Domingo, 26 de Março de 2017
   
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O Que Todo Membro de Igreja Deveria Saber

Ao contrário do que muitos evangélicos pensam, o ingresso numa igreja bíblica gera para o crente certos deveres e obrigações diante da irmandade. Isso é tão claro no Novo Testamento que é de surpreender que, nos tempos atuais, esse aspecto do ensino apostólico seja tão negligenciado. O triste efeito desse desmazelo é o surgimento de uma geração de cristãos sem compromisso com a igreja, distantes da sua realidade e apáticos diante de seus problemas, lutas e ideais.

O crente, pois, que quiser aprender acerca de suas responsabilidades, em face da comunidade cristã da qual faz parte, descobrirá, nas páginas da Bíblia, que essas responsabilidades podem ser resumidas em três palavras: comunhão, cooperação e contribuição.

COMUNHÃO

Por comunhão entende-se a convivência amorosa, pacífica, pura e produtiva que deve marcar todo ajuntamento cristão. Sendo, a princípio, amorosa e pacífica, a comunhão cristã revela o sentido da verdadeira unidade e, com isso, mostra ao mundo que a igreja é uma autêntica comunidade de discípulos de Jesus (Jo 13.35).

Como isso ocorre? É simples: a unidade que caracteriza o convívio cristão revela que os membros da igreja estão nutrindo “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5), provando, assim, que são seus verdadeiros seguidores.

O texto que mais ajuda na compreensão disso é Filipenses 2.1-8, passagem que trata do que os teólogos chamam de “autoesvaziamento” (kenosis) de Cristo. Nesse texto, Paulo ensina que o Senhor não se apegou aos magníficos privilégios que tinha antes de se encarnar. Em vez disso, se “esvaziou”, ou seja, deixou para trás o esplendor da sua glória, fez-se homem, assumiu a forma de servo e humilhou-se até a morte de cruz (vv.5-8)!

Observe-se que essa passagem, talvez a mais rica da carta aos filipenses em termos de conteúdo doutrinário, foi escrita por Paulo precisamente com a finalidade de ilustrar como deve ser a disposição do coração dos crentes no convívio entre si.

De fato, após ensinar que os filipenses deveriam ter seu ajuntamento marcado por amor, compaixão, unidade, humildade e desprendimento (vv.1-4), o apóstolo resumiu todos esses itens num exemplo magnífico, apontando para o autoesvaziamento do Senhor. É, pois, como se dissesse: “Irmãos, sejam amorosos e humildes no seu convívio, ou seja, imitem o Senhor. Assim como ele se esvaziou por amor de nós, abrindo mão de sua glória real, esvaziem-se vocês também no trato de uns com os outros, abrindo mão de sua glória imaginária”.

Assim, a base do apelo à comunhão cristã amorosa não é o simples anelo pela paz social (presente até nos incrédulos), mas sim a cristologia ortodoxa que destaca a disposição humilde do Filho de Deus, apontando-a como modelo a ser seguido pelos discípulos no cultivo do relacionamento que têm entre si. Negligenciar, pois, essa santa comunhão, ou militar contra ela, é, em último caso, desprezar o exemplo dado por Cristo em sua encarnação, humilhação e morte.

A comunhão cristã, além de amorosa e pacífica, também deve ser produtiva. Não basta ao membro da igreja ser apenas um “cara legal”, um amigo bonzinho que nunca se indispõe com os outros. Mais do que isso, sua aproximação dos irmãos deve também promover crescimento, consolo e correção.

No fundamento desse ensino está, por exemplo, a ordem de Jesus dirigida a Pedro: “E quando você se converter, fortaleça os seus irmãos” (Lc 22.32), mostrando que a restauração da comunhão com Deus deve ser seguida de trabalho em prol da saúde espiritual da igreja. Há também a verdade ilustrada por Paulo na figura da igreja como organismo vivo, no qual cada crente deve atuar como membro singular, usando seus dons e desempenhando suas funções em favor do crescimento do todo (Rm 12.3-8; 1Co 12.12-31; Ef 4.1-16).

