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Carta a um Amigo Missionário

 

Carta a um amigo missionário[1]

 São Paulo, 15 de Junho de 2010

 Meu caro amigo missionário,

 Espero que essa carta encontre você e sua família bem e com saúde. Sou grato a Deus pelo seu exemplo de abnegação e pela determinação incansável em cumprir ensinamentos bíblicos explícitos, embora ignorados pela grande maioria dos cristãos. Há muito queria escrever-lhe, mas não encontrava ocasião (confesso que eu carecia de ousadia também).

Fiquei preocupado com as informações a meu respeito que têm chegado até você. Escrevo para lhe esclarecer[2]. Muitos que trabalham no metiê têm dito que eu saí do ministério. De fato, eu deixei de protagonizar conferências missionárias. Não mais busco sustento de pessoas e de igrejas. Não menciono projetos (mirabolantes) em regiões remotas do globo (as quais continuo frequentando). Ninguém me tem por missionário nas igrejas que visito. Tornei-me um crente normal (ainda que crentes normais sejam raros em nossos dias).

Os mantenedores não sabem, os missionários tampouco desconfiam, mas eu tenho me envolvido com missões. Não é grande coisa, apenas algumas pessoas com as quais invisto tempo enquanto trabalho em minha empresa. São discípulos a quem compartilho a fé e a Bíblia (nada que mereça um momento missionário no culto).

Desde que voltei do campo, comecei uma empresa visando a passar mais tempo com pessoas que não conhecem Jesus (lembro-me que passar tempo com não-cristãos era uma grande dificuldade para nós, missionários de tempo integral; ao menos os churrascos da equipe eram animados).

Hoje trabalho com colegas não-crentes de oito a dez horas por dia. Não precisei usar nenhuma técnica de evangelismo para falar da fé para essas pessoas, exceto a técnica do almoce com os os colegas de trabalho e demonstre interesse por seus problemas (foi no seminário que apredendemos isso? não me lembro mais). Gasto tempo e recursos[3] com essas pessoas de forma intecional – eles são meu ministério. Sonho em iniciar uma igreja com esse grupo.

Tornei-me também autosustentável. Descobri que isso também é bíblico. Sabemos que Jesus e Paulo (esse um algumas ocasiões)[4] viviam de ofertas. Entretanto, o apóstolo considerava legítimo trabalhar nos momentos em que se fixava em algum lugar. Ele se prepreocupava em não ser demasiadamente custoso às igrejas[5]. Não são apenas as pessoas que vivem de sustento que são biblicamente espirituais[6]

Não estou sozinho. Outros têm feito a mesma coisa que eu. São pessoas que amam a Deus e querem serví-lo, mas não se conformam com modelos missionários padronizados nem com o ritmo frenético das empresas que amam o dinheiro. Um movimento silencioso iniciou-se – missão empresarial (ME)[7] - com irmãos que operam empresas legítimas e lucrativas nos mais diversos lugares do mundo. São empreendimentos reais, fazendo negócios verdadeiros, com gente de verdade trabalhando nelas (que aprendem contabilidade, administração e economia). Não são plataformas[8] e seus trabalhadores crentes não se consideram macarronis[9]. Querem trabalhar e estabelecer igrejas. Implantam igrejas enquanto trabalham e trabalham enquanto implantam igrejas.

O Evangelho é feito de relacionamentos e os que a empresa naturalmente proporciona são intencionalmente usados para compartilhar o Evangelho. A empresa missionária preocupa-se com os funcionários, com os clientes e com a relação entre ambos. Ações missionárias são pensadas para estes três tipos de relacionamentos – segundo o gráfico[10] ao lado.

 Os crentes que ouviram a respeito desse tipo de trabalho tiveram reações diversas – não foram muito animadoras. As principais objeções estão em uma tabela:

 

Público

Reações

Liderança da Igreja local

  • Apega-se ao movimento missionário tradicional.
  • Valorizam o sofrimento.
  • Expectativas quanto ao missionário:

  • viver de sustento;
  • mostrar fotos de gente pobre ou de crentes perseguidos;
  • contar histórias de sofrimento;
  • fazer conferências missionárias tocantes;
  • fazer com que o missonário use roupas típicas e faça uma apresentação tocante.

Empresários Cristãos

  • Há o temor de que ME venha a diminuir os lucros e transformar a empresa em igreja;
  • O pragmatismo dos negócios muitas vezes provoca dilemas éticos (legislação e impostos).

Missionários de carreira

  • Há grande temor de perder o sustento que já foi difícil de obter;
  • Muitos não entendem o trabalho como meio de levar o evangelho e desejam tempo para o verdadeiro ministério.
  • Há um certo comodismo do meio missionário com respeito a horários, ao trabalho duro e a tarefas consideradas burocráticas (relatórios empresariais, etc).
  • Muitos não tiveram profissão e temem o malogro;
  • Muitos não sabem conviver 12hs por dia com pessoas que não são cristãs.

Crentes

  • Entendem missões como tarefa dos chamados – sem questionar a abrangência do termo[11].
  • Acham a idéia interessante, mas preferem terceirizar a tarefa missionária àqueles que tem o chamado.

Agências missionárias

  • Há enorme confusão sobre o assunto. Não entendem o modelo de ME.
  • Têm receio de serem transformadas em empresas.
  • Medo da ruptura do modelo: sustento à taxa administrativa para a missão à levantamento de sustento em ano sabático.

