Quinta, 29 de Junho de 2017
   
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Zacarias 13.1-9 - A Purificação do Povo de Deus

O capítulo anterior termina com a descrição ímpar de um lamento nacional entre os israelitas, atingindo cada faixa etária, gênero e classe social. A razão desse pranto geral e genuíno foi a consciência da rejeição do Messias, resultando em uma conversão nacional do povo que, no passado, foi qualificado como tendo uma “dura cerviz” (Êx 33.3,5,9). Contudo, quando o arrependimento e a fé do pecador se encontram com a graça e o amor do Senhor, o resultado é maravilhoso e, nesse caso, é anunciado no capítulo 13 de Zacarias, a saber, uma grande restauração e purificação do remanescente fiel.[1] 

Assim, o escritor prevê que a fé de Israel terá como contraparte a ação purificadora de Deus (v.1): “Naquele dia, haverá uma fonte de água aberta para a casa de Davi e para os moradores de Jerusalém a fim de lavar pecados e impurezas”. A Bíblia fala sobre rios que correrão na terra seca quando Jesus reinar sobre seu povo (Is 35.6; 41.18). O próprio Zacarias fala de águas que correrão de Jerusalém para Leste e para Oeste depois do retorno do rei messiânico (Zc 14.8). Entretanto, o que ele parece ter em mente nesse texto vai além de uma simples corrente de água, pois seu efeito não é apenas refrescar os sedentos, ou suprir plantações e rebanhos, mas também lavar os pecados das pessoas. Assim, essa menção figurada parece ser extraída do uso de água na purificação dos levitas em sua consagração (Nm 8.7) e no preparo da água misturada com as cinzas de uma novilha vermelha usada na purificação e remoção das impurezas do povo da aliança (Nm 19.9).[2] Assim, ela se une a outras figuras que se referem ao perdão de pecados como um ato de lavagem com água (Sl 51.2,7; Is 1.16-18). De fato, nessa ocasião se cumprirá uma das profecias mais esperadas por Israel no sentido de ser restaurado diante do Senhor, na qual o próprio Deus promete: “Aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei” (Ez 36.25).

O resultado prático da purificação que o Senhor promoverá no meio de Israel é que, além do perdão, haverá o abandono da rebeldia e de todos os seus veículos (v.2a): “Naquele dia — declara o Senhor —, eu eliminarei o nome dos ídolos da terra”. De um modo surpreendente, a história de Israel no Antigo Testamento é marcada pelo abandono do seu Deus e pelo apego a todo tipo de religiosidade pagã de seus vizinhos. Atualmente, o abandono do Senhor se dá por outras formas de idolatria que tomam seu lugar no coração das pessoas, mas o problema geral permanece. A promessa divina é, mediante a conversão do povo, promover um completo abandono de toda crença, doutrina, valor e apego que se interponha entre Deus e o seu povo. O resultado será a completa rejeição de qualquer veículo de rebeldia que antes desviava as pessoas do seu redentor (v.2b): “E não haverá mais lembrança deles, nem tampouco dos profetas e dos espíritos imundos”. Nesse ponto, são inseridos dois outros fatores que agem no sentido de impedir que as pessoas creiam no salvador e lhe entreguem suas vidas: os “profetas” e os “espíritos imundos”. Apesar de o texto mencionar apenas “profetas”, o contexto geral deixa claro que o escritor tem em mente a figura do falso profeta e dos “espíritos imundos” diabólicos que agem por meio deles. Com a ação divina, esses inimigos da verdade também silenciarão seus enganos e engodos.

