Quinta, 27 de Abril de 2017
   
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Zacarias 7.1-7 - As Palavras de Deus ‘versus’ a Tradição dos Homens

 

Se toda a profecia de Ageu e os seis primeiros capítulos de Zacarias tiveram lugar no segundo ano de Dario (Zc 1.1,7) — entre outubro de 520 a.C. e fevereiro de 519 a.C. —, as palavras do capítulo 7 lhe chegam quase dois anos depois, em 7 de dezembro de 518 a.C.[1] (v.1): “E aconteceu que, no quarto ano do rei Dario, veio a palavra do Senhor a Zacarias no quarto dia do nono mês — no mês de quisleu”. Durante todo esse período sem novas profecias, mas certamente com o apoio e encorajamento do profeta, a obra da reconstrução do templo prosseguiu a passos largos, sendo concluída pouco mais de dois anos depois.

O que vem a seguir deixa os estudiosos um pouco confusos a respeito da origem da comitiva enviada ao profeta (v.2): “O povo de Betel enviou Sarezer e Régen-Meleque junto com seus homens a fim de suplicar o favor do Senhor”. A primeira dúvida é se Betel é um local — possivelmente a cidade com esse nome na divisa entre as tribos de Benjamim e Efraim, cerca de 20 quilômetros ao norte de Jerusalém, onde Jacó fez um altar ao Senhor (Gn 35.1-15) —, ou se é o nome de um terceiro enviado, junto com Sarezer e Régen-Meleque. Há também quem suponha se tratar do nome completo de Sarezer, algo como “Betel-Sarezer”. Quanto a se tratar de um local, opção preferível por dar a origem dos enviados — prática esperada nesse tipo de literatura —, é necessário dizer que a Betel da tribo de Benjamim não é a única localidade com esse nome no Antigo Testamento. Há outra ao sul do território da tribo de Judá (1Sm 30.27), também conhecida como “Betul” e como “Betuel” (Js 19.4; 1Cr 4.30). Entretanto, a probabilidade não recai sobre essa cidade, visto que a primeira foi um centro de assentamento de judeus que retornaram do exílio (Ne 11.31). De qualquer modo, apesar da variedade de possibilidades de interpretação, os efeitos do envio de emissários aos sacerdotes e profetas permanecem intactos.

A primeira função da delegação foi, conforme o v.2, suplicar o favor de Deus, o que pode significar que eles vieram fazer a adoração rotineira diante do altar, ou que tenham vindo por outra razão especial que lhes fizesse clamar ao Senhor. A segunda função, mais destacada no texto, era dirimir uma dúvida quanto à tradicional prática do jejum desde que Jerusalém foi destruída e outros acontecimentos tristes tiveram lugar na história israelita daquele século (v.3): “Eles disseram o seguinte aos sacerdotes que estavam na casa do Senhor dos exércitos e aos profetas: ‘Ainda se deve lamentar no quinto mês conforme se tem feito há tantos anos?’”. Apesar de a questão dirigida à liderança espiritual de Jerusalém ter relação com o ato descrito como “lamentar”, a resposta do versículo seguinte deixa claro que o lamento e o jejum não eram atividades separadas, mas que o ato de jejuar era o meio de lamentar o passado.[2] Essa lamentação — a do quinto mês — marcava a ocasião da destruição do templo de Salomão, das casas e do muro de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor, quase setenta anos antes (2Rs 25.8-10).[3] Não se tratava de uma prática religiosa orientada por Deus, mas algo que nasceu em decorrência das circunstâncias. Na verdade, apesar de a lei orientar apenas um “lamento” no ano, no dia da expiação (Lv 23.26), os judeus haviam introduzido em seu calendário litúrgico outros jejuns no período do cativeiro babilônico: no quarto mês, pela lembrança da captura de Jerusalém pelos babilônicos; no quinto mês, pela destruição de Jerusalém e do templo; no sétimo mês, em decorrência do assassinato do governador Gedalias (Jr 41.1,2); e, no décimo mês, devido ao cerco de Jerusalém promovido por Nabucodonosor.[4]

A pergunta da comitiva aos líderes religiosos de Jerusalém revela que o jejum do quinto mês era o mais significativo para o povo. E continuaria sendo, caso o templo ainda estivesse nas mesmas condições de ruína em que se encontrava até que os profetas Ageu e Zacarias repreendessem o povo por seu descaso. Entretanto, a obra do templo já ia avançada e começou a parecer sem propósito que os judeus continuassem a lamentar a destruição de um santuário que estava quase reconstruído. Por outro lado, se a cidade vinha sendo reconstruída aos pouco ao longo dos anos, pelo próprio fato de os habitantes trabalharem na edificação dos seus lares, o mesmo não se podia dizer da muralha que continuava destruída, trazendo vergonha e insegurança ao povo. Diante de tantos fatores, alguns deles em condições opostas entre si, o povo começou a se perguntar se o jejum do quinto mês ainda deveria ser observado anualmente.

De um modo surpreendente, a pergunta dirigida aos líderes foi respondida imediatamente pelo próprio Senhor. Assim, o profeta Zacarias foi ordenado a transmitir a mensagem de Deus não somente àqueles que perguntaram, mas a todo povo, incluindo a liderança espiritual do país (vv.4,5): “Então, veio a mim a seguinte palavra do Senhor dos exércitos: ‘Dize a todo o povo da terra e aos sacerdotes o seguinte: quando vós jejuastes e lamentastes no quinto e no sétimo mês ao longo destes setenta anos, jejuastes de fato por mim?’”. O significado dessa pergunta de natureza retórica era evidenciar que o Senhor não havia ordenado nenhum daqueles jejuns. Foram os próprios judeus que os haviam instituído. Por que, então, queriam saber como agir como se fosse Deus quem houvesse determinado tais práticas. É claro que, a essa altura, os praticantes do calendário litúrgico israelita, acostumados a observá-lo desde seu nascimento no cativeiro ou nos últimos anos da Judá pré-exílica, já olhavam para tais eventos como práticas religiosas intimamente ligadas com o culto e o serviço a Deus. Mas o fato é que a longa prática de tais lamentos seguidos de jejuns nunca foi determinada pelo Senhor, o qual não era a razão da instituição de tais celebrações.

