Segunda, 16 de Janeiro de 2017
   
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Eclesiastes 4.7-12 – Efeitos da Companhia e da Solidão

O capítulo começou com uma análise do Pregador sobre os efeitos danosos do egoísmo que é filho da perspectiva que focaliza apenas a vida “debaixo do Sol”. Nesse trecho sequencial, o autor percebe mais uma forma de egoísmo, sobre a qual ele reflete mais que as anteriores e a pinta com as cores da tolice de que tanto falou no livro de Provérbios. A ocorrência do egoísmo, dessa vez, é a solidão, na qual o homem quer ter tudo pra si sem precisar dividir nada com ninguém, nem mesmo suas horas de trabalho pela necessidade de gastar tempo com a companhia e a atenção de outras pessoas.

Apesar de ser uma continuidade dos versículos anteriores, o escritor parece tratar desse assunto à parte, com alguma exclusividade, e, por isso, inicia uma nova seção com um claro anúncio (v.7): “Então, passei a considerar outra futilidade debaixo do Sol”. Esse texto tem algumas dificuldades na tradução, não no campo da compreensão, mas da construção da frase em si. Literalmente, ela diz “então, eu voltei e vi uma futilidade debaixo do Sol”. Entretanto, o contexto do livro nos mostra que, cada vez que o escritor “vê” algo, trata-se de sua observação e análise daquela situação da vida e da existência no mundo. Quanto a ver “uma futilidade”, facilmente compreendemos que ele, que já falou de tantas formas dela, detém-se agora em “outra” ocorrência de futilidade, diferente das que já refletiu e fez considerações.

Por isso, uma explicação pertinaz, especialmente diante de um exemplo como esse, é que a função do tradutor não é apenas verter palavras de uma língua para outra, mas transmitir ao leitor a ideia que o escritor pretendeu comunicar em sua língua e cultura, cheias de tantas peculiaridades, às vezes bem diferentes das nossas. Desse modo, o escritor anuncia que, tendo refletido antes sobre o modo como os homens tratam outras pessoas movidos por egoísmo, inveja e preguiça, ele agora se detém nos efeitos do convívio social para a própria pessoa, tema este — diga-se de passagem — que é extremamente atual e muito nos interessa.

Sendo assim, qual seria essa nova futilidade percebida pelos sábios olhos do rei da Israel? Ele a apresenta de maneira eloquente, numa frase longa que dificilmente pode ser fracionada, seja para fins didáticos, exegéticos ou homiléticos, sem quebrar, de algum modo, a figura total da pessoa que ele tem em mente e da realidade em que ela vive (v.8a): “Trata-se de um homem que vive sozinho e não tem uma companheira, nem filhos, nem irmãos, mas que, mesmo assim, não impõe limites a todo seu trabalho e seus olhos nunca se saciam com a riqueza, e que pergunta a si mesmo: ‘Por quem eu tenho trabalhado tanto e privado a mim mesmo da felicidade?’”. A introdução da frase, na forma de “trata-se de”, não consta do texto hebraico, mas é necessária para deixar claro ao leitor que se trata da futilidade que o escritor mencionou no versículo anterior. Outra observação pertinente é que a palavra traduzida como “companheira” é, em sua natureza, mais genérica e quer dizer apenas “companhia” — o sentido literal do trecho seria “um sem ter um segundo”[1], ou “alguém sem ter uma segunda pessoa”. Todavia, o contexto parece apontar para a figura de uma família, começando pelos mais próximos, razão pela qual a “companheira” — um sinônimo para “esposa” — vem em primeiro lugar, antes dos “filhos” e dos “irmãos”.

Quando esse homem se pergunta por quem ele se esforça tanto e, como consequência, deixa de aproveitar o bem da vida, trata-se de uma pergunta retórica cuja resposta é um retumbante “ninguém”.[2] A verdade é que ele se afadiga como se fosse para garantir o bem de sua família, o que seria algo muito razoável e proveitoso, enquanto, de fato, não tem ninguém a beneficiar além de si mesmo. Ele paga um preço não necessário, que lhe custa o que ele poderia ter de bom na vida, mas que voluntariamente abre mão. E o interessante é que o texto cria a cena desse homem, que gasta sua vida no trabalho a fim de juntar uma fortuna, fazendo uma pergunta a si mesmo da qual ele já sabe a resposta, sem que o texto informe que ele concluiu que não vale a pena e que seguirá por outro caminho. A avaliação inicial do versículo seguinte sugere que ele permanece em sua condição mesmo sabendo que é inútil, apenas mais uma futilidade. Quanto às opções sábias que o texto descreve a seguir, não parecem ser uma virada de vida para esse homem, mas apenas a lição do Pregador a mais uma pessoa que, em sua tolice, não ouve tais conselhos nem os segue.

