Domingo, 16 de Dezembro de 2018
   
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Jeremias 2.9-19 – As Consequências do Abandono


9   “Por isso, ainda entrarei em juízo com vocês” ― declara o Senhor ― “e com os filhos dos seus filhos.

10    Vão até a ilha de Chipre e vejam. Enviem alguém a Quedar e reparem com muita atenção. Vejam se já aconteceu algo assim.

11    Vejam se alguma nação trocou seus deuses, mesmo não sendo deuses de verdade. Entretanto, o meu povo trocou seu Deus glorioso por deuses que não podem ajudá-los.

12    Que os céus fiquem espantados e horrorizados por causa disso. Que fiquem sobremodo aterrorizados” ― declara o Senhor.

13    “Pois meu povo cometeu dois males: Eles abandonaram a mim, a fonte de águas vivas, a fim de cavar para si poços, cisternas rachadas que não retêm a água.

14    Por acaso Israel é um escravo doméstico? Será que ele nasceu na escravidão? Por que, então, veio ele a ser cativo?

15    Leões rugiram e levantaram sua voz contra ele. Deixaram sua terra devastada. Suas cidades foram tão arruinadas que não são mais habitadas.

16    Até os homens de Menfis e de Tafnes rasparam sua cabeça.

17    Não foi você mesmo que fez isso a si ao abandonar o Senhor, seu Deus, enquanto ele o conduzia pelo caminho?

18    Sendo assim, que bem haverá para você em ir ao Egito para beber a água do Nilo? E que bem haverá para você em ir à Assíria para beber a água do Eufrates?

19    Sua maldade será a razão do seu castigo e sua apostasia será a razão da sua repreensão. Saiba e veja quão ruim e amargo é abandonar o Senhor, seu Deus, e não temer a mim” ― declara o Senhor, o Senhor dos exércitos.

Uma das grandes dificuldades que o homem moderno tem para crer em Deus é justamente o fato de não vê-lo. Em tempos cuja aparência e formato são fundamentais para quase todos os valores pelos quais o mundo se esforça, é difícil se entregar de coração àquilo que é invisível ― apesar de verdadeiro. Entretanto, tal dificuldade não é exclusividade dos nossos dias, mas esteve presente na humanidade ao longo de toda a história, incluindo o povo de Israel. Apesar de terem ao seu lado o Deus Todo-poderoso que tanto os abençoava graciosamente, a história israelita foi marcada pelo abandono do Senhor em função da busca de deuses inexistentes, mas cujas estátuas podiam ser vistas e tocadas. O israelitas, em meio a uma tolice inominável, preferiam servir a objetos inanimados e inúteis a adorar o Senhor do universo. Que isso sempre aconteceu, é um fato. Entretanto, é um fato que carrega consigo sérias consequências, especialmente para Israel, com quem Deus fez um pacto, no Sinai, que previa bênçãos e maldições condicionadas à fidelidade ou infidelidade do povo.

Os v.1-8 apresentam uma terrível descrição do abandono do Senhor por todas as esferas da sociedade israelita, incluindo aquelas que mais deviam prezar pela santa adoração e serviço do seu Deus. Por essa razão, o v.9 aponta as duras consequências da apostasia alistada no início do capítulo (v.9): “Por isso, ainda entrarei em juízo com vocês ― declara o Senhor ― e com os filhos dos seus filhos”. A frase começa com um advérbio que expressa uma relação de causa e efeito que pode ser traduzido como “por isso”, “portanto” ou “consequentemente”. Dessa forma, o que é dito nesse trecho é compreendido com sendo a consequência dos problemas e da infidelidade expostos na primeira parte do capítulo.

