Segunda, 16 de Janeiro de 2017
   
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Zacarias 8.18-23 - O Fim do Lamento e a Busca dos Povos

 

A quarta e última das mensagens desse trecho traz uma das visões mais encorajadoras sobre a restauração futura de Israel e a alegria advinda disso por meio da remoção das razões de lamento[1] e pela expansão mundial da influência divina. O início dessa mensagem é marcado por uma frase já bem conhecida dos ouvintes originais (v.18): “Veio a mim a palavra do Senhor dos exércitos, dizendo”. A partir daí, o Senhor faz três gloriosas promessas, cada uma precedida pela fórmula “assim diz o Senhor dos exércitos”.[2]

A primeira promessa é a de que o lamento cederá lugar ao regozijo (v.19): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘O jejum do quarto mês, o jejum do quinto mês, o jejum do sétimo mês e o jejum do décimo mês se tornarão em alegria, em regozijo e em contentes festejos para a casa de Judá, de modo que deveis amar a verdade e a paz’”. Deve-se recordar que o fato que deu origem a esses sermões foi o questionamento dos judeus a respeito da necessidade da continuidade dos jejuns, no início do capítulo 7.[3] No último dos sermões pregados a partir de então, o assunto do jejum volta à tona e recebe sua resposta definitiva. O modo de os judeus agirem no presente muito dependia do que o Senhor lhes faria no futuro. Nesse sentido, os jejuns não apenas perderiam completamente seu uso, como meios de lamentar os sofrimentos do passado decorrentes do pecado da nação, mas seriam surpreendentemente transformados no seu extremo oposto. Em lugar de choro, aflição e lamentos, Deus instalaria no meio do povo “alegria”, “regozijo” e “contentes festejos”, o que indica uma mudança completa da situação de vida. Se o que trouxe pranto no passado foram a destruição de Jerusalém e do templo, o desterro da maior parte do povo, a perda da soberania nacional e da falta de domínio e a posse da terra prometida aos antepassados, a ação de Deus de restituir o que foi perdido, reconstruir o que foi derrubado e restaurar o que foi abatido produzirá uma alegria incomparável e contagiante.

Mas isso de modo algum deve ser razão para um novo descaso e relaxamento dos padrões morais e de vida, como aconteceu no passado. Assim, o final do versículo apresenta uma ordem de o povo amar a verdade e a paz. O que não se sabe exatamente é como essa ordem se relaciona com a promessa da restauração, já que não há nada no texto hebraico que ligue a frase anterior à cláusula final. Por isso, as ligações “de modo que”, ou “portanto”, ou “então” são suposições dos tradutores a fim de dar sentido a uma sentença que fica perdida sem esse tipo de conexão. Algumas versões simplesmente traduzem a ordem final sem nenhum tipo de conexão, deixando de introduzir no texto o que ele não traz, contudo, sem resolver a questão, mas transferindo-a para o exegeta. O fato é que a instrução ética do Senhor está, sim, ligada à promessa da alegria, provavelmente ensinando que a esperança futura devia encontrar seu par no presente na forma de fidelidade a Deus. Isso seria um encorajamento a não apenas se esforçar na construção como também a lutar para manter o tipo de vida que o Senhor ensinou e que esperava dos servos a quem abençoa. Uma segunda possibilidade é que, em lugar da ligação “de modo que”, se utilize a conjunção “mas”. O resultado seria que a ordem não visaria a uma resposta presente, mas futura, no sentido de orientar que, quando a alegria fosse plenamente restaurada, os judeus não poderiam de modo algum se esquecer dos limites da verdade e da paz nas suas ações diárias e nos festejos[4] — “festejem, mas não passem dos limites”.

A segunda promessa é a de que os gentios do mundo todo buscarão e seguirão o Senhor, cuja presença será vista especialmente em Jerusalém (v.20): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Virão ainda povos e moradores de muitas cidades’”. Essa também é uma grande mudança que será realizada por Deus, pois, a princípio, os gentios são apresentados no livro como rebeldes e alvos da ira divina (Zc 1.15). Entretanto, após o período de derramamento da ira punitiva sobre eles, um grande avivamento ocorrerá e os povos que rejeitavam a Deus passarão a buscá-lo (vv.21,22). O uso do verbo “virão” demonstra que eles terão como destino da sua procura o próprio “Senhor dos exércitos”.

