Domingo, 25 de Junho de 2017
   
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Zacarias 3.1-10 - A Promessa da Vinda do Messias

 

Algo interessante ligado à quarta visão de Zacarias é a centralização da figura de Josué, o sumo sacerdote. Depois de garantir, nas visões anteriores, a reconstrução e confirmação de Jerusalém como habitação do Senhor e como cidade escolhida para, a partir dela, reinar sobre Israel e sobre as nações, Deus agora transmite a ideia de que também restauraria o ministério sacerdotal entre seu povo. Afinal, não havia razão de se reconstruir o templo se o culto oferecido ali não fosse aceito pelo Senhor. Uma das principais dificuldades de interpretação desse capítulo é o acúmulo de sujeitos ocultos que nem sempre são óbvios no contexto, exigindo que o exegeta tente determinar a identidade de cada um segundo as ações que praticam e os papéis que ocupam no decurso da visão.

Desse modo, Zacarias dá início ao registro da quarta visão que teve (v.1): “Então, ele me mostrou o sumo sacerdote Josué em pé diante do anjo do Senhor e Satanás estava em pé à sua direita para o acusar”. Aqui surge o primeiro sujeito oculto: aquele que mostrou ao profeta os eventos da visão. Tendo em vista que o anjo do Senhor surge como personagem, podemos supor que quem direciona Zacarias para diante da visão é o anjo intérprete, que não é citado literalmente nesse capítulo. Versões que trazem algo como “Deus me mostrou”, fazem-no por mera suposição dos seus tradutores, ao passo que versões que traduzem “então eu vi” ignoram a pessoa e o grau do verbo que indica uma terceira parte mostrando a visão a Zacarias. De qualquer modo, o profeta vê três pessoas: o sumo sacerdote, o anjo do Senhor, chamado simplesmente de “Senhor” no versículo seguinte[1] — possivelmente uma cristofania, como em Zc 1.11,12, com uma ressalva a ser feita em Zc 3.8 —, e Satanás, cuja intenção é declarada. Apesar de o texto não aclarar o teor da acusação satânica, não é precipitado supor se tratar de o sacerdócio ter sido condenado pelo Senhor, assim como a toda liderança e sociedade judaica de antes do exílio, por seus pecados e desonra. Contudo, essa acusação encontra em Deus um ouvido moco não pelo Senhor ignorar os pecados cometidos, mas por agir com perdão e com uma ação restauradora descrita na visão.[2] Se esse texto abre possibilidade de que, em lugar de Satanás agir como acusador de Josué, ser um opositor do anjo do Senhor, o texto seguinte torna evidente, pela defesa que o Senhor faz de Josué, que a primeira opção é preferível. Isso também nos ajuda a entender a atuação de Satanás que, em lugar de pelejar diretamente com Deus, opta por se opor aos servos do Senhor.

A intenção divina de abençoar Jerusalém e o sacerdócio ministrado entre os judeus faz com que o Senhor não suporte a atuação satânica e afaste o inimigo dos seus servos de modo impetuoso (v.2): “Disse o Senhor a Satanás: ‘O Senhor te repreende, ó Satanás! O Senhor, aquele que escolheu Jerusalém, te repreende! Não é este um tição tirado do fogo?’”. A repreensão divina nesse texto não se parece nada com filmes de exorcismo nem com sessões de expulsão demoníaca de certas igrejas, nos quais uma luta é travada com demônios que só são vencidos após longa e dura batalha. Nesse caso, uma simples palavra do Senhor basta para fazer com que o personagem satânico desapareça de cena e deixe Josué livre para ser instrumento de Deus na visão profética. Ele também oferece duas explicações pelas quais rejeita as acusações de Satanás e o repele. A primeira é que o Senhor escolheu Jerusalém, mostrando que, independente da punição que rendeu à cidade, seu plano sempre foi restaurá-la e reabilitá-la como local abençoado e fonte de bênçãos para todos os povos e nada iria impedi-lo de fazer o que planejou. Em segundo lugar, se refere a Josué como um “tição tirado do fogo”. Se a Babilônia agiu como uma fogueira no celeiro dos judeus, consumindo-lhes a cidade e o templo e exilando-os em terra estrangeira, como que castrando seu futuro e sua continuidade, o Senhor afirma que impediu a extinção do povo e do sacerdócio trazendo-os de volta antes que fossem consumidos por completo, assim como uma lenha em brasas — o “tição” — retirada da fogueira antes de ser de todo consumida pelas chamas. Em resumo, é um modo de Deus afirmar a continuidade do seu povo e do sacerdócio ministrado no templo que estava sendo reconstruído por sua ação libertadora anos antes. Com isso, Deus também frustra por completo a tentativa de Satanás de fazer com que o Senhor condenasse seu povo à extinção pelos pecados que, pela graça divina, foram perdoados.

