Quinta, 27 de Abril de 2017
   
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Yahweh versus Marduque

YAHWEH versus MARDUQUE

A Polêmica Teológica em Isaías 40.25-26

Pr. Tiago Abdalla T. Neto

INTRODUÇÃO

Diante da derrota de Judá pelos babilônios, com uma boa parte do povo exilado em terra estrangeira e a destruição final de Jerusalém pelas mãos de Nabucodonosor, um questionamento natural, certamente, brotaria no coração dos judeus: “Será que Yahweh é, de fato, o Rei e Deus Soberano da história? Será que Ele teria poder para vencer impérios e trazer seu povo de volta à terra natal?”.[1] No pensamento do Oriente Médio Antigo, a vitória de uma nação sobre outra não apenas implicava em supremacia militar, mas também, indicava a superioridade do deus vitorioso sobre a divindade do povo vencido, como os babilônios fizeram questão de enfatizar, quando alcançaram sua independência em relação aos assírios e os derrotaram, no final do século VII a.C:

O estado dos acontecimentos mudou quando Nabopolassar, no final do século VII, uma vez mais, reivindicou o controle independente sobre a Babilônia. Marduque triunfou sobre Ashur. Ele, novamente, é o grande deus, o senhor dos deuses, o supremo rei de Igigi, pai de Annunaki – todos os títulos que os assírios gostavam de amontoar sobre Ashur. Pode-se perceber a ansiedade de Nabopolassar em enfatizar a nova ordem das coisas, ao atribuir a Marduque o que, anteriormente, fora reivindicado para Ashur.[2]

A riqueza do império babilônico, seus belos templos e festivais pomposos, além do conforto que desfrutava a comunidade judaica de exilados, indubitavelmente, formavam um quadro tentador para a apostasia hebraica.[3]

Perante tal situação, a mensagem visionária de Isaías (Is 40 - 55) oferecia uma resposta teológica profunda e pertinente ao povo cativo, mostrando Yahweh como o Soberano da história, o Deus supremo e singular.[4] O texto de Isaías 40.25-26 é um exemplo disto, em que o profeta do século VIII faz uso da polêmica como recurso literário para enfatizar a supremacia de Yahweh sobre os deuses babilônios. Para se entender a polêmica teológico-literária em questão, faz-se necessária uma compreensão adequada do contexto religioso da época.

A PERSPECTIVA RELIGIOSA BABILÔNICA

A religião babilônica era politeísta, formada por um panteão com vários deuses de origem suméria, assimilados pelos semitas que ali vieram habitar, especialmente a partir da época do reinado de Hamurabi (século XVIII a.C.).[5] Os deuses estavam ligados a objetos ou fenômenos da natureza, como os rios, a tempestade, a fertilidade da terra, entre outros, dos quais recebiam proeminência o sol e a lua; assim, o sistema de crenças era, basicamente, animista.[6] Cada cidade-estado possuía um deus patrono principal e, às vezes, uma divindade primária num determinado centro urbano, poderia ser considerada secundária em outra cidade:[7]

Embora Ea, por instância, recebia o primeiro lugar em Eridu e era marcantemente sumério em caráter, o deus-lua Nannar permaneceu supremo em Ur, enquanto o deus-sol, cujo nome semítico era Shamash, presidiu em Larsa e Sippar.[8]

Entre os deuses babilônicos principais figuravam a tríade Anu – o deus-céus; Enlil/Ellil – o deus do ar e tempestades, e mais adiante, o deus da terra; Ea – o deus das águas profundas e da sabedoria; além deles, Sin – o deus-lua; Shamash – o deus-sol; Anshar – o pai dos céus; Ishtar – a deusa do amor e guerra, associada a Vênus; Marduque – o deus da cidade de Babilônia e que, posteriormente, absorveu a qualidade dos antigos deuses e os substituiu, era considerado o filho de Ea;  Nebo – anteriormente, o deus da agricultura e, depois, tornou-se o deus da escrita, filho de Marduque; Nergal – o deus do mundo inferior; Tamuz – o deus da vegetação e fertilidade.[9]

