Segunda, 21 de Agosto de 2017
   
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Zacarias 12.10-14 - A Conversão como Fonte de Restauração

O anúncio do socorro futuro de Deus ao povo de Israel diante de uma guerra da qual não parece ser possível fugir ou sobreviver (vv.1-9) não é todo o assunto de que trata o capítulo 12. A sequência do texto revela que Deus não quer salvar apenas a política, a economia e a existência em si de Israel, mas também seu espírito. As promessas de restauração de Israel contidas no Antigo Testamento contemplam uma restauração de caráter temporal, mas também um conserto espiritual que passa pelo íntimo do coração e da mente dos israelitas.

Essa é a razão pela qual a euforia produzida pelos versículos anteriores sofre uma mudança brusca nesse novo parágrafo, deixando de lado os gritos da batalha para dar espaço ao pranto que é produzido em decorrência do reconhecimento da obra amorosa do Senhor. Assim, o próprio Deus anuncia o que fará (v.10a): “Eu derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém o espírito da graça e de súplicas por perdão”. O verbo na primeira pessoa do singular limita o realizador da ação, ao passo que a obra descrita elimina o profeta como agente da ação, identificando o próprio Senhor como aquele que derrama — ou seja, aquele que concede — “o espírito da graça”. Apesar de poder dar a impressão de se tratar de uma entidade espiritual, tal como um anjo, a palavra “espírito” aqui serve a uma figura de linguagem que descreve a disposição de Deus em relação a Israel e, depois, a disposição dos israelitas em função da atuação divina. É claro que não se pode ignorar o Espírito Santo como materializador de tal ação, mas o texto aponta para atitudes em si e não para um ser.

Desse modo, a primeira disposição descrita é a “graça”. Apesar de ser dito que tal espírito é derramado “sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém”, os tais são agentes passivos dessa ação, ou seja, seus beneficiários. O anúncio expõe, de fato, que o Senhor usará de graça para com os israelitas de um modo especial quando, ao mesmo tempo, os libertar dos inimigos e vencer seus adversários. A libertação militar certamente já é uma grande demonstração da graça divina, mas o autor tenciona agora falar sobre a ação graciosa que produzirá a segunda disposição, a qual é vista na forma de “súplicas por perdão”. A figura completa mostra, então, que, por ação graciosa de Deus, os israelitas não vencerão apenas seus inimigos externos, mas também seu orgulho interior e seu coração endurecido, vivenciando a ocasião do seu arrependimento final por causa da sua rebeldia passada.[1] O resultado será o reconhecimento do próprio pecado e da necessidade pessoal que têm da graça e da salvação do Senhor.

É claro que, com o uso de um pouco de bom senso, o homem pode perceber suas limitações e carências. Mas a carência em questão é bastante específica, de modo que a consciência da necessidade de suplicar o perdão divino vem com a reflexão a respeito de uma pessoa (v.10b): “Eles olharão para aquele a quem eles traspassaram”. Ainda que o texto não identifique tal pessoa e os acontecimentos do Novo Testamento ainda estejam longe de acontecer, os judeus que ouviram essa mensagem pela primeira vez, pela boca de Zacarias, não ficaram completamente no escuro, sem saber de quem o texto fala. Apesar de ser possível que esse traspassamento seja um antropomorfismo com a intenção de apontar para a rejeição de Deus pelo povo,[2] dois séculos antes o profeta Isaías, anunciando o ministério futuro do servo sofredor — o Messias —, previu eventos em que ele “foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5). Se os judeus dos dias de Zacarias ainda não conseguiam visualizar os detalhes da obra redentora de Cristo, eles tinham plena capacidade de entender que Deus enviaria seu santo servo com a finalidade de sofrer em benefício do seu povo a fim de perdoar seus pecados. Apesar da clareza com que esse texto une a pregação dos dois profetas, o Novo Testamento faz questão de citar o texto de Zacarias como uma profecia cumprida na morte de Jesus Cristo (Jo 19.37).

Muitas pessoas olham para a morte de Jesus com reações diferentes. Há aqueles que não acreditam nela — nem nele —, há os que considerem tal morte como ordinária e até merecida e há aqueles que olham para ela como um bom e poético exemplo de vida. Mas os israelitas do futuro, que serão alvo de tal graça do Senhor, reagirão com prantos (v.10c): “Chorarão por ele como quem chora a perda do filho único e ficarão de luto por ele como quem fica de luto por causa do primogênito”. Esse texto se esforça por ser dramático no sentido de expor o sentimento de tristeza de uma perda pessoal irreparável. Por isso, o autor apela para a comparação com a morte e com os procedimentos fúnebres de um “filho único”, “primogênito” de uma família — uma dor inominável.

Ainda que a razão para tal tristeza não seja descrita expressamente, nem é preciso descrevê-la com todas as letras. A compreensão das razões que levaram o Messias à morte na cruz e os benefícios que tal obra adquiriu para os filhos de Deus trarão, um sentimento de alegria pela salvação, mas não antes de dar lugar à dolorida tristeza de saber que o Filho de Deus deu a vida por nós, pecadores, sofrendo a dura condenação da nossa culpa em nosso lugar. No caso de Israel, essa dor é ainda maior, já que essa nação é beneficiária de uma graça sem igual ao ter o salvador prometido em sua própria linhagem, além de um tratamento especial que começou milênios atrás, o qual foi respondido quase sempre com negação, orgulho, rebeldia e rejeição. O fato é que o Deus-homem “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11).

