Terça, 11 de Dezembro de 2018
   
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O Louvor Existencialista

Pastoral

Em meados do século 20, nasceu uma influente corrente filosófica que impactou muito da espiritualidade de nossos dias: o existencialismo. Em seu sentido mais negativo, essa visão de mundo, centrada no homem, adentrou as igrejas de modo avassalador, encontrando especial acolhida no meio pentecostal. A neo-ortodoxia, um modelo teológico filho do existencialismo, prega o encontro subjetivo com Deus a partir de cada contato com a Escritura, privando-a de sua inspiração divina e dando à espiritualidade um caráter emocionalista que encontrou morada perene em nossa cultura.

Sem dúvida, uma das maiores evidências dessa influência danosa pode ser vista nos cânticos que são entoados na maioria das congregações de nossos dias. A busca por experiências marcantes a cada culto, somada aos momentos intensos (e extensos!) de louvor, fazem do crente alguém que reafirma o propósito de sua existência semana após semana, em ápices de espiritualidade.

Nesse sentido, uma das tônicas mais presentes no louvor congregacional tem sido a repetição de compromissos, consagrações e “entregas pessoais” por parte daqueles que prestam culto a Deus. Músicas como Entrega e Eis-me aqui, ainda que não contenham nenhum conteúdo herético, também não exaltam em nada a obra de Cristo ou o ser de Deus. Antes, são cânticos centrados no adorador e não no adorado, reforçando supostos acordos de fidelidade com o Senhor em meio às dificuldades, provações ou incertezas da vida. Em uma breve análise, logo se percebe o caráter extremamente existencialista dos cânticos entoados nessas reuniões.

Ainda que a Escritura narre com frequência compromissos feitos pelo povo de Deus em relação à obediência e ao comprometimento pessoal (como acontece em Josué 24.14-24), parece-me que a proliferação desse tipo de conteúdo aponta, na verdade, para a necessidade que nossa geração tem de reafirmar uma vida com Deus diante da ausência de oposição real por parte dos inimigos da fé e da ignorância teológica de nossos dias. Em outras palavras, cantamos muito sobre compromisso porque temos falhado em colocá-lo em prática. Nosso cristianismo tem sido apático aos ataques do mundo, nossa ética tem dialogado com o politicamente correto e nossa espiritualidade tem se concentrado mais naquilo que vemos do que na eternidade.

Entretanto, é curioso observar como os servos de Deus ao longo da história não reforçavam sua fidelidade ao Senhor exclusivamente por meio de cânticos. Afinal, diariamente sofriam ofensas, privações, retaliações e, em casos extremos, mas não raros, a própria morte decorrente de martírio. Basta recordar que grande parte dos Salmos foi composta em contextos de sofrimento, como a perseguição que Davi experimentou (Sl 3), a angústia do salmista diante da doença (Sl 88) ou mesmo das adversidades nacionais (Sl 79). Sabemos também que Paulo e Silas entoaram cânticos ao Senhor quando presos (At 16.25) e os mártires do Apocalipse, junto com outros seres celestiais, cantavam a respeito da santidade incomparável do Senhor e sua obra pelos salvos (Ap 7.9-17). A situação de vida desses escritos, somada às inúmeras declarações de confiança no Senhor, demonstram que os verdadeiros crentes não se valem desses hinos para reafirmar sua fidelidade a Deus, mas justamente para comprovar e proclamar o cuidado do Senhor por seu povo. Tais homens não precisavam viver seu compromisso em músicas porque o faziam em suas próprias vidas.

Obviamente, isso não significa que louvores legítimos só podem ser entoados por corações que sofrem. Existem inúmeros cânticos forjados na situação oposta, repletos de alegria e júbilo pela ação do Senhor (Sl 100). Entretanto, mesmo nesses contextos, é interessante notar que o foco é sempre a ação de Deus pelo homem e não o compromisso do homem para com o Senhor.

A solução para tal ênfase existencialista está no retorno ao louvor bíblico, centrado em Deus e na sua ação em favor do seu povo. Todo crente já entregou sua vida a Deus, devendo, agora, oferecer-se diariamente como sacrifício vivo ao Senhor, prestando um culto “racional” (Rm 12.1), livre de emocionalismos baratos e artificiais. É também possível haver no culto espaço para a autoavaliação e a contrição pessoal diante de Deus (Sl 26), podendo resultar na restauração da comunhão afetada pelo pecado (Sl 51.7-12; 130) e na proclamação da paz obtida somente pelas mãos do Senhor (Sl 131).

Por fim, vale enfatizar que a fonte de todas essas ações deve ser única e exclusivamente a Palavra de Deus e não os ápices de espiritualidade experimentados domingo após domingo nos momentos de louvor. Assim, os servos de Deus poderão louvá-lo em tempos de paz e de perseguição, visto que a sua fidelidade não depende de circunstâncias ou emoções, mas do próprio Senhor, o único que dá sentido perene à existência humana.

Níckolas Ramos

Coram Deo

 

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