Finalmente, existe a firme exortação dirigida aos cristãos hebreus, ordenando que eles não deixem de se congregar. O que chama a atenção nessa ordem é que o autor bíblico não diz que a conduta oposta ao abandono da congregação é apenas voltar a reunir-se. Em vez disso, ele diz: “... mas procuremos encorajar-nos uns aos outros...” (Hb 10.25), dando a entender que o contrário de abandonar a igreja é mais do que frequentá-la. É frequentá-la realizando um trabalho de aconselhamento, correção, admoestação e consolo.

COOPERAÇÃO

Cooperação é termo usado para se referir ao trabalho conjunto. Cooperar, pois, com alguém é labutar ao seu lado, empenhando-se por alcançar seus mesmos objetivos. Assim, quando se diz que o crente deve cooperar com sua igreja, isso significa que ele deve empreender esforços ao lado de seus irmãos para fazer com que a comunidade eclesiástica de que faz parte realize seus ideais da maneira mais célere e da melhor forma possível.

Quais seriam os ideais da igreja pelos quais os seus membros deveriam juntos lutar? O Novo Testamento aponta pelo menos três: a promoção e defesa da fé evangélica; a edificação do corpo de Cristo; e a pureza da comunidade dos santos.

Que os crentes devem trabalhar unidos pela promoção e defesa da fé cristã está claro na expectativa de Paulo em relação aos irmãos de Filipos, sobre de quem ele anelava ouvir que permaneciam “firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica” (Fp 1.27).

Quanto ao empenho conjunto visando à edificação do corpo de Cristo, sua base mais nítida encontra-se em Efésios 4.16 que diz que o corpo de Cristo, isto é, a igreja, edifica-se em amor, “segundo a justa cooperação de cada parte”. Aliás, conforme foi destacado no subtítulo anterior, esse deve ser um dos objetivos da comunhão cristã verdadeira.

Já no tocante à cooperação dos crentes entre si tendo em vista a pureza da igreja, o fundamento desse ideal pode ser verificado em 1Coríntios 5.7, texto em que Paulo ordena que a igreja como um todo tome sobre si a tarefa de lançar fora o velho fermento do pecado. Note-se que os coríntios deveriam fazer isso quando estivessem reunidos (1Co 5.4), de maneira que o trabalho de purificação da igreja fosse coletivo.

Na prática, a colaboração do crente na busca desses alvos tão importantes do povo de Deus pode assumir os mais diferentes contornos. Ministrar uma aula ou apagar uma lousa para que essa mesma aula possa ser ministrada são igualmente formas de cooperar com o ideal de defesa e expansão da fé. De forma semelhante, o irmão que recebe com simpatia um visitante e o irmão que varre o salão de cultos em que esse mesmo visitante é recebido estão cooperando com o ideal sagrado de promover a verdade que liberta. Também o crente que exorta um irmão em particular dentro de uma sala e o crente que troca a lâmpada queimada dessa mesma sala em que a exortação é feita laboram lado a lado em prol da pureza da igreja, sendo colegas de serviço no Reino, desfrutando do mesmo status diante do Senhor para quem trabalham.

Infelizmente, porém, o quadro evangélico atual mostra um grande distanciamento dessa visão. De fato, poucos crentes cooperam com intensa dedicação na realização dos alvos santos da igreja, sendo imenso o número de membros de comunidades locais que não fazem absolutamente nada, mantendo-se distantes e apáticos, muitas vezes até murmurando contra quem obedece a ordem bíblica de cooperar. Crentes assim devem avaliar onde realmente está seu coração e trazer à superfície de sua memória o ensino de Paulo acerca do alvo sublime que devem perseguir nesta vida, conforme registrado em 2Coríntios 5.15: “E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou”.

CONTRIBUIÇÃO

Uma forma branda de legalismo controla a prática de muitas igrejas evangélicas. Esse legalismo leve se expressa especialmente na obrigação imposta aos crentes de “pagar” o dízimo, tomando como base a lei mosaica.

