Domingo, 17 de Dezembro de 2017
   
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Zacarias 4.1-14 - A Graça Soberana do Senhor

 

A quinta visão de Zacarias ocupa todo o quarto capítulo do seu livro. O excesso de detalhes da visão traz consigo um risco considerável de fazer com que os exegetas cometam um de dois erros: ou ignorar os detalhes, empobrecendo o sentido da visão, ou exagerar o significado de cada um dos detalhes, conferindo-lhes sentidos que vão além do texto e do livro como um todo. Por isso, cautela e bom senso são as palavras de ordem na interpretação da visão do capítulo 4 de Zacarias.

A visão começa, como em outros casos, com a intervenção angelical dirigindo o profeta à mensagem que lhe será apresentada. Contudo, a novidade, nesse caso, é o estado do profeta (v.1): “Voltou-se o anjo que falava comigo e me despertou como um homem que é despertado do seu sono”. Deve-se notar que Zacarias não afirma estar dormindo. O “homem despertado do sono” é apenas uma comparação feita pelo profeta para ilustrar o que ocorreu a ele ao ser chamado pelo anjo. É possível que ele estivesse ainda absorto e perplexo com a visão anterior,[1] de modo que o anjo teve de chamar sua atenção para si e para a nova visão.

O capítulo é marcado por perguntas e respostas de ambos os lados. Nos vv.2-7, o diálogo é travado entre Zacarias e “o anjo que falava comigo”, ao passo que, do v.8 em diante, ele se dá entre o Senhor e o profeta. A primeira pergunta do capítulo vem do anjo intérprete (vv.2,3): “E ele me disse: ‘O que tu vês?’. Eu respondi: ‘Eu vejo um candelabro de ouro maciço, um vaso sobre ele, tendo em cima sete lâmpadas e sete tubos para as lâmpadas que estão sobre ele. E duas oliveiras, uma à direita do vaso e outra à sua esquerda’”. Esse é um quadro complexo que, por ser difícil de visualizar mentalmente, necessita de explicações. O que Zacarias viu foi um suporte de ouro de apoio para sete lamparinas que serviam para iluminar e funcionavam com a queima de azeite de oliva. Assim como as lamparinas à base de querosene, utilizadas em locais longínquos do nosso país, precisavam ser constantemente abastecidas, o que exige atenção e presteza dos responsáveis por elas. Nesse caso, contudo, o abastecimento não era feito por homens, mas por um aparato instalado logo acima do candelabro com as lamparinas. Tratava-se de um receptáculo — o “vaso” — em que se depositava uma quantidade considerável de azeite. O combustível não era manuseado por homens, mas descia sozinho às lamparinas por meio de tubos de alimentação, um para cada queimador, não deixando que eles se apagassem. Quanto à fonte do azeite que era armazenado no vaso, havia duas oliveiras que, ao que tudo indica, derramavam naturalmente seu óleo para dentro do receptáculo, fechando o quadro de uma fonte de luz gerida automaticamente. A ideia parece ser a de que as lâmpadas, diferente das que eram alimentadas pelos sacerdotes, tinham uma alimentação própria que não dependia de homens.[2] Trata-se de uma figura para a ação divina claramente exposta no v.6.