Desse modo, a tristeza pelo próprio pecado, típica do arrependimento, unida à renovada noção da indizível e descabida rejeição daquele que nos criou e deu a vida em amor por nós, fará com que, em vez de brados de vitória da batalha futura, um grande pranto se levante entre os israelitas por se sentirem pessoalmente responsáveis pelo sofrimento do seu salvador (v.11): “Naquele dia, o choro em Jerusalém será grande como o choro de Hadade-Rimom, na planície do Megido”. A comparação produz mais dúvidas que respostas aos leitores, pois não se sabe se “Hadade-Rimom” é uma pessoa ou um lugar. Estudiosos do passado e do presente apresentam um número muito grande de possibilidades para se identificar “Hadade-Rimom”, mas todas esbarram em incongruências e na falta de comprovação. Entretanto, a menção a um lamento na região do “Megido” nos leva quase automaticamente à ocasião da morte do rei Josias, o último dos bons reis de Judá, em uma guerra contra os exércitos egípcios (cf. 2Rs 23.29). Além da tristeza pela perda desse bom rei, há quem afirme que os israelitas choravam sua morte também por causa da possibilidade de o exílio babilônico e todo o seu sofrimento terem sido evitados caso esse rei temente a Deus tivesse vivido mais a fim de levar adiante a reforma espiritual que iniciou muitos anos antes.[3]

De qualquer modo, ainda que se tenha perdido o significado exato da comparação oferecida pelo texto, está claro que, motivados pelo sentimento de tristeza e de arrependimento, os israelitas suplicarão pelo perdão do seu Senhor por serem responsáveis pelo sofrimento e morte do Messias e pela obrigatória necessidade de tal perdão para se restabelecer o relacionamento que foi perdido em função da sua rebeldia. A consequência final de tal conversão é a renovação da aliança com o Senhor,[4] baseada não na lei quebrada, mas na graça de Deus. Nesse sentido, o profeta prevê um arrependimento, regado a muitos prantos, em larga escala (v.12a): “A terra ficará de luto, todos os clãs”. De início, há uma menção geral que engloba todo o povo de Israel, mais do que em procedimentos funerários, em um sentimento fúnebre que surge apenas diante de uma perda irreparável.

Como nem sempre uma menção geral produz a ideia correta, especialmente se a intenção for relatar um comprometimento pessoal de cada integrante do povo, o escritor continua e oferece alguns tipos que representam bem certas classes da sociedade (v.12b,13): A casa de Davi e suas mulheres, a casa de Natã e suas mulheres, a casa de Levi e suas mulheres, a casa dos simeítas e suas mulheres”. Ao citar a “casa de Davi”, o autor parece ter o desejo de descrever a liderança política de Israel. Os profetas e os sacerdotes são incluídos nesse grupo diante da citação da “casa de Natã” e da “casa de Levi”. A menção à “casa dos simeítas”, descendentes de Levi (cf. Nm 3.21), é menos clara que as outras, mas cumpre sua função de mostrar que cada categoria diferente dentro de Israel a serviço de Deus se envolverá pessoalmente nesse lamento nacional pelo Messias que foi morto.

Algo notável é a repetição da expressão “e suas mulheres” após cada grupo mencionado. Por um lado, isso mostra que ninguém se excluirá do choro, nem o fará de modo mecânico ou apenas representativo. Não haverá quem console o outro, pois todos pessoalmente estarão lamentando. Por outro lado, essa construção do parágrafo aponta para o caráter solene do lamento que ocorrerá entre os judeus.[5] Para que não fique a ideia de que apenas as classes dominantes e influentes participarão de tal pranto, o texto completa o quadro adicionando cada israelita vivo (v.14): “Ficarão de luto todas as demais famílias e suas mulheres”. Do mais simples israelita até os mais nobres da família real, todos se converterão arrependidos ao Senhor.[6]

A lição que esse trecho contém é que até o Israel rebelde pode usufruir a glória da vitória e da libertação concedida por Deus quando se converte do seu mau caminho ao Senhor que eles antes rejeitaram.[7] O mesmo vale para as pessoas de hoje. Mensagens como essa sempre trazem consigo implicitamente um convite ao arrependimento e à esperança de que Deus recebe para si todo aquele que se arrepende do seu pecado e clama a ele por perdão, crendo no seu Filho, Jesus, como seu salvador. Aproveite o dia de hoje para buscá-lo! Caso contrário, você apenas acrescenta mais tristezas ao seu lamento.

Pr. Thomas Tronco


[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 793.

[2] Zuck, Roy. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 461.

[3] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 162.

[4] Hill, Andrew e.; Walton J. H. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2001, p. 602.

[5] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 325.

[6] Merrill, Eugene. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009, p. 537.

[7] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.), vol. 10. Peabody, MA: Hendrickson, 2002, p. 609.

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