A expressão “entrarei em juízo” traz a ideia de brigar, contender ou entrar em litígio judicial. Significa que Deus cobraria as faltas daquela geração de modo duro e severo, segundo os rigores da sua justiça. Porém, Deus não apenas diz que entraria em juízo com o povo, mas “ainda entrarei em juízo”. Esse advérbio temporal ― “ainda” ― parece querer desarmar uma falsa esperança daquela época de que o juízo jamais atingiria Jerusalém, dada a presença nela do templo do Senhor, o qual o povo supersticiosamente cria ser um tipo de salvo-conduto para seus males. Segundo pensavam, Deus jamais deixaria cair nas mãos de inimigos a cidade em que estava seu templo, pois ele certamente seria destruído ― o próprio profeta Jeremias alerta o povo sobre essa falsa esperança ao dizer: “Não confieis em palavras falsas, dizendo: templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este” (Jr 7.4). Por outro lado, a paciência divina, séculos a fio enviando profetas e protelando seu juízo, foi certamente mal-interpretada por aqueles que desprezavam seu amor e julgavam que as maldições da lei jamais os atingiria ― uma postura cínica semelhante a essa foi observada e denunciada por Pedro em seus dias: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). Desse modo, o juízo anunciado, que não fora cumprido até então, “ainda” ocorreria.

O trecho final do versículo, que informa que o juízo alcançaria “os filhos dos seus filhos”, traz algumas dificuldades de compreensão. Normalmente, em uma construção assim, esperaríamos a frase “e com os seus filhos”, menção que não limitaria necessariamente as consequências a uma geração apenas. Porém, apesar de alguns manuscritos hebraicos e da Vulgata Latina indicarem tal opção, as evidências textuais são pequenas para tal alteração. A compreensão adequada parece recair sobre o fato de ser óbvio que os filhos, a geração seguinte, entraria nesse mesmo juízo, o qual duraria até a terceira geração ― dados os setenta anos de vigência do Império Neo-Babilônico e a subsequente libertação dos israelitas do cativeiro. Assim, três gerações, grosso modo, enfrentariam as consequências diretas do pecado acusado nos v.1-8. Apesar das sutis dificuldades na interpretação dessas palavras, algo claro é a ligação que o texto quer fazer entre a consequência aqui anunciada e os juízos previstos na aliança mosaica por aquele que se apresentou no decálogo dizendo ser “o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem” (Êx 20.5b).

Assim como em outras partes, o Senhor coloca suas acusações de modo bastante didático e impactante, o que, nesse caso, se dá por meio de uma comparação vergonhosa para Judá, a qual começa com a menção de locais muito distantes e dos territórios que levam até lá (v.10): “Vão até a ilha de Chipre e vejam. Enviem alguém a Quedar e reparem com muita atenção. Vejam se já aconteceu algo assim”. Citar a “ilha de Chipre” não tem como intenção isolar essa localidade, mas estabelecer uma viagem rumo ao Oeste que passa por diversas terras e povos. Quanto a Quedar, tratava-se de uma grande tribo de origem árabe, cujo território ficava entre Arábia, Petra e Babilônia, a leste de Israel. De modo mais amplo, o termo Quedar também podia ser utilizado para apontar genericamente as tribos árabes como um todo.[1] Em outras palavras, é como se o Senhor dissesse: “Empreendam uma viagem de Leste a Oeste e verifiquem todos os povos dessas regiões, vendo se algum deles fez o mesmo que vocês”.

Compreendida a extensão da comparação proposta por Deus, a parte vergonhosa dela é exposta ao recordar que nenhum dos povos desse largo território chegou a cometer o absurdo que os israelitas fizeram diante do Deus verdadeiro e único (v. 11): “Vejam se alguma nação trocou seus deuses, mesmo não sendo deuses de verdade. Entretanto, o meu povo trocou seu Deus glorioso por deuses que não podem ajudá-los”. O estudo da história das nações antigas mostra que acontecia de certos povos acrescentarem alguns novos ídolos ao seu panteão, mas nunca de ignorarem e abandonarem seus deuses.[2] Contudo, Israel fez exatamente isso, substituindo seu “Deus” por outros “deuses”. A expressão “seu Deus glorioso” é a tradução do que significa, literalmente, “sua glória” ― expressão que fala por si só não apenas da glória divina, mas do privilégio glorioso que era, para Israel, ter esse Deus ao seu lado. Já o trecho “deuses que não podem ajudá-los” quer dizer, em sua forma original, “aquilo que não tem serventia” ou “aquilo que não traz proveito algum”. É um modo de dizer que o povo fez um péssimo negócio ao buscar deuses que, por serem falsos, eram também inúteis.

