Sexta, 24 de Março de 2017
   
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Zacarias 11.1-14 - A Rejeição do Pastor e o Abate das Ovelhas

 

O capítulo 11 de Zacarias contém um texto muito duro, cuja interpretação talvez seja uma das mais difíceis de todo o Antigo Testamento. Em lugar de oferecer uma figura esperançosa no final, como é de costume das profecias, o texto se rende a apontar uma dura disciplina de Deus ao Israel novamente rebelde diante da graça e do comando divino. Apesar de a alegoria tornar difícil a identificação da ocasião de cumprimento de tais palavras, a menção de “trinta moedas de prata” como preço pelo Senhor (vv.12,13) oferece uma baliza que ancora a profecia ao redor da traição e morte do Messias — evento que não é possível — e nem deve — ser associado a outro evento histórico.

A profecia começa com frases dirigidas a seres e locais personalizados dentro de uma pequena alegoria (v.1,2): “Abre as tuas portas, ó Líbano, de modo que o fogo devore os teus cedros. Geme, ó cipreste, porque o cedro caiu e as grandes árvores foram devastadas. Gemei, ó carvalhos de Basã, porque a floresta cerrada veio abaixo”. Nesse trecho, o profeta faz uso de uma linguagem alegórica, já que elementos da flora e locais geográficos ganham ações e sentimentos e se lamentam pela perda que sofreram. É inútil tentar identificar cada elemento da figura. Qualquer modelo de interpretação para os cedros, o cipreste, as grandes árvores, os carvalhos e a floresta cerrada cai diante das incongruências causadas pelas menções do Líbano e de Basã ou de resultados que serão fatalmente artificiais e forçados.[1] E mesmo aqueles estudiosos que chegam a identificações mais bem elaboradas não conseguem, ao final, oferecer nada além de uma boa “possibilidade”. Desse modo, é melhor enxergar o quadro todo como um conjunto no qual uma imensa floresta, cheia das mais belas e fortes árvores, vem abaixo por uma destruição que não é possível conter, assim como um exército de lenhadores ou um forte incêndio na mata. O objetivo do texto parece ser o de prever uma grande destruição da parte de Deus, como forma de juízo, que começa no Norte e desce em direção a Israel.

O resultado é grande dor por parte daqueles que foram atingidos pela ira divina (v.3): “Ouve-se o gemido dos pastores porque a sua glória está arruinada. Ouve-se o rugido dos leõezinhos, pois o orgulho do Jordão está destruído”. Joyce Baldwin aponta corretamente a relação entre o v.3 e o texto de Jeremias 25.34-38,[2] no qual o juízo de Deus abate os pastores por meio da destruição de seus pastos e rebanhos e no qual os leõezinhos choram, pois ficaram órfãos e sem casa. A expressão “orgulho do Jordão” pode se referir a alguma cidade significativa e influente, talvez no limite norte de Israel com a Síria, ou mesmo à vegetação densa e rica da região. Entretanto, a falta de informações sobre o Jordão nas Escrituras torna difícil saber onde era considerado o início ou a nascente do rio naquela época. De qualquer modo, a menção parece apontar que esse juízo que nasce no Norte, chega a Israel, atingindo-o em cheio.

Esse início sombrio tem uma intenção bastante clara: apontar as razões do julgamento em questão (vv.4-14). O início dessa seção contém uma fala de Deus ao profeta (v.4): “Assim diz o Senhor, meu Deus: ‘Apascenta o rebanho reservado para a matança’”. A ordem de apascentar é dada a uma pessoa apenas, já que o verbo imperativo se encontra no singular. Desse modo, a palavra divina parece ser dirigida ao próprio profeta, razão pela qual ele também se refere ao Senhor como “meu Deus”. Assim, a missão do profeta é se pronunciar diante do povo chamado literalmente de “rebanho da matança”, o povo de Judá que, apesar das duras lições, voltaria a se rebelar contra o Senhor e seria abatido na ocasião do cumprimento dessas palavras. Por isso mesmo, apesar de o verbo “apascentar” normalmente ter uma conotação positiva, nesse caso a intenção é preparar o rebanho para o abate que, ao que o texto indica, era inevitável. A própria exortação oriunda da profecia seria um meio de o profeta exercer tal função.

