Sábado, 16 de Dezembro de 2017
   
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Um Messias pra Chamar de Seu

Pastoral

Das lembranças do Ensino Médio, uma aula que tive me marcou profundamente. Não aconteceu nada de engraçado ou inusitado naquele dia. Entretanto, em uma aula corriqueira de Literatura, conheci uma figura histórica cuja influência ilustrou muito bem alguns costumes do homem dentro e fora da igreja. Esse personagem era Dom Sebastião.

Rei de Portugal, Dom Sebastião viveu de 1554 a 1578 e tinha grande envolvimento com o catolicismo e com as Forças Armadas. Com o avanço dos turcos no continente africano, a Coroa Portuguesa se viu obrigada a intervir no Marrocos, único território do Norte da África que ainda se mantinha em disputa com os muçulmanos. Porém, segundo registros, em 4 de agosto de 1578, durante a batalha de Alcácer-Quibir, Dom Sebastião teria sido morto com apenas 24 anos de idade. O curioso dessa história é que seu corpo nunca foi encontrado oficialmente, o que resultou na crença mística de que, um dia, Dom Sebastião retornaria a Portugal, terminaria sua missão histórica e traria de volta toda a glória desfrutada pela nação lusitana em outros tempos. Essa lenda ganhou o nome de sebastianismo e suas ideias influenciaram não apenas Portugal, mas também o Brasil, conforme se pode perceber em alguns registros nacionais de tempos posteriores.

Crenças como essa, porém, não são exclusivas dos portugueses e, muito menos, dos séculos passados. Ainda que vivamos em uma geração digital e extremamente cética, é perfeitamente possível perceber traços dessa visão dissolvidos em nosso cotidiano, como que aguardando o dia em que o messias lusitano ressurgirá e colocará todas as coisas em ordem novamente. Pensando nesse contexto, é possível visualizar ao menos três áreas em que também experimentamos uma espécie de esperança "sebastianista" e, portanto, precisam de ajustes imediatos.

A primeira área em que vislumbramos isso de modo evidente é na política. Não poucas vezes, enchemo-nos de esperança quando algum candidato sobe aos palanques de debate e, diante de toda a nação, promete infinitas melhorias, avanços e medidas de combate à corrupção. Mesmo cansados da política brasileira, nosso coração arde na esperança de que o próximo prefeito, governador ou presidente seja, de fato, o messias político que tanto esperamos.

Como eu disse, pensamentos como esse não são exclusivos dos brasileiros. O próprio povo judeu dos tempos de Jesus esperava por um messias militar que fosse livrá-los do jugo romano e instaurar um reino de justiça e equidade (At 1.6). Por isso, não é difícil compreender a chateação dos discípulos de Jesus no caminho de Emaús quando perceberam que Cristo tinha sido crucificado e nenhuma restauração nacional tinha ocorrido (Lc 24.21).

Além da política, podemos perceber a influência desse misticismo messiânico em questões do nosso cotidiano. Em um raiar de esperança e renovação, muitas pessoas olham para o início de um novo ano como a certeza de que tudo será melhor e que o ano que se inicia será completamente libertador. Fico me perguntando: que magia acontece na virada de calendário do dia 31 para o dia 1º? Seja como for, muitos olham para o novo ano como uma espécie de “messias cronológico”, acreditando que, após o réveillon, o vento estará a favor de seus empreendimentos pessoais, profissionais e espirituais.

Como crentes maduros, precisamos encarar a verdade de que nossa vida não vai alavancar apenas porque trocamos nosso calendário de mesa. As coisas não funcionam assim no mundo real. Pode parecer um pouco pessimista ver as coisas dessa maneira, mas é fato que sempre jogamos para o dia de amanhã a esperança que deve estar no Senhor do amanhã.

Por fim, o terceiro campo em que deixamos essa espécie de messianismo aparecer é em nossa vida na igreja. Essa síndrome já é antiga e aparece justamente sob o nome de “Síndrome do Messias”. O mais curioso desse ponto e o que o distingue dos demais é que, aqui, o messias não é uma circunstância ou uma pessoa, mas sim o próprio indivíduo. Alguém é acometido desta terrível síndrome quando se torna um messias para si mesmo e espera que sua igreja local perceba isso para a redenção de seus projetos eclesiásticos.

Os sintomas são facilmente percebidos pela repetição de alguns bordões: “Ah, se eu fosse líder dos casais, as coisas seriam diferentes!”, “se o pastor me colocasse como dirigente dos cultos de oração, precisaríamos ampliar nosso salão!”, “se eu estivesse à frente do trabalho missionário, nossa região seria grandemente impactada pelo evangelho!”. Em manifestações mais sutis, esse orgulho messiânico é marcado pela constante insatisfação e críticas a qualquer tipo de trabalho ou atividade da igreja. Afinal, segundo esse pensamento, apenas o “Dom Sebastião da igreja” poderia trazer glória e renome à comunidade local onde congrega.

De fato, pode parecer um pouco infantil crer no sebastianismo como algo realmente profético. Mas não seriam todas essas expressões vazias de esperança uma simples manifestação do desejo maior do ser humano de ver tudo restaurado e posto em ordem? Ora, pois, é claro que sim! O problema, portanto, não está em querer uma restauração, mas no “messias” que cremos que realizará tal feito. Ao invés do novo presidente do País, nossa esperança final deve estar no Rei que governará com cetro de ferro (Ap 19.15) e que estabelecerá, aqui na Terra, um reino milenar de paz e justiça (Is 2.1-5). No lugar da crença de que a virada do ano nos trará menos problemas ou tristezas, devemos ansiar pelo retorno de Cristo e por nosso lar celestial, onde não haverá morte ou dor (Ap 21.4). Por fim, ao invés de focarmos em nós mesmos com olhos orgulhosos e prepotentes, devemos nos colocar na posição de servos e fixar o olhar naquele que levará sua igreja pura até o altar dos séculos (Ef 5.25-27).

Tendo isso claro em mente, descansemos na verdade de que há um Messias com M maiúsculo para chamar de nosso: Jesus Cristo, o Rei verdadeiramente ressurreto, que restaura não apenas nossa alma, mas também nossa história, partilhando conosco uma glória muito maior do que qualquer rei terreno possa sequer sonhar.

Níckolas Ramos

Líder de Jovens da IBR São Paulo

 

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