a ti”. É importante notar que há uma distinção entre o Senhor, citado na terceira pessoa, e o interlocutor enviado, que fala de si na primeira pessoa. Entretanto, apesar da distinção de pessoas, há um compartilhamento fundamental de funções já que aqueles que buscarem o Senhor tornar-se-ão povo do seu enviado. Quando o interlocutor olha para o povo que busca a Deus e diz “serão o meu povo”, comprova dividir com o Senhor mais do que a função política. Dizer isso, nesse contexto, é se identificar com o próprio Deus, assumindo a função de soberano divino, de restaurador da nação, de cumpridor das promessas e de promotor da Nova Aliança (Jr 31.33; 32.38).[5] Se o texto anterior diz que o Senhor habitará entre seu povo de modo especial, aqui o Messias também se faz presente no meio de Israel tornando-se conhecido como o enviado prometido e aguardado. A busca das nações pelo Senhor e pelo Messias, em Sião, tem como resultado a produção de uma paz mundial marcada pela justiça e pela submissão do mundo à direção de Deus (Is 2.2-4).

A vinda do Senhor, por meio do seu enviado, não promoveria uma posse parcial ou limitada a áreas específicas de influência. Longe de exercer uma liderança autônoma somente em campos religiosos ou teológicos, o Senhor assumiria o controle pleno de Judá (v.12): “Assim, o Senhor tomará posse de Judá, sua porção na terra santa, e novamente escolherá a Jerusalém”. Judá, aqui, deve ser compreendido em sentido amplo, como uma metonímia que aponta para todas as tribos de Israel, todo o povo judeu, e também para os domínios territoriais prometidos a esse povo (Gn 13.14,15; 15.18-21). Tudo isso — o povo e a terra — é “sua porção na terra santa”. Não significa que essa seja a única posse divina, mas que se trata do cumprimento da promessa de o Senhor agir como Deus pessoal da descendência de Abraão e, a partir dela, ser também o Deus das nações, levando-lhes as bênçãos prometidas ao patriarca (Gn 12.1-3). Na posse da herança, não é apenas o povo e a terra quem foram escolhidos por Deus, mas também a cidade de Jerusalém, frequentemente nomeada Sião, como sede do seu governo terreno. O que a cidade sofreu no passado e ainda sofre no presente, sem que os judeus consigam retomá-la para si em caráter exclusivo (Lc 21.24), será deixado para trás e o trono de Davi será reerguido a fim de dirigir Israel e as nações (2Sm 7.16 cf. Lc 1.31-33).

Como o mundo todo é o campo da atuação do Senhor, seja para punir, seja para abençoar, o texto termina com uma ordem à humanidade de se submeter e de temer a Deus (v.13): “Cale-se toda carne diante do Senhor, pois ele se levantou da sua santa morada”. Levantar-se da sua morada significa deixar o repouso e passar a cumprir o que previamente anunciou. Quando isso acontecer, ninguém poderá impedi-lo ou se opor a ele. O melhor é, calado, em forma de total reverência e sujeição, servi-lo e aguardar dele a salvação. Caso contrário, nem é preciso descrever o peso da sua punição.

Levantar-se da sua morada (v.13) e levantar a mão contra os inimigos (v.9) denotam o grande poder que tem o Senhor e o modo como ele inverterá tudo que vemos de errado e vil ao nosso redor. Se o mundo tem seguido rumos que surpreendem e assustam até os homens mais pessimistas, não é porque Deus não tem poder de impedir o avanço do mal ou porque não se importe com o que os homens façam, mas porque “ainda” não se levantou para julgar os pecadores. Entretanto, aguardamos esse dia com esperança e com a plena certeza de que ele chegará. Se isso nos enche de esperança com relação ao futuro, também nos leva, no presente, a buscar uma vida condizente com a justiça a ser promovida pelo Messias, a conclamar o mundo perdido que se abrigue pela fé entre as fileiras do Senhor e a glorificar o nome daquele que já é grande e soberano mesmo antes de vir e tomar posse da sua herança. Que as promessas do passado e a certeza do futuro nos guiem e guardem no presente!

Pr. Thomas Tronco


[1] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 108-109.

[2] Barker, Kenneth L. “Zechariah” In The Expositor's Bible Commentary: Volume 7. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1985, p. 618.

[3] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.). Peabody, MA: Hendrickson, 2002, vol. 10, p. 523.

[4] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 18.

[5] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 89.

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