Quinta, 23 de Novembro de 2017
   
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A Ceia do Senhor

A afirmação “isto é o meu corpo”, feita por Jesus pouco antes da sua paixão (Mt 26.26) é uma das frases que mais têm originado debates ao longo da história da igreja. Na época da Reforma Protestante, a falta de acordo acerca do seu real significado foi a causa do rompimento das relações entre Lutero e Zuínglio, após o malfadado Colóquio de Marburgo (1529) e ainda hoje o meio cristão permanece dividido acerca do modo como a Ceia do Senhor deve ser entendida, tanto no tocante à sua natureza como no que diz respeito aos efeitos que produz sobre os que participam dela.

Num dos extremos da discussão estão os que entendem a frase de Jesus de modo figurado, dizendo que se trata apenas de uma metáfora, como se o Mestre tivesse dito simplesmente “Isto representa o meu corpo”. No outro extremo do debate, há intérpretes que propõem uma visão absolutamente literal, ensinando que os elementos da Ceia são, de fato, o corpo e o sangue reais de Cristo, num sentido que encerra a sua mais completa essência. Entre esses dois polos há interpretações intermediárias, propostas por teólogos que tentam compor uma opinião mais equilibrada, fazendo uso de argumentos usados pelos dois extremos.

Basicamente, quatro são as concepções acerca da Ceia do Senhor dominantes do meio cristão: transubstanciação, consubstanciação, presença espiritual e memorial. Cada uma dessas propostas será brevemente apresentada a seguir.

A doutrina da transubstanciação é esposada pela Igreja Católica Apostólica Romana, sendo um dos temas centrais de sua teologia e prática litúrgica. De acordo com essa visão, a ceia deve ser ministrada ao povo num só elemento, a hóstia, nome dado a um pequeno pão sem fermento, de formato arredondado. Esse elemento, dizem, após ser consagrado pelo sacerdote ministrante, passa por uma transformação em sua substância (daí o termo transubstanciação), tornando-se, literalmente, carne, sangue, ossos, unhas e cabelos de Cristo. Os católicos entendem que essa transformação não é visível porque ocorre apenas na substância do pão e não nos seus acidentes. Assim, conforme entendem, o elemento eucarístico, ainda que apresente em sua forma e aparência os atributos do pão, é, na verdade, em sua essência, carne humana!

Uma das implicações da doutrina da transubstanciação é que sempre que a eucaristia é celebrada no culto católico (e isso acontece em todas as missas), o sacrifício de Cristo se repete. Portanto, se três missas forem realizadas num só domingo numa mesma catedral, naquele dia o sacrifício de Cristo se repetirá ali três vezes, o mesmo ocorrendo em outras igrejas romanistas ao redor do mundo. É essa suposta repetição contínua do sacrifício do Senhor que dá o motivo pelo qual as igrejas católicas celebram sua ceia num altar e não numa mesa como fazem as igrejas evangélicas.

A doutrina da transubstanciação também explica porque os padres, pelo menos há alguns anos, orientavam os fiéis a não morder a hóstia, mas sim deixá-la dissolver-se na boca. Essa era uma forma de tentar infundir nas pessoas ignorantes um entendimento maior acerca do suposto mistério presente no “corpo eucarístico de Cristo”. Essa doutrina é ainda o fundamento pelo qual os sacerdotes católicos tendem a fazer o “sepultamento” de hóstias consagradas que sobraram após encerrada a missa. No seu entender, jogá-las fora seria sacrilégio cometido contra o próprio corpo de Cristo e armazená-las não seria o modo digno de lidar com um cadáver tão santo.

Os católicos acreditam que é somente graças ao milagre da transubstanciação que o homem pode efetivamente conhecer Cristo como o pão da vida e se alimentar dele para viver eternamente (Jo 6.48-58). Segundo eles, comer a hóstia consagrada ajudará o fiel a conquistar a salvação, sendo imensos os benefícios espirituais que emanam da eucaristia.

Evidentemente, não há como sustentar essa concepção da ceia, nem lógica nem tampouco biblicamente. Primeiro porque não faz sentido propor a hipótese de uma mudança de substância sem uma consequente alteração nos acidentes, pois os acidentes de determinada substância pertencem necessariamente a ela. Assim, não há como um pedaço de pão deixar de ser pão e continuar com as células do pão. Negar isso seria contrariar as mais elementares noções de lógica.

O absurdo dessa concepção também é percebido quando se leva em conta a própria história da instituição da ceia. Ora, é óbvio que, quando o Senhor disse “isto é o meu corpo”, não estava segurando um pedaço dele próprio. Com efeito, naquele momento o pão estava nas mãos de Jesus, não era uma extensão de seus dedos.

