Sexta, 28 de Abril de 2017
   
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Eclesiastes 3.9-15 – O Ciclo da Vida Humana

 

Os oito primeiros versículos desse capítulo formam um trecho que, de certo modo, pode ser visto como um bloco independente, quando observado pelo prisma do estilo literário. Mas quando se pensa na argumentação que o Pregador está construindo, a razão de existir daquela poesia sobre o tempo é introduzir e embasar o trecho seguinte, contido nos versículos 9 a 15 — segmento que trataremos agora.

Desse modo, o escritor volta na questão anteriormente proposta (v.9): “Que proveito tem o trabalhador naquilo em que se esforça?”. Essa pergunta tem caráter retórico e espera encontrar na mente do leitor a mesma resposta que produziu antes (cf. 1.3; 2.11), a conclusão óbvia de que não há nenhum lucro no trabalho sob a perspectiva que ele tem observado.[1] Vale lembrar que a questão novamente levantada não é se o homem consegue sustentar sua família e desfrutar dos benefícios imediatos do trabalho, mas que tal esforço não consegue produzir benefícios permanentes.[2] Na verdade, ele não somente já propôs essa questão, como também já afirmou que tal fato produz aflição no homem, algo que ele volta a afirmar (v.10): “Vi a tarefa que Deus pôs sobre os filhos dos homens para afligi-los com ela”. Ao falar aqui sobre “trabalho”, o escritor usa a mesma palavra hebraica que utilizou no v.23 (também no v.26), em que o descreveu como fonte de “dor e irritação”. Com isso, ele está recapitulando os temas que abordou e as conclusões que tirou de suas observações anteriores. Contudo, ele introduz uma informação nova que muda fundamentalmente a visão das coisas. Sua menção sobre a atividade de Deus demonstra que sua pesquisa não se limita mais apenas ao enfoque “debaixo do Sol”, mas começa a levar em conta a obra do Senhor.[3] Ele não apenas está mudando o enfoque das suas análises, como também quer conduzir gradualmente o leitor a fazer o mesmo, e esse é um ponto importante da transição que ele pretende apresentar.

Assim, chega o momento em que ele mostra porque falou tanto sobre o tempo e sobre suas contradições no início do capítulo. Apesar de um caráter até um pouco esquizofrênico e contraditório que o tempo tem na poesia dos versículos 1 a 8, agora o tempo surge com grande beleza e destaque (v.11a): “Deus fez tudo benfeito no seu devido tempo”. O termo traduzido aqui como “benfeito” quer dizer, literalmente, “belo” ou “formoso”, adjetivos que costumam designar a aparência de algo ou de alguém. Mas a ideia central não reside na aparência dessas coisas, mas em sua qualidade, razão pela qual “benfeito” é uma escolha de tradução que se adequa bem ao contexto da mensagem. O resultado desse jogo de palavras é que, mesmo o vaivém do tempo, alternando entre momentos bons e maus, fáceis e difíceis, felizes e tristes, faz parte de um plano traçado com acerto, beleza e perfeição. Diferente do que muitos pensam, as dificuldades e tragédias da vida não são ocorrências que fogem ao controle do Deus soberano, mas fazem parte de um belo plano para a história, o qual, mesmo que não compreendamos, podemos ter certeza, pela fé, de que irá conduzir todos os eventos ao fim que o Senhor preparou antes da fundação do mundo. Por isso, todos aqueles tempos descritos nos primeiros oito versículos do capítulo estão determinados no relógio do Senhor e fazem parte de um projeto belíssimo, algo que muda completamente nossa perspectiva sobre tudo que vivenciamos e testemunhamos.

Surpreendentemente, o escritor adiciona agora um elemento diferente de tudo que tratou antes, o qual abala as perspectivas anteriores e dá um sentido todo novo não só à pesquisa do Pregador, mas à própria existência humana (v.11b): “Ele também pôs o senso de eternidade no coração deles, sem que o homem possa averiguar as obras que Deus fez do princípio ao fim”. O trecho traduzido como “senso de eternidade” é baseado na palavra que significa apenas “eternidade”. Contudo, ao conectá-la ao coração do homem, que, no pensamento antigo, era uma referência mais próxima do que para nós significa “mente”, a ideia parece ser que Deus deu ao homem finito a noção e a capacidade de pensar sobre as coisas que são infinitas e que estão acima dele, qualidade essencial para quem quer se relacionar com Deus e que pretende nutrir esperanças sobre a vida eterna, que vai além da vida que se desenrola “debaixo do Sol”.

