Sábado, 18 de Agosto de 2018
   
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O que Significa a Eleição de Israel por Deus?

 

Muita confusão se faz no meio teológico a respeito do que significa Deus ter escolhido Israel como seu povo. Alguns pensam que todo israelita era salvo por ser povo de Deus. Outros pensam que nem todos eram salvos justamente porque a salvação seria pela obediência à Lei e não pela fé. E a maioria tem extremas dificuldades de entender o papel de Israel atualmente e no desfecho da história da humanidade, nos dias escatológicos.

Para resolver tal questão o caminho não é ir logo às profecias que ensinam sobre o futuro, mas voltar primeiro os olhos para a questão da eleição em si e entender como e porque Israel foi eleito pelo Senhor. Para tanto, vamos observar 3 TIPOS DE ELEIÇÃO no Antigo Testamento, no contexto em que Israel foi eleito e separado como povo de Deus.

1. A eleição salvífica

Apesar de esse ser o ponto culminante da doutrina da eleição no Novo Testamento, no Antigo só podemos chegar a ele por meio de dedução, com o auxílio da mensagem do Novo Testamento. Podemos ver algumas fagulhas da eleição para a salvação no cumprimento da salvação entre os gentios, segundo observou Lucas: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48).

Esse acontecimento se deve ao fato de Deus ter decretado tal alcance para a obra redentora de Cristo que foi prevista por Isaías: “Também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra” (Is 49.6b).[1] Ressalte-se que, mesmo com a forte conexão entre esses dois textos, o caráter genérico da profecia de Isaías destoa do caráter específico e pessoal da constatação de Atos. Sendo assim, ainda é por dedução que chegamos a ver a eleição pessoal para a salvação no texto do Antigo Testamento.

Apesar disso, um fator essencial à doutrina da eleição para a justificação pode ser notado desde o livro de Gênesis: a “incondicionalidade”. Significa que Deus não procurou condições fora do seu próprio plano ou desejo para chamar Abraão, visto que não havia nele pontos positivos a se considerar.

Em lugar disso, vemos um Abraão idólatra antes do seu chamado. Isso porque Abraão, em sua mocidade, junto com sua família participava de uma adoração pagã: “Antigamente, vossos pais, Tera, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e serviram a outros deuses” (Js 24.2b). Merrill afirma que “a principal divindade adorada em Ur era o deus lua sumeriano Nannar, conhecido em acadiano como Sin. Não há dúvida de que Abrão e sua família eram devotos fiéis a Sin e às divindades a ele associadas”.[2]

Deus chamou Abraão nessas condições, na sua terra e enquanto vivia como seus conterrâneos. O chamado de Deus, em primeiro lugar, o afastou da idolatria do seu povo e da sua casa e o fez andar próximo de Deus rumo a uma terra que ele não conhecia, fazendo-o confiado na bondade e na veracidade do Senhor que o chamou. Em meio a essa jornada com Deus, “ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15.6) e “foi chamado amigo de Deus” (Tg 2.23).

Se percebermos que Abraão nunca teria conhecido nada disso se o Senhor não o tivesse chamado dentre todos os homens da terra, a dedução da eleição de Abraão para a justificação por meio da fé não é algo a ser desprezado. Pelo contrário, ela produziu, mesmo nos mais antigos leitores de Gênesis, uma noção mais apurada a respeito da graça imerecida que o Senhor aplica aos homens que chama e santifica para si.

Talvez o exemplo mais nítido da escolha imerecida de Deus por um servo a quem vai justificar seja o caso de Jacó. Ainda que não haja uma declaração aberta sobre a eleição para a justificação,[3] está presente só a “incondicionalidade” da escolha, visto que ele demonstrou falhas enormes de caráter. Está presente, também, um concorrente na escolha – Esaú – que também não merecia ser escolhido por Deus para o nobre propósito dado a Jacó. Entretanto, sendo primogênito, esse seria o fator de desempate em uma escolha difícil. Entretanto, Deus escolheu o mais moço em lugar do mais velho (Gn 25.23).[4] Esse é um exemplo palpável de eleição, contudo, não claramente para a salvação, ainda que a escolha tenha, posteriormente, resultado nisso.