A verdade é que a existência de Israel também foi marcada pela ação dos falsos profetas, os quais foram influentes e obtiveram êxito em enganar o povo e desviá-los dos retos caminhos de Deus (Is 9.15,16; Jr 14.14-16; 23.13-16; 28.15-17; 29.21,32; Ez 13.16,22; Mq 3.5-7,11). Por isso, Zacarias assegura ao remanescente fiel que isso não tornará a ter lugar no meio do povo de Deus, não apenas por causa da justa liderança do Messias, mas também pela fidelidade do próprio povo remanescente (v.3): “Se alguém ainda profetizar, seu pai e sua mãe que o geraram, dirão a ele: Você não viverá, pois disse mentiras em nome do Senhor. Assim, seu pai e sua mãe que o geraram o traspassarão quando ele profetizar”. A fidelidade do povo purificado pelo perdão divino será tamanha que nem mesmo as ligações sanguíneas serão mais fortes que os laços da fé e do amor com o redentor. Desse modo, diferente de hoje, quando os pais ficam do lado de seus filhos, inclusive quando estão errados, os próprios progenitores de um aspirante a profeta do engano serão seus acusadores, pois ninguém em Israel aceitará conviver com o erro e com a mentira novamente, preferindo a verdade e a honra do seu rei. Isso não significa que os pais não terão amor por seus filhos ou que serão radicais ao ponto de desprezar a vida dos rebentos, mas sim que eles serão fiéis às ordens de Deus de tratar segundo a orientação divina aquele que diz “mentiras em nome do Senhor” (Dt 13.1-5).

Outro impacto que a purificação do povo de Deus terá sobre as pessoas é que os próprios falsos profetas se envergonharão da sua atividade enganosa (v.4a): “Naquele dia, cada profeta se envergonhará da sua visão ao profetizar”. O texto hebraico não deixa claro o tempo da atividade que é motivo da vergonha desses homens.[3] Pode ser que ainda haja quem queira agir como um falso profeta — a Bíblia prevê um aumento de falsos profetas durante esse período (Mt 24.23,24) —, sem, contudo, encontrar espaço para fazê-lo livremente no meio do Israel convertido, ou mesmo para se vangloriar disso. Ou pode ser que o texto se refira à atividade passada de homens que foram falsos profetas e que agora, mediante o arrependimento, a fé e a purificação, envergonham-se do que fizeram no passado. Apesar de essa última possibilidade ser uma opção bastante atraente, os versículos 3 e 6 favorecem a primeira opção.

Como consequência natural disso, tal atividade será suprimida (v.4b): “E não usará mais roupa de pele de animais a fim de enganar”. Todos os artifícios utilizados pelos promotores de mentiras sobre Deus e sua palavra — tanto no passado como no presente — serão abandonados e não farão mais vítimas entre os seguidores do Senhor. Em vez disso, tais homens assumirão seu lugar devido, sem desejar ser mais do que são, nem clamar para si prerrogativas que pertencem ao Messias e que só podem ser concedidas por Deus (v.5): “Mas cada um deles dirá: ‘Eu não sou profeta. Sou um trabalhador da terra, pois lido com a terra desde a minha juventude’”. A tradução desse texto é bem difícil e controversa, mas seu sentido geral é bem claro.[4] O desejo que tais homens têm de se apresentar e atuar como profetas que anunciam uma mensagem própria e independente, não atrelada à revelação divina de verdade, será suprimido por temor e por vergonha.

A razão para tal temor é reafirmada no versículo seguinte, que diz (v.6): “E quando alguém lhe perguntar: ‘Que ferimentos são esses em suas mãos?’, então ele responderá: ‘Fui ferido na casa dos que me são queridos’”. Isso significa que nem as pessoas mais próximas dos enganadores os apoiarão, nem aceitarão sua atividade contrária ao ensino bíblico. O acréscimo à figura geral feito por esse texto está no fato de os ferimentos notados no corpo dos falsos profetas da época serem infligidos pelos “que me são queridos”, uma menção que pode apontar para seus próprios pais — conforme foi predito no v.3 —, mas que também pode englobar os amigos do profeta mentiroso, completando o quadro da total rejeição de falsas profecias entre o povo santo e restaurado.

