Domingo, 17 de Dezembro de 2017
   
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Zacarias 8.1-8 - A Maravilhosa Restauração do Senhor

 

Como é costumeiro nas mensagens dos profetas, a repreensão divina ao pecado e ao descaso, associada à previsão de uma ocasião de juízo, vem atrelada às promessas de bênçãos futuras e de cumprimento pleno das alianças. O objetivo parece ser o de encorajar o remanescente fiel que tinha de conviver com o pecado dos seus dias e que, talvez, se deparasse com momentos de severidade de Deus contra seu povo pactual. Além disso, serve de testemunho da fidelidade e soberania do Senhor que, apesar de fazer Israel ver dias de punição, havia reservado um tempo para cumprir todas as promessas que fez. Nas profecias de Zacarias que lhe vieram em 518 a.C. — do capítulo 7 em diante —, isso não é diferente. A dura repreensão de Zacarias 7 é agora seguida de promessas de restauração e glória de Jerusalém de todo o povo de Israel, lembrando, em seu conteúdo, as bênçãos previstas nas “visões da noite” (Zc 1.7—6.8).[1]

Sem dar nova data, o que nos indica que há uma sequência imediata ou quase imediata com o capítulo anterior, a palavra divina se pronuncia (v.1): “Então, veio a palavra do Senhor dos exércitos, dizendo”. A partir dessa introdução sobre Deus ter se pronunciado por meio do profeta, uma sequência de dizeres precedidos por uma fórmula própria é dada ao povo. Essa fórmula (“assim diz o Senhor dos exércitos”) surge dez vezes ao longo do capítulo (vv. 2, 3, 4, 6, 7, 9, 14, 19, 20, 23) — no v.3, o complemento “dos exércitos” está ausente no texto hebraico, apesar de muitas versões antigas importantes o terem acrescentado, indicando que é bem possível que a fórmula completa estivesse constando também do v.3.[2] O que causa perplexidade nos estudantes das Escrituras é que tais frases, dispostas como se fossem citações, podem ser apenas alusões a várias palavras ditas por diversos profetas ao longo de séculos.

As fórmulas repetidas dão a impressão de se tratar de lembranças que o Senhor faz dos seus ensinos e promessas passados, porém, sem podermos localizar exatamente a que se refere com absoluta certeza. Há, inclusive, algum conteúdo que parece ter sido acrescentado aqui pela primeira vez, pelo menos na forma em que se encontra. Isso pode indicar que, apesar da forma, talvez se trate de afirmações emblemáticas, sem necessariamente serem citações ou alusões diretas, dadas uma a uma por meio de cada fórmula inicial a fim de aumentar seu impacto e favorecer sua interpretação e memorização. De qualquer modo, o Senhor faz um apanhado de promessas que, unidas, formam uma maravilhosa base de segurança e esperança para os seus a respeito do futuro e do cumprimento das promessas feitas aos pais.

Sem esticar a introdução, o Senhor oferece a primeira cláusula do capítulo (v.2): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Tenho um grande sentimento de zelo por Sião e zelo por ela com grande furor’”. Que impacto deve ter tido tal frase quando Jerusalém, apesar das adiantadas obras da reconstrução do templo, ainda podia classificar-se como uma cidade em ruínas, visto o pequeno número de habitantes que ainda tinha, as condições de boa parte da cidade e o muro derribado: uma visão oposta à de uma cidade bem zelada. Entretanto, o objetivo divino era ir bem além das condições da cidade representada pelo monte Sião. Essa declaração, que é uma reafirmação do que disse no início do livro (Zc 1.14), tem a ver com seu sentimento em relação ao povo que elegeu e separou para realizar seus propósitos históricos e redentores. Por isso, apesar de zelo dar a ideia de uma atitude deliberada de cuidado sobre algo, o que pode ser feito acompanhado ou não de sentimentos, a palavra hebraica aqui utilizada vai além e coloca o referido ato em um campo profundamente sentimental. O sentido que dá o tom emocional da frase é o de “sentir ciúmes terríveis”.[3] Como a experiência humana ligada a ciúme é marcada por traços negativos como egoísmo, orgulho, raiva e ressentimento, evita-se aplicar tal palavra ao sentimento divino, preferindo-se zelo. Entretanto, quando olhamos para a perfeição do Senhor e sua isenção de falhas, seu sentimento de ciúmes do seu povo enobrece a visão de um Deus que ama profundamente os seus, se importa em detalhes com o que lhes acontece e se propõe a protegê-los com impulsos e interesses de natureza nada impessoal, mas sentimental e comprometida. Quer dizer que ninguém ataca seu povo sem que ele se doa com isso, nem é provável que os seus se desviem sem que ele o sinta.