Essa busca terá uma grande adesão de participantes porque, além da conversão a Deus em larga escala, haverá também um movimento contagiante em que uns passam a convidar os outros a fim de que façam o mesmo (v.21): “E os moradores irão um ao outro, dizendo: ‘Estamos indo fazer súplicas diante do Senhor e buscar o Senhor dos exércitos. Eu também irei’”. A função do gerúndio[5] “estamos indo” é apontar para o fato de que não se tratará apenas de um projeto ou de um plano futuro, mas de um movimento que já estará em plena ação. Além disso, depois de dizer “estamos indo”, é surpreendente que tais pessoas também digam “eu também irei”, já que isso é explícito na primeira afirmação, cujo verbo está na primeira pessoa do plural (nós). Com isso em mente, podemos olhar para a cláusula final e ver nela uma ênfase ao que já foi dito, tornando claro o caráter pessoal da viagem, ou podemos entender que a primeira colocação descreve uma iniciativa em larga escala em que seria natural expô-la na primeira pessoa do plural, como se alguém dissesse “estamos em guerra”, mesmo sem ser ele mesmo um soldado. Dentro dessa segunda possibilidade, a declaração final “eu também irei” teria o mesmo efeito do alistamento militar pessoal em tempos de guerra. Assim, o que está na mente de quem fala desse modo é que “a nação está de partida para buscar a Deus, mas não sem mim, pois eu pessoalmente me unirei a essa marcha”. Em resumo, esses anúncios marcados pelo exemplo pessoal acabam transformando tais pessoas em um tipo de evangelista,[6] cuja dedicação e ansiedade pela busca de Deus acabam por revelar sua fé e motivação.

É preciso que se diga que uma impressão que o exegeta pode ter é de que a frase “eu também irei” seria a resposta dos ouvintes, o que não é nada absurdo, já que evidenciaria a grande adesão ao movimento de busca do Senhor. Entretanto, o texto não dá nenhuma indicação de mudança do interlocutor, de modo a tornar a proposta um tanto especulativa, apesar de que esse não seria o único exemplo de algo assim no Antigo Testamento. A diferença é que a situação aqui não obriga uma mudança de interlocutor para que o texto tenha sentido, diferente de outros lugares em que isso é realmente necessário, dada a alteração do tom de uma frase ou do contexto, ou mudança de número e gênero verbais.

O resultado do extenso convite do v.21 é uma maciça busca por Deus e uma grande peregrinação a Jerusalém (v.22): “Virão muitos povos e numerosas nações a fim de buscar o Senhor dos exércitos em Jerusalém e para fazer súplicas diante do Senhor”. A esmagadora maioria das traduções traz “poderosas nações” em lugar de “numerosas nações” — o adjetivo hebraico utilizado aqui tem os dois significados. Contudo, o contexto nos revela que a declaração divina desse trecho não está preocupada em mostrar o poder de Deus sobre o poder e a arrogância das nações rebeldes e inimigas, mas a incrível adesão mundial à busca do Senhor. Por isso, a tradução “poderosas” foge um pouco ao contexto e introduz uma ideia que parece ser extemporânea, uma vez que, no cumprimento de tais palavras, já terá caído diante de Deus o poderio das nações. Ao que tudo indica, essa construção usada pelo profeta nos fornece um “paralelismo sinonímico”, figura em que se apresentam duas ideias que apontam para a mesma realidade, ou uma “hendíadis”, figura que usa duas expressões para expor uma ideia apenas — nesse caso, uma tradução possível seria “virão pessoas de numerosas nações”. De qualquer modo, a tradução “numerosas” [7] é preferível.[8]

Algo também notável nesse texto é que as nações não apenas buscarão o Senhor, mas o farão “em Jerusalém”. É fato que o Senhor está em toda parte (Sl 139) e que não é limitado a locais geográficos ou a edificações físicas (1Rs 8.27; At 17.24). Entretanto, no tempo do cumprimento dessas promessas, Deus será buscado de um modo especial em Jerusalém, assim como ocorria quando havia sacrifícios, culto, festas e cerimônias no templo. Pode-se propor que isso ocorrerá devido à presença e utilização de um novo templo. Contudo, Jesus, mesmo no tempo em que existia um santuário em plena atividade, desencorajou a valorização de locais especiais de adoração (Jo 4.21-23). Olhando para isso e para textos que também falam do afluir das nações para Jerusalém, não para visitar um templo, mas para buscar e aprender do Senhor (Is 2.2-4; Mq 4.1-3), pode-se concluir que o fato marcante será a presença do próprio Deus em Jerusalém, na pessoa do Messias, que, sendo eterno, será também rei de Israel (Mq 5.2) e legislador das nações (Mq 5.4).