Na verdade, uma das maneiras de se constatar a existência de Deus é justamente esse senso a respeito do eterno, além do anseio por ele, uma consciência instintiva de tal existência e o senso de vazio sem ele.[4] E é por isso que o homem que se rebela contra Deus insiste tanto em se convencer e em tentar provar não apenas a inexistência do Senhor, mas também da eternidade. Apesar de tanto esforço, nem sempre tais homens obtêm sucesso e têm de se convencer diariamente de que nada disso é real. As melhores tentativas dos incrédulos no sentido de negar a eternidade que vem de Deus é dizer que tudo começou com um tipo de explosão — a teoria do Big Bang — de matérias que ninguém sabe de onde veio. Somam-se a isso teorias de que o mero acaso juntou elementos químicos de tal maneira que a vida teve início e se desenvolveu de modo tão inacreditavelmente perfeito que tais propostas mal podem ser chamadas de teorias, dando razão ao Pregador quando diz que o senso de eternidade nos foi dado “sem que o homem possa averiguar as obras que Deus fez do princípio ao fim”. Por isso mesmo, nenhuma dessas “teorias” jamais foi comprovada cientificamente, negando o próprio conceito de ciência, que é baseado na observação de provas empíricas, algo que torna essa “falsa ciência” mera “filosofia” — e para alguns, um tipo de “religião”.

Entretanto, a verdade inegável, por mais que os homens teimem no contrário, é que a vida humana, diferente do restante da criação, está ligada à eternidade e que os propósitos presentes de Deus ligados ao tempo não tiram do homem o fato de que ele existirá para sempre.[5] A grande dificuldade para o ser humano é que, apesar de ter esse senso de eternidade dentro de si, ele apenas vislumbra partes do grande todo, mas não pode compreender tudo do ponto de vista que ocupa. Ele sente que há um passado infinito e que haverá um futuro infinito, os quais podem resolver as grandes dúvidas que ele possui e que confere uma unidade harmoniosa ao desígnio de Deus, mas ele tem se contentar em esperar até que tudo lhe seja revelado na própria eternidade.[6] Na verdade, esse é um exercício de fé que o criador conferiu ao homem para que desenvolva confiança nos planos do Senhor e contentamento durante sua vida terrena.

Imediatamente, o escritor parece perceber tal fato e dá demonstrações do contentamento que o homem deve ter nessa vida (v.12): “Compreendi que não há nada tão bom para homem que se alegrar e desfrutar de felicidade durante sua vida”. O trecho traduzido aqui como “desfrutar de felicidade” quer literalmente dizer “fazer o bem”. Entretanto, ele tem a função idiomática que aponta para o ato de “experimentar alegria”.[7] Já a expressão traduzida como “durante sua vida” quer literalmente dizer apenas “em sua vida”, sem que haja partículas temporais que justifiquem gramaticalmente o termo “durante”. Contudo, o contexto tem tratado com muita ênfase do término e do caráter passageiro da vida, dando a entender que o autor olha no versículo justamente o tempo que a pessoa tem a viver debaixo do Sol, razão pela qual essa ideia deve ser mantida e frisada.

O Pregador completa tais ideias no versículo seguinte (v.13): “E também que todos os homens possam comer, beber e ver o fruto do seu trabalho, pois essas coisas são presentes de Deus”. Com algumas diferenças no texto, esse versículo, somado ao anterior, é uma recapitulação do que foi dito em 2.24. Isso quer dizer que, apesar das limitações inevitáveis, o escritor ainda vê a vida como uma dádiva divina a ser desfrutada, mantendo o equilíbrio diante dessa tensão, abstendo-se de dar um veredicto imediato sobre aquela visão desanimadora que teve e mantendo-se aberto a encontrar o significado da vida.[8] Isso também quer dizer que, mesmo sem encontrar todas as respostas que procura sobre a vida e a existência, o homem deve aproveitar as coisas que Deus graciosamente lhe concede e demonstrar gratidão por isso, pois essas coisas, por mais simples que pareçam, “são presentes de Deus”.

