Segunda, 21 de Agosto de 2017
   
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Zacarias 9.1-8 - O Olhar Controlador e Protetor do Senhor

 

O início da segunda parte do livro de Zacarias começa com um oráculo de difícil tradução, em certas partes, e de difícil interpretação, com bifurcações hermenêuticas que podem levar o texto a dizer coisas extremamente antagônicas entre si. Por isso, são necessários paciência, cuidado e sintonia com a teologia dos profetas e de todo o Antigo Testamento e com a história do Oriente Médio Antigo.

A fórmula inicial demonstra a abertura da nova seção (v.1): “Um oráculo dito pelo Senhor contra a terra de Hadraque e que repousa sobre Damasco, pois o Senhor tem seus olhos voltados à humanidade e a todas as tribos de Israel”. A primeira palavra já levanta uma questão a ser respondida: o que é "um oráculo”? Na língua portuguesa, a possibilidade que melhor se adapta ao contexto tem o significado de uma palavra cheia de autoridade cujo cumprimento é infalível. Dado o caráter punitivo do contexto, não erra quem, em lugar de “oráculo”, usa a palavra “sentença”. Entretanto, nenhuma das palavras da língua portuguesa é capaz de preservar a ideia de um “peso colocado sobre alguém”, seja sobre as nações alistadas na sequência, seja sobre o próprio profeta que, certamente chocado com o conteúdo da profecia, não podia escolher não obedecer ao chamado profético de anunciar as palavras do Senhor, mesmo que isso lhe fosse uma dura carga a ser suportada.

A palavra do Senhor é dirigida a várias cidades. O que surpreende é o seu primeiro alvo, uma cidade não citada em mais nenhum lugar das Escrituras, a obscura Hadraque. Uma inscrição do oitavo século a.C., atribuída a Zakir de Hamate, identifica Hadraque com a cidade conhecida como Hatarikka, localidade situada ao norte de Hamate.[1] Assim, ela não parece ser obscura na história do Oriente Médio Antigo, permanecendo misteriosa apenas a relação dessa cidade com os rumos da história de Israel. De qualquer modo, Hadraque, junto com Damasco, capital de Aram (isto é, Síria), são o alvo da ação divina, sobre as quais repousam suas palavras, ou suas determinações punitivas. Na verdade, não apenas tais cidades, mas todo o mundo, todas as suas nações, incluindo Israel e suas tribos, estão sob o “olhar” controlador do soberano. Apesar de muitas traduções optarem pela tradução na qual as nações e as tribos de Israel estão olhando para o Senhor, a visão do profeta não é de domínio de toda a humanidade, além de um erro frequente ser justamente o fato de os homens se recusarem a olhar para o Senhor.[2] Ademais, o v.8 retorna ao assunto dos olhos soberanos do Senhor, traçando um paralelo entre o início e o final do texto,[3] tornando preferível a tradução na qual o Senhor é quem tem seus olhos sobre a humanidade e sobre Israel.

O olhar controlador e punitivo de Deus não se limita às cidades citadas no v.1, mas se estende sobre outra grande cidade síria, Hamate, e sobre duas grandes cidades fenícias, Tiro e Sidom (v.2): “Também sobre Hamate — que faz divisa com ele — e sobre Tiro e Sidom que são muito perspicazes”. Hamate é limítrofe tanto de Hadraque como de Damasco, de modo que não é fácil definir o limite citado aqui, sem que, contudo, tal dúvida afete o sentido do texto. Quanto à perspicácia (lit. sabedoria) atribuída a Tiro e Sidom, é apresentada no singular como se fosse a qualidade de apenas uma delas, sendo complicado definir qual das duas. Entretanto, a associação entre as duas cidades as torna inseparáveis inclusive em suas designações. Outra observação a ser feita é que o sentido literal de “sabedoria” da palavra hebraica usada no final desse versículo tem uma conotação positiva e elogiável. Entretanto, o contexto e as consequências da profecia demonstram que o Senhor não estava elogiando essas cidades, mas reconhecendo seu talento, o qual, infelizmente, não impediu que elas se tornassem arrogantes ou que se livrassem da punição divina, razão pela qual a tradução “perspicazes” ou “talentosas”[4] é preferível.

Outro detalhe que nos chama a atenção é a lista e a sequência das cidades apresentadas no texto. Ela coincide com a invasão, em 333-332 a.C., de Alexandre, o Grande, à Síria, Fenícia, Filístia e Judá. Isso nos leva à questão da ocasião do cumprimento do oráculo. Há quem defenda que se trate de acontecimentos diversos entre os séculos 6 e 8 a.C., mas não sem destruir a unidade do livro com tais propostas. Há também quem o considere uma profecia totalmente escatológica, sem conseguir, contudo, explicar certas situações não compatíveis com o reinado do Messias, que produz paz e transformação de ordem mundial, como, por exemplo, a situação semicaótica da Filístia. A melhor opção, que não é defendida sem pelo menos uma dificuldade, é a possibilidade de se tratar de uma predição sobre a invasão grega de toda a região trazendo grandes mudanças no cenário político.