Isso também revela que Deus escolhe quem quer amar. Por isso, ainda que os dois meninos fossem filhos dos mesmos pais, nascidos no mesmo dia e compartilhando a mesma condição espiritual (ver Sl 51.5), Deus “decidiu” amar Jacó e rejeitar Esaú: “Não foi Esaú irmão de Jacó? – disse o Senhor; todavia, amei a Jacó, porém aborreci a Esaú” (Ml 1.2,3). A igualdade entre os irmãos, expressa na pergunta “não foi Esaú irmão de Jacó?”, aponta para o “amor” de Deus como fator que distinguiu os irmãos.

Mais um fator comum à doutrina reformada da eleição é a ênfase na “vontade de Deus” como fator determinante: “Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33.19). O trecho destacado foi utilizado por Paulo em associação à “justa vontade de Deus” como causa da eleição incondicional dos seus servos (Rm 9.14,15), e conclui: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16).

É nítida a dependência do Antigo Testamento da mensagem do Novo para formar o conceito da eleição incondicional para a justificação, fato que conduz à conclusão de que ela é uma doutrina fundamentalmente neotestamentária (Rm 8.28-30; 9.11-23; Ef 1.4,5,11).[5]

2. A eleição instrumental

Tendo em mente as limitações do sentido neotestamentário de eleição no Antigo Testamento, há nele outros dois sentidos não apenas presentes, mas com presença enfática. O primeiro deles é a eleição de pessoas (nações também podem ser incluídas nesse sentido, apesar de ser mais raro) a fim de cumprirem propósitos de Deus na administração da história. Essa eleição normalmente está ligada também a um chamado para a justificação, mas nem sempre. Deus elegeu pessoas que simplesmente atuaram historicamente como Deus pretendia, mas que não chegaram a conhecê-lo como redentor de suas vidas.

Um exemplo marcante de eleição é Abraão. Nele convergem os três tipos de eleição. A eleição para a salvação não é afirmada, mas é deduzida pelo resultado do chamado divino. Sua eleição pessoal é, também, a eleição do povo de Israel – sendo esse o terceiro sentido de eleição, o qual será tratado no próximo tópico. Deus o chama, sem que apresentasse méritos pessoais, para iniciar por meio dele um povo pelo qual o Senhor traria a redenção dos pecados, um povo de onde viria um salvador. Seria, também, o povo por meio de quem Deus se revelaria aos homens demonstrando-lhes a necessidade que têm de buscar o Senhor pela fé para o perdão dos pecados e para a anulação da sua culpa e condenação.

Nesse sentido, Deus se refere ao propósito da escolha e do chamado de Abraão nos seguintes termos: “Porque eu o escolhi[6] para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gn 18.19). Abraão era o veículo da existência de um povo pactual que Deus utilizaria na história, era o abençoador não só da sua descendência, mas de todas as nações (Gn 12.3), além de ser o exemplo motivador de Israel, conforme diz esse texto, de obedecerem ao Senhor e imitarem as características do patriarca que foi chamado “amigo de Deus”.

Moisés também foi escolhido por Deus para realizar tarefas da maior importância na história de Israel e da redenção. Ele foi chamado para tirar Israel do Egito (Êx 3.7-10), para mediar a aliança entre Deus e Israel (Êx 20.19-22; 24.1-12) e para fazer registros fundamentais das Escrituras (Êx 17.14; 34.27; Dt 31.24). Sobre ele, “disse Samuel ao povo: Testemunha é o Senhor, que escolheu a Moisés e a Arão[7] e tirou vossos pais da terra do Egito” (1Sm 12.6). A palavra hebraica utilizada nesse texto é “fazer” (“assâ”, em hebraico). Literalmente, o texto diz: “O Senhor, que fez a Moisés”. Esse verbo está ligando a ação de Deus sobre Moisés à tarefa de tirar os pais da terra do Egito. Sendo assim, o sentido do verbo aponta para o fato de Deus ter feito de Moisés o agente da sua atuação libertadora. O tê-lo “feito”, portanto, implica escolha divina, de modo que a tradução acima de 1Samuel 12.6 corresponde à realidade.

