Quarta, 26 de Junho de 2019
   
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Perdoar é Preciso

Pastoral

O general romano Pompeu (106-48 a.C.) disse a seus amedrontados marinheiros: “Navegar é preciso; viver não é preciso”. O contexto da frase era de crise. Caso não navegassem em busca de suprimentos, Roma padeceria. Assim, adentrar os mares era necessário, ainda que a vida dos navegantes fosse colocada em risco. Com o passar dos séculos, porém, a famosa frase tomou outros sentidos nas reinterpretações dos poetas. Fernando Pessoa, por exemplo, releu a expressão sob uma ótica de “precisão técnica” ao invés de “necessidade”. Afinal, a navegação depende de instrumentos complexos para obter sucesso. Trata-se de algo “exato”, com muita “precisão”.

A paráfrase que intitula essa pastoral, portanto, é mais uma releitura da célebre citação de Pompeu. De fato, perdoar é preciso — algo necessário — porque devemos agir como Deus agiu para conosco (Ef 4.32) e perdoar é preciso — algo exato — pelo fato de termos orientações claras na Escritura a respeito desse assunto. Assim, firmados na Palavra de Deus, é importante desconstruir algumas mentiras associadas ao perdão, para, depois, levantarmos uma sólida base bíblica sobre a questão.

Em primeiro lugar, perdão não é esquecimento. Se Deus não sofre de amnésia quando nos perdoa, como lidar com textos como Isaías 43.25 e Jeremias 31.34, nos quais ele mesmo afirma que não se lembrará dos pecados de seu povo?

Em ambos os casos, trata-se de uma figura de linguagem para ilustrar a graça e a misericórdia do Senhor. Em Isaías, por exemplo, “não lembrar” é sinônimo de “apagar”, ou seja, Deus não mais traz a juízo determinada questão porque já apagou aquele débito. Miqueias 7.18-19 garante que o Senhor lança os pecados no “fundo do mar”, não os trazendo mais à tona, enquanto o Salmo 103.12 também ilustra quão longe o Senhor afasta o pecado de nós. Em outras palavras, Deus não “joga em nossa cara” aquilo que fizemos. Aliás, essa deve ser a mesma atitude do crente quando o assunto é perdão (Pv 17.9).

Essa é a razão pela qual casais que afirmam se perdoar precisam de disciplina para, no meio dos desentendimentos, não reviver assuntos já resolvidos. Dizer “eu perdoo, mas não consigo esquecer” é sinônimo de “eu ainda alimento a causa em meu coração”, o que não reflete a ação graciosa de Deus para com o homem. Por isso, ainda que nos lembremos­ da ofensa cometida contra nós, não devemos trazer à tona o que já foi cravado na cruz de Cristo — seja em palavras ou na mente.

Outra consideração importante é que o perdão não é, necessariamente, uma recompensa pelo arrependimento alheio. Ainda que Lucas 17.3-4 apresente um ofensor arrependido, textos como Mateus 5.23-24 e Marcos 11.25 mostram que o perdão deve ser uma predisposição ativa no coração do crente, independentemente das ações da outra parte.

Como o próprio Deus não esperou um ato de arrependimento humano para nos salvar (Rm 5.10), cabe a nós, sempre que possível, dar o primeiro passo na direção da reconciliação e da paz (Cl 3.15), mesmo que isso implique prejuízo (Fm 18-19).  Na prática, tal iniciativa pode se expressar em um convite ao ofensor para uma conversa franca, com o objetivo de resolver a questão de uma vez por todas (Pv 27.5-6), em amor (1Pe 4.8). Também significa que o crente não deve deliberar se perdoará alguém ou não, já que deve sempre nutrir uma predisposição graciosa em mente.

Por fim, perdão não é um sentimento. Ainda que a cultura ocidental valorize demais aquilo que sentimos, a cultura bíblica destaca o que fazemos. Normalmente, esperamos alguma sensação prévia ao perdão para, então, exercê-lo. Na Escritura, contudo, um sentimento legítimo associado ao perdão é o sofrimento (Lc 23.33-34; At 7.59-60; 2Tm 4.16) e não algo “bonitinho”.

De fato, graça, misericórdia e compaixão, ainda que envolvam expressões emocionais, não se limitam a isso. Aliás, prova dessa verdade é que Deus nos amou quando ainda estávamos debaixo da sua ira (Rm 5.8). O coração do homem, por ser pecaminoso (Jr 17.9), sempre desejará a retribuição pela ofensa. Não é possível que nasça nele qualquer “iniciativa amorosa” para com quem nos ofende. Portanto, o perdão que o crente experimenta começa em sua teologia e não em seus sentimentos (1Jo 3.20).

Mas, desfeitos alguns mitos a respeito do perdão, como podemos defini-lo biblicamente? Na sequência, veremos o quão precisa a Escritura é ao falar do assunto.

Assim, o perdão não é uma série de invenções que as pessoas criam em suas mentes. Entretanto, olhando para as Escrituras, o que define precisamente o perdão bíblico e quais suas implicações práticas?

