Segunda, 15 de Outubro de 2018
   
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Por que uma Conferência sobre Dispensacionalismo?

Pastoral

A igreja, no Brasil e no mundo, sofre. Com isso não me refiro ao peso que ela carrega em virtude da oposição dos incrédulos. Esse fardo nós sempre tivemos de carregar e as coisas continuarão assim até a volta libertadora do Senhor. Eu afirmo aqui que a igreja atual sofre tendo em mente outras fontes de opressão ou outras fábricas de fardos. Essas fontes ou fábricas a que me refiro são os púlpitos, as salas de aula, os livros e os artigos de onde emanam as lições que os crentes recebem.

Sim, eu digo, com pesar, que o povo de Deus sofre porque, entre essas lições, uma muito comum no meio evangélico é a que afirma que a igreja é uma nova versão do antigo Israel. A igreja padece com um ensino como esse porque, a partir de um pressuposto assim, muita coisa perigosa pode ser construída. Por exemplo: seguindo essa ideia, muitos identificam a igreja a Israel num nível tão amplo que chegam a dizer que todas as bênçãos materiais prometidas aos judeus fiéis nos dias do AT pertencem agora à igreja. Então, passam a ensinar o que ficou conhecido como “teologia da prosperidade”, bradando por todo lado que o Senhor prometeu fazer dos cristãos “cabeça e não cauda” (Dt 28.13) no campo financeiro. Como resultado disso, os crentes padecem nas mãos de mestres enganosos que lhes dão esperanças falsas e os acusam de falta de fé, caso não vivam bem na área material.

Outro exemplo da aplicação dessa ideia é a conexão que alguns fazem entre a igreja e as cerimônias e os símbolos levíticos. Ora, se a igreja é um “novo Israel”, então por que não ter o “templo” cristão adornado com um castiçal israelita e com a arca da aliança? Por que não chamar os músicos da igreja de “levitas”? Por que não estimular os crentes a fazer votos judaicos, rapando, ao final, a cabeça? Por que não celebrar atos solenes diante de um altar em chamas, trajando vestes sacerdotais? Aliás, sabe-se de igrejas que cogitam até oferecer animais em sacrifício durante os cultos! Com tudo isso, a igreja sofre, pondo-se sob o jugo de coisas que mais se assemelham a superstições do que ao verdadeiro evangelho.

É claro que, também abraçando esse conceito, há os mais moderados. De fato, há entre os evangélicos aqueles que ensinam que a igreja é sim Israel, mas que as bênçãos materiais do AT pertencem a ela somente num sentido espiritual, devendo os textos que tratam desse assunto ser entendidos de forma simbólica. Esse grupo também rejeita os aspectos cerimoniais da lei mosaica, alegando que o “novo Israel” só está obrigado a cumprir o que chamam de “lei moral”.

Ainda assim, esses teólogos não abrem mão do chamado supersessionismo (a ideia de que a igreja substituiu Israel, sendo o crente um novo tipo de judeu) e fazem a igreja se curvar sob alguns pesos. Com efeito, os proponentes dessa vertente não desistem de ensinar que os cristãos devem guardar um dia na semana (tem de ser o domingo!), devem dar o dízimo como obrigação legal, devem circuncidar seus filhos (a nova forma de circuncisão é o batismo infantil), devem respeitar o local de cultos como um templo consagrado, devem deixar os atos litúrgicos (batismo e ceia) nas mãos exclusivas dos novos sacerdotes (os pastores) que, aliás, são os únicos que têm o direito de “impetrar a bênção apostólica”... Enfim, israelizando a igreja, essa teologia põe certos fardos sobre ela e acaba por oprimi-la em vários campos ligados à vida particular de seus membros e em diversas práticas da esfera litúrgica.

O que pouca gente sabe é que, por trás de tudo isso, existe uma forma específica de interpretar a Bíblia. E essa forma específica de leitura tem um nome: aliancismo. É claro que existem colorações distintas dessa vertente hermenêutica, sendo também óbvio que ela detém outras marcas além da concepção de que a igreja é Israel. Contudo, o que foi dito acima é suficiente para mostrar a importância de uma conferência sobre dispensacionalismo.

Ora, o dispensacionalismo é um modelo teológico/hermenêutico que, entre outras coisas, rejeita frontalmente a noção de que a igreja é Israel, bem como outros ensinos aliancistas. Destacando que Deus lidou de maneiras diferentes com a humanidade ao longo da história (em formas de administração denominadas “dispensações”), essa vertente teológica rompe o vínculo legalista imaginário que o aliancismo cria entre os crentes e as determinações do Éden, do Sinai e de outras partes do AT, mostrando que a relação dos salvos de hoje com os preceitos veterotestamentários se dá “na novidade do Espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7.6).

É assim que o dispensacionalismo, além de mostrar nisso como a Bíblia deve ser lida (isto é, sem espiritualizações, mas levando-se em conta o sentido natural do texto), também promove um cristianismo realmente livre de imposições e fábulas que, diga-se de passagem, os escritores do Novo Testamento nunca sequer imaginaram.

Nossa expectativa, portanto, é que, nessa conferência, tudo isso (e muitas outras coisas) fique bastante claro aos olhos de todos. Suplicamos, pois, que, por meio das palestras enunciadas por nosso brilhante preletor, os irmãos da nossa igreja e muitos outros que tiverem acesso ao evento entendam o que de fato é requerido da igreja de Cristo em termos doutrinários, éticos e litúrgicos. Esperamos que, desse modo, livres de fardos inúteis e construções imaginárias, os cristãos abençoados por essa conferência passem a usufruir de sua verdadeira liberdade e, assim, sirvam ao Senhor de forma bíblica e alegre ao longo de sua jornada como povo de Deus neste mundo.

Pr. Marcos Granconato

Non nobis, Domine

 

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