Quinta, 23 de Março de 2017
   
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Zacarias 5.1-4 - O Castigo do Compromisso pela Metade

 

A sexta visão do profeta Zacarias é menor em tamanho que suas precedentes próximas e menos complexa em sua visualização, apesar de sua compreensão não ser extremamente óbvia, nem seu impacto pequeno. Na verdade, ela é bastante severa com seus destinatários e completa um quadro de restauração do povo perdoado e trazido de volta à terra da promessa. Se as visões anteriores favoreceram a reconstrução do templo, a esperança de reconstrução da cidade e do reinado messiânico e a restauração do sacerdócio e do governo justos, agora o Senhor enfatiza a santidade e obediência do povo à aliança como requisitos para as bênçãos divinas. A severidade da mensagem vem de os requisitos não servirem apenas para abençoar o povo, caso presentes, como também trazer punição como nas gerações passadas, caso ausentes. Em resumo, havia chegado a hora de os judeus se comprometerem seriamente com seu Senhor e com a aliança que fizeram com ele.

A visão começa de um modo que se repete outras vezes no livro (Zc 1.18; 2.1; 6.1) que é o profeta levantar seus olhos e ver — vale informar que levantar os olhos não quer dizer apenas olhar para cima, mas também olhar para o horizonte (v.1): “Voltei a levantar meus olhos e eis que vi um rolo que voava”. O início da visão apresenta apenas Zacarias, mas o complemento traz novamente uma figura que conversa com o profeta, provavelmente o anjo intérprete, a quem o texto não identifica claramente. No mesmo sistema de pergunta e resposta entre Zacarias e seu interlocutor, a visão se expande e adquire um significado mais complexo (v.2): “E ele me perguntou: ‘O que tu vês?’, ao que respondi: ‘Eu vejo um rolo que voa, o qual tem vinte côvados de comprimento e dez côvados de largura’”. Inevitavelmente, o tamanho desse rolo, aberto e não enrolado, provavelmente com a finalidade de ser lido facilmente por todos,[1] deixa perplexos os leitores e os leva à busca do sentido para um tamanho fora do comum, principalmente para os padrões e recursos da época — cerca de nove metros de comprimento por quatro e meio de largura. O fato de o rolo estar aberto, talvez associado à uma visão de Ezequiel (Ez 2.9,10), faz com haja quem sugira que esse rolo que voava continha texto escrito dos seus dois lados, o que não é dito por Zacarias, nem é necessário para a compreensão da sua visão.

A descrição da medida do rolo é idêntica à medida do pórtico do templo de Salomão (1Rs 6.3). Isso fez com que muitos estudiosos vissem nessa semelhança uma relação entre a visão de Zacarias e o templo no sentido de que a mensagem do rolo representasse a santidade do templo ou o governo teocrático do Senhor. Entretanto, essa proposta tropeça em alguns fatores. Em primeiro lugar, Zacarias, quando interrogado a respeito do rolo, informa seu tamanho fazendo uma estimativa aproximada,[2] já que, em sua visão, o rolo voava em vez de estar ao seu alcance para ser medido, de modo que o que é posto em relevo é o grande tamanho e visibilidade do rolo e não sua medida exata. Em segundo, a relação com o pórtico como representante da santidade de Deus ou da teocracia deixa a desejar, já que tal pórtico não seria a melhor parte do templo a se tomar para essas figuras. Além disso, uma medida retirada da construção do templo atual, no qual os ouvintes do profeta estavam trabalhando, cumpriria melhor essa função que uma medida antiga de uma construção inexistente. Como não conhecemos as medidas das dependências do templo de Zorobabel, essa sugestão não passaria de mera especulação. E sair procurando na Bíblia outros locais ou objetos cujo tamanho coincidam com o do rolo, também não.

O que há por certo é que o grande rolo continha palavras vindas de Deus que não podiam ser ignoradas por nenhum judeu e eles também não podiam afirmar inocência por desconhecimento, já que sua visibilidade, na visão, estava diante de todo o território israelita — é provável que seja esse o ponto posto em relevo pela visão do rolo. Quanto ao conteúdo do seu texto, os versículos seguintes fornecem base para uma boa sugestão. Com isso, é possível voltar o olhos para a pergunta que viria em primeiro lugar em relação ao v.2: “O que significa o fato de o rolo voar?”. Pode-se pensar em várias possibilidades de significado para o voo do rolo — e não faltam sugestões dadas por diversos comentaristas —, mas, seguindo o curso do texto, sentidos que devem ser seriamente avaliados são abranger todos os judeus por todo o país (v.3) e alcançar punitivamente todos os infiéis onde quer que estejam, ainda que na segurança dos seus lares (v.4).