O quadro não é muito animador (ainda), mas existem reações positivas. Tem crescido o interesse de se fazer mais pelo Evangelho usando as profissões e as empresas. Alguns líderes e organizações[12] importantes tornaram-se incentivadores, entretanto as reações positivas não valem uma tabela (não me chame pessimista, mas admito ser simpatizante de Morgenthau[13]).

Você deve lembrar de meu interesse pelos povos não-alcançados. Ele manteve-se, mesmo consciente de que o tempo do desbravamento acabou[14]. Tenho planos de implantar uma filial da empresa na cidade em que você mora. Ficarei feliz em recebê-lo para um café. O governo – mesmo muçulmano – preocupa-se com o desenvolvimento do país – me concedeu o visto de negócios (para 2 anos).

Finalmente, tenho ouvido coisas a seu respeito também. Disseram-me que você estava usando as fotos dos subnutridos e dos esfomeados em sua divulgação missionária. Não se preocupe. Não acreditei que você estivesse fazendo isso. Não consigo crer que um crente verdadeiro, cuja tarefa principal é amar a Deus e as pessoas, use a miséria, a morte e a tragédia dos outros para benefício pessoal. Um missionário verdadeiro, como você, não ousaria melhorar o sustento dessa forma.

Me despeço com grande saudade e alegria.

De seu amigo e irmão,

 

Um ex-missionário missionário

 

** O texto é de autoria de Pedro Wazzen de Freitas, membro da Igreja Batista Redenção, formado em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida em Atibaia - SP. 

 




[1] Essa é uma carta de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, datas e acontecimentos reais é mera coincidência. O remetente e o destinatário são personagens fictícias.

[2] O embasamento teórico-teológico foi desenvolvido nas notas de rodapé.

[3] Jesus foi enfático ao afirmar que o uso proposital dos recursos financeiros para angariar amigos é recomendável: E eu vos recomendo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16:9)

[4] A Bíblia não considera o viver de sustento e o trabalhar como mutuamente exclusivos. Na cidade de Corinto, o apóstolo obteve recursos financeiros de ambas as formas (At 18.3; 2Co 11.8).

[5] Paulo certamente trabalhou em Corinto (At 18.3), em Tessalônica (1 Ts 2.9) e em Éfeso (At 20.34). Tinha preocupação em não ser pesado financeiramente (2Co 11.9, 12.13-16 e 1Ts 2.9)).

[6] Viver pela fé é comumente  associado a receber o sustento da igreja e de irmãos. Os textos de Rm 1.17 e Gl 3.11 não devem ser usados para finanças, mas soteriologicamente. Mesmo os que os aplicam no sentido das finanças (erroneamente), devem confrontar-se com a perspectiva de que o justo (o crente) vive por fé, ampliando a idéia difundida pelos missionários de que os que vivem com sustento vivem pela fé. Todo crente, trabalhando ou não, deve viver por fé. Em Hb 10.38 a expressão viver por fé é usada para o incentivo à perseverança, não havendo referência a finanças.

[7] A conferência de Lausanne de 2004 (com o Occasional Paper No. 59) faz uso da expressão Business as Mission. Apesar de Empresa Missionária expressar com mais precisão o conceito, consagrou-se, em português, o uso de Missão Empresarial.

[8] Tradução literal do termo inglês (platform). Muito usado para referir-se ao tipo de atividade que proporciona a permanência do missionário em algum país. Infelizmente, é comum que a plataforma seja apenas uma atividade de fachada para obtenção de vistos, especialmente em países muçulmanos.

[9] Macarroni significa missionário no jargão criado no meio, em especial nos países com resistência ao Cristianismo.

[10] KOTLER, Philip. Administração de Marketing. 4ª edição, p. 408. A pirâmide (adaptada) sintetiza os relacionamentos de uma empresa de serviços. Para cada tipo de público, são elaboradas ações para melhorar o desempenho da empresa e gerar satisfação.

[11] Das 28 ocorrências de chamados no NT (derivadas de klhtov ou de kalew), nenhuma aplica-se a missionários. Referem-se (23 delas) aos convocados por Deus para a salvação e para a vida cristã.

[12] CCI, SEPAL, Interserve e Frontiers são algumas das organizações que trabalham com ME no Brasil.

[13] Hans Morgenthau contribuiu para a formação da escola realista das relações internacionais, que se opõe à visão idealista de que os Estados agem em harmonia e paz (da Liga das Nações). A crueldade da Segunda Guerra Mundial marca o estabelecimento do realismo como doutrina dominante.

[14] Eric Hobsbawn apresenta Livingstone e Stanley como os últimos desbravadores missionários, seguidos por viajantes de poltrona da era de ouro do capitalismo no século XIX: Os penúltimos 25 anos do século XIX eram, como os editores cedo descobriram, o início de uma idade de ouro feita para uma nova raça de viajantes de poltrona, seguindo Burton e Speke, Stanley e Livingstone através da mata e da floresta virgem. HOBSBAWN, Eric. A era do capital. 13ª edição, p. 96. Essa perspectiva deve ser levada em conta quando mencionam-se os não-alcançados. O fato de não existir igreja autóctone forte em muitos lugares não necessariamente é resultado da ausência de contato com cristãos e com o mundo evangelizado.

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