A grande corrente de idéias religiosas sofreu mudanças de tempos em tempos e os próprios deuses mudaram de locais, identidade e funções, conforme os movimentos políticos e outros.[10] Com a elevação dos amorreus, a adoração a Marduque se tornou a principal na Babilônia[11] e o poema épico de Enuma Elish é desenvolvido, a fim de validar a posição de Marduque como o superior de todos os deuses, por sua vitória sobre a deusa Tiamat e por ser tanto o criador como o restaurador da ordem do universo.[12]

A adoração primitiva animista ao sol, à lua e às estrelas conduziu a um sistema religioso astral mais complexo, o qual ligava os planetas e outras estrelas específicas a deidades particulares.[13] “Tal processo que alcançou seu ápice no período pós-hamurábico, levou a identificar o planeta Vênus com Ishtar, Júpiter com Marduque, Marte com Nergal, Mercúrio com Nebo”.[14]

O sistema representa uma harmoniosa combinação de dois fatores, um de origem popular e o outro resultado da especulação das escolas ligadas aos templos da Babilônia. O fator popular é a crença na influência exercida pelos movimentos dos corpos celestiais sobre os acontecimentos na terra – uma crença, naturalmente, compreensível pela dependência da vida, vegetação e orientação dos dois grandes luminares. A partir de tal crença, os sacerdotes construíram a teoria da correspondência próxima entre as ocorrências na terra e os fenômenos nos céus. Diante da apresentação de uma mudança constante nos céus, ainda que ao observador superficial, concluiu-se que havia uma conexão com às mudanças e os movimentos sempre mutáveis nos destinos de indivíduos, na natureza e na aparência desta.[15]

Divindades originalmente solares como Ninibe associado ao sol da manhã, Marduque conectado ao sol do início da primavera e Nergal ao sol do meio-dia e do solstício de verão, passaram a ser identificadas pela posição dos planetas em referência ao sol em certos períodos do dia e do ano. Assim, associara-se Ninibe com Saturno, Nergal com Marte e Marduque com Júpiter.[16] Este último, por parecer ser o maior de todos os planetas aos olhos dos astrônomos babilônicos, acabou por receber a posição de chefe do panteão estrelar, antes conferida a Shamash, o deus-sol.[17]

Da mesma forma que o sol era chamado de Pastor[18] e considerado o supervisor dos planetas, o qual atravessava os céus para verificar se tudo estava em perfeita ordem,[19] assim, também, Marduque é intitulado e estimado.[20] Na verdade, acreditava-se que, quando o sol morria no final de tarde, ressuscitava nos céus como Júpiter para pastorear o seu rebanho de estrelas.[21] No épico de Enuma Elish, Marduque é apresentado como o criador das estrelas e dos signos do zodíaco, por meio dos quais dividiu o ano em doze meses; além disso, ele fixou a lua nos altos céus e determinou seu ciclo mensal em relação ao sol.[22]

Tendo esta compreensão acerca da ênfase animista e astral da religiosidade babilônica, além do importante papel que Marduque ocupava dentro da cosmologia mitológica, abre-se o caminho para a interpretação da polêmica em Isaías 40.25-26.

A POLÊMICA DEUTERO-ISAIÂNICA EM PROL DA SINGULARIDADE E SUPREMACIA DE YHWH

Como bem destacou Thomas Constable, após mostrar a superioridade de Yahweh sobre os governantes terrenos, contrastando a transcendência de Deus com a temporariedade deles (Is 40.21-24), agora, o profeta retrata a supremacia de Yahweh sobre as “divindades”, por ser o Criador dos corpos celestiais (40.25-26).[23]

Os verbos hebraicos usados pelo próprio Deus, em seu questionamento (v. 25), polemizam contra os deuses babilônios, pois enquanto estes eram representados por imagens em seus templos[24] e associados com os fenômenos da natureza ou com os corpos celestiais, como sol, lua, estrelas e planetas,[25] o Deus de Israel não poderia ser representado ou imaginado (D*m> - Piel) nem comparado a nada (v*w>).