A tribo de Levi – os levitas – também foi escolhida e separada por Deus para um propósito dentro de Israel: “Porque o Senhor, teu Deus, o escolheu[8] de entre todas as tuas tribos para ministrar em o nome do Senhor, ele e seus filhos, todos os dias” (Dt 18.5). Nesse mesmo sentido, Deuteronômio 21.5 afirma que os propósitos da escolha dos levitas é separá-los “para o servirem, para abençoarem em nome do Senhor e, por sua palavra, decidirem toda demanda e todo caso de violência”. Assim, o encargo de todos os serviços no tabernáculo ficou sob a responsabilidade dos levitas.

Como um levita, Arão também foi escolhido para desenvolver uma atividade peculiar no culto israelita, que era o “sacerdócio”. Quando Eli peca contra Deus, fazendo “vistas grossas” aos pecados de seus filhos, Deus fala a ele sobre o chamado da “casa de teu pai” (Arão), dizendo: “Eu o escolhi dentre todas as tribos de Israel para ser o meu sacerdote” (1Sm 2.28a). A NET Bible traduz: “Eu escolhi seu ancestral de todas as tribos de Israel para ser meu sacerdote”.[9] Fica claro que a escolha de Deus é o fator que alterou o rumo da vida de Arão e seus descendentes e não qualquer qualidade ligada ao próprio Arão. Como Deus o escolheu, poderia ter escolhido a qualquer um que desejasse.

O caso de Saul, como escolha divina para iniciar a monarquia israelita, é curioso. Samuel afirma a escolha divina para o cargo real: “Vedes a quem o Senhor escolheu? Pois em todo o povo não há nenhum semelhante a ele. Então, todo o povo rompeu em gritos, exclamando: Viva o rei! (1Sm 10.24 cf. v.21). Porém, duas realidades tornam tal escolha uma exceção entre os casos vistos até agora. Em primeiro lugar, a escolha de Saul como rei parece não ter encontrado o mesmo ato de Deus a fim de justificá-lo pela fé. Tirando seus primeiros dias como rei – provavelmente, ainda sob a influência da pequena posição que sua família ocupava mesmo na sua própria tribo (1Sm 9.21) –, Saul demonstrou ser uma pessoa que não temia a Deus, nem se preocupava em obedecê-lo.

As sucessivas declarações de rejeição de Saul por parte de Deus (1Sm 13.14; 15.28; 28.17,18) combinam com pecados terríveis, como perseguir Davi por ciúmes (1Sm 18.8,9) e matar os sacerdotes israelitas (1Sm 22.18.19). O fato de Deus ter retirado dele seu Espírito e, em consequência disso, ele passar a ser atormentado por um espírito maligno (1Sm 16.14), sugerem que ele nunca foi justificado pela fé, a exemplo de outros homens do Antigo Testamento que creram e foram salvos.

Em segundo lugar, Deus o escolheu para exercer um tipo de punição aos israelitas insubmissos, aplicando-lhes sua ira. Tal insubmissão se viu na ação de os israelitas pedirem um rei. Seu rei, até então, era o próprio Deus, de modo que o pedido deles incorria na rejeição do Senhor como líder nacional: “Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele” (1Sm 8.7). A motivação parece não ser simplesmente ter um sistema de governo por meio de uma monarquia – Deus havia incluído esse propósito em suas promessas (Gn 17.16) –, mas desejar ser como as nações circunvizinhas, nações que o Senhor não tinha santificado para si. Era, em resumo, uma fuga da responsabilidade de ser um “povo santo”: “Constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações” (1Sm 8.5b).