Os dois versículos finais desse trecho são um duro golpe sobre a relutância do homem de aceitar que ele não é tão importante quanto pensa e que jamais terá uma vida com significado duradouro longe do relacionamento pessoal com o Senhor (v.14): “Eu sei que tudo aquilo que Deus fez existirá para sempre. Nada pode ser adicionado e nada pode ser tirado disso e Deus faz assim para que os homens temam diante dele”. A perfeição eterna da obra de Deus supera todos os esforços e zomba das aspirações humanas de se tornar eternamente significativo. Ninguém pode impedir ou alterar a vontade de Deus e seus caminhos estão além da nossa compreensão.[9] Aqui, além da segurança produzida pela compreensão de que Deus controla tudo soberanamente, é fechada e trancada ao homem a porta de qualquer esperança de que ele, autonomamente, possa fazer algo diferente na história que lhe dê sentido à vida, sem que seja lado a lado, pela fé, com o Deus criador e sustentador do Universo. Esse ciclo da vida humana é inevitável, independente dos esforços humanos, mesmo diante do assombroso avanço das mais recentes tecnologias e com a falsa esperança de vencer as limitações e sofrimentos que enfrentamos. Esse ciclo é inevitável, pois é gerenciado por Deus, algo que ele faz não para que os homens sofram sem motivo, como se ele fosse um sádico, mas com a finalidade de que “os homens temam diante dele”. Esse ciclo age como uma imensa sala de aula para nos ensinar a inutilidade e futilidade dos nossos atos e a imensa dependência que temos do Senhor.

A fim de provar ao homem que ele é apenas uma peça dentro desse ciclo, o escritor afirma que a experiência humana tem sido a mesma ao longo de toda a história e que assim continuará sendo (v.15): “O que existe agora já existiu antes e aquilo que existirá também já existiu, pois Deus buscará fazer o que já ocorreu antes”. Os tradutores encontram certa dificuldade nesse texto, pois ele inicia com uma partícula interrogativa que tornaria o texto sem sentido. Entretanto, quando essa partícula surge associada à conjunção que a segue no texto, o trecho assume o significado de “tudo que é”,[10] o que foi traduzido aqui como “o que existe agora”. Trata-se das realidades ligadas à vida do escritor e de seus leitores, tudo que eles conhecem e vivenciam. Algumas dessas coisas, muitas vezes, lhes parecem grandes novidades. Contudo, o escritor explica que essa percepção é equivocada. O trecho traduzido como “buscará fazer o que já ocorreu antes” significa, literalmente, “alcançará o que foge”.[11] Essa expressão quase obrigatoriamente nos faz recordar daquele dito que aponta certas coisas que jamais voltam, alistando o tempo e os acontecimentos consumados entre elas. Porém, se tais eventos passados fogem do homem, o mesmo não ocorre diante da soberania de Deus, que faz com que ocorrências do passado se repitam na história futura, obviamente dentro das características presentes de cada tempo e lugar.

Nesse sentido, o sentimento que o homem acaba desenvolvendo é o de ser como um peixe dentro de um aquário, que, apesar de poder nadar de um lado para outro, não consegue mudar sua condição, nem seu meio. Tudo que ele pode fazer é comer o alimento que lhe é posto e continuar a nadar enquanto vive. Para um peixe, tudo bem, mas quando o homem se vê numa realidade assim, sua conclusão é que sua vida não tem sentido além da simples sobrevivência. É uma visão deprimente, mas é a única possível para aqueles que querem tirar tudo da vida apenas debaixo do Sol. Por mais que ele se iluda com bens e prazeres que acumula, mais cedo ou mais tarde percebe que é apenas um peixe no aquário e acaba se desesperando.