Se o significado da visão é complicado para nós, também foi para o profeta, pelo que ele questionou o anjo sobre seu sentido (v.4): “Então, eu perguntei ao anjo que falava comigo: ‘O que é isso, meu senhor?’”. Antes de dar a resposta, há um trecho do diálogo — repetido no v.13 — que serve para evidenciar a perplexidade do profeta diante da visão até então sem sentido para ele (v.5): “E o anjo que falava comigo respondeu a mim: ‘Acaso tu não sabes o que são essas coisas?’. Respondi: ‘Não, meu senhor’”. O mistério termina quando o anjo apresenta a visão como ilustração a uma mensagem do Senhor bem definida e endereçada, dessa vez, ao governador Zorobabel (v.6): “Então, ele me disse o seguinte: ‘Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito — diz o Senhor dos exércitos’”. A visão do candelabro abastecido sem o auxílio humano, por um sistema independente, serviu para garantir ao líder dos reconstrutores do templo que o trabalho não dependia da “força” e do “poder” deles. Na verdade, nem era preciso uma visão para indicar ao povo judeu os claros limites dos seus recursos financeiros, do número de trabalhadores de que dispunham e da sua capacidade militar de se defender dos inimigos que se opunham à obra. Em todos esses sentidos, a força e o poder daquele povo deixavam a desejar. Entretanto, nenhum deles seria necessário, pois o provedor e protetor do povo seria o próprio Senhor, designado aqui como “meu Espírito”. Ele, em pessoa, seria aquele que abasteceria seu povo com a força de que precisavam, com os recursos materiais para a reconstrução e com a segurança diante dos adversários mais poderosos que eles, do mesmo modo que, na visão, o vaso alimentava, sozinho, as lâmpadas do candelabro.

A função da visão era, obviamente, a de encorajar Zorobabel diante das dificuldades enormes que enfrentava naqueles dias. Para frisar a certeza do auxílio divino, há como que um desafio lançado às dificuldades personalizadas na forma de uma alta montanha[3] (v.7a): “Quem és tu, ó montanha enorme?”. O surgimento dessa montanha no meio da visão — inexistente nos demais versículos e totalmente sem explicação neste — faz com que muitos estudiosos imaginem se tratar de uma interpolação de um texto de outra mensagem. Entretanto, não é nada absurda a citação de uma montanha como dificuldade na obra do templo quando sabemos que as madeiras para a construção vinham de regiões montanhosas, tornando a logística da extração um trabalho mais que árduo, e que o próprio templo ficava sobre um monte, multiplicando exponencialmente a dificuldade do transporte das enormes e pesadíssimas pedras até o canteiro de obras. A luta penosa e diária desse transporte recebe um grande encorajamento quando o Senhor diz à tal “montanha” (v.7b): “Diante de Zorobabel tu serás uma planície, pois ele trará a pedra de remate em meio ao brado: ‘É pela graça, é pela graça’”. Em primeiro lugar, a ajuda de Deus faria com que os construtores transpusessem as dificuldades como se o monte fosse uma mera planície. Em segundo lugar, o Senhor dá garantias de que a obra seria finalizada, informando que Zorobabel colocaria a última das pedras, a “pedra de remate”, completando o que eles começaram. Quando isso ocorresse, não seria ocasião de se exaltar os construtores ou o próprio Zorobabel, mas de reconhecer o auxílio divino e de agradecer sua “graça” soberanamente concedida ao povo. A palavra “graça”, presente nesse texto, pode também se referir à beleza da obra. Porém, a opção da graça como favor divino é preferível por causa do tema da visão ser o auxílio divino na obra difícil demais para os homens e o fato de, no seu término, haver o reconhecimento público da ação de Deus (v.9).

A partir desse momento, o próprio Senhor entra na conversa e passa a dialogar com Zacarias (vv.8,9): “Então, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: ‘As mãos de Zorobabel lançaram os alicerces desta casa e as mãos dele a terminarão para que vós saibais que o Senhor dos exércitos me enviou a vós’”. Sem se valer de ilustrações, o Senhor vai direto ao ponto, garantindo a conclusão da construção do templo. Disso, podemos imaginar vários temores e dúvidas que passavam pela cabeça do governador de Judá: “Será que conseguiremos completar a obra?”, “será que obteremos os materiais necessários?”, “será que os nossos inimigos não nos impedirão de levar a obra até o final?”, “será que eu não morrerei antes de vê-la terminada?”. A afirmação categórica de Deus acabava com todas essas dúvidas e temores. Dizer que as “mãos de Zorobabel” começaram e terminariam a obra não quer dizer que ele pessoalmente foi o primeiro a dar a enxadada na terra, mas que, sob o seu comando, a obra fora inaugurada e sob seu comando ela seria completada. Novamente o Senhor afirma que, ao ocorrer o que ele previu, não era Zorobabel quem devia ser louvado, mas o próprio Deus. Na verdade, o fato de a obra ser completada em meio a tantos impedimentos, dificuldades e improbabilidades devia ser interpretado como o claro auxílio de Deus ao seu povo escolhido e dirigido por ele. O final do v.9 traz, mais uma vez, a ideia de que o Senhor enviou o “Senhor que falava com o profeta”, sugerindo com isso uma cristofania, ou seja, uma participação do próprio Messias na visão, como em Zc 2.8-11.