Isso suscitou a ira do Senhor de modo a escolher Saul não para a bênção do povo, mas como modo de lançar sobre Israel essa ira. Oseias se refere a esse pedido por um rei e diz: “Dei-te um rei na minha ira e to tirei no meu furor” (Os 13.11 cf. v.10). Ao dizer que em lugar de Saul, Deus deu Davi como rei, qualificando-o como “homem segundo o meu coração” (At 13.22 cf. v.21), Deus dá mostras de que Saul era o rei “segundo o coração do povo”, um rei como das outras nações.

O resultado desse desejo foi sofrimento diante da guerra e a eliminação da casa real corrompida. A escolha de Saul, portanto, é um tipo peculiar de eleição pessoal para um propósito. Uma na qual o propósito é apenas histórico e não salvífico. Mesmo assim, é uma eleição que se enquadra no devido conceito veterotestamentário.

Depois da escolha de Saul como punição aos israelitas, Deus efetua outra escolha e elege Davi como rei. A nítida escolha surge quando Deus envia Samuel à casa de Jessé para ungir o próximo rei. Lá, Samuel conheceu primeiro os irmãos de Davi, mas “o Senhor não escolheu estes” (1Sm 16.10). Sabendo da existência de outro filho que ali não se encontrava, “mandou chamá-lo e fê-lo entrar. Era ele ruivo, de belos olhos e boa aparência. Disse o Senhor: Levanta-te e unge-o, pois este é ele” (1Sm 16.12). Asafe reconhece essa escolha e declara: “Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas” (Sl 78.70).

Quando Davi é chamado de “homem segundo o meu coração” (At 13.22), é comum os leitores relacionarem essa designação à ideia de um homem cujo coração estava ligado a Deus. Ainda que isso seja verdade – a história de Davi o mostra –, a designação em questão se refere ao coração de Deus e não de Davi. É como se Deus dissesse: “Esse é o homem segundo o meu propósito”, ou “segundo o meu desejo”. É uma referência direta à eleição de Davi como rei que cumpriria a promessa feita aos patriarcas de um rei que seria da tribo de Judá (Gn 17.16; 35.11; 49.10). Por isso, ele podia se referir a isso com propriedade: “Disse, porém, Davi a Mical: Perante o Senhor, que me escolheu a mim antes do que a teu pai e a toda a sua casa, mandando-me que fosse chefe sobre o povo do Senhor, sobre Israel, perante o Senhor me tenho alegrado” (2Sm 6.21). A própria escolha de Davi revela em uníssono a escolha de Judá como tribo da qual viria a linhagem real da promessa:

 

Davi disse: “O Senhor, Deus de Israel, me escolheu de toda a casa de meu pai, para que eternamente fosse eu rei sobre Israel; porque a Judá escolheu por príncipe e a casa de meu pai, na casa de Judá; e entre os filhos de meu pai se agradou de mim, para me fazer rei sobre todo o Israel” (1Cr 28.4).

Salomão, filho de Davi, também foi alvo de uma escolha para uma tarefa específica. Quando Davi se propôs a construir um templo para o Senhor, em Jerusalém, que substituísse o tabernáculo – pois achou que um tipo de barraca não transmitia a glória divina –, o Senhor o impediu a efetuar a empreita e disse que seu herdeiro o faria.

Davi tinha vários filhos e alguns deles aspiravam ao trono. Entretanto, o Senhor escolheu quem seria o próximo rei: “Teu filho Salomão é quem edificará a minha casa e os meus átrios, porque o escolhi para filho e eu lhe serei por pai” (1Cr 28.6). Davi não deixou de transmitir tal fato a Salomão (1Cr 28.1-7) e acrescentou que essa escolha se estendia à tarefa de ser o construtor do templo em Jerusalém: “Agora, pois, atende a tudo, porque o Senhor te escolheu para edificares casa para o santuário; sê forte e faze a obra” (1Cr 28.10).

A eleição para um propósito levantou, também, profetas. Em alguns casos, isso fica implícito, como nos chamados de Isaías (Is 6.1-10) e de Amós (Am 7.14,15). Contudo, no caso de Jeremias, a escolha prévia para a função profética é declarada de modo explícito: “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações” (Jr 1.5).