E quando bate esse desespero por falta de significado na vida, as pessoas procuram meios de saná-lo. Alguns tentam aproveitar o máximo da vida, tentando sentir todo o prazer do mundo, sem saber que esse copo nunca poderá se encher o bastante. Outros tentam acumular fortuna pra sobressair aos outros, mas sempre haverá quem juntará mais dinheiro e será mais influente. Há quem tente fazer algo único que o coloque nos anais da história — alguns até no Guinness Book —, mas todos os recordes são quebrados mais cedo ou mais tarde. Há também quem queira encontrar significado na vida ao lutar contra a pobreza e o sofrimento dos carentes, mas mesmo que tal pessoa consiga ajudar muita gente, sempre haverá mais pobres e mais gente que sofre, que fica doente e que padece na guerra. A verdade é que ninguém consegue fazer uma mudança permanente na história da humanidade e transformar a realidade que nos sujeita. As únicas coisas que mudam são as culturas, o modo de falar, a moda, a tecnologia, os meios de transporte e os benefícios da ciência. Mas nada disso muda as condições básicas que perfazem a experiência humana, como o nascimento, o aprendizado, as paixões, as tristezas, as alegrias, o trabalho, o cansaço, os medos, os conflitos, o sofrimento, os relacionamentos, o envelhecimento e a morte. E tirando as diferenças culturais, geopolíticas e tecnológicas de cada tempo, as experiências humanas são sempre as mesmas.

A verdade é que esse trecho apresenta duas visões que são opostas, mas que ocorrem ao mesmo tempo, uma pessimista e outra otimista. A visão pessimista diz que estamos presos aos acontecimentos que sujeitam todas as pessoas e que nada, nem as mudanças culturais, científicas e tecnológicas, nem tampouco o grande acúmulo de bens e riquezas, pode alterar significativamente a realidade que nos acomete. A visão otimista, porém, nos ensina que todas as circunstâncias e acontecimentos estão sob o completo controle de Deus, que programou tudo a seu tempo a fim de produzir não apenas a história que ele preordenou, mas também “temor diante de Deus”, que significa fé, confiança, reverência, dependência e adoração ao Senhor por parte dos seus servos. Quanto ao temor da vida, ou seja, a percepção de que as dificuldades são inevitáveis e que há tempo determinado para que ocorram, a visão otimista não nega que as lutas existem, mas afirma o auxílio amoroso do salvador, que diz “no mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33b). Isso significa que ele não vai tirar todas as nossas dores por enquanto, mas que nenhuma delas está fora do seu controle e do seu poder de comandá-las, sendo ele o vitorioso sobre elas. E mais: quando ele disse isso, seu objetivo foi nos conceder um poderoso sentimento de paz, razão pela qual afirmou que “estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim” (Jo 16.33a). Note-se que a paz que vence até as maiores dificuldades é uma paz bem específica: a “paz em mim”.

Assim, o objetivo do Pregador — e de Jesus — ao falar sobre as dificuldades inevitáveis da existência não é deprimir as pessoas, mas tirá-las dessa depressão ao oferecer a visão correta sobre a vida presente e especialmente sobre a eternidade, a qual dá sentido a qualquer coisa que passemos agora e dará fim a todos os sofrimentos que nos acomete, desde que estejamos em Cristo. O significado disso é que a eternidade só trará bênçãos e alegrias eternas para quem crer em Jesus como seu salvador. Nesse caso, além de receber gratuitamente os benefícios da eternidade, o cristão tem uma nova visão da vida e, como presente adicional, tem a capacidade de usufruir das bênçãos de Deus nessa vida, mesmo enquanto passa por dificuldades comuns da existência humana. Essa é a paz de Cristo, a paz que ele oferece independente das circunstâncias, pelo que ele mesmo diz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). A paz do mundo depende da ausência de problemas. A paz de Jesus não. Qual delas você prefere? Qual delas você quer para você?

 Pr. Thomas Tronco

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[1] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 984.

[2] Zuck, Roy. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 325.

[3] Eaton, Michael A; Carr, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 88.

[4] Merrill, Eugene. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd, 2009, p. 604-605.

[5] Wiersbe, W. W. Be Satisfied. “Be” Commentary Series. Wheaton: Victor Books, 1996, p. 47.

[6] Spence-Jones, H. D. M. (Ed.). Ecclesiastes. The Pulpit Commentary. London: Funk & Wagnalls: 1909, p. 62.

[7] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006, [Ec 3.12 – nota 24].

[8] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 568.

[9] Garrett, D. A. Proverbs, Ecclesiastes, Song of Songs. The New American Commentary. Vol. 14. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993, p. 300.

[10] Waltke, Bruce K.; O’Connor, M. Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 325.

[11] Schökel, Luiz Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo: Paulus, 1997, p. 608.

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