Sexta, 28 de Abril de 2017
   
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Eclesiastes 4.13-16 – O Ciclo dos Governantes e Governados

 

Após descrever relações de causa e efeito razoáveis e inteligíveis, umas boas e outras más, e oferecer lições e aplicações valiosas à vida, o Pregador encerra o capítulo com um trecho muito enigmático. Além das dificuldades presentes na tradução do texto, a compreensão do quadro como um todo e, especialmente, o propósito que o escritor tem em oferecê-lo desafiam bastante os exegetas e fazem com que alguns cheguem a conclusões desencontradas, sem uma lógica aparente e/ou qualquer valor prático, tanto no argumento do escritor como na aplicação pelo leitor.

Quem lê o primeiro versículo desse trecho imagina que se deparará com uma pequena seção de provérbios sábios, mas não é disso que o texto trata. Na verdade, ele é o início de uma história — hipotética ou não — que servirá de base para uma constatação final do leitor (v.13): “Melhor é o jovem pobre e sábio que o rei velho e tolo que não sabe mais ser aconselhado”. Diferente do modo como as pessoas podem encarar, não é fácil ser rei — pelo menos não é fácil ser um bom rei. Salomão sabia disso e buscou o auxílio de Deus a fim de ser um bom governante (1Rs 3.7-9), o que demonstrou nele sabedoria e lhe garantiu ainda mais sabedoria dada por Deus (1Rs 3.12). O problema, entretanto, é que pessoas que começaram suas carreias em meio à insegurança e humildade, buscando conselhos para atuar bem e cada vez melhor, muitas vezes mudam de atitude com o passar do tempo. Ironicamente, com o passar do tempo, tais pessoas deixam de aceitar conselhos por conta da visão que eles têm de si como sendo sábias e experientes, o que lhes tira a sabedoria e lhes confere tolice, segundo o próprio autor informa em outro livro: “Tens visto a um homem que é sábio a seus próprios olhos? Maior esperança há no insensato do que nele” (Pv 26.12).[1]

Enquanto algumas pessoas aproveitam o passar dos anos para aprender mais sabedoria e agir segundo ela, outras, como o rei descrito nesse versículo, sentem-se prepotentes, capazes de fazer qualquer coisa sozinhas, sem precisar aprender mais nada, nem buscar conselhos com quem quer que seja. Tais pessoas, frequentemente, sentem-se até ofendidas se alguém lhes dá algum conselho. Quando essa disposição tola que, em muitos, cresce com o passar dos anos, soma-se ao poder que um rei tem, o resultado é a enorme probabilidade de tal pessoa agir com a tolice de um homem velho que usa mal o poder que tem. A verdade é que o passar dos anos obrigatoriamente envelhece todas as pessoas, mas não as torna necessariamente sábias. Resumindo, a idade faz velhos, não sábios. A sabedoria vem de a pessoa, com uma postura humilde, continuar aprendendo, buscando e ouvindo bons conselhos. Além de olhar para si mesma como alguém finito e falho que sempre precisa de direcionamento e correção.

A vantagem que o texto apresenta à tese de que é “melhor” ser um jovem que não tem influência alguma que um rei velho, mas tolo, é porque o jovem aqui descrito sabe “ser aconselhado”. O texto não afirma isso expressamente, mas a comparação entre os dois personagens leva a essa conclusão óbvia, especialmente por causa da explicação da tolice do rei. Sendo assim, esse jovem está ciente dos perigos e das oportunidades à medida que sobe na carreira política e utiliza bem essa ciência. Entretanto, o rei se tornou vulnerável, apesar do seu poder, por causa da sua insensatez, ainda que tenha idade para ter muita experiência de vida e ser sábio.[2]

O texto vai além e contempla o jovem pobre, mas sábio, vindo de lugares e condições mais improváveis para alguém que há de reinar sobre uma nação (v.14): “Pois esse jovem pode sair da prisão para reinar, assim como pode nascer pobre no reino em que há de reinar”. O trecho aqui grafado como “esse jovem” deveria ser traduzido apenas como “ele”, mas a difícil construção do pensamento do escritor exige que o tradutor dê ao leitor as pistas corretas para a compreensão do que o autor quer dizer e de quem está falando em cada ponto. Do mesmo modo, o trecho traduzido como “reino em que há de reinar” quer literalmente dizer “seu reino”.