Líderes políticos de outras nações também são alvo, no Antigo Testamento, de eleição divina para realizarem uma função de ordem histórica. Um desses líderes foi Nabucodonosor, chefe do que foi conhecido como “Império Neo-Babilônico”,[10] o qual durou setenta anos (609-539 a.C.).[11] Como instrumento histórico escolhido por Deus, o Senhor o chama de “Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo” (Jr 27.6) e diz que lhe entregará as nações. Como ferramenta escolhida, ele teria a tarefa de trazer “espanto” e “ruínas perpétuas” às “nações em redor” (Jr 25.9), ao distante Egito (Jr 43.10,11) e até à nação de Judá e sua capital Jerusalém, como punição prevista pelos seus pecados contra o Senhor:

 

Portanto, assim diz o Senhor: Eis que entrego esta cidade nas mãos dos caldeus, nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, e ele a tomará. Os caldeus, que pelejam contra esta cidade, entrarão nela, porão fogo a esta cidade e queimarão as casas sobre cujos terraços queimaram incenso a Baal e ofereceram libações a outros deuses, para me provocarem à ira. Porque os filhos de Israel e os filhos de Judá não fizeram senão mal perante mim, desde a sua mocidade; porque os filhos de Israel não fizeram senão provocar-me à ira com as obras das suas mãos, diz o Senhor (Jr 32.28-30).

Outro líder mundial escolhido por Deus para administrar a história foi Ciro, chefe do Império Medo-Persa, o qual derrubou o Império Neo-Babilônico na segunda metade do século 6 a.C. Se Nabucodonosor é chamado “meu servo”, Ciro é chamado “meu pastor” e “ungido do Senhor” (Is 44.28; 45.1). Em primeiro lugar, sua função é derrubar reinos dentre os quais o principal é a Babilônia: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face” (Is 45.1a).

Em segundo lugar, por meio de uma política externa diferente da praticada pelos predecessores assírios e babilônicos, tinha a função de fazer os israelitas exilados voltarem a Judá e reconstruírem Jerusalém e o templo: “Digo de Ciro: Ele é meu pastor e cumprirá tudo o que me apraz; que digo também de Jerusalém: Será edificada; e do templo: Será fundado” (Is 44.28) e “na minha justiça, suscitei a Ciro e [...] ele edificará a minha cidade e libertará os meus exilados, não por preço nem por presentes, diz o Senhor dos Exércitos” (Is 45.13). Se Nabucodonosor foi o instrumento da “ira” de Deus, Ciro foi o instrumento da sua “graça” e da sua “fidelidade à aliança”. A eleição de Ciro fica ainda mais evidente quando se nota que Isaías proferiu essas profecias mais de cento e cinquenta anos antes de elas se cumprirem.[12]

3. A eleição de Israel

De todos os conceitos da eleição, esse é certamente o mais importante no Antigo Testamento. A eleição de Israel como povo com quem Deus se relacionaria de maneira especial e que teria uma função histórica ímpar é um dos assuntos que guiam a teologia do Antigo Testamento.

O chamado de Abraão, por si só, implica a eleição de Israel como um povo santificado pelo Senhor para a execução do seu plano redentor – nesse aspecto, essa eleição encontra paralelos com a eleição de pessoas para propósitos específicos. Contudo, o chamado do povo escravizado no Egito, sua libertação e a aliança feita no Sinai são a separação efetiva desse povo para se tornar um servo especial do Senhor na terra. Não é, fundamentalmente, uma nação cheia de servos individualmente eleitos, mas “um servo” como “povo santo”.