A doutrina da transubstanciação, com todos os seus desdobramentos, também não leva em conta ensinos fundamentais da Palavra de Deus. As Escrituras ensinam que o sacrifício de Cristo ocorreu uma vez por todas, não havendo necessidade de que se repita (Rm 6.9-10; Hb 7.27; 9.12, 26, 28; 10.10; 1Pe 3.18).

Ademais, quando o Senhor afirmou ser o pão da vida, sendo necessário comer o seu corpo e beber o seu sangue para ser salvo (Jo 6.48-58), não pretendia com isso ensinar algum tipo de antropofagia, como entenderam seus ouvintes naquela ocasião (Jo 6.52). O que Jesus quis ensinar no discurso registrado em João 6 deve ser entendido à luz do versículo 35. Esse versículo revela a que Jesus se referiu quando fez alusão aos atos de comer sua carne e beber seu sangue. De fato, João 6.35 apresenta Jesus como o Pão da Vida, destacando que quem vai a ele se alimenta, e quem crê nele mata a sede. Logo, comer a carne de Cristo é buscá-lo; enquanto beber seu sangue é crer nele. Alimenta-se, pois, do Senhor, o indivíduo que o busca e deposita nele sua confiança para ser salvo. Este faz de Cristo sua comida e sua bebida, jamais tendo fome ou sede outra vez.

Lutero e a consubstanciação

A doutrina da transubstanciação tem sua irmã gêmea no conceito de consubstanciação. Esse segundo modo de interpretar a ceia do Senhor foi proposto inicialmente por Martinho Lutero (1483-1546). Ele rejeitou a transubstanciação por considerá-la uma doutrina irracional e também condenou o ensino de que o sacrifício de Cristo se repete na eucaristia. Porém, Lutero não via possibilidade de interpretar a fórmula “Isto é o meu corpo” de outro modo que não fosse o literal. Por isso, propôs que mesmo o pão continuando a ser pão e o vinho continuando a ser vinho, a presença física de Cristo é real na ceia, sendo seu corpo recebido por todos os participantes da mesa do Senhor.

Para Lutero, portanto, o corpo de Cristo estava nos elementos e com os elementos, sem que o pão e o vinho se transformassem em carne e sangue. Assim, por propor que na ceia a substância dos elementos é recebida pelo crente junto com a substância do corpo físico do Senhor, a doutrina ensinada pelo reformador recebeu posteriormente o nome de consubstanciação.

A concepção de Martinho Lutero acerca da ceia estava atrelada à sua proposta acerca da ubiqüidade do corpo de Cristo. Na verdade, a doutrina da consubstanciação depende exclusivamente desse conceito. Ubiqüidade significa onipresença. Lutero ensinava, pois, que o corpo físico de Cristo tinha atributos divinos, podendo estar em vários lugares ao mesmo tempo e não somente sentado à direita do Pai nas alturas. Daí a possibilidade de estar junto aos elementos da ceia e servir de alimento para os cristãos.

O maior oponente de Lutero nesse assunto foi o reformador suíço Ulrico Zuínglio (1484-1531). Ele combateu a consubstanciação dizendo que os benefícios da ceia eram puramente espirituais, não havendo sentido nem necessidade de qualquer presença corporal de Cristo no pão e no vinho. Além disso, Zuínglio rejeitou o conceito de ubiqüidade exposto por Lutero, afirmando que a encarnação não ocorreu de tal modo que a natureza humana de Cristo, em seu aspecto corporal, se tornasse onipresente.  Com base em João 6.63, ele frisou que “a carne para nada aproveita” e insistiu que a fórmula “Isto é o meu corpo” devia ser interpretada como uma metáfora.

Zuínglio estava certo em tudo isso. De fato, nunca existiu qualquer fundamento racional ou bíblico para a doutrina da consubstanciação, sendo evidente que Lutero a elaborou por estar ainda fortemente ligado a tradições romanistas, sendo-lhe difícil romper radicalmente com elas, depois de ter vivido tanto tempo sob o papismo. Aliás, vários argumentos expostos anteriormente e usados contra a crença católica acerca da transubstanciação podem ser usados também contra as noções de Lutero, o que comprova o notável grau de semelhança entre as duas posições.

A despeito disso, a doutrina da consubstanciação seguiu seu curso dentro do luteranismo. Ela apareceu na primeira edição da Confissão de Augsburgo (1530), escrita por Filipe Melanchton, foi claramente afirmada na Fórmula da Concórdia (1577), um documento produzido para por fim às controvérsias que haviam surgido dentro do luteranismo, e continua sendo defendida pelas igrejas luteranas ao redor do mundo, através da confiante afirmação, presente em seus credos, de que a ceia do Senhor “é o verdadeiro corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo para ser comido e bebido por nós, cristãos, sob o pão e o vinho”.