Assim como em outras visões, essa não fica sem explicação (v.3): “Ele, então, me disse: ‘Esta é a maldição emanada sobre a face do país inteiro, pois todo aquele que roubar será removido de conformidade com ela e todo que jurar falsamente será removido de conformidade com ela’”. Em primeiro lugar, devemos nos perguntar “que maldição é essa?”. Para esse fim, uma discussão pertinente é definir se a maldição em questão é lançada sobre “o pais inteiro” ou sobre “toda a Terra” (kol-ha’arets). É certo que segunda opção de tradução — “toda a Terra” — é mais frequente e usual no Antigo Testamento. Contudo, o contexto da maldição parece estar baseado na aliança que o Senhor fez com Israel no Sinai, a qual previa bênçãos e maldições dependendo da fidelidade ou rebeldia do povo em relação aos estatutos da lei (Lv 26; Dt 28) — a sentença “será removido de conformidade com ela” aponta para um código legal estabelecido e conhecido dos ouvintes.

Isso quer dizer que, apesar de o texto prever uma maldição sobre a “face da terra”, dando a entender um evento geográfico, trata-se de uma figura de linguagem hebraica[3] para apontar primariamente o povo da aliança. Nesse caso, a maldição é uma previsão de punição pela infidelidade e desobediência dos judeus, o que é especificado em relação aos ouvintes de Zacarias como “roubo” e “juramentos falsos”, dois pecados condenados na lei (Ex 20.7,15; Lv 19.12). A razão da especificação desses dois pecados pode ser representar as duas tábuas da lei,[4] apontando, com isso, para toda a aliança, ou pode se dever à possibilidade de que tais pecados estivessem tomando um lugar de destaque no modo de vida daquele povo, necessitando tratamento imediato a fim de impedir o desvio da nação. Assim, o que o escritor tem em mente não é um castigo lançado sobre toda o planeta Terra ou sobre todos os povos do globo, mas sobre Israel, o povo da aliança, aqui representado pelo país ou pelo território no qual habitava.

Para que ninguém culpasse a sorte, a meteorologia ou a política internacional caso as maldições da lei voltassem a abater o povo israelita, o Senhor avisa que ele mesmo é quem lançaria o castigo sobre seu povo (v.4): “Eu a emanarei — declara o Senhor dos exércitos — e ela entrará na casa daquele que roubar e na casa daquele que jurar pelo meu nome falsamente de modo que ela se alojará no meio das suas casas e consumirá suas madeiras e suas pedras”. Na prática, esse versículo diz a mesma coisa que o anterior, com a diferença de apresentar alguns detalhes importantes. Em primeiro lugar, a fonte do castigo: o próprio Deus — o v.3 não apresenta o agente da emanação da maldição, apenas o fato de ela ser “emanada”, diferente do v.4 que aponta o Senhor como o responsável direto da ação. Em segundo, o alcance: os lares, descrevendo uma punição que chegaria a todo o povo e não apenas à liderança nacional ou ao exército. Por último, a gravidade: abatimento total, sendo que o castigo tomaria lugar entre o povo, não de um modo passageiro, mas consistente, fazendo valer as palavras “ela se alojará”. Assim, as casas do povo infiel seriam consumidas por inteiro, o que, figuradamente, aponta para uma punição completa dos rebeldes e, talvez, para outra queda nacional como a que houve diante da Assíria, em relação ao reino do Norte, Israel (722 a.C.), e da Babilônia, em relação ao reino do Sul, Judá (587 a.C.).

Em resumo, o texto quer dizer que Deus, apesar de vir retendo até então as maldições da lei[5] sobre os israelitas que estavam ignorando a santidade do procedimento requerido por Deus, ainda que o merecessem, ele não o faria para sempre, havendo um tempo em que tornaria a castigar o povo por sua infidelidade, assim como fizera antes. Por isso, apesar da segurança de bênçãos e de um governo messiânico sobre um país independente e soberano no futuro providas pelas palavras dos profetas Ageu e Zacarias, ninguém devia se sentir seguro demais caso resolvesse se manter rebelde à aliança. Era preciso que a reforma fosse total e envolvesse a vida de cada israelita como servo verdadeiro do Senhor.

A clara lição desse texto é que Deus não quer comprometimento pela metade. Isso valia para os israelitas do passado e vale para a igreja do presente. Não basta servir a Deus parcialmente separando alguns momentos para cultuá-lo enquanto, no restante, seu nome é esquecido e desonrado. Também não é possível escolher áreas nas quais honrar ao Senhor ao passo em que se separa outras para se viver alheio a Deus como se fosse possível manter privacidade diante do Senhor. É preciso que a vida toda do servo de Deus esteja empenhada em glorificá-lo, seja no trabalho, na família, nos negócios, na igreja e em tudo mais que se fizer. Uma vida plenamente entregue ao Senhor é o campo propício para que ele cultive sua vontade e suas bênçãos em nosso favor. Entretanto, um Cristianismo nominal e um discipulado parcial são os campos sobre os quais o Senhor pode lançar grandes tempestades ou secas severas. Por isso, que nossa prática sempre reflita os dizeres do apóstolo: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito” (Gl 5.25).

Pr. Thomas Tronco


[1] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1556.

[2] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.). Peabody, MA: Hendrickson, 2002, vol. 10, p. 542.

[3] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Haggai. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 150.

[4] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 788.

[5] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 49.

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