Apesar de não ser dito abertamente, não fica menos clara a reprovação divina a esse tipo de legalismo tradicionalista nascido no exílio. Além disso, Deus se mostrou atento e muito interessado não apenas na prática externa como também na motivação de coração dos religiosos. Se não era motivados pelo Senhor que eles realizavam aqueles jejuns, também não o era quando eles traziam suas ofertas diante do altar e participavam do seu consumo, conforme prescrito na lei (Dt 12.5-7) a respeito de alguns dos sacrifícios. Por isso, o Senhor diz (v.6): “E quando comeis e bebeis, acaso não é para vós mesmos que comeis e que bebeis?”. Essa segunda pergunta retórica pode se referir às práticas rituais ligadas ao sacrifício como também pode significar que os próprios impulsos e necessidades é que levavam as pessoas a se alimentar, de modo que seria também por impulsos pessoais que eles observam tais jejuns. Vale salientar que, na resposta contida no v.5, o Senhor não citou apenas o jejum sobre o qual eles inquiriram, mas também aquele ligado ao assassinato de Gedalias — o do sétimo mês —, fato histórico que gerava tristeza nos judeus não somente pela morte de um líder, mas também por ter sido a ocasião em que muitos dos que restaram na Judeia partiram para o Egito, fugindo da vingança de Nabucodonosor. Esse acontecimento promoveu um abandono ainda maior da terra no período do cativeiro, além de os fugitivos serem posteriormente alvo do poderio babilônico quando este atacou o Egito.

Como é costumeiro, o Senhor não apenas aponta e critica os erros, mas também revela os caminhos adequados e as soluções aos desvios. Nesse caso, a orientação vem na forma de outra pergunta (v.7): “Acaso não ouvistes as palavras que o Senhor proclamou por meio dos primeiros profetas, quando Jerusalém se encontrava habitada e em paz e as cidades ao seu redor, o Neguebe e a Sefelá eram habitadas?”. Há duas possibilidades de olhar para essa questão: como uma pergunta retórica, cuja resposta é conhecida dos ouvintes, ou como uma introdução a uma resposta maior dada na segunda metade do capítulo 7. Apesar de o resultado final ser o mesmo, a introdução das palavras seguintes, que surge no v.8, levanta perguntas sobre a continuidade do que vem a seguir. De qualquer modo, a ideia era que, segundo as orientações dos profetas pré-exílicos, o povo devia servir a Deus não com jejuns e lamentos, mas com santidade, justiça social e integridade de coração. Era isso que o Senhor requeria deles e que garantia a Israel as bênçãos da aliança mosaica, a saber, prosperidade e paz na terra da promessa. Por isso, quando os profetas pregavam tais mensagens e o povo não as tinha abandonado por completo, o resultado foi que as cidades da Judeia estavam habitadas e não quase desertas, como nos dias de Zacarias. Além disso, eram também habitados o Neguebe — região montanhosa e semidesértica ao sul de Judá — e a Sefelá — planalto baixo localizado entre a planície litorânea da Filístia e a região montanhosa da Judeia.[5] Isso era uma prova incontestável da bênção do Senhor no passado e daquilo que ele requeria do seu povo.

O que Deus traz à tona no v.7 é a lição que ele intenta que Israel finalmente aprenda: que, para servi-lo, é necessário ouvir suas palavras e as obedecer, em vez de inventar seu próprio modo de tentar agradar ao Senhor com parâmetros que, na verdade, agradam somente os próprios adoradores e que constitui o que se pode chamar de religiosidade superficial.[6] É como se ouvíssemos o próprio Jesus dizer: “Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição” (Mc 7.8,9). Desse modo, entre seguir as palavras de Deus e a tradição dos homens, aquela geração e as seguintes deveriam primar por obedecer ao Senhor. Atos religiosos de fundo intuitivo e que não refletem o ensino bíblico, em nada glorificam aquele que é digno de toda glória. Nem os adoradores podem estipular que tipo de adoração o Senhor deve receber. Servir e adorar a Deus significa estudar sua Palavra, a fim de entender bem seu caráter e sua vontade, e obedecê-lo. Não dá para inovar, mesmo com a melhor das intenções.

Nem é preciso dizer que o mesmo vale para a igreja de hoje. Com tantas “invenções” que recebem erroneamente o nome de “adoração”, tal mensagem deve nos tocar e nos levar imediatamente ao estudo da Bíblia, à submissão diante das ordens divinas e a uma renovação da fidelidade, da devoção, da integridade de coração e da singeleza de culto. Caso contrário, muito “jejum” será feito sem que o Senhor aceite qualquer um deles.

Pr. Thomas Tronco

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[1] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, 23.

[2] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Haggai. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 183.

[3] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006, [Zc 7.3: nota 4].

[4] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 67.

[5] Brand, C.; Draper, C.; England, A.; Bond, S.; Clendenen, E. R.; Butler, T. C. (Ed.). Holman Illustrated Bible Dictionary. Nashville: Holman Bible Publishers, 2003, p. 1484.

[6] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 788.

 

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