É difícil saber se Salomão estava pensando em algum caso que ocorreu nas redondezas de Israel, se está trabalhando com uma situação hipotética, ou se tinha em mente a história de José, no Egito, que realmente saiu da prisão para governar um reino, estando abaixo apenas do próprio Faraó (Gn 39—41). A verdade é que esse pequeno trecho expõe verdades que independem de fatos reais na sua descrição, mas que, inegavelmente, traz-nos à memória diversas histórias bíblicas e seus personagens reais.

A segunda parte da frase pode ter vindo da lembrança do que ocorreu aos reis anteriores a Salomão. Tanto Saul, que afirmou vir de uma família sem grande importância na tribo de Benjamim (1Sm 9.21), tornou-se rei do todas as tribos de Israel (1Sm 10.1,24; 11.15), como Davi, um pobre pastor de ovelhas, o mais humilde dentro da sua própria família (1Sm 16.10-11), sucedeu Saul no trono da nação (1Sm 16.12-13; 2Sm 5.1-5). Com isso, o Pregador parece ensinar que ninguém está garantido no trono de um reino e que seu sucessor pode ser alguém inesperado, vindo das condições mais surpreendentes e improváveis para alguém que usará a coroa. Nenhuma posição social é obrigatoriamente permanente e muito menos garantida.

Outro exemplo ilustrativo da verdade que o autor expõe nesse texto, cujos acontecimentos ele já esperava, mesmo sem conhecer os detalhes, é o de Jeroboão. Tratava-se de um jovem que era apenas um servo do rei (1Rs 11.26-40), mas sobre quem foi anunciada a profecia de que reinaria sobre dez tribos de Israel por causa do pecado de Salomão, justamente por ter agido como um “rei velho e tolo”, abandonando a adoração exclusiva devida ao Senhor (1Rs 3.14; 9.2-9). O rei, tendo ciência da profecia (1Rs 11.11-13), perseguiu Jeroboão, fazendo-o buscar abrigo no Egito (1Rs 11.40). Jeroboão não foi exatamente um prisioneiro, como se diz no versículo a respeito do jovem, mas viveu no exílio até a morte de Salomão e, retornando à sua terra, reinou sobre as dez tribos (1Rs 12.20). Vale lembrar que essas dez tribos de Israel abandonaram Roboão, filho de Salomão, justamente quando ele também agiu com a tolice de não aceitar “ser aconselhado” corretamente (1Rs 12.6-8).

O fato é que, independente desses exemplos que, muito provavelmente, estavam, em uma ou outra medida, na mente do escritor, o ponto a que ele parece querer chegar é que é melhor ter um governante jovem e de origem pobre, mas que seja sábio, que um governante velho e tolo, que não escuta mais conselhos.[3] Além de esse ser a proposta do escritor, parece que o povo abriga conceitos semelhantes, pois o texto seguinte expõe essa preferência (v.15): “Vi todo o povo, debaixo do Sol, que seguia aquele jovem, o sucessor do rei, que ficará no seu lugar”. A expressão traduzida como “todo o povo” quer literalmente dizer “todos os viventes”, mas o contexto deixa claro que não se refere a todos os seres vivos, incluindo animais, mas sim aos súditos desse reino.