Em primeiro lugar, perdoar é demonstrar graça. Os textos de Efésios 4.32 e Colossenses 3.13 falam do perdão em termos de ofertar algo não merecido. A palavra utilizada (charizomai) também aparece em 2Coríntios 2.7,10, em que um irmão, arrependido pelo seu pecado, deveria receber graça e restauração, por parte dos demais crentes, a fim de desfrutar novamente da alegria da salvação.

Esse conceito é importante porque tendemos a ver o perdão como uma obrigação fria, forçosa e com fim em si mesma. Entretanto, a graça de Deus não apenas emite o cancelamento da dívida, como também restaura o ofensor graciosamente. Nesse sentido, Paulo incentiva Filemom a fazer ainda mais do que era pedido (Fm 21), exatamente como o Senhor fez conosco (Rm 8.32 — novamente, charizomai).

Na prática, isso significa presentear o cônjuge depois da resolução de um conflito, passear e conversar com os filhos depois de uma dura disciplina, ou ainda cumprimentar, com um sorriso simpático, alguém que lhe magoou, ao invés de manter uma “cara fechada” e antipática. Isso impedirá que o pecado cometido, mesmo já perdoado, continue a moer o coração do ofensor, levando-o a uma tristeza causada pela desesperança com relação ao favor de Deus (2Co 7.8-10).

Perdoar também é proporcionar liberdade, abrindo mão da justiça própria. Em Lucas 6.37, Jesus se refere ao perdão como “soltar” ou “deixar ir”. Trata-se do mesmo termo empregado para o divórcio (apoluóMt 5.31; Mc 10.2), transmitindo a ideia de romper um vínculo existente. Nesse sentido, o perdão constitui a dissolução de um “elo de justiça” ainda pendente. Quem perdoa, portanto, deixa o ofensor partir em liberdade, sem mais retê-lo.

Quando isso não acontece, o desejo por vingança floresce em nosso coração e a disposição em perdoar fica cada vez mais distante. Tertuliano de Cartago (160-220 d.C.) certa vez disse: “Quer ser feliz por um instante? Vingue-se. Quer ser feliz pra sempre? Perdoe”. Quando não perdoamos, trocamos uma perspectiva eterna e graciosa por uma visão de mundo imediatista e cruel, “prendendo” o ofensor pelo tempo que julgarmos necessário. Obviamente, tais intentos não satisfazem de modo perene o coração do ofendido, escravizando-o a uma vida de ingratidão e miséria.

É por essa razão que, curiosamente, os efeitos da liberdade dada ao ofensor também são desfrutados por quem perdoa. Enquanto quem cometeu o pecado, muitas vezes, caminha por aí com sua consciência livre e despreocupada, o ofendido leva consigo uma mágoa fantasma por onde quer que vá. É o perdão que desata esse fardo e impede que cada momento feliz seja maculado pelo rancor.

Em terceiro lugar, perdoar é uma decisão e, por isso, trata-se de uma disciplina da mente. Envolve memória, iniciativa e estabelecimento de prioridades (Mt 5.23-24). Sem dúvida, um bom exemplo prático desse ensino está na instrução do apóstolo Paulo aos coríntios quanto à celebração da ceia do Senhor (1Co 11.18-31). Ainda que não fale explicitamente sobre o perdão, esse episódio destaca com precisão a necessidade de o crente reconhecer, decidir e executar a reconciliação com os irmãos o mais breve possível.

Sendo uma disciplina, também é importante enfatizar que o perdão se manifesta naquilo que falamos e fazemos. Assim, ao perdoar alguém, não devemos mais levantar a ofensa, seja diante de Deus, de nós mesmos ou dos outros (Pv 17.9). Por isso, é essencial que o crente desempenhe o domínio próprio de sua língua, refreando qualquer comentário depreciativo ou que “faça a caveira” do indivíduo perdoado (Pv 16.28).

Por fim, perdoar é uma urgência! Não podemos deixar que o rancor e a ira “façam aniversário” em nosso coração (Ef 4.26,32). Como ouvi certa vez de um senhor já muito experimente, a mágoa é como banha de porco: maleável quando fresca, mas extremamente dura quando envelhecida. Por isso, busque a resolução de qualquer conflito o mais breve possível, antes que você sofra uma verdadeira metástase espiritual!

Ainda seria possível apresentar o perdão sob outras ópticas — uma expressão de gratidão pelo que o Senhor fez conosco (Mt 18.21-35) ou, ainda, um bom termômetro de como anda nossa vida espiritual (Lc 11.4). Apesar disso, as distinções aqui feitas já ajudam o crente zeloso a colocar em ação o perdão descrito na Bíblia. Pela graça de Deus, temos de nos conscientizar de que perdoar é preciso — como algo necessário — e que também é preciso — como algo exato. Que o Senhor, perdoador por excelência, nos conceda a graça de perdoar também!

Níckolas Ramos

Coram Deo


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