O escritor, de fato, avalia tal condição com um adjetivo já bem-conhecido no livro (v.8b): “Isso também é futilidade e um trabalho penoso”. É conveniente notar que o autor costuma usar essa construção de palavras para expressar sua avaliação das coisas, mas geralmente nas formas de “isso também é futilidade” ou “isso também é futilidade e correr atrás do vento”. Na verdade, ele fala isso tantas vezes que o leitor já está preparado para ouvir novamente. Entretanto, aqui o Pregador adiciona à ideia de “futilidade” e inutilidade a figura de um “trabalho penoso”, o qual trás sofrimento e opressão, ou seja, algo que se faz custosamente à toa. Que conclusão terrível para esse homem que, mesmo sabendo que não há sentido em todo o seu esforço, por não haver de quem ele deva cuidar, beneficiar ou amar, ainda assim continua escravizado ao “trabalho penoso” e à busca por riquezas, as quais ele nem chega a aproveitar por completo. Esse é o ponto de transição, no texto, para que o escritor toque seus leitores com a ideia de que o trabalho traz frustração quando sua labuta e seu lucro são desperdiçados pela ganância em vez de serem compartilhados com outras pessoas.[3]

A opção sábia é prontamente oferecida pelo autor (v.9): “Melhor é serem dois que um sozinho, pois haverá melhor proveito para cada um deles em seu trabalho”. A palavra traduzida aqui como “proveito” significa, literalmente, “salário” ou “pagamento”, mas o escritor não está pensando, nesse ponto, nas finanças de um casal, de uma família unida ou de uma parceria comercial. Ele tem a intenção de contrapor essa realidade àquele desperdício inútil e desesperador do versículo anterior, no qual o homem trabalha loucamente e junta riquezas sem ter com quem aproveitá-las. Nesse caso, sendo duas pessoas, unidas por fortes laços, seu “pagamento” é, na verdade, um “melhor proveito” do que se obtém, mesmo que o montante seja menor, pois as vantagens da união, do amor e da companhia estarão presentes. É certo que, ao falar sobre a ausência de companhia do homem solitário, foram mencionadas a ausência de uma esposa, de filhos e de irmãos, o que levaria a crer que a companhia que o escritor tem agora em mente é qualquer uma dessas pessoas. Entretanto — especialmente pelo argumento exposto no versículo 11 —, o autor tem primordialmente em vista o cônjuge, com a qual a pessoa pode viver, dividindo as cargas e as recompensas do seu trabalho melhor do que com qualquer outro. Afinal, essa foi a conclusão do próprio criador no início da nossa história: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18).

O texto não deixa no ar a afirmação anterior sem que apresente bons argumentos que a sustente, e o primeiro deles tem a ver com segurança, apoio e manutenção das forças durante a vida (v.10): “Pois, se eles caírem, um deles levantará o seu companheiro, mas ai do que estiver sozinho e cair sem que haja um companheiro para levantá-lo”. A forma hebraica aqui encontrada é estritamente plural “se eles caírem” —, contudo, ocasionalmente, o plural pode denotar um singular indefinido, de modo que significaria “se qualquer um deles cair”.[4] Trata-se da figura de alguém caindo em um buraco fundo, possivelmente em uma viagem noturna, sem ter recursos para sair de lá. É impossível fazê-lo sozinho, mas um companheiro pode, estando do lado de fora, ajudar a tirar aquele que caiu e lhe dar a devida assistência a fim de que novamente se levante e volte a caminhar. Contudo, é óbvio que o escritor não vislumbra apenas os perigos provocados por desníveis topográficos, mas as dificuldades, os percalços, os perigos e até os erros pessoais que uma pessoa comete e enfrenta durante sua vida. Nesses casos, um companheiro adequado pode dar a assistência que alguém sozinho não pode obter. Uma vantagem adicional dessa parceria é que o benefício vale para os dois, pois qualquer um deles pode cair e ambos têm a capacidade de se ajudar mutuamente.[5]