O texto original também traz a expressão literal “o segundo jovem”, a qual alguns intérpretes imaginam se tratar de outro jovem que não o dos versículos anteriores. Entretanto, a ideia de ser o “segundo” qualifica o jovem dessa pequena história a ser o sucessor do “primeiro”, que seria o próprio rei.[4] Essa é a razão de a tradução ter optado pela forma “aquele jovem, o sucessor do rei”, mantendo a unidade do pequeno relato e a lógica dos elementos no próprio versículo. Em resumo, trata-se do jovem que é citado nos versos anteriores, que, por aclamação geral, é elevado ao lugar mais alto do reino, enquanto o velho monarca é destronado ou depreciado.[5] O povo que, no passado, honrou e seguiu o velho rei, segue agora o jovem candidato ao trono, provavelmente porque vê nele a necessária sabedoria para o cargo de um governante, ao passo que vê, também, a insensatez que, com o passar do tempo, tomou conta do velho rei, minando o amor e o respeito do povo por ele.

O povo acima é descrito, ainda que não expressamente, como sendo volúvel e inconstante, pois deixou de ser fiel ao antigo rei e passou a amar e apoiar o próximo rei. Podemos até pensar em criticar tais súditos, chamando-os de infiéis e ingratos, mas o escritor garante que isso já aconteceu muitas vezes no passado e que continuará acontecendo outras vezes, inclusive com o tal jovem, novo e amado candidato ao trono real (v.16a): “Não há fim para todo o povo e para todos os que viveram antes deles. Assim, também aqueles que virão depois não se alegrarão com ele, o novo rei”. O trecho traduzido como “o novo rei” não consta no texto hebraico, estando aqui apenas para explicar ao leitor a pessoa a quem o escritor se refere. A questão é que o pronome “ele”, de quem a geração futura não se apegará por meio do respeito e do amor, é justamente o jovem rei que foi tão amado e seguido por sua própria geração. Isso inegavelmente mostra que esse é outro ciclo fútil da vida.

O escritor percebe que poder e popularidade não podem garantir a realização pessoal, já que as pessoas são volúveis.[6] Intencionalmente ou não, Salomão contou um pouco do que ocorreu ao seu próprio pai, Davi, nos dias em que Saul era rei e seu pai era apenas um líder militar a serviço da coroa. Mesmo que todo sucesso militar fosse creditado ao rei, o prestígio acabou recaindo sobre o general vitorioso, conforme contam as Escrituras: “As mulheres se alegravam e, cantando alternadamente, diziam: ‘Saul feriu os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares’. Então, Saul se indignou muito, pois essas palavras lhe desagradaram em extremo; e disse: Dez milhares deram elas a Davi, e a mim somente milhares; na verdade, que lhe falta, senão o reino?” (1Sm 18.7-8). Infelizmente, para Davi, a volubilidade do povo lhe custou anos de muito sofrimento e de fuga por causa da perseguição do rei. A inconstância do povo se fez ver no menosprezo de Saul em função de Davi e, de modo semelhante, no abandono de Davi em favor de Absalão e até em favor de um homem de menor importância, chamado Seba (2Sm 15; 20). A conclusão é a mesma de outras circunstâncias (v.16b): “Pois isso também é vaidade e correr atrás do vento”. Com isso, o escritor fecha sua pequena história sobre essa curiosa sucessão real.

Depois de um esforço um pouco maior que o normal, é possível ver o quadro como um todo, conforme pintou o escritor. Mas a questão, agora, não é se é possível chegar a tal compreensão, mas se há realmente uma lição e aplicação por trás dessa figura ou se ela é apenas o registro, sem maiores objetivos e pretensões, de acontecimentos que perfazem mais uma futilidade percebida pelo Pregador, como se fosse um tipo de murmuração de sua parte. É claro que o trecho ilustra a moral do versículo 13, que diz que “melhor é o jovem pobre e sábio que o rei velho e tolo”.[7] Mas será que há mais do que isso?