Dito isso, o texto apresenta uma mudança em sua estrutura e traz uma ordem divina a uma espada que é personificada em meio à poesia profética (v.7): “Ó espada, desperta contra o meu pastor, aquele que é meu companheiro — declara o Senhor dos exércitos. Fere o pastor e o rebanho se dispersará. Mas eu voltarei a minha mão para os pequenos”. O contexto imediato de Zacarias sugere que os pastores infiéis de Israel — seus líderes iníquos seriam punidos pelo Senhor e que, como consequência disso, os seus rebanhos — o Israel desobediente — seriam espalhados (cf. Zc 11.6,8,9,16).[5] Contudo, o Novo Testamento utiliza este texto para falar sobre a dispersão dos discípulos depois da crucificação de Jesus: “Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas” (Mt 26.31). Duas indicações no texto favorecem a interpretação messiânica do versículo 7. A primeira é o fato de o pastor ferido, diferente do que se esperaria no caso de se tratar de um líder infiel, ser chamado de “meu pastor” e de “aquele que é meu companheiro”. Essas expressões apontam para uma profunda e intensa comunhão entre o Senhor e seu pastor. A segunda indicação é o caráter altamente messiânico e escatológico do capítulo como um todo. Não se está tratando aqui dos pecados do passado, mas da restauração e purificação do futuro, além da fidelidade do povo diante da sua redenção. Desse modo, parece que Zacarias, depois de falar dos efeitos da purificação, expõe, nos vv.7-9, o meio utilizado por Deus para promover a restauração do seu povo. Ela só é possível mediante o ferimento fatal do pastor divino, o Deus encarnado na pessoa de Jesus Cristo. Em resumo, o capítulo traça uma distinção entre o resultado das atuações dos falsos profetas e do supremo e verdadeiro Profeta do Senhor.[6]

Algo que pode trazer alguma confusão à figura é o fato de a ordem de Deus para se ferir seu pastor ser dada a uma “espada”. Não foi com uma espada que Jesus foi morto e a lança que o perfurou apenas o feriu quando ele já estava morto. Entretanto, a espada é uma das metáforas para o juízo de Deus, além de ser um frequente instrumento utilizado por ele para punir uma nação (Êx 5.3,21; 22.22-24; Lv 26.25,33; 2Sm 12.9; Is 27.1), de modo que se entende que tal pastor seria o alvo do juízo divino em lugar daqueles a quem ele salva. Em decorrência da morte do seu pastor divino, Israel também sofreu o juízo previsto na lei mosaica e foi espalhado pela Terra (cf. Dt 28.64-68). Entretanto, essa disciplina não representa uma rejeição definitiva (Rm 11.1-4), especialmente porque Deus continua a separar para si e santificar um pequeno rebanho israelita (Rm 11.5), de modo que Zacarias também anuncia que o Senhor voltaria sua mão para os “pequenos”. O termo “pequenos” aqui utilizado não tem o sentido de tamanho, mas aponta para pessoas insignificantes e desprezadas, sem força para assumir as rédeas do seu destino sozinhas. São pessoas assim que o Senhor socorreria com sua mão graciosa e amorosa, preservando para si um pequeno remanescente até que viesse o tempo da restauração de todo o povo.

Se a mão do Senhor preservaria uma parte do seu povo, o restante sofreria uma dura punição, o que tem ocorrido ao longo de toda a história e o que também acontecerá de modo dramático nos dias da Grande Tribulação (v.8): “E acontecerá em toda a terra — declara o Senhor — que dois terços serão aniquilados e morrerão. Mas um terço restará nela”. É difícil dizer se aqui o termo “terra” deve ser escrito com letra minúscula — referindo-se à terra da promessa, o território de Israel — ou com letra maiúscula — referindo-se a todo o planeta. Apesar de tais números encontrarem semelhanças no relato da tribulação mundial descrita no livro de Apocalipse, o contexto imediato parece favorecer a ideia de um território, a terra de Israel, em que o povo desprezado será alvo da graça renovada de Deus. Contudo, antes de ser agraciado pela libertação divina, Israel será reduzido a apenas um terço da sua população local nos dias daquela tribulação, seja pela perseguição do anticristo e seus exércitos, ou pelas ações de juízo vindas do próprio Deus. Tal destruição cairá sobre os israelitas endurecidos em seus pecados, assim como fatalmente recairá sobre a falsa igreja ao redor do mundo,[7] sendo este o apropriado e predito juízo de Deus aos seguidores hipócritas do seu nome.