Deus não deixa de tratar um dos problemas que vinham abalando os construtores e aumentando as dificuldades de quem trabalhava, que eram aqueles causadores de desânimo no meio do povo (v.10a): “Pois quem desdenhou no dia do início modesto se alegrará ao ver a pedra escolhida na mão de Zorobabel”.[4] O problema de pessoas que não acreditavam ser possível fazer uma obra como a que fora executada por Salomão e que, com isso, desanimavam os trabalhadores, foi denunciado por Ageu (Ag 2.3 cf. Ed 3.10-12) e é aqui também tratado por Zacarias. Nesse caso, o Senhor dá garantias de que aquele desânimo, tristeza e falta de fé, que no início tomou conta de quem não creu ser possível atender a ordem divina de levantar novamente o templo, se transformariam em exultação ao final. O término da obra seria marcado pelo assentamento da “pedra escolhida”.[5] A opção de tradução “pedra escolhida” para a expressão que surge no texto hebraico é limitada em produzir a ideia que o escritor parecer ter em mente, de modo que há necessidade de uma explicação suplementar. Diferente das versões que, equivocadamente, propõem se tratar de uma “pedra de prumo”, o que enfatizaria o acompanhamento da obra por Zorobabel, a ideia do texto parece apontar não para o transcurso da obra, mas para seu final. Desse modo, a pedra em questão é aquela escolhida e separada para ser a última a ser assentada. Na verdade, ela não seria colocada apenas com um ato de construção, mas como um ato cerimonial de encerramento da reconstrução do templo diante de todos. Por isso, o próprio Zorobabel a colocaria, agindo como aqueles que cortam com tesoura uma fita que lacra a entrada de um estabelecimento em sua festa de inauguração.

Até aqui ficou respondida a primeira parte da pergunta de Zacarias feita no v.4. A segunda parte do v.10 se presta a continuar a resposta à questão do profeta (v.10b): “Essas sete lâmpadas são os olhos do Senhor que estão a percorrer toda a Terra”. O texto diz apenas “essas sete”, sem especificar o substantivo a que se refere. Felizmente, o texto só apresenta duas possibilidades que combinam com a quantidade aqui descrita: as lâmpadas e os tubos — ambos concordando com a forma feminina do numeral. Dentre as duas possibilidades, a primeira parece ser a mais plausível e cheia de significado. As luzes agem aqui como uma recordação de que Deus, como quem vê tudo que ocorre no mundo (2Cr 16.9; Pv 15.3),[6] sabia o que estava acontecendo ao seu povo, incluindo as dificuldades da obra e o coração dos opositores da reconstrução. Assim, seu poder (v.6), associado ao conhecimento onisciente, seriam o fator determinante do sucesso da empreitada e a causa da confiança tranquila que o povo deveria manter enquanto obedecia ao Senhor no trabalho do templo.