A verdade é que a deserção de Israel diante do seu Deus era algo que não estava de acordo nem com os atos das nações pagãs.[3] Esse fato é realçado de modo dramático quando o texto, em meio à personalização figurada do céu, chama-o como testemunha estupefata desses indescritíveis acontecimentos (v.12): “Que os céus fiquem espantados e horrorizados por causa disso. Que fiquem sobremodo aterrorizados ― declara o Senhor”. Ao utilizar tais expressões ― “espantados”, “horrorizados”, “aterrorizados” ―, os céus são chamados a reagir com absoluto desgosto e repugnância contra a tolice de Israel.[4] Na verdade, Deus está, com isso, descrevendo seu próprio desgosto, o qual traz à tona para que pessoas sensatas sintam o mesmo e para que os tolos temam.

A razão para tal repugnância e desgosto é o assunto do versículo seguinte (v.13): “Pois meu povo cometeu dois males: eles abandonaram a mim, a fonte de águas vivas, a fim de cavar para si poços, cisternas rachadas que não retêm a água”. Os dois males citados aqui são complementares, sendo, o primeiro, a apostasia, e o segundo, a idolatria. A deslealdade de Israel podia ser comparada à troca da fonte de água viva, pura e refrescante, pela água estragada de uma cisterna rachada,[5] uma ótima comparação para quem abandonou o Senhor que os acolheu e partiu em busca da adoração a Baal, deus cananita cujas estátuas feitas por mãos humanas eram tão inúteis quanto a esperança de livramento e de benefícios vindo dele. A imagem se complica ainda mais quando a figura expõe o abandono de uma fonte perfeita, dada a eles graciosamente, em função de eles terem de cavarem para si um novo poço,[6] desperdiçando trabalho e obtendo um resultado negativo, muito aquém do que gratuitamente eles tinham, mas desprezaram.

Cisternas eram geralmente construídas em encostas e eram feitas com calcário. Era preciso passar gesso no seu interior para que a água da chuva se acumulasse ali. Porém, tais cisternas iam, com o tempo, desenvolvendo rachaduras de modo a haver infiltração e vazamento de água, fazendo com que o proprietário da cisterna perdesse os benefícios desejados durante sua construção.[7] Algumas cisternas já eram erguidas com defeito, em meio a trincas, e jamais se tornavam úteis ― figura que representa bem a situação do pecado e da apostasia dos israelitas. Excelente comparação para a estupidez demonstrada pelo povo da aliança ao rejeitar seu Deus e buscar falsos senhores.

Com uma argumentação magistral, o Senhor faz perguntas cujas respostas são claras, mas cujo peso é impossível de calcular (v.14a): “Por acaso Israel é um escravo doméstico? Será que ele nasceu na escravidão?”. Esses são questionamentos retóricos e muito impactantes. O impacto vem do fato de serem até ofensivos a um povo nascido em meio a uma história memorável de patriarcas que receberam promessas gloriosas e cujos nomes atravessam os séculos. Outra razão para tanto era o fato de não conhecerem escravidão por mais de oito séculos, desde o êxodo das terras do Egito. Qualquer judeu que ouvisse tais perguntas endureceria seu semblante e responderia decididamente: “Não, não somos escravos, nem nascemos na escravidão!”. Mas tal resposta é que justamente os colocaria em xeque diante da próxima pergunta (v.14b): “Por que, então, veio ele a ser cativo?”. Infelizmente, a resposta de liberdade e independência, em certo sentido, não passava de uma bravata irreal, pois aquele povo se tornou, sim, escravizado por outros senhores. Deus não se referiu a senhores de outras nações, mas aos falsos deuses que eles, de modo tolo e idólatra, passaram a servir. Essa situação fez deles escravos das mentiras em que vieram a crer, dos ritos execráveis que se puseram a cumprir e da dependência inútil que passaram a ter em entidades imaginárias que em nada lhes podiam ajudar. A grande ironia é que o pecado cria tal cegueira que, apesar de Deus ter elegido Israel, o libertado do Egito e lhe dado a terra de Canaã, fez com que os israelitas desejassem voltar à escravidão.[8]