De fato, a lei de Moisés exigia que os israelitas entregassem o dízimo de tudo ao Senhor (Lv 27.30-32; Dt 14.22-26; Hb 7.5), sendo certo que nos dias de Jesus essa norma ainda vigorava, já que ele nasceu sob a Lei (Gl 4.4) e, por isso, até aprovou a obediência a essa regra (Mt 23.23).

Porém, com a morte do Senhor, uma nova fase começou. A Nova Aliança, diferente da mosaica, apontando Cristo como o novo sumo sacerdote diante de Deus, trouxe mudança de lei (Hb 7.12), livrando o crente das exigências do código imposto a Israel no deserto (2Co 3.7-11; Gl 3.19,23-25; Ef 2.14,15; Cl 2.13,14; Hb 7.18,19; 8.6,7,13).

Isso faz, entre outras coisas, com que os dízimos dos cristãos sejam semelhantes aos de Abraão e Jacó, homens que viveram antes da entrega da Lei a Moisés e que, assim, deram seus dízimos não por obrigação legal, mas voluntariamente, como demonstração de gratidão, compromisso e devoção (Gn 14.20; 28.22).

Com efeito, sob a Nova Aliança, o crente é estimulado pelo Espírito Santo que nele habita a cumprir espontaneamente a justiça que há na Lei (Rm 7.4-6; 8.3,4; Hb 8.10-12). Por isso, todo crente genuíno se vê impelido por Deus a honrá-lo com recursos materiais a fim de que a causa do Senhor seja mantida neste mundo. E o bom cristão deve atender a esses impulsos livremente, cheio de alegria no coração, sem barganhar com Deus e sem ser ameaçado ou forçado por seus líderes.

Surge, então, a pergunta: que necessidades e deveres recaem sobre a igreja local para que seus membros sejam sensíveis ao estímulo do Espírito Santo e contribuam financeiramente com ela?

A resposta a isso é muito simples. O Novo Testamento ensina que sobre a igreja pesa o dever de enviar recursos para obreiros que estão passando por dificuldades no trabalho que realizam (2Co 11.8-9; 12.13). Paulo diz que dádivas assim apresentadas são como “uma oferta de aroma suave, um sacrifício aceitável e agradável a Deus” (Fp 4.14-18).

É ainda claro no Novo Testamento o costume de a igreja auxiliar nas despesas de quem viaja como missionário aprovado por ela (Rm 15.24; 3Jo 5-8). O socorro material de irmãos que são verdadeiramente carentes é também responsabilidade da igreja de que fazem parte, caso não tenham família (1Tm 5.3-6,16). Além disso, a igreja tem o dever de sustentar os pastores que a governam e ensinam bem, sendo esse tipo de obreiro “digno do seu salário” (1Tm 5.17,18). Aliás, o ensino de que os ministros de Deus devem receber recursos materiais da igreja se constitui num dos princípios defendidos por Paulo com mais vigor e veemência (1Co 9.4-14).

Ora, pesando todos esses deveres sobre a igreja local, além das despesas comuns próprias de qualquer organização, de onde devem vir os recursos para sua realização? Do Estado? Dos incrédulos? De empresas ou entidades simpatizantes do evangelho? É certo que não. Os crentes individuais é que devem ser a fonte de todos esses recursos. O Novo Testamento mostra que mesmo os cristãos mais pobres se dispõem a assumir esse papel quando atendem ao impulso do Espírito que habita neles e são agraciados por Deus com o desejo de contribuir (2Co 8.1-5).

Comunhão, cooperação e contribuição. Conforme visto nesta série, essas três palavras encerram praticamente a totalidade dos deveres do crente em relação à igreja local de que é membro. À luz do exposto, todos esses deveres têm sólido fundamento nas Escrituras, o que faz com que não sejam opcionais para o crente. Sendo assim, cada cristão em particular deve levá-los muito a sério e ajustar sua vida a eles. Com certeza, isso fará muita diferença na construção de igrejas fortes nesta era de fraquezas.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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