Assim que a pergunta de Zacarias é respondida, ele lança outra visando à especificação de certo detalhe dentro da visão: as oliveiras (v.11): “Então, eu perguntei a ele: ‘O que são essas duas oliveiras à direita e à esquerda do candelabro?’”. Antes que o Senhor respondesse à pergunta, o profeta a completa introduzindo algo que até aqui não havia sido mencionado, a saber, dois ramos daquelas oliveiras (v.12): “Perguntei-lhe ainda pela segunda vez: ‘O que são esses dois ramos de oliveira que estão ao lado dos dois tubos de ouro por onde o azeite é despejado?’”. Voltando seus olhos para além do candelabro, Zacarias fica intrigado com o significado de dois ramos específicos das oliveiras. Ao serem descritos como “ramos”, não podemos imaginar que eles eram responsáveis por todo o suprimento de azeite que ia para o reservatório de combustível do candelabro. Em lugar disso, sua posição, “ao lado dos dois tubos” que serviam para conduzir o azeite das oliveiras para o reservatório, nos faz imaginá-los como parte do sistema de transmissão do combustível, ou seja, “veículos” do suprimento divino.

Antes de responder, novamente é feita uma introdução à resposta, evidenciando a perplexidade do profeta (v.13): “E ele respondeu a mim: ‘Acaso tu não sabes o que são essas coisas?’. Respondi: ‘Não, meu senhor’”. A resposta em si é dada no último versículo do capítulo (v.14): “Então ele disse: ‘Esses são os dois ungidos que servem ao Senhor de toda a Terra’”. Os dois ungidos[7] não são identificados no texto, mas não é tão difícil de reconhecê-los no meio da sociedade judaica. O derramamento de óleo sobre a cabeça, cerimônia chamada de “unção”, era o rito de posse de dois cargos dentro de Israel: o rei (1Sm 15.1; 16.1,13; 1Rs 19.16; 2Rs 23.30) e o sacerdote (Ex 28.41; 29.1,7; 30.30; Lv 8.12,30; Nm 3.3). Nesse caso, as pessoas que o Senhor parece ter em mente são o sumo sacerdote Josué e o governador Zorobabel, apesar de esse último não ocupar oficialmente o cargo de rei. Na verdade, Zorobabel era um príncipe da casa real de Davi que, não de direito, mas de fato, agia como se fosse um governante real no meio do povo, sendo figuradamente um “ungido”. Assim, os dois líderes do povo, o líder espiritual e o líder político, são representados na visão do profeta como instrumentos de Deus para a condução do povo e para a concessão de suas bênçãos com a finalidade de promover a completa restauração da sociedade judaica daqueles dias. Se, na visão anterior, o sumo sacerdote Josué é encorajado a desempenhar sua função em Jerusalém, sabendo que seria ajudado por Deus, aqui, ele e Zorobabel, são encorajados e avalizados diante do povo, o qual devia obedecer a seus líderes para cumprir a vontade do Senhor.

Que bom é saber que o Senhor, além de ser o dirigente e protetor do seu povo, é também o sustentador dos servos que ele coloca para dirigir sua obra. Caso contrário, o resultado seria baseado em esforços meramente humanos e com abrangência e direção possivelmente diferentes daquilo que Deus ensinou. É claro, também, que há a necessidade expressa de tais líderes se submeterem às ordens do Senhor sabendo que a igreja pertence a Deus e não aos homens ou aos dirigentes eclesiásticos. Por fim, os servos de Deus que agem realmente como veículos das bênçãos do Senhor no meio do seu povo são aqueles que se dividem entre a obediência e a dependência daquele que abastece seu povo com o que lhe é necessário. Nesse caso, a luz divina é vista por toda parte e deve ser o ponto de referência de todos aqueles que se chamam pelo nome do nosso salvador que nos resgatou na cruz do Calvário.

Pr. Thomas Tronco


[1] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.). Peabody, MA: Hendrickson, 2002, vol. 10, p. 532.

[2] Perowne, T. T. Haggai and Zachariah with Notes and Introduction. Cambridge: University Press, 1890, p. 85-86.

[3] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 40.

[4] A expressão “início modesto” é a tradução do que, no texto hebraico, literalmente quer dizer “humildes inícios”.

[5] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 98-99.

[6] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 144.

[7] Lit. “filhos da unção” (benê-hayyitshar), uma expressão que significa que sobre os tais foi promovida a unção, ou seja, o derramamento de azeite.

 

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