Prosseguindo com a figura do rebanho, o Senhor anuncia a participação de três partes: provavelmente uma nação invasora, aliados do invasor e os líderes de Israel (v.5): “Aqueles que as comprarem farão a matança impunemente. Aqueles que as venderem dirão: ‘Bendito seja o Senhor, pois eu fiquei rico’. Seus pastores não terão pena delas”. O primeiro grupo — os “compradores” — dão sequência a atos que fogem um pouco da imagem de um negociante de ovelhas, já que, ao matá-las, eles se tornam repreensíveis, sem, contudo, receber o devido castigo. A intenção não é oferecer uma figuração perfeita, mas produzir a ideia de que o “rebanho da matança”, Israel, seria tratado com crueldade e injustiça por dominadores que obteriam êxito em seu propósito porque, por trás deles, a mão punitiva de Deus pesaria sobre o povo obstinado. É muito difícil identificar o segundo grupo — os “vendedores” —, o qual não precisa necessariamente fazer parte do povo judeu, mas sim colaborar com a empreitada dos dominadores. Esse auxílio fica evidente pelos benefícios que recebe em termos financeiros. Quanto ao terceiro grupo — os “pastores” do rebanho —, trata-se da liderança judaica que, longe de ser fiel a Deus e ativa na promoção do bem nacional, preocupa-se apenas consigo mesmo enquanto despreza o povo e nada faz para impedir seu perecimento.

Seria fácil responsabilizar apenas esses três grupos pelo sofrimento de Israel se, no versículo seguinte, o próprio Senhor não se apontasse como causa última do abatimento da nação por causa dos pecados irredutíveis do povo (v.6): “Pois eu não mais me compadecerei dos moradores da terra — declara o Senhor —, mas eis que entregarei cada homem nas mãos do seu companheiro e nas mãos do seu rei. Eles arrasarão o país e eu não os livrarei das suas mãos”. A partícula “pois” atrela todos os eventos do versículo anterior ao fato de Deus entregar a nação nas mãos dos seus inimigos. “Moradores da terra” é uma menção aos habitantes da terra de Israel e não de toda a Terra — por isso, “terra” vem grafada aqui com letra minúscula. A grande dúvida vem de o povo ser entregue nas mãos do “seu rei”, como se houvesse aqui uma traição nacional do líder máximo. Isso não é possível, pois, além de essa imagem não condizer com a história desse período, a liderança de Israel é criticada nesse capítulo por sua negligência e não por uma atividade atroz. Por isso, é possível que Israel estivesse sob o domínio de um rei estrangeiro, assim como ocorreu nos dias dos reis selêucidas, dos quais Antíoco Epifânio foi o mais cruel e ativo contra o povo judeu (167-164 a.C.), além dos romanos que, com Pompeu, invadiram e subjugaram Israel (63 a.C.), e com Tito, praticamente acabaram com o país (70 A.D.).

Dado esse golpe no povo de coração endurecido, o Senhor oferece a possibilidade de um novo tratamento regado por sua misericórdia (v.7): “Então, eu apascentarei o rebanho reservado para a matança, as mais humildes do rebanho. Tomarei para mim duas varas: a uma chamarei Deleite e à outra chamarei União, e apascentarei o rebanho”. No v.4, o pronome pessoal apontava o profeta Zacarias como quem devia pastorear o rebanho da matança, mas nesse caso, usando-se a primeira pessoa do singular, o próprio Deus surge como o pastor e autor das ações seguintes.[3] Quanto ao povo, ele ainda é descrito como “rebanho da matança”, mas um novo elemento entra em cena com a citação das “mais humildes do rebanho”. Essa expressão é repetida no v.11 junto da explicação de que elas permaneceram no Senhor, apontando provavelmente para o remanescente fiel dentro de Israel. Diante disso, o pastoreio divino faz entrar em cena algo descrito por duas qualidades: “Deleite”, uma possível menção ao novo trato proposto na vinda do Messias — já que a sequência associa esse texto ao seu ministério —, ou a um cenário positivo sob uma boa liderança; e “união”, o resultado da unidade nacional caso o povo aceitasse a direção divina.