O segundo argumento aponta para o conforto de alguém que divide sua jornada com outra pessoa (v.11): “Além disso, se duas pessoas dormirem juntas, elas se aquecerão mutuamente. Mas como uma pessoa sozinha se aquecerá?”. Apesar de essa figura nos parecer bem-restrita, especialmente sob a visão e a experiência dos nossos dias, era comum que viajantes que tinham de passar a noite ao relento se valessem da proximidade dos seus corpos para se aquecer no rigor do frio. Contudo, o texto desenha melhor a figura de um casal do que de outros tipos de companheiros. Um exemplo disso é o caso de Davi que, em sua velhice, já não conseguia mais se sentir aquecido, nem mesmo com muitas roupas. A solução foi tomar-lhe uma donzela, de nome Abisague, que dormia em seus braços (1Rs 1.1-4). É claro que esse é um exemplo de uma situação extrema, ao passo que o escritor deve ter em mente tal benefício ao longo da vida, quando o homem ainda tem forças para executar seu trabalho e que, em seus momentos de descanso, pode desfrutá-los com alguém com quem ele divida mais do que a cama e que faça todo seu esforço valer a pena.

O terceiro argumento em prol da companhia é a força para suportar os tempos difíceis causados por outrem (v.12a): “Além do mais, se alguém oprimir um deles, os dois juntos poderão suportá-lo”. O trecho aqui traduzido como “poderão suportá-lo” significa, literalmente, “ficarão de pé diante dele”, referindo-se a não cair diante do opressor nem da opressão que se impõe a um deles. Há comentaristas que vêm nessa menção os perigos de uma viagem por causa de emboscadas de bandidos, das quais duas pessoas conseguiriam se livrar mais fácil que apenas uma. Mas o texto parece ser bem mais amplo e se adequar melhor a outras situações. O texto, em sua essência, lembra-nos de valores mais definidos e frequentemente requisitados na vida que a habilidade de lutar contra bandidos. Em uma situação de opressão, ou perseguição de uma terceira parte, um companheiro adequado pode encorajar o parceiro, corrigir seus caminhos, ajudá-lo diretamente na situação ou até no trato com o opressor e, em último caso, pode simplesmente trazer consolo e orar pelo amigo, o que não é pouca coisa.

O autor dá sua pincelada final oferecendo uma frase proverbial cuja lógica é inegável e o efeito sobre o leitor é mais que intelectual (v.12b): “Afinal, uma corda trançada triplamente não pode romper-se com facilidade”. Esse trecho, traduzido em algumas versões como “o cordão de três dobras”, é citado tradicionalmente em casamentos, explicando-se que a força do casal vem de estarem unidos a Deus, de modo que as três dobras seriam o marido, a esposa e o Senhor — e há exegetas que corroboram categoricamente essa interpretação. Outros sugerem ainda que a terceira parte da corda se refere aos filhos do casal. Essas interpretações, quando isoladas desse contexto, certamente são muito úteis de ser ensinadas. Entretanto, não fica claro se o Pregador está pensando em alguma dessas comparações. É possível que ele simplesmente esteja se referindo a um tipo específico de corda que era utilizada em seus dias e conhecida por sua força. Também é possível que ele queira dizer que os dois, trabalhando e suportando juntos, têm mais força que cada um teria separado e que sua efetividade equivale à força de três pessoas, em vez de apenas duas. O fato é que esse dito era um provérbio já bem-conhecido no Oriente Médio Antigo e não foi inventado por Salomão, estando ele presente no famoso Épico de Gilgamesh,[6] escrito na Suméria por volta de 2700 a.C. Sendo assim, não se deve supervalorizar a interpretação das três partes trançadas da corda, baseando-se no seu número, mas compreender que o autor afirma a força que um casal, ou mesmo uma dupla de amigos ou irmãos, tem quando luta unido, um apoiando o outro.