A linguagem cheia de figuras fortes e sugestivas continua na acusação do povo rebelde (v.15): “Leões rugiram e levantaram sua voz contra ele. Deixaram sua terra devastada. Suas cidades foram tão arruinadas que não são mais habitadas”. Apesar de o versículo utilizar os verbos no tempo passado ― o “perfeito”, no hebraico ―, trata-se de uma forma chamada “perfeito profético”, a qual fala do futuro como que descrito do ponto de vista de quem o viu ocorrer. Sendo assim, trata-se de uma descrição de algo que abateria o povo de Judá quando lhe recaísse o juízo divino. Nesse sentido, os inimigos são retratados como “leões” que rugem ao capturar sua presa. O resultado prático seria a devastação da “terra” e o esvaziamento das “cidades”, as quais ficariam vazias por causa de mortes e do desterro. Seria uma situação semelhante à vivida pelo território de Samaria que, tendo sido abatida pela Assíria, em 722 a.C., passou a ter tão poucos habitantes que os leões asiáticos começaram a se multiplicar e se tornaram um risco à vida (2Rs 17.25-26).[9]

O peso dessa declaração de juízo é notado desde o princípio. Contudo, ele vai assumindo novas formas e novas implicações com o decorrer do argumento, como a introdução do Egito, ainda que de modo secundário, na execução do castigo (v.16): “Até os homens de Menfis e de Tafnes rasparam sua cabeça”. A ação descrita como “rasparam sua cabeça” quer, literalmente, dizer “apascentaram seus crânios” ou “passaram o arado sobre suas cabeças”. O significado pode tanto ser o de quebrar a cabeça de seus inimigos, como, o mais provável, a ideia de tosquiar o rebanho que, para tanto, era apascentado. Desse modo, fica clara a vitória dos invasores sobre o povo de Israel e a humilhação dos israelitas. Nesse caso, a tosquia aqui aludida pode ser tanto uma descrição figurada como até mesmo literal, já que raspar a cabeça dos inimigos derrotados a fim de humilhá-los era uma prática comum daqueles dias. Uma figura paralela, da mesma natureza, foi usada por Isaías para se referir à humilhação que Judá sofrera perante a Assíria, um século antes: “Naquele dia, rapar-te-á o Senhor com uma navalha alugada doutro lado do rio, a saber, por meio do rei da Assíria, a cabeça e os cabelos das vergonhas e tirará também a barba” (Is 7.20).

Como Mênfis e Tafnes eram importantes, centrais e poderosas cidades egípcias, parece que a mensagem é a de que, apesar de ser a Babilônia a espada escolhida por Deus para trazer juízo a Judá, até mesmo o Egito seria usado para impor sofrimento ao povo apóstata e idólatra. De fato, entre 609 e 605 a.C. ― desde a morte do rei Josias na batalha contra o faraó Neco até a tomada da região por Nabucodonosor ―, Judá se viu acossado e dominado pelo Egito. Na verdade, Neco levou cativo para o Egito o rei que sucedeu Josias e colocou seu irmão no lugar, mudando-lhe o nome. Tanto o cativeiro do rei como a imposição de um novo nome ao rei sucessor foram atos que demonstraram o poder do Egito sobre o povo de Israel, expondo-os a uma situação extremamente humilhante, assim como ocorria quando vencedores de uma batalha raspavam a cabeça de seus conquistados. Compreendendo tal quadro, é possível perceber que Deus anunciou um severo juízo que seria administrado em várias fases, cujo sofrimento seria crescente e os resultados cada vez mais devastadores.