É uma ideia empolgante: um Deus tão grande que se relaciona e se compromete com seres como nós de modo profundo. Mas não para por aí. Esse zelo todo o leva a ações práticas, o que pode ser visto no furor que sente advindo do seu zelo. Apesar de haver quem ofereça uma atraente interpretação no sentido de se tratar de um zelo com grande “fervor”, a ideia do texto — e do livro — parece ser a de que Deus, em seu sentimento zeloso por seu povo, estava irado com grande “furor” contra as nações que se lhe opunham com maldade, sendo sua fúria apontada diretamente contra os inimigos (Zc 1.15).[4] O resultado é que os inimigos de Israel, até então vitoriosos e irreverentes, conheceriam no futuro as mãos punitivas e santamente enciumadas daquele que separou um povo para amar e abençoar, resultando em uma inversão total de papeis entre Israel e as nações.

A segunda cláusula do trecho é dada no versículo seguinte (v.3): “Assim diz o Senhor: ‘Eu retornarei para Sião, habitarei no meio de Jerusalém e Jerusalém será chamada de a cidade fiel e de o monte do Senhor dos exércitos, o monte santo’”. Apesar de que possa parecer estranho o conceito de um Deus onipresente voltar a habitar em certa localidade, isso não era nada estranho na experiência pactual israelita. Quando o Senhor os tirou do Egito, fez com eles uma aliança em que disse: “Assim consagrarei a Tenda do Encontro e o altar, e consagrarei também Arão e seus filhos para me servirem como sacerdotes. E habitarei no meio dos israelitas e lhes serei o seu Deus. Saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus, que os tirou do Egito para habitar no meio deles. Eu sou o Senhor, o seu Deus” (Êx 29:44-46). Segundo as palavras do Senhor, ele, que estava em toda parte (cf. Sl 139), habitaria de maneira especial no meio de Israel, em um lugar preparado para tanto.

Essa presença representativa foi bem ilustrada quando foram construídos tanto o tabernáculo de Moisés como o templo de Salomão pela presença de uma nuvem com aparência de fogo que apontava para a presença da glória de Deus (Êx 40.34-38; 1Rs 8.10,11). Assim, a promessa de voltar a habitar em Sião não deixa de ser acompanhada da previsão do mesmo evento indicador da sua presença gloriosa (Is 4.5,6). Contudo, quando o Senhor resolveu punir Jerusalém e entregar o templo para ser destruído pelos inimigos, a glória do Senhor deixou o edifício e pousou sobre o Monte das Oliveiras (Ez 11.23, cf. 10.4,18,19), em um ato que marcou seu abandono simbólico daquele local.[5] Não coincidentemente, além de o Monte das Oliveira ter sido o lugar de onde Jesus, alguns dias após sua ressurreição, subiu aos céus (At 1.9-12), é também o local em que ele aparecerá ao retornar para habitar e reinar em Jerusalém (Zc 14.4; At 1.11).