Outra observação pertinente é que, embora se costume dizer nos púlpitos que o tal cordão “não se pode romper”, o texto explica que ele não pode ser rompido “com facilidade” ou “com rapidez”. Isso, obviamente, retira dessa figura o caráter triunfalista de invencibilidade de um casal, por mais bonito e encorajador que isso possa parecer. A verdade é que o autor, ao falar sobre a vida debaixo do Sol, não vê em parte alguma a invencibilidade humana diante dos problemas e sofrimentos da vida, mas percebe que há meios de resistir a eles com mais facilidade e sabedoria. O Pregador, usando muitas vezes a descrição “melhor” (4.6,9,13; 5.5; 7.1-3,5,8; 9.17s), quer evitar o pessimismo total, mostrando que, apesar de as coisas não serem totalmente boas ou ruins, há algumas que são melhores que outras.[7] Ele faz isso a fim de não produzir, na mente do leitor, a ideia de que o casal consegue resistir a todos os problemas da vida, ou, por outro lado, que seja inevitavelmente derrotado por cada opressão, mas que eles se ajudarão, consolarão, encorajarão e resistirão muito mais e por muito mais tempo que a pessoa que anda e enfrenta sozinha as dificuldades e tristezas da vida. Os benefícios dessa vida em união (v.9) não podem, de modo algum, ser ignorados, pois consistem de auxílio em tempos de dificuldade (v.10), conforto em situações de necessidade (v.11) e proteção em circunstâncias de perigo (v.12).[8]

Essa lição não quer dizer que uma pessoa não possa ser feliz vivendo ou trabalhando sozinha. Mas se ela escolhe viver assim por egoísmo, achando que só desse jeito pode aproveitar melhor os benefícios que vê debaixo do Sol, tal pessoa devia ouvir e considerar com muito cuidado o conselho que Salomão deu ao seu próprio filho, dizendo-lhe “alegra-te com a mulher da tua mocidade” (Pv 5.18). No próprio livro de Eclesiastes, o escritor desenvolve mais o tema, concluindo que esse tipo de companhia é uma das boas coisas que podemos ter nesta vida, aconselhando: “Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do Sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do Sol” (Ec 9.9).

O grande problema que o homem enfrenta, nesse sentido, é a escolha correta de suas companhias. Os incontáveis benefícios que um homem pode ter ao lado de uma boa esposa são completamente anulados se ele, ao escolher a mulher com quem quer dividir a vida, olhar para alguns valores, como beleza e sensualidade, e se esquecer de outros, como caráter, amabilidade e companheirismo. Essa possibilidade é contemplada por Salomão quando disse que “melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda” (Pv 21.19) e que “o gotejar contínuo no dia de grande chuva e a mulher rixosa são semelhantes” (Pv 27.15).

O mesmo vale para outros tipos de colegas, que chamamos de más-companhias, sobre os quais alerta o apóstolo Paulo, dizendo “não se deixem enganar: ‘as más companhias corrompem os bons costumes’” (1Co 15.33 NVI). O pai de Salomão já dizia isso muito tempo antes, quando escreveu que é “bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” (Sl 1.1). Por isso, nossas companhias, especialmente as mais íntimas, devem ser escolhidas sob as lentes dos valores do nosso Senhor e salvador, em quem cremos, a fim de trilharem conosco, no mesmo sentido, nossa jornada rumo à eternidade. Escolha bem seus companheiros de vida e seu caminho será muito menos penoso, inútil e frustrante: “Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau” (Pv 13.20).

Pr. Thomas Tronco

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[1] Ogden, G. S.; Zogbo, L. A Handbook on Ecclesiastes. UBS Handbook Series. New York: United Bible Societies, 1998, p. 134.

[2] The NET Bible. First Edition. Biblical Studies Press: www.bible.org, 2006, [Ec 4.8 – nota 34].

[3] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 573.

[4] Eaton, Michael A; Carr, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 101.

[5] Garrett, D. A. Proverbs, Ecclesiastes, Song of Songs. The New American Commentary. Vol. 14. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993, p. 308.

[6] Matthews, V. H.; Chavalas, M. W.; Walton, J. H. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. Downers Grove: InterVarsity Press, 2000, [Ec 4.12].

[7] LaSor, William S., Hubbard, David A.; Bush, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 551.

[8] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 987.

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