Sexta, 24 de Fevereiro de 2017
   
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A Ponte e o Lago

Pastoral

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Hebreus 2.14-15).

O Natal não celebra apenas o nascimento de um personagem importante. Ainda que o impacto de Cristo sobre a história mundial seja único e inegável, não é esse aspecto de sua figura que chama a nossa atenção nesses dias de festa.

Como crentes, vemos o Natal de uma perspectiva mais teológica, sem deixar de reconhecer a vital conexão dessa perspectiva com os fatos narrados no NT sobre o nascimento de Jesus e sempre acolhendo a historicidade desses fatos sem quaisquer reservas.

Mesmo assim, isto é, mesmo acreditando na veracidade e gostando muito da história do nascimento de Jesus, repleta de anjos e embelezada com os episódios dos pastores e dos magos, o que mais fala ao coração dos crentes é o significado doutrinário ou teológico disso tudo.

Para nós, cristãos, o nascimento de Jesus de Nazaré é o evento que consubstancia a encarnação do Verbo divino. Trata-se do momento em que Deus, feito carne, entra neste mundo com o propósito de buscar e salvar o que se havia perdido. Graças ao milagre da encarnação, o Verbo pôde sangrar e morrer, fazendo expiação pelo pecado do ser humano — um sacrifício cujos benefícios podem ser desfrutados por todo aquele que nele crê.

Esse é o sentido teológico central do Natal. Qualquer outro significado que lhe seja atribuído é, na melhor das hipóteses, secundário. Na pior, é falso.

Entretanto, conectados a esse sentido principal, o advento de Cristo também aponta para outras realidades igualmente gloriosas. O versículo que encabeça este breve artigo destaca uma delas. O texto diz que Cristo participou da carne e do sangue para que, morrendo, livrasse os que viviam como escravos com medo de morte.

Parece que, a partir desse texto, é possível concluir que os homens sem Cristo não são escravos somente do pecado. Eles são escravos também do medo de morrer. Com efeito, quando observamos os incrédulos ou falamos com eles, percebemos que são pessoas bastante rasas em suas reflexões sobre o fim da vida. De fato, quando falam sobre esse assunto, eles repetem jargões batidos, tentam tecer frases bonitas, fingem ser detentores de alguma sensibilidade espiritual, emitem opiniões sem fundamento... Tudo isso mostra que são inseguros, que não sabem o que estão dizendo, que não têm a menor ideia do que aguarda a pessoa no além-túmulo. Isso sugere também que, sendo imensamente ignorantes no tocante ao que há depois desta vida, os incrédulos amargam dentro de si uma dolorosa ausência de esperança, ausência esta que é, certamente, a raiz do medo que têm de morrer.

É por temer tanto a morte que o incrédulo evita falar sobre esse tema. É por causa do medo que ele evita até pensar nesse assunto. Talvez, em alguns casos, pode ser que esse medo onipresente seja a causa da busca constante por diversão e entretenimento. Com efeito, ocupar a mente com o brilho das festas deixa pouco espaço para algumas sombras incômodas que não saem do coração nem com “reza braba”. O que ajuda um pouco é que, como tudo neste mundo, o medo da morte também envelhece, envelhece dentro da pessoa, de maneira que o indivíduo acaba achando um jeito de conviver com isso, ainda que nunca encare o problema de frente.

Todo esse incômodo interior de que falamos aqui é uma forma de escravidão, pois oprime o homem e impede sua plena felicidade. Ora, segundo o autor de Hebreus, Cristo veio ao mundo para livrar o ser humano disso também. Ao morrer, o Salvador carregou a nossa culpa e, ao ressuscitar, venceu a nossa morte. Agora, aos que o recebem e que, eventualmente, se assustam ao ver a vida ameaçada, ele diz: “Não temas. Eu participei da tua morte para que tu participasses da minha vida. Por isso, já que eu vivo para sempre, tu também viverás. E viverás eternamente”.

Assim, o efeito da encarnação não se assemelha apenas a uma ponte imensa que alcança a redenção futura. Esse efeito também se assemelha a um lago sereno que inspira paz e descanso no presente. E é só às margens desse lago, olhando para aquela ponte, que o homem pode ter, de fato, um feliz Natal.

Pr. Marcos Granconato

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