Marduque, o grande deus de Babilônia, encontrava sua identidade no planeta Júpiter,[26] e era representado pela figura mitológica de um ser com longos membros e quatro cabeças,[27] mas, Yahweh, por ser o Santo, não pode ser igualado a nenhum ser criado,  “Ele é totalmente outro”.[28]

A perspectiva dos deuses babilônios era marcantemente antropomórfica, pois havia a crença de que eles comiam e bebiam as ofertas de seus adoradores e, geralmente, era aceito que mantinham relações sexuais com as sacerdotisas dos templos.[29] Tal visão é, ainda, realçada pelos barcos encontrados nos templos, dentro dos quais os deuses eram carregados durante as procissões.[30] Em contraste claro, Yahweh é totalmente distinto e superior a estes deuses, pois é o Santo (v. 25), o transcendente, aquele que está acima de sua criação (cf. 40.22).[31]

O verso 26 ressalta a polêmica contra Marduque e contra a pretensa reivindicação de sua superioridade por parte de seus adoradores.  Como já destacado, no mito de Enuma Elish, Marduque é o criador das estrelas e aquele que fixa os signos do Zodíaco.[32] Deve ser acrescentado, também, que o grande deus babilônio cria os céus a partir de matéria pré-existente, isto é, o corpo da deusa derrotada Tiamat.[33]

Dentro de tal contexto cúltico, Isaías desafia as afirmações religiosas dos caldeus e diz que Yahweh é o criador (B*r*a) dos corpos celestiais (x*b*a), não Marduque. Além disso, o verbo hebraico B*r*a (“criar”; “fazer”), no grau Qal, enfatiza o ato de iniciar algo novo, trazer à existência um objeto ou ser que até então não havia, em contraste com o ato de formar algo a partir de material pré-existente.[34] Portanto, o poder do Deus de Jacó, que criou os céus e os astros a partir do nada por Sua palavra criadora (cf. Gn 1), é claramente maior que o de Marduque que precisou usar o corpo de Tiamat para criar os céus, dentro da cosmologia mitológica.

 Yahweh, ainda, mantém, soberanamente e com poder, a ordem do universo, de modo que nenhuma das inumeráveis estrelas deixa de se submeter ao seu comando (m@r)b aon'm w+a~M'x K)~j a'v Oa n#uD`r). Todos os corpos celestiais (representantes das divindades babilônicas ), inclusive o próprio planeta Júpiter (representante de Marduque), estavam debaixo da autoridade e controle do Deus de Israel.[35] Enquanto os babilônios adoravam aos corpos celestiais e criam que os destinos dos homens eram determinados por seus movimentos fixos,[36] Israel adorava ao Deus que determinava o movimento dos astros (v. 26) e nEle poderiam confiar o seu futuro (40.27-31).

Na polêmica contra os deuses babilônicos, Isaías faz seu dever de casa, inspirado por Deus e de modo objetivo, demonstrando a grande tolice de abandonar o Santo de Israel pelos deuses babilônios:

Teologicamente, os babilônios criam em seres de grande poder nos céus ... Mas o que são estes planetas? Eles são subalternos dirigidos por Yahweh e nenhum deles ousa chegar atrasado na parada militar (v. 26b). Imagine quão divertido o pensamento de que Yahweh poderia ser o mesmo tipo de ser. Comparados com Yahweh os deuses babilônios são insignificantes.[37]

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BRIGHT, John. História de Israel. 7 ed. São Paulo: Paulus, 2003.

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LEICK, Gwendolyn. A dictionary of Ancient Near Eastern Mythology. New York, NY: Routledge, 2003.

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WIKPEDIA. Religions of the Ancient Near East. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Religions_of_the_Ancient_Near_East. Acessado em 19 de Outubro de 2009.



NOTAS

[1] BRIGHT, John. História de Israel. 7 ed. São Paulo: Paulus, 2003. p. 425; CALVIN, John. Commentary on the prophet Isaiah. Albany, OR: AGES, 1998. v. 2. p. 71.

[2] JASTROW, Morris. The religion of Babylonia and Assyria. Boston, USA: Ginn and Company, 1893. p. 116.

