Quinta, 17 de Agosto de 2017
   
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A Oração da Saudade Santa

Pastoral

Noite e dia oramos por vocês com fervor, pedindo que possamos vê-los novamente a fim de ajudá-los a aperfeiçoar a fé (1Ts 3.10).

Quinhentos e dois quilômetros separavam Paulo dos tessalonicenses. Ao deixar a recém-nascida igreja de Tessalônica às pressas por causa da perseguição, o apóstolo chegara a Atenas, de onde escreveu sua primeira carta àqueles novos convertidos. Essa carta expressa alívio, pois Paulo recebera boas notícias sobre o estado da nova igreja (3.6-8). A missiva, porém, também revela uma grande saudade; uma saudade intensa daqueles macedônios que Paulo tinha conhecido havia tão pouco tempo; uma saudade santa que influenciava fortemente o conteúdo das orações do apóstolo por aquela gente.

De que forma a saudade santa se revela na oração? O versículo transcrito acima ajuda a responder à essa pergunta. Nele, pode-se perceber que a oração do crente que tem saudades dos seus irmãos se manifesta na constância. Isso fica evidente a partir de três fatores presentes no texto. O primeiro é o uso da forma verbal. Paulo adota aqui o particípio presente do verbo orar, ressaltando uma ação contínua e incessante. Algumas versões da Bíblia em português tentam preservar a ideia de continuidade, própria do particípio presente, colocando o verbo no gerúndio. É uma boa tentativa. Seria como se Paulo dissesse assim: “Noite e dia eu fico orando...”.

A segunda forma como o apóstolo mostra a constância de suas orações em prol dos crentes de Tessalônica é pelo uso da expressão “noite e dia”. É claro que essas palavras não significam que o apóstolo não comia, nem dormia, passando todo o tempo em oração. Ao dizer que orava noite e dia, Paulo tentava apenas ressaltar a grande assiduidade de suas súplicas pela igreja à qual escrevia, mostrando o imenso espaço que ela ocupava em sua mente e coração.

A constância das orações de Paulo por seus irmãos também se manifestava no fervor. Quando se fala de oração fervorosa, muita gente pensa em crentes descabelados, com o rosto desfigurado, prostrados e clamando aos prantos que Deus os atenda. Não é esse necessariamente o sentido do fervor mencionado no texto transcrito acima. O vocábulo grego que o apóstolo emprega aponta para a atitude de quem faz algo com um grau de empenho que excede o normal, superando em muito a medida comum.

Assim, Paulo orava muito pelos tessalonicenses. Ele orava dando graças a Deus por eles (1.2-5; 2.13; 3.9) e, com o coração cheio de saudades, também orava continuamente para que Deus lhe desse uma oportunidade de voltar a vê-los. Ele até havia tentado ir visitá-los, mas seus planos não tinham dado certo (2.17-18). Por isso, a saudade continuava. E é bonito perceber que o mesmo sentimento existia nos crentes de Tessalônica (3.6). A saudade santa era, também, recíproca.

Não se pode, porém, deixar-se levar pelas impressões ou intuições comuns. Quando se fala em saudade, pensa-se apenas no desejo de rever uma pessoa, de estar com ela novamente e... nada mais. A saudade santa, porém a saudade do servo de Cristo que ama o rebanho eleito e se preocupa com ele —, vai muito além disso. Essa saudade quer ver quem ama e também fazer algo que promova seu bem espiritual. Não quer somente beijar a face, mas também edificar a fé.

Movido por uma saudade assim, Paulo afirmou que queria ver os crentes de Tessalônica “a fim de ajudá-los a aperfeiçoar a fé”. A fé dos tessalonicenses estava bem e só merecia elogios. Eles viviam numa cidade terrível. Com cerca de 200 mil habitantes, Tessalônica, na rota da famosa Via Egnatia, estava sempre repleta de viajantes, comerciantes e soldados que, indo do Oriente ao Ocidente e vice-versa, levavam para a cidade seus maus costumes e suas crenças mentirosas.

Em Tessalônica havia um rede organizada de prostituição e a imoralidade era tão comum que as paredes das casas eram ornamentadas com figuras obscenas. Tudo isso redundava no nascimento de bebês indesejados que eram abandonados para morrer à mingua. A violência em Tessalônica estava fora de controle a ponto de as pessoas construírem casas sem janelas para dificultar o trabalho dos ladrões. O número de divórcios aumentava a cada dia, revelando a condição deplorável das famílias. Além disso, a forte comunidade judaica presente ali se opunha ao evangelho, trazendo sofrimento para os crentes da igreja recém-plantada (2.14-16).

Mesmo em meio a tudo isso, a fé dos tessalonicenses só merecia elogios. Eles permaneciam firmes, deixando Paulo muito satisfeito. Por que, então, o apóstolo queria vê-los e “ajudá-los a aperfeiçoar a fé”? Muito simples: a fé viva e operante dos crentes é como uma árvore, que, por mais bela e viçosa que seja, sempre pode crescer e se tornar mais forte (4.1). Paulo sabia disso. Sabia que nos galhos daquela bela árvore de fé havia espaço para mais frutos e ele desejava ardentemente trabalhar junto aos tessalonicenses para que esses frutos brotassem. Isso intensificava sua saudade santa, que achava na oração uma forma de expressão e (quem sabe) alívio.

Vivemos dias de tanta indiferença e apatia no meio cristão! Poucos entre nós carregam no peito um coração gigante, cheio de espaço para a saudade santa. Temos, pois, de imitar o apóstolo nisso também, orando continuamente pelos crentes que amamos e desejando com todo vigor contribuir com o robustecimento da sua fé.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine


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