Se esse trecho for visto isoladamente, pode parecer não ter nenhuma intenção didática, nem constituir qualquer argumento em favor de uma tese. Apesar disso, a verdade é que o trecho não está aqui por acaso, mas é fruto do propósito reflexivo e didático do autor. Assim, quando visto como fechamento do capítulo que tratou do egoísmo e da solidão como efeitos da visão distorcida da existência que o homem tem da vida “debaixo do Sol”, esses quatro versículos agem como se fossem um tipo de parábola que, longe de carregar sentidos especiais em cada um dos seus pequenos detalhes, traz uma lição central dirigida ao leitor. Desse modo, expondo “a instabilidade do poder político e a inconstância da popularidade”,[8] o autor prova a inutilidade do egoísmo. O amor exagerado por si mesmo, que gera o egoísmo, além de produzir atitudes repreensíveis nos relacionamentos (v.1-6) e conduzir à solidão (v.7-12), é incapaz de garantir a permanência dos desejos, das conquistas, da posição e da popularidade dos homens, mesmo que eles sejam reis. Essa é a lição do Pregador.

Entretanto, há uma lição adicional que podemos aproveitar dessa reflexão. Em Apocalipse 7.9, João viu uma “grande multidão” louvando a Deus. Ele termina esse segmento dizendo: “Pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Ap 7.17).[9] O fato de uma “grande multidão” engrandecer seu rei se assemelha à história contada pelo Pregador. A diferença é que, enquanto Salomão afirma que todos os reis perdem seu trono para seus sucessores, João prevê que o Cordeiro, o herdeiro do trono sobre todo o mundo, estabelecerá seu reino permanentemente, sem que alguém o substitua ou usurpe sua posição, pelo que diz: “O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15).

Isaías explica que esse rei assumirá o trono “para que se aumente o seu governo, e venha paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre (Is 9.7). Daniel, olhando para a sucessão de reinos ao longo de toda a história da humanidade, previu a mesma coisa e disse: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2.44). O mesmo Daniel, descrevendo o reinado desse soberano divino, também disse: “Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (Dn 7.14). O próprio anjo que anunciou a Maria a identidade do seu filho afirmou o seguinte: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.32,33).

Sendo assim, você deve se perguntar, em primeiro lugar, que tipo de pessoa quer ser: alguém volúvel e instável, como os súditos dessa passagem, ou alguém constante e fiel? Em segundo lugar, você deve se questionar sobre que tipo de rei quer seguir: um, cuja glória e fama passam e são esquecidas, ou um cujo governo e poder permanecerão por toda a eternidade? Apesar de serem duas perguntas diferentes, elas agem juntas, formando pares. Quem segue reis passageiros, como pessoas, prazeres, riquezas e fama, acaba sempre se decepcionando com eles e substituindo-os por outros reis, demonstrando sua inconstância. Entretanto, quem segue, pela fé, o Senhor Jesus Cristo como rei e salvador da sua vida, segue um rei que nunca será substituído e nunca perecerá, de modo que o seguidor permanece fiel a ele porque esse rei também permanece fiel aos seus, para sempre, garantindo-lhes a salvação e a vida eterna. Que rei é o seu? O meu é Jesus!

 Pr. Thomas Tronco

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[1] Keil, C. F.; Delitzsch, F. Commentary on the Old Testament. Peabody: Hendrickson, 1996, Vol. 6, p. 699.

[2] Garrett, D. A. Proverbs, Ecclesiastes, Song of Songs. The New American Commentary. Vol. 14. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993, p. 309.

[3] Ogden, G. S.; Zogbo, L. A Handbook on Ecclesiastes. UBS Handbook Series. New York: United Bible Societies, 1998, p. 146.

[4] Eaton, Michael A; Carr, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 103.

[5] Spence-Jones, H. D. M. (Ed.). Ecclesiastes. The Pulpit Commentary. London: Funk & Wagnalls: 1909, p. 91.

[6] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 573.

[7] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 987.

[8] Wiersbe, W. W. Be Satisfied. “Be” Commentary Series. Wheaton: Victor Books, 1996, p. 59.

[9] Winter, J. Opening Up Ecclesiastes. Opening Up Commentary. Leominster: Day One Publications, 2005, p. 65.

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