Calvino e o virtualismo

A concepção acerca da ceia conhecida como presença espiritual foi ensinada pelo grande reformador francês João Calvino (1509-1564). Seu conceito quanto à mesa do Senhor é que não se trata de um ritual em que o corpo de Cristo está presente de alguma maneira física, como ensinam os católicos e os luteranos. Para Calvino, a ceia é um sacramento em que a carne e o sangue do Salvador estão espiritualmente presentes, sendo exibidos nos elementos, de modo que os que participam do pão e do cálice alimentam-se em espírito do próprio Senhor. É nesse sentido que Calvino afirma que, ao receber o símbolo do corpo, o crente deve confiar que a ele está sendo dado também o próprio corpo.

Na concepção calvinista, o sacrifício de Cristo não se repete durante a Eucaristia, mas os benefícios de sua morte substitutiva (redenção, justiça, santificação e vida eterna) são renovados e reforçados em prol dos comungantes. Isso, porém, só acontece com quem come e bebe com fé. Os que o fazem na incredulidade não recebem tais benefícios. Antes, são condenados por sua indigna aproximação da mesa do Senhor.

É importante frisar que a doutrina da presença espiritual esposada por Calvino tem relação direta com seu conceito de sacramento. Segundo ele, há somente dois sacramentos: o batismo e a ceia. Em ambos, Cristo e seus benefícios são representados. Porém, o valor desses sinais supera o simples objetivo simbólico. Neles há uma relação espiritual entre o símbolo e a coisa simbolizada, de tal forma que os efeitos do que é simbolizado são comunicados ao símbolo, graças à atuação do Espírito Santo e a virtude da palavra que instituiu os sacramentos.

É, pois, por causa dessa visão que, no tocante à ceia, Calvino insiste em afirmar que o corpo de Cristo está fisicamente presente no céu, mas, por meio do poder do Espírito, durante a Eucaristia os cristãos participam da sua carne e do seu sangue, unindo-se desse modo ao Senhor e recebendo seus benefícios. Ele diz expressamente: “Sustentamos que Cristo desce até nós, tanto pelo símbolo exterior, quando por seu Espírito, para que nossas almas verdadeiramente vivifiquem com a substância de sua carne e de seu sangue.” Uma vez que, segundo o reformador, isso ocorre pelo misterioso poder (arcana virtus) do Espírito, esse ensino é também chamado de “virtualismo”.

A doutrina da presença espiritual de Cristo na ceia foi recepcionada pela Confissão de Fé de Westminster (1646), um dos documentos mais importantes da fé reformada, e se constitui num dos ensinos distintivos das igrejas presbiterianas. Ao longo dos séculos, essa doutrina tem se imposto com notável força, não com base em sutilezas gramaticais que negam o sentido figurado da frase “isto é o meu corpo”, mas, especialmente, pela ênfase no controvertido enunciado de Paulo em 1Coríntios 10:16: “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo?” É com o sentido dessas palavras que os oponentes da doutrina da presença espiritual são desafiados a lidar.

O desafio de lidar com 1Coríntios 10 talvez não seja tão difícil. Na verdade, a leitura do v.16 colocada sob a luz do contexto que abrange os vv. 14-22 mostra que, certamente, Paulo não fala da presença espiritual de Cristo nos elementos da ceia, mas sim da comunhão especial que o crente tem com o próprio Senhor durante a celebração dessa ordenança.

Na verdade, o próprio v. 16 fala de “comunhão” (κοινωνία) e não de alimentação ou sustento. Ademais, nos vv. 20-21 fica claro que a preocupação de Paulo se centrava no campo da associação. Com efeito, ele adverte os crentes no tocante à ligação que eles teriam com os demônios caso participassem de festas pagãs. Isso, segundo o Apóstolo, seria inaceitável, uma vez que, na ceia, uniam-se a Cristo, não havendo sentido em terem comunhão com o Senhor e também com os espíritos malignos. 

Assim, 1Coríntios 10.16 não ensina que Cristo está espiritualmente presente nos elementos da ceia. Antes, revela que, ao participar da mesa do Senhor, o crente se associa com ele de forma especial, nutrindo, no momento da celebração, uma comunhão mais íntima com o Senhor, presente sim, de forma intensa durante o rito, mas não nos elementos do rito.