[3] BRIGHT, John. Op cit. p. 417; RAWLINSON, George. The seven great monarchies of the ancient eastern world. [s.l.]: [s.d]. v. 4. p. 87-88.

[4] Cf. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. 2 ed. São Paulo: ASTE, 2006. p. 663-665.

[5] WISEMAN, D.J. “Babilônia, terra de”. In: DOUGLAS, J.D (ed.). O novo dicionário da Bíblia. São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966. v. 1. p. 186-187; RUSSELL, Rusty. Babylonia. Bible History Online, 2001. (Programa eletrônico disponível em http://www.bible-history.com). Verbetes “Babylonian Gods”, “The Babylonian Pantheon of gods”.

[6] ROGERS, Robert W. “Babylonia and Assyria, religion of”. In: ORR, James. The international Standard Bible encyclopedia. Grand Rapids, Michigan: Eerdans, 1939. (Versão eletrônica).

[7] MACKENZIE, Donald A. Myths of Babylonia and Assyria. September, 2005. Disponível em http://manybooks.net. Acessado no Primeiro Semestre de 2009. p. 26.

[8] Idem. Ibid.

[9] RUSSELL, Rusty. Op cit. Verbete “The Babylonian Pantheon of gods”; ROGERS, Robert W. Op cit. (Versão eletrônica); WISEMAN, D.J. Op cit. 186-187; RAWLINSON, George. Op cit. p. 87.

[10] ROGERS, Robert W. Op cit. (Versão eletrônica).

[11] WISEMAN, D.J. Op cit. 187.

[12] LEICK, Gwendolyn. A dictionary of Ancient Near Eastern Mythology. New York, NY: Routledge, 2003. p. 52-55.

[13] JASTROW, Morris. Op cit. p. 229-230.

[14]WIKPEDIA. Religions of the Ancient Near East. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Religions_of_the_Ancient_Near_East. Acessado em 19 de Outubro de 2009.

[15] Idem. Ibid. Cf. RUSSELL, Rusty. Op cit. Verbete “Astrology”.

[16] JASTROW, Morris. Op cit. p. 231.

[17] Idem. p. 230.

[18] Um título, geralmente, associado aos reis do Oriente Antigo, provindo da vida marcantemente agro-pastoril que os povos daquela época tinham. Ver JASTROW, Morris. Op cit. p. 231.

[19] Idem. p. 231.

[20] MACKENZIE, Donald A. Op cit. p. 126-128.

[21] Idem. p. 128.

[22] LEICK, Gwendolyn. Op cit. p. 54.

[23] CONSTABLE, Robert L. Notes on Isaiah. Disponível em www.soniclight.com. Acessado em Junho de 2008. p. 158.

[24] RAWLINSON, George. Op cit. p. 88.

[25] WIKPEDIA. Religions of the Ancient Near East.; JASTROW, Morris. Op cit. p. 230-231.

[26] WIKPEDIA. Religions of the Ancient Near East.

[27] LEICK, Gwendolyn. Op cit. p. 53.

[28] CONSTABLE, Robert L. Op cit. p.158.

[29] RAWLINSON, George. Op cit. p. 88; JASTROW, Morris. Op cit. p. 332-333.

[30] JASTROW, Morris. Op cit. p. 330-331.

[31] RIDDERBOS, J. Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. 2 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 325.

[32] MACKENZIE, Donald A. Op cit. p. 130; LEICK, Gwendolyn. Op cit. p. 54.

[33] LEICK, Gwendolyn. Op cit. p. 54.

[34] MCCOMISKEY, Thomas E. “B*r*a”. In: HARRIS, Laird R., ARCHER, Gleason L, Jr., WALTKE, Bruce K (orgs.). Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. p. 212-213.

[35] GOLDINGAY, John. Isaiah. New International Biblical Commentary Series. Peabody, MA: Hendrickson, 2001. p. 227-228; CALVIN, John. Op cit. p. 72-73.

[36] RUSSELL, Rusty. Op cit. Verbete “Astrology”.

[37] GOLDINGAY, John. Op cit. p. 227-228.

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