A nação israelita, como um todo, é uma entidade com quem Deus fez um pacto e a quem Deus chamou de “filho”. Comentando sobre a cláusula “nação santa”, presente na instituição da aliança no Sinai, Walter Kaiser Jr. diz:

Nunca mais os descendentes dos patriarcas foram tidos somente como uma família. Eles assumiram uma identidade nacional distinta, mas de um tipo atípico. Coletivamente, eles eram divinamente designados como “meu filho”, “primogênito” de Deus (Êx 4.22 cf. Jr 31.9). Essa ideia de uma filiação divina da toda a nação foi uma extensão da ideia da eleição. Está, também, implícito um relacionamento familiar no qual esse grupo compartilha dos benefícios obtidos para eles por meio do seu goel (“resgatador”) no Êxodo. Seu status de “primogênito” significava que eles foram escolhidos para preeminência em posto e posição (não necessariamente em ordem cronológica) no sentido de que eles pudessem mediar as bênçâos de Deus para todas as nações.[13]

Diante da escolha desse povo, devemos fazer duas perguntas. A primeira é: “Por que Deus escolheu Israel?”. Para responder, a primeira observação a ser feita é a ocasião da eleição do Senhor. Israel não foi uma escolha de última hora. Essa eleição foi feita previamente, mesmo antes de o povo vir a existir. Na verdade, a escolha do Senhor, unida à divina soberania, foi a causa da existência do povo escolhido. Não foi uma escolha em meio a contingências, mas uma livre escolha baseada somente na “vontade”, simplesmente “porque aprouve ao Senhor fazer-vos o seu povo” (1Sm 12.22).

Se, por um lado, a ideia da eleição de Israel só é introduzida depois de ser, de fato, aplicada por Deus,[14] Isaías associa a eleição de Israel à sua própria formação: “Agora, pois, ouve, ó Jacó, servo meu, ó Israel, a quem escolhi. Assim diz o Senhor, que te criou, e te formou desde o ventre, e que te ajuda: Não temas, ó Jacó, servo meu, ó amado, a quem escolhi” (Is 44.1,2). Desse modo, os critérios utilizados por Deus para realizar a escolha não foram as qualidades dos israelitas, mas “o amor à nação” e a “fidelidade às suas promessas”:

 

Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o Senhor vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito (Dt 7.7,8 cf. 10.15; 14.2; Ez 20.5,6).

A segunda pergunta a se fazer diante da eleição de Israel por Deus é: “Para que Deus escolheu Israel?”. Há, basicamente, duas respostas para isso. Uma envolve “propriedade” e outra, “função”. Como propriedade, Deus declara: “Pois o Senhor escolheu para si a Jacó e a Israel, para sua possessão” (Sl 135.4). Pode-se criar uma objeção a isso, já que tudo é possessão de Deus: “Teus são os céus, tua, a terra; o mundo e a sua plenitude, tu os fundaste” (Sl 89.11).

Diante disso, que novidade haveria em Israel pertencer a Deus? Na verdade, a própria pergunta provê a resposta. Fica claro que a descendência de Jacó não é, para Deus, o mesmo tipo de possessão que toda a criação. Deus tem Israel como uma propriedade especial, ou, segundo as palavras da formulação da aliança mosaica no Sinai, uma “propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êx 19.5).

Como propriedade peculiar de Deus, Israel foi escolhido para ser, também, um povo santo, isto é, um povo separado por Deus, separado das outras nações e dos seus vis procedimentos e separado para o propósito e para a glória do seu Senhor e criador: “Porque tu és povo santo ao Senhor, teu Deus; o Senhor, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra” (Dt 7.6).

O fato de Deus ter escolhido Israel para ser sua “posse santa”, implica abandono de pecado por parte dos israelitas e purificação diante do Senhor. Isso não é uma sugestão, mas uma obrigação, de modo que, quando o povo age de modo contrário, o Senhor levanta punição sobre ele: “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniquidades” (Am 3.1,2). O fato é que, ser eleito do Senhor, implica viver de acordo com sua vontade revelada.[15]

Em relação à “função” de Israel como povo eleito, surge, em primeiro lugar, um objetivo divino em curto prazo de introduzir o povo na terra prometida a Abraão e fazer dele uma grande nação, cumprindo fielmente as promessas feitas aos patriarcas: “Porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, e te tirou do Egito, ele mesmo presente e com a sua grande força, para lançar de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir na sua terra e te dar por herança, como hoje se vê (Dt 4.37,38).