Conforme visto de início, a quarta concepção acerca da ceia é chamada memorial. Essa é a visão segundo a qual a ceia é apenas uma ordenança do Senhor, útil para trazer à memória dos crentes o sacrifício que Cristo realizou no Calvário. Geralmente, essa doutrina é atribuída ao já mencionado reformador Ulrico Zuínglio. De fato, Zuínglio rejeitou qualquer noção sobre a presença de Cristo nos elementos eucarísticos. Para ele, comer a carne do Senhor significava crer nele, de modo que a expressão “isto é o meu corpo” devia ser entendida como uma metáfora.

Deve-se dizer, contudo, que não é correto atribuir a Zuínglio uma concepção memorialista extrema. Isso porque esse reformador via a ceia não apenas como um momento de recordação, alegria e gratidão, mas também como um sinal mediante o qual, como no batismo, o crente comprova sua fé e mostra para a igreja que pertence a Cristo.

Dentre as quatro visões sobre a ceia do Senhor, a que a concebe basicamente como um memorial parece ser a que melhor se harmoniza com o ensino das Escrituras. O próprio Senhor, ao instituir essa ordenança, afirmou: “Fazei isso, em memória de mim”. (1Co 11.23-25).

O memorialismo bíblico, porém, não é do tipo que despreza as realidades espirituais ligadas à ceia. Na verdade, um enunciado que leve realmente em conta a totalidade da evidência neotestamentária deve afirmar que a ceia do Senhor é um memorial que recorda o sacrifício de Cristo, memorial este celebrado em meio a uma realidade espiritual que transcende a experiência regular da igreja, à medida que proporciona aos crentes uma cumplicidade mais plena com o próprio Senhor presente de forma intensa no momento da celebração. Ora, é evidente que, desfrutar de uma cerimônia assim, provocará transformações nos participantes, mais do que meras recordações.

O desafio de lidar com 1Coríntios 10 talvez não seja tão difícil. Na verdade, a leitura do v.16 colocada sob a luz do contexto que abrange os vv. 14-22 mostra que, certamente, Paulo não fala da presença espiritual de Cristo nos elementos da ceia, mas sim da comunhão especial que o crente tem com o próprio Senhor durante a celebração dessa ordenança.

Na verdade, o próprio v. 16 fala de “comunhão” (κοινωνία) e não de alimentação ou sustento. Ademais, nos vv. 20-21 fica claro que a preocupação de Paulo se centrava no campo da associação. Com efeito, ele adverte os crentes no tocante à ligação que eles teriam com os demônios caso participassem de festas pagãs. Isso, segundo o Apóstolo, seria inaceitável, uma vez que, na ceia, uniam-se a Cristo, não havendo sentido em terem comunhão com o Senhor e também com os espíritos malignos. 

Assim, 1Coríntios 10.16 não ensina que Cristo está espiritualmente presente nos elementos da ceia. Antes, revela que, ao participar da mesa do Senhor, o crente se associa com ele de forma especial, nutrindo, no momento da celebração, uma comunhão mais íntima com o Senhor, presente sim, de forma intensa durante o rito, mas não nos elementos do rito.

Conforme visto de início, a quarta concepção acerca da ceia é chamada memorial. Essa é a visão segundo a qual a ceia é apenas uma ordenança do Senhor, útil para trazer à memória dos crentes o sacrifício que Cristo realizou no Calvário. Geralmente, essa doutrina é atribuída ao já mencionado reformador Ulrico Zuínglio. De fato, Zuínglio rejeitou qualquer noção sobre a presença de Cristo nos elementos eucarísticos. Para ele, comer a carne do Senhor significava crer nele, de modo que a expressão “isto é o meu corpo” devia ser entendida como uma metáfora.

Deve-se dizer, contudo, que não é correto atribuir a Zuínglio uma concepção memorialista extrema. Isso porque esse reformador via a ceia não apenas como um momento de recordação, alegria e gratidão, mas também como um sinal mediante o qual, como no batismo, o crente comprova sua fé e mostra para a igreja que pertence a Cristo.

Dentre as quatro visões sobre a ceia do Senhor, a que a concebe basicamente como um memorial parece ser a que melhor se harmoniza com o ensino das Escrituras. O próprio Senhor, ao instituir essa ordenança, afirmou: “Fazei isso, em memória de mim”. (1Co 11.23-25).

O memorialismo bíblico, porém, não é do tipo que despreza as realidades espirituais ligadas à ceia. Na verdade, um enunciado que leve realmente em conta a totalidade da evidência neotestamentária deve afirmar que a ceia do Senhor é um memorial que recorda o sacrifício de Cristo, memorial este celebrado em meio a uma realidade espiritual que transcende a experiência regular da igreja, à medida que proporciona aos crentes uma cumplicidade mais plena com o próprio Senhor presente de forma intensa no momento da celebração. Ora, é evidente que, desfrutar de uma cerimônia assim, provocará transformações nos participantes, mais do que meras recordações.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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