Sobre isso, Flávio Josefo, sacerdote e historiador judeu do início da era cristã, conta que, ao guerrear com o persa Dario na Cilícia, “Alexandre, depois da vitória chegou à Síria. Tomou Damasco, apoderou-se de Sidom e sitiou Tiro. [...] E, depois de haver regularizado todas as coisas, foi sitiar Gaza”.[5] Na página seguinte, Josefo fala da chegada de Alexandre a Jerusalém, porém, sem destruí-la, mas dando-lhe privilégios em função do relato que fez sobre uma visão que teve ainda na Macedônia em que o sumo sacerdote israelita, com suas exatas roupas, as quais ele nunca tinha visto antes, encorajou-lhe, na visão, a batalhar e vencer Dario sob os auspícios do Deus verdadeiro. Seguindo a possibilidade de ser esse o cumprimento do oráculo, há quem proponha uma ordem cronológica crescente nas previsões dessa parte do livro de Zacarias, de modo que 9.1-8,13 seria uma predição a respeito do Império Grego, 11.4-14 do Império Romano e os capítulos 12—14 do futuro de Israel nos últimos dias.[6]

O próximo versículo aponta as razões para a arrogância de Tiro, a qual realmente precederia sua queda (v.3): “Tiro edificou para si uma fortaleza e ajuntou prata como pó e ouro como barro das ruas”. A cidade de Tiro se dividia em uma parte continental e outra parte fixada em uma pequena ilha a oitocentos metros da costa, onde vivia a maior parte da população. A construção de uma fortaleza tornou a cidade quase inexpugnável a ponto de Nabucodonosor, depois de um cerco de treze anos (587-574 a.C.), ter desistido de invadir a cidade. Isso fez com que, além de arrogante (cf. Ez 28), a cidade tivesse se tornado muito rica. Tudo isso cairia diante do que Deus lhe tinha preparado (v.4): “De modo que o Senhor a desapossará e lançará no mar seu poder, e ela será consumida pelo fogo”. Segundo essa previsão, três males lhe sobreviriam. Suas muitas posses seriam despojadas. Seu “poder”, o que possivelmente é uma referência ao seu poderio naval, seria lançado no mar, ou seja, seria afundado no mar. E a cidade seria completamente destruída pelo fogo. Um abatimento completo que, como é sabido, fez com que a cidade nunca mais se erguesse e tivesse novamente sua glória como no passado.

Após conquistar os territórios da Síria e do Líbano, Alexandre tinha planos de dominar a Filístia (v.5): “Asquelom verá e temerá. Gaza se aterrorizará, assim como Ecrom, pois sua esperança foi confundida. Gaza ficará sem rei e Asquelom não será habitada”. Os filisteus sabiam ser o próximo alvo, de modo que a notícia da queda de Tiro os abateu fortemente a ponto de sentirem grande temor e de perderem a esperança. Se a esperança dos filisteus estava depositada na resistência de Tiro ou na suposta incapacidade militar dos macedônios, não é possível determinar. Mas o resultado final era claro para eles: a Filístia não resistiria a essa invasão. E de fato não resistiu, pois, depois de um cerco de dois meses, Gaza, que era a principal cidade filisteia nesses dias, caiu. Ficar sem rei significa que o rei foi deposto ou morto por Alexandre e a cidade não teve liberdade política e militar para entronizar outro monarca. Se Asquelom ficou desabitada, Asdode passou a ser habitada por um povo misto (v.6): “Um povo bastardo habitará em Asdode, pois eu aniquilarei o orgulho dos filisteus”. A única das cinco cidades filisteias que não é citada é Gate, já que ela fora completamente abatida por Nabucodonosor no passado.

Apesar do grande abatimento filisteu, nem tudo seria mal (v.7): “Tirarei o sangue de suas bocas e a comida imunda de entre seus dentes. Então, quem sobreviver será do Senhor e se tornará como um clã em Judá e Ecrom será como um jebuseu”. Como efeito colateral da invasão macedônia, efeito esse planejado por Deus, os sobreviventes filisteus acabariam sendo integrados à população de Judá e, convertidos ao judaísmo, seriam do Senhor. Isso é percebido no texto em dois relances. O primeiro é o da purificação alimentar e cultual dos filisteus, já que dizer que o sangue seria tirado de suas bocas significa que eles passariam a se abster dele, assim como ditava a lei israelita. Ao mesmo tempo, dizer que não haveria mais comida imunda em seus dentes aponta para o fato de que eles deixariam os rituais de adoração pagã dos seus falsos deuses para servir ao Deus verdadeiro, o que fica apenas implícito. O segundo relance vem da afirmação de que eles seriam como um clã ou uma família de Judá. Isso significa que haveria uma absorção tribal em que os sobreviventes filisteus passariam oficialmente a integrar a tribo de Judá, assim como aconteceu aos jebuseus, antigos moradores de Jerusalém. Quando Davi invadiu a cidade, poupou boa parte do povo e este foi absorvido pelos israelitas, o que é possível notar ao ver a fé e a prática do jebuseu Araúna (2Sm 24.16,18) diante do rei Davi e da sua necessidade de fazer uma oferta a Deus em suas terras (2Sm 24.22; 1Cr 21.23).[7]