A fim de que Israel não se desviasse do foco do juízo que recairia sobre sua cabeça, o profeta trata de responsabilizar os verdadeiros culpados por tudo que ocorreria (v.17): “Não foi você mesmo que fez isso a si ao abandonar o Senhor, seu Deus, enquanto ele o conduzia pelo caminho?. Algo comum nas pessoas que passam por crises e sofrimentos é culpar os outros e reclamar da vida. Se algo ruim ocorre, não faltam candidatos para levar a culpa pelo mal, junto com severas críticas sobre seu caráter, intenções e planos perversos. É normal também, em situações semelhantes, ouvir os sofredores se queixarem da vida e da falta de sorte, algo que, no final das contas, acaba por respingar no próprio caráter e desígnio do Senhor, visto não existir um destino cego não controlado pelo soberano. O que não é comum é o sofredor confessar seus erros e afirmar sua culpa nos acontecimentos que o levaram ao pranto e à dor. Mas os israelitas não poderiam lançar sobre outros a culpa que era deles mesmos, algo que o texto torna indelével ao afirmar que “você mesmo que fez isso a si ao abandonar o Senhor, seu Deus”. O agravante é que esse abandono se deu justamente quando ele os “conduzia pelo caminho” cujos resultados práticos levariam a bênçãos, paz e prosperidade vindas das mãos do Deus gracioso. A verdade é que Judá deveria saber que tanto os males passados como os futuros eram resultados do abandono do Deus de Israel.[10]

Tendo deixado claro que os falsos deuses que eles escolheram servir não poderiam ajudá-los quando Deus levantasse a nação que lhes serviria de punição, o próximo passo foi tirar as esperanças do povo de encontrar auxílio em outras nações por meio de alianças político-militares (v.18a): “Sendo assim, que bem haverá para você em ir ao Egito para beber a água do Nilo?”. A expressão “água do Nilo” se encontra, no texto original, como “água de Shihor”, sendo que Shihor é um braço do rio Nilo. Muito sugestiva a figura da água, já que os falsos e inúteis deuses são comparados, anteriormente, a cisternas rachadas. Nesse caso, também não seria possível aliviar a sede de proteção em rios de outros povos, como, no caso, no Egito. De fato, durante os dias de Jeoaquim houve uma tentativa de aproximação com o Egito com o fim de fazer frente ao domínio babilônico, mas isso não terminou bem para a liderança política de Jerusalém, pois os egípcios nada puderam fazer para conter o poder dos caldeus.

Do mesmo modo, não se deviam manter esperanças no moribundo império assírio, prestes a cair, cerca de uma década depois, diante de Nabonido e de seu filho, Nabucodonosor (v.18b): “E que bem haverá para você em ir à Assíria para beber a água do Eufrates?”. No texto original, a palavra aqui traduzida por “Eufrates” quer dizer apenas “rio”, más não é difícil identificar de que rio o texto fala, dado seu tamanho, importância e, obviamente, localização nas terras assírias. A singularidade do rio Eufrates pode ser vista, por exemplo, no rito de aliança de Deus com Abraão, no qual o Eufrates é nomeado como “grande rio Eufrates” (Gn 15.18). Quanto ao sentido geral do texto, trata-se de um alerta sobre a inutilidade de alianças com a Assíria a fim de manter sua segurança. A verdade é que tais acordos, mesmo quando promoviam a segurança contra certos inimigos, acabavam sujeitando a nação mais fraca ao parceiro poderoso, como foi o caso, um século antes, do acordo do rei Acaz com a Assíria a fim de proteger Judá de Israel ― o reino do Norte ― e da Síria. A proteção veio, mas não sem altos custos e sofrimentos para Judá. Talvez, querendo impedir que algo assim voltasse a ocorrer, é que o próprio rei Josias, apesar de suas qualidades e seu temor ao Senhor, acabou lutando contra os egípcios que iam a caminho de socorrer a Assíria contra a Babilônia, o que resultou na morte do bom rei.

