Sábado, 22 de Julho de 2017
   
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A Esperança Escondida na 'Mishná'

Pastoral

Depois da destruição de Jerusalém pelo general Tito, em 70 AD, a cidade virou um bagaço. Era gente morta pra todo lado. Não dava pra andar nas ruas sem pisar em cadáveres já em decomposição. O cheiro de carne podre misturado com o odor da fumaça dos incêndios sufocava os sobreviventes abatidos pela fome. O choro já não era mais ouvido porque os habitantes da cidade haviam entrado num estado de fraqueza e assombro que os tinha transformado em zumbis. Eles apenas perambulavam trôpegos, sonhando em encontrar algum dejeto imundo que lhes servisse como última refeição.

Passado algum tempo, Jerusalém ficou praticamente deserta e os imperadores romanos proibiram que alguém morasse ali ou que tentassem reconstruir a cidade. Na época, os velhos sábios do judaísmo censuravam os judeus que, para cortar caminho, passavam pelo local sagrado onde um dia se elevara o grande templo de Yahweh. Revoltados com a situação, cerca de sessenta anos depois da invasão de Tito, os judeus tentaram se rebelar mais uma vez contra os romanos, seguindo um líder chamado Simão Bar Kochba. Porém, mais uma vez o resultado não foi dos melhores. O imperador Adriano esmagou o levante e os judeus tiveram de sofrer novamente o peso do castigo romano.

Sem esperança, então, de ter sua velha cidade de volta, com seu templo, sacrifícios, festas e sacerdotes, os judeus começaram uma construção. Não a construção de um templo novo, mas a construção de um edifício feito com palavras, tentando preservar algo da identidade judaica, num tempo em que todos os fatores distintivos da nação de Israel pareciam ter ido pro brejo. Foi assim que os rabinos iniciaram, em Séforis, na Galileia, a produção da Mishná (o termo significa “repetição”, ligado à ideia de estudar e revisar), o registro da tradição oral judaica, uma espécie nova de Torá que ensinava como devia ser a vida ideal de um judeu no dia a dia, em seus mínimos detalhes. O objetivo inicial dos rabinos era apenas explicar a lei de Moisés e comentá-la, mas, no fim das contas, eles a reescreveram, fixando normas que regiam até o tipo de meia que um homem podia usar!

O que mais chama a atenção, porém, na Mishná, é o fato de ela trazer orientações sobre o funcionamento do templo e sobre os sacrifícios ali oferecidos. Ora, nenhum dos autores dessa obra sequer viu o templo de Jerusalém. Quando a Mishná foi escrita, fazia muitos anos que não havia mais “pedra sobre pedra” no lugar daquele imenso edifício sagrado. Mesmo assim, aqueles rabinos se ocuparam da tarefa, aparentemente tola, de ensinar, por exemplo, como deviam ser as ofertas de animais e de cereais no altar de Jerusalém e até qual devia ser o formato do nariz dos homens que serviam no templo!

Por que isso? Por que se preocupar com normas cúlticas sem nenhuma aplicação e sem qualquer sentido? A explicação é uma só: aqueles judeus aguardavam o Messias! Eles esperavam um rei libertador que viria ocupar o trono de uma Jerusalém restaurada e queriam estar preparados para quando ele chegasse. Crendo nas antigas profecias do AT, eles sabiam que na Era Messiânica o templo seria reconstruído e o Senhor dos exércitos seria ali adorado pelas nações de toda a Terra. Acreditando que esse dia estava prestes a chegar, eles não perderam tempo e logo trataram de se preparar fixando as normas que deveriam reger o sistema de culto do que criam ser um judaísmo renascido.

Em que pesem os erros da tradição rabínica expressa na Mishná, em que pese ainda a nossa tristeza por saber que aqueles judeus aguardavam um Messias já vindo, uma coisa eu confesso admirar naqueles velhos mestres de Séforis. Eu admiro sua esperança. Opa! Melhor dizendo: eu admiro a expressão de sua esperança. Aqueles homens não aguardavam algo nutrindo isso em algum canto escuro do coração, enquanto olhavam para as ruínas da cidade santa. Não! A esperança deles trabalhava. Eles se preparavam para o dia em que ela se concretizaria e, como a mulher que arruma a casa para receber um visitante ilustre, eles tomavam medidas práticas para recepcionar o rei tão esperado ― o rei davídico que, na verdade, virá sim um dia (pela segunda vez!), fazendo todos os judeus dizerem: “Ihhh! Era ele mesmo!”.

É uma esperança que se expressa assim que devemos ter. Não podemos viver um cristianismo contemplativo, com o olhar vago fixado no vazio, lamentando daqui e dali a sorte desse mundo mau. Nossa esperança tem de trabalhar, ter movimento e realizar coisas. O templo judaico ainda está em ruínas, mas o rei virá em breve. Paulo fez questão de lembrar que um dia “de Sião virá o libertador e ele apartará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26). Logo, tendo essa esperança, purifiquemo-nos a nós mesmos “assim como ele é puro” (1Jo 3.3), mantenhamos nossa lâmpada acesa e deixemos de lado as obras das trevas, sabendo que vai alta a noite e o dia logo vem, quando a estrela da alva finalmente brilhará, desta vez para sempre (Rm 13.11-14).

Consideremos, pois, que nem tudo em Israel desabou com o incêndio do segundo templo. Uma esperança ficou de pé estimulando alguns judeus a ficarem prontos. Essa esperança, porém, é mais nossa do que dos rabinos de qualquer tempo, pois já conhecemos o Messias. Por que, então, também não nos preparamos desde já para a sua concretização, enquanto andamos pelas ruínas deste mundo caído?

Pr. Marcos Granconato

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