Entretanto, esse vislumbre de uma harmonia política, militar e religiosa perde espaço diante da negação do povo de se submeter a Deus (v.8): “Eu eliminarei três pastores em um mês, pois encurtarei minha paciência com eles, os quais também ficarão enfadados comigo”. Muitos comentaristas já fizeram suas propostas em relação à identidade dos “três pastores”, desde reis pré-exílicos até reis da linhagem dos asmoneus. Se formos mais longe, podemos até propor as três facções rivais durante o cerco romano a Jerusalém (69-70 a.C.), já que o último versículo abre margem para as consequências da rejeição do Messias, o que, associada à ideia de uma descrição não linear dos eventos nessa profecia, poderia nos levar aos eventos da destruição de Jerusalém no ano 70 por Tito. O desenrolar do juízo nos versículos seguintes favorece essa possibilidade. Outra possibilidade surge se entendermos “eliminarei” não como “morte”, mas como “deposição”. Nesse caso, a substituição de sumos sacerdotes pelo governo romano da Judeia, como ocorreu entre Anás e Caifás (Jo 18.13) — Anás foi deposto no ano 16 e Caifás foi empossado no ano 18, sendo que entre eles houve três breves sumo sacerdotes: Ismael, Eleazar e Simão[4] —, também poderia ser uma possibilidade.

A verdade é que é impossível determinar quem são os pastores, suas reais funções no meio de Judá e se o período de um mês é de fato um período de trinta dias ou um curto espaço de tempo,[5] dada a mistura de linguagens utilizadas no capítulo. O que é possível notar com clareza no v.8 é o fato de Deus ter encerrado seu tempo de ser paciente, trazendo juízo ao povo. Outro fator claro, apesar de surpreendente, é o fato de o próprio povo se “enfadar” do Senhor. Apesar de a rebeldia e a incredulidade fazerem parte da história do relacionamento de Israel para com Deus, o modo como isso é dito aqui faz com que esse desprezo do povo seja algo aberto e declarado, algo que não é comum de se ver no Antigo Testamento. Isso só fica mais bem explicado quando, na sequência, o Senhor é avaliado em trinta moedas de prata (v.12), o que sabemos se cumprir em Jesus, o Messias. No caso dele, o Deus encarnado, o desprezo e oposição de Israel foram bem nítidos e declarados, tornando a descrição do v.8 compatível com a sequência do texto.

Por causa do enfado mútuo entre o Senhor e a nação, o resultado é devastador (v.9): “Então eu direi: ‘Eu não vos apascentarei. Os que devem morrer morrerão, os que devem ser exterminados serão exterminados e os que restarem comerão cada um a carne dos seus companheiros’”. Assim, Deus anuncia a chegada definitiva de um juízo futuro. Não haveria mais chances e oportunidades. O último aviso foi dado e rejeitado de modo que não há mais o que esperar. O quadro é de um grande morticínio e uma grande fome, provavelmente gerada por um cerco militar. Flávio Josefo, além de contabilizar a morte de cerca de 1 milhão e 100 mil judeus na guerra contra os romanos, relata a intensa fome em Jerusalém em função do cerco de Tito. Essa fome levou uma mãe a cozinhar e comer seu próprio filho, fato que, quando trazido a lume, fez com que cada habitante de Jerusalém se sentisse como se também tivesse comido a terrível iguaria.[6]

Em vista da negação do povo de receber sobre si o “Pastor” messiânico (Jo 1.11) e da permanência no estado de rebeldia diante de Deus, o novo trato proposto é deixado de lado (v.10,11): “Tomarei minha vara, o Deleite, e a quebrarei a fim de invalidar a aliança que fiz com todo o povo. Ela será abolida naquele dia. Então, as mais humildes do rebanho, as quais permaneceram em mim, saberão que isso foi a palavra do Senhor”. Ao dizer que invalidaria a aliança com o povo, o texto hebraico diz “com todos os povos”. A dificuldade é que as alianças de Deus foram feitas com Israel e não com as nações. Por isso, há quem proponha uma correção ao texto a fim de, no singular, tratar-se de apenas a nação israelita. Porém, pode também ser que o fato de o Messias atuar por meio de Israel sobre toda a humanidade seja a razão de o mundo todo ter perdido com essa situação. Ainda assim, o penalizado primário é Israel, pelo que o Senhor o afastou de sua proteção e graça, pelo menos até a restauração futura (cf. Rm 11). Outro fator notável é que, quando essa virada ocorresse, ela não se daria devido a qualquer mudança de pensamento ou instabilidade por parte de Deus, pois tudo isso foi previamente anunciado e isso seria reconhecido pelo remanescente fiel quando acontecesse. Trata-se da soberania divina preparando e anunciando previamente sua administração da história.

