Terça, 17 de Outubro de 2017
   
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Graça, Paz... e uma Bela Bronca

Pastoral

“Que Deus, o Pai, e nosso Senhor Jesus Cristo lhes deem graça e paz” (Gl 1.3 NVT).

Nos tempos bíblicos, as saudações tinham contornos religiosos. Na verdade, eram pequenas súplicas que as pessoas que se cumprimentavam faziam uma em prol da outra. Assim, quando um judeu encontrava um amigo e lhe dizia “a paz do Senhor”, ele estava como que pronunciando uma breve oração, pedindo que a paz de Yahweh sobreviesse à pessoa cumprimentada.

Se isso for levado em conta e se considerarmos a Epístola aos Gálatas a carta mais antiga do “corpo paulino” (escrita em c. 48), então se pode dizer que o versículo citado acima é a primeira oração escrita por Paulo no NT.

As orações de Paulo registradas em suas cartas são muito ricas teologicamente. Cada item que as compõe tende a exigir do leitor certo esforço para a apreensão mais ampla daquilo que o apóstolo quis dizer. São orações, de certa forma, ousadas, em que Paulo pede grandes bênçãos espirituais aos seus leitores — bênçãos que, se fossem concedidas, fariam daqueles crentes homens e mulheres dotados de vigor de alma e de retidão de caráter que fariam inveja até aos anjos! Mesmo assim ele as pede, lembrando que Deus é poderoso para fazer infinitamente mais do que aquilo que pedimos ou pensamos (Ef 3.20).

No caso, porém, da primeira oração registrada por Paulo, não é possível encontrar ali um clamor muito carregado do ponto de vista doutrinário. É claro que a Carta aos Gálatas é riquíssima teologicamente, posto que nela o apóstolo lida com o tema central da soteriologia cristã: a justificação pela fé somente, sem a necessidade da observância das obras da lei. Contudo, em Gálatas, esse conteúdo denso em nenhum momento se expressa na forma de uma oração, sendo possível, talvez, somente vislumbrar uma alusão indireta a isso na súplica registrada em 6.16.

De fato, a oração apostólica em questão é simples. Pede apenas que Deus, o Pai, e o Senhor Jesus Cristo concedam aos crentes da Galácia graça e paz.

É fácil entender esses conceitos. A definição de “graça”, particularmente, já é lição de cartilha para os crentes. Trata-se do favor que Deus dirige às suas criaturas mesmo quando elas não merecem. Por meio da graça, o homem recebe toda provisão, tendo suas necessidades materiais, emocionais e espirituais supridas.

Quanto à paz, pode-se defini-la como a ausência de quaisquer perturbações, tanto as decorrentes das vicissitudes comuns da vida como as procedentes de conflitos interpessoais. Paz é serenidade tanto no íntimo como ao redor — algo que abrange a alma e o ambiente, a cabeça e a casa.

O que Paulo pede a Deus, portanto, é que seus leitores provem da plenitude do bem, da real felicidade, só experimentada num contexto de satisfação e sossego.

Por que Paulo faz essa súplica na Carta aos Gálatas? Alguém poderia sugerir que se tratava apenas de uma formalidade — um tipo comum de saudação epistolar. Ainda que essa visão tenha algum peso, deve-se considerar que o apóstolo expressa anelos semelhantes em outras porções da missiva endereçada aos crentes da Galácia (5.15; 6.16,18). Ademais, conhecendo o perfil de Paulo e a natureza dos escritos bíblicos, fica difícil imaginar que sua saudação fosse mera formalidade.

O que parece certo dizer é que Paulo deu publicidade a essa súplica porque estava prestes a ser muito duro com seus leitores, censurando-os severamente por se deixarem levar pelo falso evangelho dos mestres judaizantes que haviam se infiltrado entre eles. Sabendo que estava próximo de revelar sua indignação, Paulo tentou primeiro mostrar que amava os destinatários da sua carta e que, apesar do peso das palavras que logo lhes dirigiria, tinha sincero interesse na sua completa felicidade.

Essa deve ser a realidade que subjaz os motivos de qualquer pessoa que, ocupando uma determinada posição, se vê obrigada a admoestar alguém. O pai, o cônjuge, o pastor, o professor, o amigo, e qualquer um que, num determinado momento, percebe que precisa dar uma bronca pesada em quem errou, deve verificar se sua indignação brotou do interesse pelo bem do outro ou se cresceu apenas por causa de um eventual sentimento de antipatia, da disposição maldosa de criticar que, enfim, achou uma oportunidade para fazer seu ataque.

Paulo foi severo com os crentes da Galácia. Em alguns trechos dessa epístola é possível imaginá-lo com os nervos à flor da pele. Porém, sua breve súplica inicial, consubstanciada numa simples saudação, aparentemente tão formal em seus contornos, mostrava que a flor espinhosa da admoestação havia brotado no jardim regado, belo e colorido do anelo por graça e paz.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

 

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