Segunda, 23 de Janeiro de 2017
   
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Zacarias 8.9-17 - A Grande Virada Promovida por Deus

 

Antes de os judeus voltarem à reconstrução do templo com vigor e dedicação, um estado de certa carestia havia se instalado entre eles, fruto da punição divina (Ag 1.6). Entretanto, assim que eles se puseram à obra, o Senhor mudou os rumos do tratamento rendido ao seu povo e lhes abriu novamente as fontes de bênçãos e do sustento tão necessário (Ag 2.19), acrescentando-lhes promessas futuras de restauração (Ag 2.20-23). Tal virada se deu em um período de quase quatro meses, tempo decorrido entre o primeiro e o último pronunciamento de Ageu. Dois anos depois, o povo, provavelmente cansado da longa obra e se deparando com uma crescente dificuldade advinda da altura da construção e do esforço necessário para prosseguir em condições mais severas de trabalho, começava a dar sinais de fadiga e desânimo. É nesse contexto que Zacarias traz seu segundo sermão contendo a palavra do Senhor, a qual lhes seria um renovar de energias e esperança.

Desse modo, introduz-se uma nova declaração de Deus iniciada pela sua frequente fórmula (v.9): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Fortalecei vossas mãos, vós que, nesses dias, guardais essas palavras que dei por meio dos profetas que estavam no dia em que foi iniciado o alicerce da casa do Senhor dos exércitos para que o templo fosse edificado”. A ordem de “fortalecer as mãos”, ou de “ser forte”, é um encorajamento a alguém que está diante de uma responsabilidade para a qual não se acha devidamente capacitado (Ex.: Js 1.6,8; 1Cr 22.13; 28.20; Is 35.4; Ag 2.4-9; Ef 6.10; 2Tm 2.1). Nesse caso, é como se Deus dissesse a eles: “Sejam corajosos e não desanimem!”. Esse estímulo foi dirigido ao povo que vinha guardando as palavras de Deus dadas pelos profetas Ageu e Zacarias desde o início da reconstrução. Tal povo havia abandonado sua antiga condição de rebeldia, indiferença e egoísmo (Ag 1.4), dispondo-se a obedecer à orientação de valorizar o Senhor e lhe construir o santuário, tão significativo na vida do povo eleito. Por si só, essa descrição serve de prenúncio e de fundamento para a ação benéfica de Deus e razão de eles manterem a esperança de verem dias em que Israel voltaria a exibir grande glória. É como se lhes dissesse: “Vocês têm cumprido sua parte e podem confiar que eu, o Deus de Israel, vou cumprir a minha”.

Para ilustrar adequadamente a lição, o Senhor relembra o passado recente desse povo, começando pela condição inicial desfavorável causada pela indiferença que demonstravam para com Deus e seu templo (v.10): “Pois, antes daqueles dias, não havia salário para homens, nem existia retribuição para animais. Não havia paz para quem saía, nem para quem entrava por causa do perigo, pois eu incitei todos os homens, cada um contra seu companheiro”. Sem as bênçãos divinas, eles trabalhavam, mas não atingiam seus objetivos, colhendo bem menos do que esperavam e vendo seus esforços se esvaírem inutilmente. Quanto aos rebanhos, há quem proponha que eles não estavam se multiplicando devidamente, nem dando lucro aos seus donos como é de se esperar que um rebanho faça. Contudo, o paralelo com a condição dos homens nos indica que o profeta se refere ao fato de eles não receberem suficientemente a necessária alimentação, resultado da seca e da infertilidade da terra (Ag 1.11). Infelizmente, em uma situação como a que esses israelitas enfrentaram, certamente ocorreram as duas coisas — infertilidade e fome do rebanho —, causando uma crise econômica entre os habitantes de Jerusalém e da circunvizinhança.

Além disso, eles enfrentaram dias de perigo e falta de paz. Isso ocorreu de modo generalizado, para todos os que “entravam e saíam”, o que não aponta somente para viajantes, mas para as pessoas em geral que cuidavam de suas vidas e dos seus negócios.[1] O texto não informa com precisão, mas o perigo que o povo corria pode ter decorrido tanto da parte de outros povos, os quais podiam invadi-los quando quisessem por falta de uma muralha que lhes protegesse (Ne 4.7-23 — observar nesse texto como a defesa era frágil e preocupante sem que o muro estivesse completo),[2] como da parte dos próprios israelitas.[3] O fato é que os dias eram maus em função da desobediência do povo.