Depois de uma invasão avassaladora em toda a região, Alexandre marchou rumo a Jerusalém. Em vista do seu pedido, quando ainda estava ao norte, de que os judeus lhe fossem favoráveis como o tinham sido anteriormente com Dario, e da recusa dos judeus por dizerem que não podiam faltar com sua palavra ao rei persa, Alexandre ficou muito furioso com Judá. Ao marchar para Jerusalém com seu exército, a expectativa era de que houvesse grande destruição. Mas o Senhor disse que protegeria seu povo (v.8): “Acamparei em minha casa para guardá-la de qualquer um que vá ou que venha, de modo que não venha mais nenhum opressor contra eles, pois, então, eu vigiarei com meus olhos”. O fato é que Deus promoveu uma grande virada, fazendo com que o conquistador macedônio reconhecesse em Israel o Deus que lhe falou anteriormente. Por isso, Alexandre foi bondoso com os judeus e foi bem recebido em Jerusalém. O sumo sacerdote até lhe mostrou no livro do profeta Daniel as predições de um príncipe grego que venceria os persas, afirmando acreditar que se tratava dele.[8] O resultado que deixou todos perplexos foi que, enquanto diversas nações ao redor foram abatidas, Jerusalém e o povo de Judá não apenas foram poupados, como também beneficiados pelo conquistador.

A razão disso é a presença deliberada de Deus “em sua casa para guardá-la”. É claro que a menção da casa nos leva imediatamente ao pensamento sobre o templo. Entretanto, o Senhor certamente não estava preocupado com uma edificação de pedras e madeira, mas com a nação, razão pela qual essa casa, ou pelo menos seu efeito, deve ser compreendida como o próprio povo em si e seu território, ambos vigiados e guardados pelo olhar controlador do soberano. A dificuldade surge quando, no final do versículo, é afirmado que mais nenhum opressor viria contra eles, quando sabemos que a região foi posteriormente dominada pelos selêucidas, romanos, árabes, ingleses e, ainda hoje, quando Israel voltou a ser um Estado, não detém totalmente o domínio do território do qual devia usufruir. Desse modo, vemos que, ainda que esse oráculo tenha um cumprimento temporal, nos dias de Alexandre, a proteção que o Senhor deu ao seu povo naquele período será executada de modo pleno e irrevogável no futuro, quando eles definitivamente não terão mais guerras e nem inimigos e desfrutarão da plenitude das bênçãos prometidas por Deus nas alianças abraâmica, davídica e nova aliança.

Essa mensagem, apesar de ter a maior parte do seu cumprimento já concluída e apontada para o povo judeu, revela o caráter de Deus e seu controle da história em benefício do seu povo, mesmo quando toda a lógica aponta para seu fim. Nesse sentido, a igreja de Cristo se viu muitas vezes como alvo de ataques inimigos que tinham como intenção exterminá-la, minar sua liberdade de adorar o Senhor e maculá-la com os piores tipos de mundanismo e superstição. Ainda assim, quando a razão dizia que a igreja sucumbiria, Deus acampou novamente sobre sua casa e livrou seu povo dos seus inimigos, fazendo-os perdurar e se expandir. Isso deve nos encher de coragem e esperança atualmente, quando vemos que os ataques inimigos não cessaram e que ainda há pessoas que rangem os dentes contra a igreja e contra o cristianismo e têm como meta de vida tirar nossa liberdade de viver servindo nosso Deus. Quando isso acontece, devemos fazer como o sumo sacerdote judeu que buscou o Senhor e confiou em suas palavras e, com vestes brancas, junto com todo o seu povo, viu o Senhor mudar os planos dos homens e beneficiar os servos do Deus vivo, aquele sobre quem estão os olhos do salvador e protetor daqueles que o amam.

Pr. Thomas Tronco

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[1] Pritchard, James B. (Ed.). The Ancient Near Eastern Texts : Relating to the Old Testament. 3ª edição com suplemento. Princeton: Princeton University Press, 1969, p. 655. Os primeiros dois parágrafos do texto dizem: “Uma estela feita por Zakir, rei de Hamate e Lu’ath, para Ilu-Wer [seu deus]. Eu sou Zakir, rei de Hamate e Lu’ath. Eu sou um homem humilde. Be’elshamayn [me ajudou] e ficou ao meu lado. Be’elshamayn me fez rei sobre Hatarikka (Hadraque)”.

[2] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 131.

[3] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 230.

[4] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 220.

[5] Josefo, Flávio. História dos Hebreus. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 532.

[6] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1562.

[7] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 91.

[8] Josefo, Flávio. História dos Hebreus. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 534.

 

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