Se Satanás desaparece de cena, o foco recai agora sobre a figura do sumo sacerdote. Se, por um lado, um tição tirado do fogo é uma madeira preservada da destruição completa, é também um pedaço de carvão que suja tudo que tocar. Essa mesma imagem é exposta de outro modo no texto seguinte (v.3): “Josué estava vestido com roupas sujas e de pé diante do anjo”. Tanto o carvão do tição como as roupas sujas do sumo sacerdote mostram que não bastava a sobrevivência. Deus ainda precisava intervir na purificação de Josué. O fato de ele estar de pé, parado diante do anjo, deixa transparecer sua incapacidade de lidar com sua sujeira e sua dependência de Deus para tanto. O anjo do Senhor não se omite diante da necessidade e emite palavras cujo efeito são o perdão e a purificação de Josué e do ministério que ele ocupa (v.4): “Ele tomou a palavra e disse o seguinte aos que estavam em pé diante dele: ‘Retirai dele as vestes sujas’. E disse-lhe: ‘Vê que eu afastei de ti a tua iniquidade e irei te vestir com vestes luxuosas’”. As duas frases presentes no texto são dirigidas a ouvintes distintos. A primeira ordem é dada a sujeitos ocultos, um grupo de servos, talvez angelicais, para que tirassem os trapos sujos do sumo sacerdote. A segunda frase é dirigida ao próprio Josué, explicando a ele o que estava sendo feito em seu benefício, incluindo o aspecto espiritual do perdão e da purificação de todas as iniquidades que até então fizeram separação entre os judeus e seu Senhor — fica clara a relação entre a iniquidade e a figura metafórica dos pecados na forma das vestes sujas. Mais do que isso, a cena de Josué sendo despojado dos trapos imundos que vestia simboliza a aceitação de Deus do seu povo e do culto oferecido a ele. Como se não bastasse, há a promessa de vestes novas no sentido de que Deus abriria o acesso à atividade sacerdotal de intermediário da vontade e da orientação divinas.

Dando sequência ao revestimento do sumo sacerdote, o Senhor completa a paramentação de Josué (v.5): “E disse: ‘Que lhe ponham um turbante limpo sobre sua cabeça”. Então lhe puseram um turbante limpo sobre a cabeça e o vestiram com as tais vestes. E o anjo do Senhor permaneceu ali”. A expressão “e disse” constitui um desafio aos críticos textuais, pois ela difere nas diversas versões antigas. No manuscrito hebraico, trata-se de uma ação na primeira pessoa — “e eu disse” —, como se o profeta tivesse interferido naquele processo, o que não faz muito sentido já que não se trata de uma pergunta, como em outros casos, mas de uma ordem, a qual o profeta não tem as prerrogativas necessárias para a efetuar. Várias versões simplesmente excluem esse trecho e ligam as ações de colocar as vestes com a de colocar o turbante. A Septuaginta ignora a menção de alguém “dizer” e prossegue com a ordem de colocar o turbante, tomando o comando do v.5 como continuidade do comando do v.4. Na prática, isso concorda com o modo presente na Vulgata Latina — escolhido aqui como forma preferível — no qual a mesma pessoa que dá a ordem no versículo anterior continua seu comando após a ligação “e disse”.[3] Além disso, outro fator a se observar no texto é o fato de o anjo do Senhor permanecer e não se afastar, atestando assim a validade da purificação do sumo sacerdote e de Israel como “nação de sacerdotes” (Êx 19.6).[4]

