Quinta, 19 de Outubro de 2017
   
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Salmo 2 - O ‘Irmão Mais Velho’ dos Servos de Deus

 

Nunca fui uma criança de brigar na escola. Na verdade, nunca troquei socos com ninguém na minha vida. Minhas demandas sempre foram resolvidas por meio da boca e não das mãos. Entretanto, vi muitos colegas resolverem suas diferenças “no braço”, como se diz por aí. Quando a discussão não chegava a tanto, as ameaças e palavrões eram ouvidos a boa distância. Para piorar, quase nunca a solução vinha rapidamente. Ninguém queria deixar a última palavra para o adversário. Isso fazia com que problemas bobos se arrastassem por um bom tempo em uma discussão inútil e totalmente desrespeitosa.

Contudo, um fator era capaz de amainar os ânimos e até encerrar uma briga acalorada: a ameaça de recorrer ao irmão mais velho. A discussão se mantinha em igualdade até que a possibilidade de alguém mais forte e motivado pela proteção do irmão mais novo tornava o atrito um grande risco para a outra parte. Esta, temendo ter de enfrentar alguém cuja força e tamanho fariam com que uma “surra” fosse inevitável, normalmente mostrava-se desinteressada por continuar a demanda e tratava de por fim ao embate a tempo de se livrar do pior. No final das contas, a ameaça da intervenção de um irmão mais velho servia como um agente pacificador.

O escritor do Salmo 2 é um rei de Israel que Atos 4.25,26 identifica como o rei Davi. A situação que ele vivia, nesse momento, era o risco de uma revolta de nações (vv.1,2) que estavam sob seu domínio em uma espécie de motim (v.3). A possibilidade de elas criarem uma liga militar trazia um grande risco para o rei, chamado aqui de “seu ungido” (desde o início da monarquia em Israel, esse termo, meshîhô, é usado para se referir a reis ou futuros reis – 1Sm 12.3-5; 16.6; Sl 20.6; 28.8). A revolta dos amonitas e de povos contratados para combaterem os israelitas (2Sm 10.6) é um possível pano de fundo histórico para a composição desse salmo.

Porém, enquanto tais povos se uniam e conspiravam contra Davi (vv.1-3), aquilo que era um risco real para Israel era motivo de risos para Deus (v.4). Como um “irmão mais velho” mais forte que os outros, Deus “ri” (yishaq) e “caçoa” (yil‘ag) dos inimigos do seu protegido. Tal reação se deve ao disparate entre a capacidade dos inimigos de Davi de feri-lo e a capacidade do Senhor de protegê-lo. A diferença é tão grande que a ousadia dos ofensores causa risos em lugar de pânico. O próprio Deus demonstra o motivo de serem inúteis os planos dos povos dizendo: “Eu ungi meu rei sobre Sião, meu monte santo” (wa’anî nasaktî malkî ‘al-tsîyôn har-qodshî). Desse modo, levantar-se contra o rei de Israel era se levantar contra Deus que o colocou lá. Não é possível enfrentar um oponente como Deus.

O Senhor, então, reafirma sua benevolência para com Davi chamando-o de filho (v.7), prometendo-lhe o domínio sobre outras nações (v.8) e poder suficiente para regê-las (v.9). O rei, confiado na força do “irmão mais velho”, alerta os reis adversários a serem cautelosos (v.10) e se colocarem na posição de servos do Senhor (v.11), desistindo de atacar seu filho (v.12). Esta é, segundo Davi, a disposição e a atitude que garantirá a “felicidade” desses reis e de seus súditos.

Apesar da útil e completa lição que temos ao olhar para o texto sob esse prisma, o Novo Testamento dá uma visão mais ampla do sentido desse salmo. Vários escritores neotestamentários associam o Salmo 2 a Jesus como um cumprimento profético do que Davi escreveu. Em At 4.25,26, a igreja cita o trecho do salmo que diz “por que se enfureceram os gentios e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido” e faz uma aplicação do texto se referindo a Herodes, Pilatos, gentios e israelitas que se uniram contra Jesus (At 4.27,28). Paulo e o autor de Hebreus relacionam o texto “tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei” a Jesus (At 13.33; Hb 1.5; 5.5). Além disso, menções no Salmo 2 sobre o seu reinado em Sião sobre as nações que são sua herança, seu cetro de ferro, sua ira vindoura e a felicidade para os que nele se refugiam são referências que se cumprem melhor em Cristo que no próprio rei Davi, escritor do salmo.

Quando se vê o Salmo 2 desse ângulo, novas lições para hoje nos surgem. Aprendemos que as maquinações do mundo contra o Messias são tão inúteis que causam risos no Senhor. Independente dos rumos da História e do poder dos homens, o Senhor Jesus é aquele que há de reinar e possuir toda a terra. Apesar de parecer que os maus nunca são punidos, a mão do Rei pesará sobre os perversos trazendo-lhes condenação. E, mais: não importa o quanto o mundo é cruel conosco, Jesus, nosso “irmão mais velho”, é nosso refúgio e o provedor de uma vida “bem-aventurada”.

Portanto, seja sempre pacífico e cordato. Mas, lembre-se bem, se o mundo e as circunstâncias da vida lhe atacarem e quiserem “sair no braço” com você, conte sempre com o “irmão mais velho”, o Senhor Jesus, para lhe proteger e guiar, fazendo cessar as ameaças ou intervindo nelas para proteger seus “irmãozinhos mais novos” por quem deu sua vida na cruz.

Pr. Thomas Tronco

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