O Senhor, então, faz uso de uma linguagem de certo modo irônica, pois pede para ser avaliado pelo povo quanto ao merecimento de suas ações diante deles. Essa proposta, que deveria fazer os judeus caírem ao chão em adoração, negando-se a avaliar aquele que avalia tudo e todos, recebe uma resposta mais que surpreendente (v.12): “Eu lhes direi: ‘Se for bom aos vossos olhos, dai a minha retribuição; caso contrário, abstende-vos’. Então, eles pesarão minha retribuição: trinta moedas de prata”. De fato, a nação pesou o Deus Messias e o julgou barato, de pouco valor. Esse é o caso de uma profecia tipicamente messiânica, pois sua especificidade não permite que ela seja associada a mais nenhum evento que não seja o pagamento de trinta moedas de prata pela traição de Judas a fim de que Jesus fosse preso, julgado e morto (Mt 26.15). Isso marca não apenas a rebeldia de Israel, mas também a rejeição do Pastor, razão pela qual o rebanho sofreria, e a enorme ingratidão[7] pelo “deleite” do Senhor no seu povo e a “união” que ele produzira na nação que nada merecia de bom da parte do soberano. Desse modo, o Senhor rejeita o preço e os pagadores (v.13): “O Senhor a mim: ‘Atirai-as ao oleiro o majestoso preço em que fui avaliado por eles. Tomarei as trinta moedas de prata e as lançarei ao oleiro, na casa do Senhor’”. Além de a figura prenunciar as ações de Judas, o qual, cheio de remorso, atirou ao templo o dinheiro da traição, que posteriormente foi usado para comprar o campo do oleiro (Mt 27.3-10), demonstra também a imensa reprovação divina por meio da ironia de chamar aquele valor irrisório da avaliação do Senhor como um “majestoso preço”.

Essa reprovação parece selar o destino do povo israelita por um bom tempo, pois Deus deixa de protegê-los até o ponto de a nação ser novamente partida no meio diante da invasão inimiga (v.14): “Então, quebrarei minha segunda vara, a União, a fim de frustrar a irmandade entre Judá e Israel”. Diferente de outros textos proféticos, esse não termina com um tom de esperança na restauração futura, mas com a denúncia da tolice da nação ao procurar para si pastores insensatos (vv.15-17). Assim como dito no comentário do v.8, a luta de três facções rivais dentro de Jerusalém sob o cerco romano, que produziu grande sofrimento às pessoas comuns que ficaram presas no cerco, foi um dos fatores que os conduziram à destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 e a uma nova dispersão dos israelitas pelo mundo.[8]

A interpretação desse texto é dificílima e as possibilidades aventadas nesse comentário não são melhores ou mais prováveis que outras. Entretanto, a ideia geral da profecia e sua aplicação pastoral são bastante tangíveis. Em primeiro lugar, vê-se que Deus é gracioso além do que os homens possam imaginar, oferecendo sua mão amiga e restauradora quando se pensa que ele ofereceria apenas a vara do juízo. Em segundo, deve-se notar que, apesar da sua longanimidade e insistência em dar novas chances aos homens, há momentos em que ele resolve colocar tudo em pratos limpos e disciplinar a rebeldia. Assim como no v.9, ele diz: “Agora, o que precisa ser tratado será tratado e o que precisa ser punido será punido”. Nesse momento, só podemos lembrar as palavras do autor de Hebreus: “Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!” (Hb 10.31). Essa lição deve realmente levar os incrédulos a cair de joelhos diante de Cristo e, com fé, implorar seu perdão e salvação, além de dobrar os servos de Deus diante dele em obediência, reverência, temor e adoração. Afinal, não há como colocar um valor, nem mesmo em moedas de prata ou ouro, para todo o bem que o Senhor, por sua graça, oferece àqueles que o buscam.

Pr. Thomas Tronco


[1] Driver, S. R. An Introduction to the Literature of the Old Testament. Edimburgo: T. & T. Clark, 1892, p. 327.

[2] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 148.

[3] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006, [Zc 11.7, nota 3].

[4] Edersheim, A. The Life and Times of Jesus the Messiah. Nova York: Longsman, Green and Co., 1896, Vol. 2, p. 702.

[5] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 291.

[6] Josefo, Flávio. História dos Hebreus. 8ª edição. Rio de Janeiro: CPAD, 2004, p. 1359-1361.

[7] Spence-Jones, H. D. M. (ed.) Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 119.

[8] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1566.

 

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