Feita a devida purificação e deixadas claras a restauração e a aceitação do ministério sacerdotal em Israel, Deus não se furta a orientar seus servos como sempre fez desde a aliança no Sinai (vv.6,7): “Então, o anjo do Senhor declarou a Josué o seguinte: ‘Assim diz o Senhor dos exércitos: Se tu andares nos meus caminhos e guardares o meu preceito, então tu também administrarás a minha casa e guardará os meus átrios e dar-te-ei livre acesso entre estes que estão aqui de pé’”. O acordo é de caráter condicional, assim como a aliança mosaica. Na verdade, esse acordo é apenas a reafirmação daquela aliança, prometendo bênção pela obediência e deixando subentendido que também haveria punição pela rebeldia (cf. Lv 26; Dt 28). Nesse caso específico, a obediência do sumo sacerdote permitiria que ele efetuasse plenamente, com a sanção divina, seus direitos e deveres como chefe administrador do templo do Senhor e como guia espiritual do povo israelita. Além disso, ele agiria como um sacerdote deve agir: como intermediário entre Deus e os homens. Ao dizer que daria “livre acesso a estes que estão aqui de pé”, apontando provavelmente para os anjos que lhes mudaram as vestes, é trazido à memória outro pormenor da aliança do Sinai que fazia parte da crença dos judeus. Trata-se do fato de a aliança ter sido intermediada, já que a glória de Deus era grande demais para que ele falasse diretamente ao povo (Êx 19.16-25 cf. 20.18). Assim, pelo lado humano, Moisés agiu como mediador que recebeu de Deus a lei (Êx 20.19-21). Porém, do outro lado, a intermediação se deu por anjos (Gl 3.19), formando uma dupla. No caso de Josué é exatamente isso que parece que ele faria ao ter livre acesso entre os anjos de Deus: seria o mediador humano, aceito e acreditado, em parceria com os anjos, na relação entre Deus e o povo de Israel.

Apesar da óbvia restauração promovida pelo Senhor no pós-exílio, havia muito mais preparado para Israel, pelo que Deus não se omite de lhes dirigir promessas futuras de natureza escatológica (v.8): “Ouve, ó sumo sacerdote Josué, tu e teus companheiros que se assentam diante de ti, pois sois figuras proféticas de que estou para trazer o meu servo, o renovo”. A elevação de Josué por Deus como sumo sacerdote aceito por ele para o cargo não era apenas um fim em si mesmo. Essa elevação também cumpria um intento profético, um símbolo. O que Deus tinha em mente ao acreditar e elevar Josué como líder espiritual do povo, acima dos seus companheiros, era apontar para o fato de que, no futuro, levantaria outro líder ainda maior, trazendo sobre seu povo um “renovo” a quem ele descreve como “meu servo”. “Renovo”, ou seja, um broto de árvore, é o título usado por alguns profetas em referência ao Messias (Is 4.2; Jr 23.5; 33.15). Por sua vez, “meu servo” é outro título messiânico que circula nos livros proféticos (Is 52.13; 53.11; Ez 34.23,24; 37.24 — em Ezequiel, as menções a “meu servo Davi”, aqui alistadas, se referem ao descendente da linhagem davídica, o Messias). Em outras palavras, essa é a promessa de envio do rei prometido, ninguém menos que o rei eterno descendente de Davi[5], que é também Deus altíssimo (Lc 1.32,33). Não se deve estranhar, contudo, o fato de ele ser chamado de renovo ou broto (cf. Is 53.2), pois tal figura se presta a lembrar que o trono de Davi foi derrubado temporariamente, com a queda de Zedequias (Mq 5.1 cf. 2Rs 25.7) para ser reerguido, como uma árvore cortada que brota novamente, com o reinado do menino nascido em Belém (Mq 5.2-4 cf. Jo 7.42). Esse também é o lugar de se postar a ressalva sobre a identidade do “anjo do Senhor” aventada no v.1. Como o mesmo anjo do Senhor se refere ao Messias, Cristo, como “meu servo” e como alguém que por ele seria enviado, temos de ser cautelosos ao identificar uma cristofania no v.1, apesar de notarmos o caráter inegavelmente divino do anjo do Senhor em todo o capítulo.