Entretanto, o Senhor mudou a sorte dos judeus assim que lhe voltaram os ouvidos e lhe atenderam as ordens, algo que o Senhor os relembra e lhes promete fazer ainda mais (v.11): “Mas agora já serei como nos primeiros dias para o remanescente deste povo — declara o Senhor dos exércitos”. Tal declaração traz embutido o fato de que Deus havia promovido uma grande virada na situação passada, dando prosperidade ao povo que se arrependeu e voltou a atender suas diretrizes. O que aconteceu “nos primeiros dias” é o mesmo que o Senhor promete fazer àquele povo naqueles dias (v.12): “Pois a semente prosperará, a videira dará seu fruto, a terra dará sua produção, os céus darão seu orvalho e eu darei tudo isso ao remanescente deste povo”. A conjunção “pois”, utilizada também no v.10, demonstra que eles já haviam recebido uma prova tanto do que é estar debaixo da mão punitiva do Senhor como sob as bênçãos de Deus, bênçãos que eles aguardavam em uma forma ainda mais intensa em um futuro que os profetas há muito vinham predizendo. Assim, Zacarias faz referência às bênçãos divinas prometidas no Pentateuco (Lv 26.3-13; Dt 28.11,12) e nos profetas, especialmente em Ezequiel (Ez 34.25-27).[4]

Para completar a maravilhosa visão do que Deus faria àquele povo que, no momento, não passava de um pequeno remanescente, aparentemente sem grande futuro, faz-se uma afirmação que não abrange apenas a produção agropecuária, mas todos os aspectos nacionais de Israel, e não apontavam àqueles dias, mas ao futuro de um modo mais pleno (v.13): “E acontecerá, ó casa de Judá e casa de Israel, que, como fostes uma maldição entre as nações, assim eu vos salvarei e vós sereis bênção. Não temais! Fortalecei vossas mãos!”. Aqui, a expressão “casa de Judá e casa de Israel” não aponta para dois povos separados, mas, sim, para o povo completo que o Senhor unirá por ocasião do cumprimento da Nova Aliança que prometeu por meio do profeta Jeremias (Jr 31.31-34) — a promessa de perdão de Jeremias vem associada à reunião de Israel na terra da promessa, trazendo-os de todas as nações (Ez 36.24-28).

Apesar de essa promessa ter sido parcialmente vivenciada por aquela geração que viu o Senhor trazer de volta para a Judeia muitos dos que foram exilados e dispersos, Zacarias trata, no v.13, do cumprimento pleno desse livramento. Ele cita o fato de os israelitas dispersos serem uma “maldição entre as nações”. O significado disso é que, ao serem espelhados pelas nações segundo prescrito nas maldições da aliança mosaica em função da rebeldia, eles seriam perseguidos e sofreriam enquanto nelas permanecessem (Dt 28.64-68). Porém, o profeta faz menção à promessa de que Deus tomará Israel do meio das nações e os “salvará” — ou “livrará” — dessa condição desfavorável, unindo-o em sua terra de direito segundo a aliança feita com Abraão (Gn 15.18-21). Então, não serão mais amaldiçoados, mas abençoados. Eis a razão para que aqueles homens, que não sentiam muita segurança em relação ao seu futuro, não mais temessem e fortalecessem suas mãos para a obra que tinham diante de si.

Outro traço da grande virada que o Senhor estava promovendo surge a seguir (vv.14,15): “Pois assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Assim como eu planejei vos causar dano quando vossos pais me provocaram — e não me arrependi —, eu planejo agora, nesses dias, beneficiar Jerusalém e a casa de Judá. Não temais!’”. Mais uma vez a conjunção “pois” é adicionada como introdução a um argumento em favor do encorajamento. Nesse caso, o instrumento são os planos do Senhor. Deus lhes apresenta seus propósitos em dois momentos. No primeiro deles, seu plano foi puni-los pelos pecados e desobediências, causando-lhes danos que vieram de vários modos e que culminaram com a invasão de Jerusalém, com a destruição da cidade e do templo e com a deportação dos sobreviventes para a Babilônia. Sobre isso, o Senhor afirma que não se arrependeu, o que não o impede de, agora, em outras condições, agir de outro modo segundo um plano que ele traçou previamente e que revelou pelos seus servos do passado. Essa mudança, não de plano, mas de tratamento, já seria sentida por aquela mesma geração. Assim, Deus garante uma grande virada em seu tratamento e na condição dos israelitas, fazendo cessar sua disciplina e favorecendo os judeus mediante sua valorização das palavras divinas (cf. v.9). Sendo esse mais um argumento em favor do encorajamento, o Senhor o fecha com nova ordem de “não temais”.

