Sexta, 23 de Junho de 2017
   
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Carneiros Mortos em Elefantina

Pastoral

O livro de Jeremias informa que, ao tempo do exílio babilônico, um grupo de judeus decidiu fugir para o Egito, indo contra as orientações de Deus reveladas ao profeta (Jr 43.1-7). Pois bem. A arqueologia mostra que, de fato, por esse tempo, uma comunidade judaica se instalou numa pequena ilha do rio Nilo, no Alto Egito, chamada Elefantina (o nome talvez seja decorrente de pedras que há no local e que têm o formato de elefantes). Essa comunidade criou raízes em seu novo lar e, no fim do século 19, foram descobertos ali papiros datados do século 5 a.C., época do Império Persa (época também em que viveram Esdras e Neemias).

Os papiros de Elefantina são muito interessantes. Neles é possível descobrir detalhes fascinantes sobre o dia a dia daquela sociedade em seus relacionamentos interpessoais, seus dramas familiares, seus conflitos religiosos e sociais, suas preocupações individuais... Há até informações sobre um judeu que se apaixonou por uma escrava egípcia e construiu com ela, por um longo período de vida a dois, uma bela história de amor, fidelidade e autodoação.

O mais curioso, porém, sobre os judeus de Elefantina é que eles construíram um templo! Sim, um templo semelhante ao que havia sido destruído por Nabucodonozor em Jerusalém. Ora, todos sabem que isso era proibido por Deus. O AT dizia expressamente que nenhum templo dedicado a Yahweh podia ser construído fora do local que o próprio Senhor havia apontado (Dt 12.4-14). Os judeus de Elefantina, porém, parecem não ter levado isso em conta. Será que eles não conheciam essa proibição? Será que eles a conheciam, mas deram a ela uma interpretação mais livre? Ou será que simplesmente decidiram desobedecê-la de forma escancarada? Não sabemos.

O fato é que eles construíram um templo a Yahweh em Elefantina e, certamente, os judeus de Jerusalém e da Babilônia não devem ter gostado nem um pouco disso. Como, porém, havia uma grande distância entre eles, os problemas com o templo não surgiram em decorrência de visões judaicas conflitantes. Os problemas com o templo do Senhor surgiram por causa dos egípcios que moravam em Elefantina.

A religião dos egípcios tinha como uma de suas marcas principais a divinização de animais. Eles adoravam crocodilos, cobras e gatos. Fílon de Alexandria, um judeu que viveu no século 1 da era cristã, disse ironicamente que se a religião egípcia fosse adotada no mundo inteiro, a raça humana seria extinta, sendo devorada por animais selvagens que, sendo supostamente divinos, não poderiam ser impedidos de fazer o que quisessem. De fato, os egípcios consideravam bem-aventurado o homem que morria devorado por um crocodilo ou picado por uma serpente.

Em Elefantina não era diferente. Ali havia a adoração de Khnum, um deus-carneiro. E o templo de Khnum era bem ao lado do templo judaico. Na verdade, as duas construções faziam divisa uma com a outra. Agora, adivinhem quais eram os bichos que os judeus sacrificavam no altar de Yahweh? Isso mesmo: carneiros! É óbvio que essa situação era uma bomba-relógio. E essa bomba estourou finalmente num levante em que os egípcios destruíram o templo judaico de Elefantina.

Eu confesso que toda essa história dos judeus de Elefantina me fascina. Até porque, sem querer falar sobre os erros e acertos daquela antiga comunidade, penso que é possível, observando secamente os fatos, aprender daquilo tudo algumas coisas importantes para a experiência cristã. Uma delas ― a que mais prontamente me vem à cabeça ― é a lição de que o culto a Deus é ofensivo aos perdidos, pois mata todos os seus carneiros, isto é, todos os seus ídolos tolos.

Com efeito, no culto a Deus matamos o carneiro da autoglorificação, o carneiro da autossuficiência, o carneiro da autossatisfação e o carneiro da autoindulgência. Nesse culto aflora a nossa indignidade diante de um Deus infinito de quem dependemos até para respirar. Nesse culto não se tenta agradar ao adorador (como muitas “igrejas” fazem por aí), mas sim àquele a quem o culto é verdadeiramente devido. Nesse culto, a autoindulgência morre, posto que a pregação da Palavra santa põe o homem face a face com seu pecado, instando-o a se arrepender, purificar-se pelo sangue da cruz e mudar de vida. Agora digam: como os egípcios de hoje poderão tolerar algo assim? Como podemos esperar tocar em seus carneiros sujos e obter a simpatia dessa gente? O conflito é inevitável. Ataques e inimizades fatalmente surgirão!

Mesmo assim prosseguimos. O antigo templo de Elefantina foi reconstruído, mas, infelizmente, os judeus prometeram solenemente não sacrificar mais carneiros ali. Conosco, porém, é diferente (ou, pelo menos, deve ser). Mesmo sob os mais ferozes ataques continuamos apunhalando os carneiros que o mundo adora. Pela graça de Deus, na Elefantina do verdadeiro cristianismo o altar nunca ficará vazio.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

 

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