A aplicação geral desse versículo surge quando ele expande a figura que vem sendo pintada pelo texto. Se Israel havia abandonado a “fonte de águas vivas” e construído para si “cisternas rachadas que não retêm a água”, sua sede certamente os impulsionaria a buscar água em outras fontes. Em outras palavras, eles rejeitaram seu protetor e benfeitor para buscar outros que não podiam lhe ajudar ou proteger. Por isso, também buscariam proteção e apoio no Egito e na Assíria, algo que seria completamente inútil e traiçoeiro para Israel, completando seu quadro de julgamento.

O trecho acusatório não termina sem que o Senhor mais uma vez deixe claro quem tinha a real responsabilidade por tudo que recairia sobre o povo infiel (v.19a): “Sua maldade será a razão do seu castigo e sua apostasia será a razão da sua repreensão”. A frase “sua maldade será a razão do seu castigo” que dizer, em hebraico, “sua maldade o castigará”, sendo esse um recurso de personificação no qual a culpa pelo mal age como se fosse uma pessoa que pune aqueles que se tornaram merecedores dela. É uma afirmação paralela à do v.17, no qual Israel é o culpado pelos males que lhe sucederiam, não tendo ninguém mais a quem culpar além de si. Do mesmo modo, o trecho “sua apostasia será a razão da sua repreensão” tem a forma original “sua apostasia o repreenderá”, produzindo a mesma ideia da primeira parte. Tendo dado nome aos culpados pelos males que viriam, o texto termina com um alerta de sabor amargo que liga os culpados às consequências que sofreriam (v.19b): “Saiba e veja quão ruim e amargo é abandonar o Senhor, seu Deus, e não temer a mim ― declara o Senhor, o Senhor dos exércitos”. Em dias recentes, seria cabível a expressão “eu não te disse?”. Assim, o destino dessa nação infiel e rebelde estava selado e nada poderia evitar que o mal fosse punido, razão pela qual uma forma tão solene é utilizada ao final, com uma declaração do “Senhor, o Senhor dos exércitos”, aquele capaz de comandar o povo que viria contra Judá e abater aqueles que lhe fossem defensores.

É uma pena que, mesmo tendo passado tantos séculos desde que tudo isso aconteceu e que as palavras divinas foram creditadas pela exatidão de suas previsões, os homens continuem a se rebelar contra ele, rejeitá-lo e trocá-lo por coisas inúteis e valores passageiros que não podem garantir ao ser humano a justiça necessária para atravessar incólume o tribunal divino. Mais triste ainda é ver servos do Deus verdadeiro, justificados pela fé em Jesus, caírem no mesmo erro e substituírem seu Deus glorioso por valores e prazeres sedutores, abandonando o povo do Senhor e rejeitando a comunhão divina. Por isso, o mesmo alerta permanece e diz: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado” (Hb 3.12-13). Quanto às consequências, também são as mesmas e incluem dura disciplina: “Ora, nós conhecemos aquele que disse: a mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: o Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.30-31). Que os erros de Israel impulsionem os acertos da igreja de Cristo.

Pr. Thomas Tronco


[1] Spence-Jones, H. D. M. (Ed.). Jeremiah. The Pulpit Commentary. London: Funk & Wagnalls: 1909, vol. 1, p. 23.

[2] Huey, F. B., Jr. Jeremiah, Lamentations. The New American Commentary. Vol. 16. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993, p. 63.

[3] LaSor, William S., Hubbard, David A.; Bush, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 380.

[4] Newman, B. M., Jr.; Stine, P. C. A Handbook on Jeremiah. New York: United Bible Societies, 2003, p. 59.

[5] Merrill, Eugene. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd, 2009, p. 501.

[6] Zuck, Roy. Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 373.

[7] Matthews, V. H.; Chavalas, M. W.; Walton, J. H. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. Downers Grove: InterVarsity Press, 2000, [Jr 2.13].

[8] House, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2005, p. 388.

[9] Harrison, R. K. Jeremias e Lamentações: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 46.

[10] Pinto, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento no Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 630.

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