Sábado, 18 de Novembro de 2017
   
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Os Desigrejados do Bem

Pastoral

Como sou cessacionista, as pessoas acham engraçado quando digo que vou profetizar alguma coisa. Como se sabe, o cessacionismo acredita que o dom de profecia (e alguns outros) não existe mais. Isso não impede que o Senhor, vez por outra, fale ao seu povo de um jeito “diferente”. Afinal de contas, ele é Deus e faz o que quer. Porém, dizer que alguém tem o dom de profecia hoje é algo que o cessacionismo nega abertamente. 

Mesmo assim, às vezes eu brinco dizendo que vou profetizar alguma coisa. Faço isso quando observo certas tendências e percebo para onde as coisas estão caminhando. Aí, ligando os pontinhos, eu enuncio uma “profecia” e ― acreditem ― dificilmente eu erro. Sabe aquela onda de “pornografia evangélica” que chocou um monte de gente há alguns anos? Pois bem. Eu já havia “profetizado” que isso aconteceria muito tempo antes. Na época disseram que eu estava exagerando e que isso jamais ocorreria. O tempo mostrou, no entanto, que minha previsão era “infalível”!

Já deu pra perceber que o que às vezes chamo jocosamente de “profecia” é apenas o enunciado natural do que vai ocorrer com base na simples observação do modo como as coisas caminham. Se um bonde sem freio desce a ladeira, é fácil prever que ele vai arrebentar os carros que estão passando lá embaixo. Não há mistério nisso. É só levar em conta os fatos. Assim, é a partir da consideração dos fatos que tenho sido tentado a arriscar mais uma “profecia” ― uma profecia referente aos futuros guardiões do verdadeiro evangelho.

Deixem-me explicar: como aconteceu nos tempos da Reforma Protestante, a igreja atual não prega mais as Boas Novas da salvação em Cristo. O que predomina no meio “gospel” é a banalização do culto, os espetáculos bizarros, a espiritualidade teatral, a exploração descarada, a superstição tosca... É verdade que isso tudo é mais presente no meio pentecostal. Porém, mesmo no meio tradicional, o quadro é feio... E bem feio! Há igrejas em que o pecado reina escandaloso sem que seja aplicada disciplina alguma, há pastores que pregam futilidades, jamais alimentando o povo com as antigas verdades da Bíblia, há liturgias repletas de banalidades estéreis (danças, coreografias, shows pirotécnicos...), há canções evangélicas mais vazias que o túmulo do Nicodemus...

Essa triste realidade faz surgir um tipo de desigrejado diferente. Não é aquele desigrejado que saiu da igreja por ser encrenqueiro, por criticar tudo, por não aceitar a autoridade pastoral ou por desejar viver no mundo. Não! Esse desigrejado do mal é apenas um desviado, um apóstata que se alegra ao encontrar uma desculpa qualquer para cair fora da igreja e nunca mais voltar. É o rebelde que faz pose de santinho ofendido e que vai para o mundo dizendo que a culpa é do pastor ou coisas assim. É da boca dessa encrenca que escutamos o velho e tolo jargão criado pelo diabo: “A igreja sou eu”. Desse tipo de desigrejado não podemos esperar nada. Ele é inimigo da igreja e quer que ela desapareça. Aliás, exatamente como fazem os incrédulos, ele vibra quando fica sabendo que esta ou aquela comunidade eclesiástica vai mal ou fechou as portas.

Já o desigrejado “diferente” a que aludi, o desigrejado que surge da crise eclesiástica que nos cerca, é o desigrejado do bem. Ele está fora da igreja porque no lugar em que mora realmente não há onde congregar. Ele ama o ajuntamento dos santos e anela participar dele, mas, por mais que procure, não consegue encontrar uma igreja de verdade em que a Palavra seja pregada fielmente, em que os crentes vivam num grau substancial (ainda que imperfeito) de santidade e amor, em que haja decência, ordem, disciplina, culto verdadeiro, louvor maduro e alimento sólido.

O desigrejado do bem vive triste e sedento. Sente-se cansado em sua busca de uma igreja boa. Ora a Deus pedindo direção e auxílio e, quando tem a felicidade de encontrar uma comunidade verdadeira de eleitos de Deus, apega-se a ela com todas as forças de sua alma, louvando ao Pai por lhe ter mostrado o caminho, guiando-o até a congregação dos justos.

Infelizmente, porém, nem sempre essas pessoas acham a sonhada igreja. Então, começam a se reunir em suas casas com outros crentes que se veem na mesma situação. Notem bem: eles não fazem isso para formar meras “células” em que só compartilham experiências, tocam violão e comem pipoca. Seu desejo, na verdade, é formar igrejas mesmo ― igrejas com pastores e diáconos, igrejas que observam as ordenanças bíblicas (batismo e Ceia), que formam rol de membros, ouvem pregações, praticam a disciplina eclesiástica e tudo mais. Eles dão origem, assim, a pequenos embriões eclesiásticos, visando à formação de igrejas maduras, dinâmicas e bíblicas num futuro próximo. 

Tenho visto vários grupos desse tipo espalhados por aí. Muitos deles entram em contato comigo pedindo orientação acerca de como proceder na formação oficial da sonhada igreja. Então eu tento ajudar com o maior prazer e dentro das minhas imensas limitações.

Bom, lembram que eu comecei falando sobre arriscar fazer uma profecia? É aqui que a minha profecia entra. Num futuro breve, em meio a toda corrupção e desvio que permeiam as grandes denominações, eu creio que as verdadeiras guardiãs do evangelho puro serão essas pequenas igrejas. Pontilhando o imenso deserto espiritual que o meio evangélico se tornou, as igrejinhas que agora vão, aos poucos, se formando serão obscuros, mas preciosos oásis que reterão a água pura da verdade, dando de beber aos viajantes cansados.

Eu não creio, pois, na força das grandes denominações, nem no impacto dos congressos gigantescos. Tampouco acredito nos projetos magníficos das poderosas organizações paraeclesiásticas. Eu creio, isso sim, na sublimidade do pequenino rebanho, na força concedida por Deus ao seu povo obscuro e discreto que, unido como igreja bíblica e verdadeira, leva avante a boa semente. Eu creio, assim, no potencial oculto na comunhão humilde dos desigrejados do bem.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

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