Por fim, a terceira promessa é a de que gentios e judeus se unirão na mesma adoração a Deus (v.23): “Assim diz o Senhor dos exércitos: ‘Naqueles dias, dez homens de todas as línguas das nações agarrarão a manga de um judeu, dizendo: Nós iremos convosco, pois ouvimos que Deus está convosco’”. O ato de agarrar alguém pela roupa pode nos parecer hoje uma ação desrespeitosa, mas, tanto em Israel como na Mesopotâmia daqueles dias, agarrar a manga da roupa era um gesto de súplica e submissão, como, por exemplo, na ocasião em que Saul agarrou o manto de Samuel a fim de lhe suplicar que voltasse com ele (1Sm 15.27).[9] Assim, a figura produzida por essa frase é que os gentios, antes inimigos dos judeus, lhes procurarão e desejarão se associar a eles na adoração do Deus que reina em Jerusalém sobre a nação israelita. O fato de dizer que “dez” gentios se dirigirão a “um” judeu pode levar à suposição nada absurda de que o número de pessoas entre as nações será bem maior que o número de judeus, não obrigatoriamente na proporção de dez para um, mas no sentido de condizer com o tamanho no mundo e com o número de nações em relação a Israel. Em resumo, os velhos adversários se achegam aos judeus sabendo que eles, não mais rebeldes como no passado, andam com Deus e com todos aqueles que também buscam ao Senhor. O resultado final é um mundo ideal, tanto no sentido da paz e união mundiais como na busca geral pelo Senhor e criador de tudo que existe. A diferença é que, o que hoje se vislumbra apenas de modo utópico será plena realidade quando esse tempo chegar.

É ótimo saber que um dia o mundo se curvará ao eterno salvador dos que nele creem. Entretanto, não é necessário esperar esse tempo para que sua igreja atual aja como aqueles peregrinos no futuro, que saiam de casa em casa e de cidade em cidade convidando outras pessoas a buscar também o Senhor. Devemos fazer isso desde já, cumprindo nossa função como expoentes da verdade e das virtudes do nosso Deus (1Pe 2.9). Ao mesmo tempo, temos a obrigação de também amar a verdade e a paz para que o mundo veja em nós vidas transformadas por aquele que é verdadeiro e que há de reinar. E sempre que virmos o povo de Deus glorificando seu Senhor com suas ações, atitudes, anúncios, ajuntamentos e adoração, devemos todos juntos bradar: “Eu também irei”.

Pr. Thomas Tronco

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[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 788.

[2] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1561.

[3] Sobre os jejuns realizados nos diversos meses citados nesse texto, consultar o comentário a Zacarias 7.3.

[4] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 218.

[5] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 179 § 4.

[6] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 127.

[7] É óbvio que é possível que o autor queira, em vez de fornecer um paralelismo, produzir uma ideia complementar entre “muitas e poderosas nações”. Contudo, a julgar pelo paralelismo quiástico entre as ações dos vv.21,22 — “fazer súplicas” e “buscar” (v.21) / “buscar” e “fazer súplicas” (v.22) —, típico de uma poesia, devemos esperar outras figuras poéticas como o paralelismo sinonímico em questão, tão comum em Salmos e Provérbios.

[8] Uma luz adicional à questão vem do fato de a Septuaginta usar a mesma palavra grega (pólys) nos dois casos, tanto para se referir a “muitos povos” como a “numerosas nações”. A Vulgata Latina e a Vulgata Clementina, por sua vez, usam a palavra “fortes” (robustae).

[9] Matthews, V. H.; Chavalas, M. W.; Walton, J. H. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament (electronic ed.). Downers Grove: InterVarsity Press, 2000 [Zc 8.23].

 

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