Como complemento à promessa de envio do Messias para reinar, há a promessa de uma grande purificação envolta em uma figura difícil de decifrar (v.9): “Pois eis a pedra que pus diante de Josué. Sobre esta única pedra estão sete olhos. Eis que entalharei nela uma inscrição — declara o Senhor dos exércitos — e removerei a iniquidade desta terra em um só dia”. É difícil dizer que tipo de pedra é essa e que olhos são esses sobre ela — a tradução literal “sete olhos” pode também ser compreendida como “sete lados” ou “sete faces”, descrevendo uma pedra de forma heptagonal.[6] Algumas sugestões são que se trata de uma pedra da construção do templo ou de uma joia associada à veste sacerdotal. Em ambos os casos, seria de se esperar um tipo de lavor entalhado sobre ela com a intenção de trazer beleza e enaltecer a glória daquilo que a acomoda. Entretanto, o fato de se prometer um perdão amplo no meio de Israel, em um só dia, tira nossos olhos do templo ou das vestes do sacerdote nos dias antigos e volta nosso olhar para o futuro escatológico em que o Messias, ao se fazer presente, fará a purificação e julgamento de Israel e das nações. Apesar dessa relação, é difícil identificar consistentemente a pedra com a pessoa de Jesus. Se vão é tentar sem corroboração associar a pedra, os olhos e o entalhe a eventos e pessoas citadas ao longo das Escrituras, mais do que válido é notar a promessa de uma restauração ampla do povo judeu como previsto por Jeremias sob o título de “nova aliança” (Jr 31.31-34 — ver também Ez 36.24-29).

Como consequência da purificação em larga escala, haverá grande paz e prosperidade sem precedentes em Israel[7] (v.10): “Naquele dia — declara o Senhor dos exércitos — cada um chamará o seu companheiro para debaixo da videira e para debaixo da figueira”. Nosso olhar não pode ignorar o fato de que essa atividade comunitária talvez fosse marcada pela atividade cultual de “verdadeiros israelitas” tementes a Deus (Jo 1.47,48). Assim, esse quadro evoca a ideia de comunhão sem barreiras e da posse de suas propriedades com a tão desejada fartura prometida como graciosa retribuição à obediência e ao temor do Senhor prevista para o futuro glorioso do povo que o Senhor escolheu para si.

A igreja de Cristo compartilha com Israel certas promessas e esperanças presentes nessa visão de Zacarias. Em primeiro lugar, também temos um acusador — o mesmo Satanás, na verdade — que trabalha dia e noite (Ap 12.10) para interferir em nossa comunhão com Deus. Assim como na visão, nosso redentor e advogado (1Jo 2.1) nos defende e faz valer seu perdão e purificação obtidos na cruz (1Jo 1.9). Em segundo lugar, isso ocorre porque também tivemos nossas vestes de iniquidade retiradas quando cremos em nosso salvador e fomos purificados da injustiça (1Co 6.11; Cl 3.9,10). Finalmente, nós também aguardamos a vinda do renovo, o servo do Senhor, para reinar em justiça e purificar a terra, em um santo reinado do qual faremos parte pela graça e misericórdia do Senhor (2Tm 2.12). Que isso traga o ânimo e a razão suficientes para continuarmos buscando pureza nessa vida, agindo como sacerdotes da mensagem da cruz de Cristo e participando da construção, pedra por pedra, do templo do Senhor, sua santa igreja (1Pe 2.5).

Pr. Thomas Tronco


[1] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 91.

[2] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1554.

[3] Lit. “Et dixit” [Schenker, A. (Ed.). Biblia Hebraica Stuttgartensia: Apparatus Criticus (electronic ed.). Stuttgart: German Bible Society, 2003, p. 1066].

[4] Barker, Kenneth L. “Zechariah” In The Expositor's Bible Commentary: Volume 7. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1985, p. 623.

[5] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 30.

[6] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 130.

[7] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 787.

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