Por isso, o que o Senhor promete agora, enquanto aqueles judeus trabalhavam para reconstruir o santuário destruído, é que voltaria a abençoá-los com a comunhão da sua presença e as bênçãos das alianças, assunto tratado também pelo profeta Ezequiel no tocante a um tempo futuro (Ez 43.1-5). Tal restauração não somente do templo, mas também do contato pleno com Deus, seria ocasião também da instauração de um novo estado espiritual daquele povo que justificaria o nome daquele lugar como “a cidade fiel”, um lugar em que o Senhor se compraz em permanecer. Assim, a promessa de uma nova habitação entre o povo do pacto é mais do que o resultado de obras de engenharia e construção: é a reconstrução do relacionamento espiritual entre Deus e seu povo.

Para uma cidade pouco povoada como a daqueles dias, os dois versículos seguintes abriam uma imagem digna de ser imaginada e sonhada por todos os que queriam ver o cumprimento pleno das alianças (v.4): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Novamente se assentarão velhos e velhas nas praças de Jerusalém e cada um estará com sua bengala em sua mão devido à sua idade avançada’”. Outro sinal do restabelecimento das bênçãos de Israel seria o retorno de uma grande população em que figurasse um grande número de velhos. Quando um país atravessa tempos de carestia e fome ou de guerra, a população de idosos não é numerosa, dadas as mortes frequentes de pessoas de saúde fragilizada pelo tempo diante de condições de vida adversas. Por outro lado, um país próspero e pacífico, com justiça social e valores morais elevados, tem tudo para que a expectativa de vida de sua população aumente. Pois é exatamente o que ocorrerá no cumprimento do que o Senhor diz aqui ao seu povo. Na verdade, as pessoas passarão a viver tão bem que suas longas idades exigirão que elas andem com o uso de bengalas ou muletas que ajudem a sustentar o que o corpo já não poderá fazer sozinho.

Contudo, os velhos não serão os únicos a encher as ruas da cidade agora desolada, mas também multidões de crianças (v.5): “E as praças da cidade estarão cheias de meninos e meninas brincando nelas”. As mesmas condições positivas de vida favorecem maior número de nascimentos, além de reduzir a mortalidade infantil, muito comum e acentuada em períodos de guerra e de fome. Enfim, o aspecto lúgubre da cidade que fora invadida cederá lugar a um ambiente maravilhoso que revelará o tamanho a as implicações da ação bondosa e salvadora do Senhor sobre seu povo.

Ouvir tudo isso com o coração e a imaginação penetrados por sentimentos e esperanças maravilhosas, só podia perder seu brilho quando os ouvintes observassem a paisagem que os cercava e se lembrassem da condição política e social de Judá naqueles dias. Era exatamente o oposto de toda aquela esperança gloriosa. Não é de espantar que um bom número de judeus achasse que a diferença entre a realidade existente e o futuro esperado era tão grande a ponto de descrerem ser possível o cumprimento das promessas (v.6): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Se, naqueles dias, isso parecer impossível aos olhos do remanescente deste povo, também aos meus olhos parecerá impossível? — declara o Senhor dos exércitos’”. O texto hebraico não se refere a que coisa ele trata como “impossível” — lit. “maravilhoso” —, mas o consenso conduz à ideia de algo “maravilhoso demais para se acreditar”,[6] mostrando se tratar de coisas que naturalmente jamais ocorreriam. Entretanto, o Senhor reafirma com vigor cada uma das suas palavras lembrando ao povo que ele está acima dos homens e acima das circunstâncias. Se para o homem algo é difícil, ou até impossível, para Deus não, o que fica evidente na pergunta retórica da segunda parte do versículo cuja resposta evidente é um sonoro não. A fórmula de declaração ao final apenas serve para reforçar ao infinito o que já havia ficado em relevo suficientemente palpável.