A longo prazo, a função de Israel, como nação escolhida por Deus, é mais abrangente e envolve a própria história da redenção do homem pecador. Essa resposta virá da compreensão das alianças que Deus fez com Israel no Antigo Testamento. Na verdade, boa parte da compreensão de todo o Antigo Testamento e do seu relacionamento com a mensagem do Novo depende do entendimento correto das alianças.

Conclusão

Podemos, com isso, compreender que a eleição de Israel é um tipo especial de eleição instrumental na qual Deus escolheu um povo para, por meio dele, trazer ao mundo sua Palavra e o salvador Jesus Cristo. A esse povo, em sua revelação, Deus fez promessas históricas que ainda cumprirá plenamente antes do final da história, tornando Israel uma benção ao mundo assim como a Igreja.

Algo importante de se notar que é a ideia de a Igreja substituir Israel por causa de sua salvação pela fé é improcedente visto que a eleição de Israel, como povo, não é uma eleição para a salvação, mas uma eleição instrumental cujo propósito é nítido e distinto da eleição salvífica da Igreja, sendo que cada um desses grupos guarda um papel distinto dentro dos planos de Deus e de sua administração da história.

Pr. Thomas Tronco



[1] Na verdade, o anúncio feito por Isaías foi primeiro feito a Abraão (Gn 12.3). Paulo faz essa associação na carta aos Gálatas: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos” (Gl 3.8).

[2] Eugene Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 13.

[3] É límpido o fato de que Jacó foi escolhido para dar sequência à linhagem abraâmica da promessa.

[4] A eleição incondicional é destacada por Paulo na escolha entre os filhos de Isaque: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei Jacó, porém me aborreci de Esaú” (Rm 9.11-13).

[5] Walter Eichrodt, Teologia do Antigo Testamento, p. 959, reconhece nos israelitas, já no período da composição de 2Macabeus (c. 90 a.C.), um conceito que ele chama de “certeza de uma eleição ou uma rejeição eterna do indivíduo”. 

[6] O verbo hebraico “yadá” significa “conhecer”, ou também “distinguir”, e é associado a Israel como “povo escolhido” (Francis Brown, S. R. Driver e Charles Briggs, Enhanced Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon, p. 393-394, § 2).

[7] Arão também foi alvo de uma escolha para uma tarefa específica – veremos adiante –, mas, nesse caso, sua atuação está ligada à escolha de Moisés, de modo que Arão lhe serviu de porta-voz.

[8] Aqui é utilizado o verbo “bahar”, cujo significado é “escolher”, sendo a palavra usual para refletir o ato de Deus escolher alguém.

[9] “I chose your ancestor from all the tribes of Israel to be my priest”.

[10] Eugene Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 416.

[11] Essas datas se referem à derrubada do domínio assírio, cujo golpe fatal se deu na queda de Aram em 609 a.C., marcando o início da hegemonia babilônica (a capital Nínive foi derrubada em 612 a.C., de modo que a sede da coroa assíria foi transferida para Aram). O domínio babilônico teve seu fim na queda da sua capital no ano 539 a.C. pelas mãos de Ciro, causando o retorno dos israelitas exilados para Judá. Esse intervalo de setenta anos cumpre o que foi previsto por Jeremias: “Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar” (Jr 29.10).

[12] Eugene Merrill, História de Israel no Antigo Testamento, p. 448, identifica o ano 740 a.C., o ano da morte de Uzias, como o início do ministério de Isaías, ou seja, duzentos anos antes de Ciro derrubar a Babilônia. Difícil é determinar em que ponto do seu longo ministério ele previu o domínio de Ciro, já que ele viveu até o ano 680 a.C. (p. 455).

[13] Walter Kaiser Jr., “The Theology of the Old Testament”, p. 295.

[14] Claus Westermann, Teologia do Antigo Testamento, p. 36.

[15] William LaSor, David Hubbard e Frederic Bush, Introdução ao Antigo Testamento, p. 272.

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