Se dois terços dos judeus serão julgados nesse período, o remanescente será fortalecido e purificado (v.9a): “Farei o terço restante passar pelo fogo. Eu o purificarei como se purifica a prata e o aquilatarei como se aquilata o ouro”. É certo que a figura do fogo é frequentemente utilizada nas Escrituras para se referir ao juízo de Deus (Nm 11.1; Dt 32.22; Sl 78.21; Is 30.33). Mas nesse caso, o escritor lança mão dessa figura para se referir à purificação, tomando como base a conhecida atividade dos ourives de purificar e refinar metais preciosos por meio do fogo. Trata-se de uma comparação muito vívida da ação de Deus que, por meio de provações que recaem sobre seus servos em conjunto com seu socorro, torna-os mais puros. Na verdade, situações assim são propícias para que o homem reveja seus valores e suas atitudes, desprezando o que é passageiro e sem valor e se apegando ao que é eterno e valioso. É a esse tipo de ação que o salmista se refere ao dizer: “Pois tu, ó Deus, nos provaste; acrisolaste-nos como se acrisola a prata. Tu nos deixaste cair na armadilha; oprimiste as nossas costas; fizeste que os homens cavalgassem sobre a nossa cabeça; passamos pelo fogo e pela água; porém, afinal, nos trouxeste para um lugar espaçoso” (Sl 66.10-12).

O resultado dessa purificação se verá em um relacionamento renovado entre Deus e seu povo remanescente (v.9b): “Ele chamará o meu nome e eu lhe responderei, dizendo: ‘Você é o meu povo’. Então, ele dirá: ‘O Senhor é o meu Deus’”. A ação de chamar pelo nome do Senhor na Bíblia vai além de uma simples supertição ou de uma busca por socorro apenas em momentos de aflição. Chamar ou invocar seu “nome” é uma evidência da fé e da conversão daquele que clama por ele. Isso quer dizer que, mediante a purificação de Israel, o Senhor voltará a dizer com propriedade que “você é meu povo”, enquanto os israelitas, agora convertidos e restaurados, responderão com toda sinceridade de coração que “o Senhor é o meu Deus”,[8] cumprindo, com isso, a predição de outros profetas, como Oseias: “Semearei Israel para mim na terra e compadecer-me-ei da Desfavorecida; e a Não-Meu-Povo direi: Tu és o meu povo! Ele dirá: Tu és o meu Deus!” (Os 2.23).

A dinâmica exposta nos dois últimos versículos sugere que o livramento do remanescente da morte é seguido por seu arrependimento e conversão, e não o contrário. A pergunta que devemos nos fazer, como igreja do Senhor, é se é realmente preciso que nós também passemos por situações que nos provam a fim de sairmos delas arrependidos e purificados de pecados e de rebeldias. Toda a Escritura nos serve de exemplo do que acontece àqueles que resistem ao comando e ao amor de Deus, além de evidenciar o custo e as vantagens de andar em comunhão com ele. Assim, só é preciso decidirmos se queremos aprender tal obediência do modo fácil ou do modo difícil.

Pr. Thomas Tronco


[1] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 792.

[2] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament (electronic ed.), vol. 10. Peabody, MA: Hendrickson, 2002, p. 612.

[3] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 331.

[4] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 165.

[5] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006 [Zc 13.7].

[6] Spence-Jones, H. D. M. (ed.). Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 147.

[7] Henry, M. Matthew Henry’s Commentary on the Whole Bible: Complete and unabridged in one volume. Peabody: Hendrickson, 1994, p. 1592.

[8] Merrill, Eugene. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009, p. 537.

 

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