Independente do futuro garantido que Israel tem por causa das promessas de Deus, seu bem-estar presente depende do modo como se relaciona com o Senhor. Para garantir que continuassem a ser abençoados, o profeta lhes transmite algumas instruções — duas ordens positivas (v.16) e duas proibições (v.17)[5] — que evidenciavam que Deus não estava primariamente interessado em uma construção em si, mas em pessoas que o servissem de coração e que mantivessem um estilo de vida compatível com o caráter divino. As ordens positivas são (v.16): “Eis as coisas que vós fareis: falai a verdade cada um ao seu companheiro. Executai julgamentos retos e íntegros em vossas portas”. A primeira ordem dificilmente significa apenas não “falar” mentira, mas, sim, não “agir” com falsidade, seja em palavras ou ações. Dado o caráter relacional desses comandos, é justo interpretar a “verdade” exigida por Deus como justiça, misericórdia e honestidade tanto na esfera pessoal como civil (cf. Zc 7.9,10).[6] O aspecto jurídico também é abordado na segunda ordem, a qual os responsabilizava por julgar com retidão e integridade, bem diferente do passado daquele povo, quando se vendiam sentenças e se oprimiam os indefesos.

As ordens proibitivas, por sua vez, apontavam mais para o coração das pessoas do que para suas ações — ainda que o coração guie diretamente os atos e atitudes de cada um — (v.17): “Não deveis intentar o mal uns aos outros em vossos corações, nem amar o juramento falso, pois eu odeio todas essas coisas — declara o Senhor”. Para se obedecer aos comandos de agir com veracidade e de julgar com retidão, era preciso que o coração de cada um abandonasse as “segundas intenções” ligadas aos relacionamentos. Se não era permitido guardar no coração planos reprováveis de prejudicar outras pessoas para benefício pessoal, externar essa atitude pecaminosa por meio de juramentos falsos ou palavras que não têm realmente valor, nos quais não se pode confiar, era terminantemente proibido. Os judeus não podiam, de modo algum, “amar” tais expedientes utilizados pelos seus ancestrais que provocaram a ira divina. Afinal, o Senhor deixou claro seu ódio com tais procedimentos e solenizou essa verdade com a fórmula “declara o Senhor”.

Resumindo, aquele povo devia se fortalecer para o trabalho buscando esperança na atuação de Deus no passado e nas promessas ligadas ao futuro, deixando de temer os inimigos e as limitações da sua condição, ao mesmo tempo que lutavam seriamente para manter um padrão de vida elevado e moldado pelo caráter e pelas palavras do Senhor. Como passagens assim são atuais e servem à igreja de Cristo! Temos de fazer o mesmo, observando tudo que o Senhor fez e faz por nós desde que, ao crermos em Cristo, ele cancelou nossa condenação e passou a nos guiar e abençoar, promovendo uma “grande virada” em nossa condição. Temos também de olhar para o futuro cheios de esperança na vida eterna, na nossa futura condição glorificada na presença do nosso mestre. Por fim, também temos de nos fortalecer e viver do modo que honre e proclame o evangelho de Jesus Cristo, o qual é o padrão de vida daqueles que o buscam em fé. E quando tudo isso nos parecer difícil demais, que nos lembremos da mesma ordem que o Senhor deu muitas e muitas vezes nas Escrituras: “Não temais!”.

Pr. Thomas Tronco

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[1] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 208.

[2] Os samaritanos merecem destaque entre os adversários dos judeus do período pós-exílico. A oposição samaritana tomou forma quando esses foram preteridos no trabalho de reconstrução (Ed 4.1-3) e passaram a desanimar os construtores (Ed 4.4,5) e a acusar as autoridades judaicas diante das instâncias do governo persa até que a obra fosse embargada (Ed 4.6,12,13,23,24).

[3] Nesse caso, os livros de Ageu e Zacarias não dão detalhes de algo assim, mas Neemias, mais adiante, põe fim a uma prática que vinha ocorrendo a algum tempo na qual os principais dentre o povo exploravam e escravizavam seus endividados irmãos (Ne 5.1-12).

[4] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 125.

[5] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 197.

[6] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1561.

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