Uma das dificuldades de se ver uma Jerusalém plenamente habitada era saber de onde viriam tais pessoas, já que apenas um grupo de cerca de 50 mil pessoas havia retornado do cativeiro para povoar Jerusalém e toda a circunvizinhança. Por isso, Deus explica seu plano (v.7): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Eis que eu livrarei o meu povo das terras do Oriente e do Ocidente’”. O termo hebraico traduzido como “livrarei” é a mesma palavra que pode ser interpretada como “salvarei” — opção preferida por grande parte dos tradutores. Entretanto, não se pode deixar confundir, com o termo “salvar”, como se tratasse apenas de uma restauração espiritual sem impactos na vida nacional de Israel. Na verdade, o que o Senhor tem a intenção de dizer nesse ponto é que ele porá fim ao castigo que previu na aliança mosaica de espalhar pelas nações os israelitas rebeldes (Dt 28.64). Apesar de esse exílio, com o tempo, ter dado a impressão de que tal realidade passou a ser a nova vida, talvez até melhor, dos exilados, Deus deixou claro que a estada entre outros povos lhes seria um peso como se fossem escravos em tais lugares (Dt 28.65-68). Assim, o salvamento divino se mostrará em termos da libertação do povo exilado de tais condições para fazê-los retornar à terra da promessa (Jr 30.7-11; 31.7; Is 43.1-7 cf.10.6).[7]

Para concluir esse pequeno trecho, a promessa do retorno dos exilados é associada à promessa do reatamento da comunhão entre Deus e seu povo e do molde do relacionamento pretendido pelo Senhor com seus servos (v.8): “Eu os trarei e eles habitarão no meio de Jerusalém. Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus, com fidelidade e justiça”. A presença divina com o povo não será apenas física ou representativa na forma da glória em um templo. Essa presença restaura o que Deus havia proposto a Israel desde que fez aliança com Abraão prometendo-lhe aquela terra (Gn 17.8). Assim, no cumprimento das promessas desse capítulo, ver-se-ão cumpridas também as alianças feitas no passado. Quando isso ocorrer, duas palavras que marcarão o relacionamento entre o rei divino e seus súditos, além da própria sociedade daqueles dias, são “fidelidade” e “justiça”. O que o Senhor ensinou e pediu no passado, cumprirá e produzirá no futuro. Era a isso que os judeus dos dias de Zacarias deviam dar atenção e basear suas esperanças e serviço a Deus, e não em jejuns e lamentos rituais que eles mesmos haviam inventado. Deus lhes deu bases sólidas para uma vida verdadeira, fundamentada nas palavras de Deus, tirando-lhes a cegueira de um legalismo morto.

Graças ao bom Deus, uma restauração escatológica também está reservada à igreja de Cristo — esta compartilhará com o Israel salvo muitos eventos do futuro, unindo-se a ele em um verdadeiro “povo de Deus” de natureza espiritual. Contudo, assim como Deus encheu Israel de esperança futura, para que passassem por uma reformulação de fé e de vida no presente, o Senhor também quer produzir uma igreja de servos melhores, mais desprendidos e delicados, obedientes e fiéis, que vive abraçada à esperança da glória eterna. Para isso, o bom Deus nos deu o mesmo remédio: sua Palavra. Cada coisa que o Senhor dos exércitos nos disse em sua revelação escrita, a Bíblia, deve encher nosso coração com as maravilhas que ele nos preparou — e isso nos deve levar a desejar sua presença santa e a boa comunhão com ele. Se as palavras de Deus tiveram tanto impacto sobre um povo em que nem todos conheciam e criam de fato no Senhor, imagine o que ela pode fazer a nós, seus filhos!

Pr. Thomas Tronco

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[1] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1560.

[2] Schenker, A. (Ed.). Biblia Hebraica Stuttgartensia: Apparatus Criticus (electronic ed.). Stuttgart: German Bible Society, 2003, p.1071.

[3] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 583.

[4] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 76.

[5] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Ezekiel. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 188.

[6] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Haggai. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 202.

[7] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 123.

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